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ETNOLOGIA-MAE(USP)

Para a composição e conservação dos acervos39, os tratamentos incluíram ao longo de mais de um século, diferenciados procedimentos, tecnologias e produtos químicos. A exemplo disso, na década de 1980 no acervo Plínio Ayrosa, já era usado na USP, o termohigrógrafos e o luxímetro, para o controle térmico e para a medição de raios ultravioletas, respectivamente.

Para a restauração de alguns objetos do povo Boé-Bororo houve esporadicamente a contribuição dos Bororo nos dois acervos em questão, o Plínio Ayrosa e o Museu Paulista, em cuja documentação (fichas individuais de objetos) foram registrados os momentos de restauração. Assim, percorro a documentação somente dos objetos da exposição Formas de Humanidade (Quadro 15), onde está registrada a participação de dois indígenas da Aldeia de Meruri. Trata-se de Sérgio Ukewai e Raimundo Porubi, que estiveram em São Paulo, no ano de 1971. Posteriormente, foi registrado o trabalho de outro Bororo de Meruri, Antônio Kanajó Adugo Kirimida, que esteve no Museu Paulista, em setembro de 1983 e julho de 1986. Kanajó, inicialmente contribuiu com a identificação, restauração e a confecção de novos objetos e, na segunda viagem, em 1986, além destas tarefas, também levou objetos prontos da aldeia e os comercializou com o Museu.

Na atualidade, se realiza a conservação preventiva, seleção, restauração, descarte, acondicionamento e disposição física em ambiente adequado quanto às instalações, além de equipamentos de proteção e segurança. No laboratório de restauração e conservação há uma lupa potente, um exaustor para o tratamento dos objetos, uma mesa de trabalho ao centro, e, balcões nas laterais. Semanalmente, segunda-feira, a exposição não é aberta a visitação para a higienização do espaço expositivo e das vitrines. Os funcionários passam um pincél entre os objetos e, se necessário, um pano seco, sem tocá-los. As vitrines de vidro são limpas com pano umedecido com água e álcool.

39 BRAGA, Gedley Belchior. A conservação preventiva e as reservas técnicas. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, 8: 269-277, 1998.

FRONER, Yacy-Ara. O trabalho de conservação e restauro do acervo destinado à exposição de Longa duração do MAE: A preservação das Formas de Humanidade. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, 7: 143-152, 1997.

Quadro 15. Contribuição dos Boé-Bororo para a restauração dos objetos (anos 1970).

Museu de Arqueologia e Etnologia – MAE (USP) N. TOMBO – MAE INFORMAÇÃO

CATOLOGRÁFICAS RESTAURAÇÃO PROCEDENCIA

1.190

Procedente do acervo do Museu Paulista, foi comprado do Museu Dom José – Cuiabá, MT, em 1947. Grampo de cabeleira (Baragara ive

oto cobugiwu) Feito - por homem

Usado - por homem no alto da cabeça em conjunto com outros adornos.

Haste de madeira leve revestida de um trançado de acúleos de ouriço e linha preta de algodão. Acima da ponta no centro da peça e em sua extremidade há um tufo anular de plumas esbranquiçadas de mutum. Entre estes tufos prendem-se plumas vermelhas de arara em duas linhas paralelas ao longo da haste. Do alto da peça emergem cinco penas de arara vermelha e algumas menores da mesma ave. Catalogadora: T. Hartmann

Restaurado em 1971, sendo substituída as penas, por Raimundo Porubi, índio Bororo da Missão Salesiana de Mato Grosso, Meruri, por CR$ 15,00

Dimensão:

Comp. da haste – 40 cm. Comp. do tufo superior: 18 cm

5.017

Procedente do acervo do Museu Paulista, foi comprado de Benedito Estelita/ Mogi das Cruzes, SP em 1909.

Grampo de cabeleira Feito: homem Usado: homem

Uso: no alto da cabeça em conjunto com outros adornos.

Haste de madeira leve, afilada numa das extremidades, recoberta por dois tufos anulares de plumas esbranquiçadas de mutum, entremeadas por plumas vermelhas de arara. Da extremidade superior da haste emerge uma pena de gavião e duas taquarinhas revestidas de plumas vermelhas de arara encimadas por um tufo de cabelos humanos. Catalogador: T. Hartmann.

Condição/restauração: peça restaurada em 09/1971 por Sérgio Ukewai, índio Bororo da Missão Salesiana de Meruri, Mato Grosso, por 20 cruzeiros. Todas as penas foram substituidas.

Dimensão:

comprimento 41 cm; comprimento da haste 22 cm.

13.803 - Grampo de cabeleira aroé, acéba o-iága. Data de entrada: 29/09/1983

(Exceto a retriz que é de gavião

real macho) Restauração Antônio Kanajó Adugo Kirimida (anos 1980) 13.983 b - Par de grampos de

cabeleira de penas -Data de entrada: 04/07/1986

Restauração Antônio Kanajó Adugo Kirimida (anos 1980)

13.978 - Viseira emplumada Data de entrada: 04/07/1986 Feito: homem adulto

Usado: homem adulto e eventualmente mulher em funerais.

Fieira de retrizes amarelas de japu (ostinops decumanus), tendo em ambas as extremidades de uma retriz mais longa azul avermelhada de arara vermelha (Ara chloroptera), com o centro constituído de duas lascas revestidas por trançado de acúleos brancos de ouriço-caixeiro e linha preta de algodão de origem industrial besuntada com cerol; tal trançado é interrompido por duas listas largas de plumas vermelhas da mesma arara: no centro e no ápice. Outra fieira de plumas vermelhas da mencionada arara completa a peça. As penas de japu e arara vermelha apresentam-se aparadas na parte terminal. O cordel-base, de linha vermelha de algodão industrializada, prolonga- se nas extremidades, convertendo- se nos atilhos para fixação da viseira à testa do portador.

Restauração Antônio Kanajó Adugo Kirimida (anos 1980)

Uso: Cerimonial Dimensão:

Fieira – comprimento 24,5 cm; largura central 15,5 cm; largura das extremidades 22,5 cm; cordel- amarrilho 22 cm e 27 cm.

13.979 a/b e 13.980 a/b Braçadeiras adornadas com espinhos de ouriços e penas Data de entrada 04/07/1986.

02 pares de Restauração Antônio Kanajó Adugo Kirimida (anos 1980)

Há neste museu também a fumigação de objetos em madeira, cabaças e plumárias; cuja câmara de gás foi instalada externamente como sala de imunização. (Figura 39). Para realizar tal tarefa o funcionário segue orientações cuidadosas: usa jaleco, máscara e luvas para a manipulação dos objetos etnográficos e do produto tóxico, o gástoxim.

Figura 39. Equipamentos para desinfestação dos objetos por gás. Museu de Arqueologia e Etnologia

MAE (USP). Fotografia: Jocenaide M. R. Silva, Nov. 2010.

Ao organizar os objetos na sala de imunização, deixa o exaustor ligado e as portas abertas. A segunda etapa é fechar as duas entradas de ar, abaixo da janela e a porta, localizada próxima à tubulação do exaustor. Então este regula a entrada do gás e espera o tempo de ação: dez dias. Após o tratamento, são abertas as entradas de ar por 08 dias; findo a semana, liga o exaustor e aguarda por mais 6h para entrar na sala e recolher os resíduos com objetivo de descartá-los em local apropriado, no caso do MAE (USP) o despejo é entregue ao Departamento de Química. Em resumo, o processo de desinfestação é de 18 dias, sendo que após tal período os objetos são vistoriados, e se

estiverem livres dos insetos são acondicionados adequadamente e retornam a reserva técnica do MAE.

O ambiente da reserva técnica é fechado, sem janelas; a luz é mantida em 50% com lâmpadas fluorescentes; a umidade é controlada em 50% e a temperatura mantida em torno de 24º. Para tanto, as salas são climatizadas e o controle da temperatura é feito através de umidificadores, desumidificadores, aparelhos de ar condicionado e circuladores de ar, a limpeza do piso é feita com pano úmido com uma mistura de água e álcool.

Nesta reserva técnica as estantes de aço são organizadas e identificadas externamente (Nº de registro, etnia e matéria prima) e os Guias dos Acervos estão sistematizados por procedência: Museu Paulista e Acervo Plínio Ayrosa.

Existe um especial cuidado com o armazenamento individual dos objetos, nos compartimentos dos armários de aço de diversos modelos, para que estes se mantenham sem sobreposições ou dobraduras. Trata-se das gavetas e prateleiras das estantes deslizantes, das estantes aeradas e outras fechadas, de varais, cabides e outras adaptações adequadas ao armazenamento em embalagens individuais de etafuan, adquirido em rolo. Estas embalagens são elaboradas com a referida espuma, modelada em formato anatômico, conforme as necessidades dos objetos e fixadas com cola de silicone.

No interior de cada gaveta de aço, foi colocada uma “gaveta de etafuan”, confeccionada artesanalmente pelos funcionários do Museu. No interior dessa, um tecido (tipo tnt) que recobre o objeto sem encostar, pois se fixa com alfinetes a gaveta de etafuan. Estes cuidados preventivos são historicamente estudados neste Museu e os resultados publicados, como forma de contribuir com o trabalho institucional e de outros museus, sendo este o caso de Froner, Y.A (1995) e, também de Leme, R (1987). As divisórias e invólucros para a conservação de artefatos etnológicos exigem cuidados especiais de forma a permitir a oxigenação das gavetas e objetos, além da distribuição de sílica gel para controlar a umidade.

O acondicionamento depende do material, formato e possibilidades oferecidas pelo próprio objeto. A exemplo dos arcos acondicionados na horizontal e as flechas na vertical, todos individualmente. Sendo que alguns estão envoltos em tecido e presos por um anel na parte superior, como a um cabideiro (Figuras 40/42).

Figura 40. Reserva técnica: estantes de aço deslizantes fechadas e estantes aeradas . Museu de

Arqueologia e Etnologia-MAE (USP). Fotografia: Jocenaide M. R. Silva, 26 out. 2010.

Figura 41. Reserva técnica: objetos acondicionados em estantes de aço tipo gaveteiros. Museu de

Arqueologia e Etnologia-MAE (USP). Fotografia: Jocenaide M. R. Silva, 26 out. 2010.

Figura 42. Reserva técnica: acondicionamento dos arcos e flechas em suportes

horizontais e verticais. Museu de Arqueologia e Etnologia - MAE (USP). Fotografia: Jocenaide M. R. Silva, 26 out. 2010.

A vigilância faz parte do processo de conservação e guarda em todos os setores do museu, em especial nos setores expositivos, onde foram instaladas 12 (doze) câmaras que projetam as imagens em monitores de televisão, onde vigilantes de empresa terceirizada se revezam em observar, além daqueles que acompanham as entradas e saídas das exposições e se comunicam por rádios portáteis. O visitante ao entrar no espaço expositivo também é alertado verbalmente quanto aos procedimentos proibidos para manter a integridade física da exposição, além das placas colocadas estrategicamente em alguns locais de circulação e acesso (Figura 43).

Figura 43. Vigilância monitorada (esquerda) e sistema contra incêndio (direita). Museu de Arqueologia e

Etnologia - MAE (USP). Fotografia: Jocenaide M. R. Silva, 26 out. 2010.

E para finalizar, ressalto ainda, que a porta que dá acesso ao corredor da curadoria tem instalado um sistema de segredo com senha. Todas as salas que ficam a direita e a esquerda do corredor (laboratórios, salas de trabalho, etc...) são mantidas trancadas a chave. Ao final do mesmo há uma porta corta-fogo que dá acesso à reserva técnica.

O sistema contra incêndios na reserva técnica é composto por canos suspensos no forro, ligados aos cilindros de CO² que foram colocados do lado externo da edificação, bem como o painel de controle.