Na primeira viagem que fiz já no mestrado, em abril de 2012, cheguei na cidade às vésperas do aniversário de Nova Olinda, em 13 de abril. O assunto mais comentado era o assassinato do irmão do então prefeito, que tinha sido encontrado morto uma semana antes na entrada da cidade. No dia anterior a minha chegada, os acusados de matarem o irmão do prefeito, a ex-mulher da vítima e o amante dela, tinham sido presos no aeroporto de Recife.
As opiniões se dividiam entre a crueldade dos acusados, que participaram do velório e do enterro da vítima antes de fugir, e a festa de aniversário da cidade que foi cancelada pelo prefeito. Entre os mais velhos, o apoio ao prefeito pela decisão de cancelar a festa prevalecia, como, por exemplo, na opinião de uma tia da dona Toinha, dona da pousada domiciliar onde me hospedei, em uma das visitas realizadas pela noite.
A senhora, que aparentava ter cerca de 60 anos, disse ser uma ―questão de respeito com o rapaz que morreu‖. Já os mais jovens, como uma das funcionárias do supermercado onde fiz algumas compras, criticavam o prefeito, pois, segundo a jovem, ―todo mundo já tinha comprado até roupa pra comemorar o aniversário da cidade indo pra essa festa‖.
Consegui essas opiniões ao colocar em prática a primeira estratégia de pesquisa que defini ao longo da investigação: a entrevista antropológica. Segundo Guber (2004), dentre as várias estratégias metodológicas permitidas pela etnografia da comunicação, a entrevista antropológica é uma das mais apropriadas para se aproximar do universo de significações existente no contexto de comunidades a serem estudadas. Utilizei a entrevista antropológica não só nesses espaços de interação espalhados pela cidade de Nova Olinda, mas também com os participantes da ONG Casa Grande.
Segundo Guber (2004), a entrevista antropológica inicia-se com perguntas previamente pensadas pelo investigador, mas as que se sucedem são formuladas das respostas obtidas pelas primeiras. Isso acontece porque conceitos e categorias predefinidos pelo pesquisador, ao longo das entrevistas antropológicas, são relativizados e influenciados pela perspectiva do pesquisado, que independe da ótica do investigador mesmo sendo também influenciada por ela.
Mas não só assuntos locais faziam parte das conversas pela cidade. Pelo menos em duas das 10 viagens que fiz à Nova Olinda entre abril de 2012 e dezembro de 2013, o assunto mais comentado era o final de alguma novela da Rede Globo. Na primeira quinzena de outubro de 2012, era a novela Avenida Brasil que estava próxima do fim. Faltando umas duas semanas para o término da novela, em boa parte dos espaços que eu frequentava em Nova Olinda, o assunto mais comentado era como seria o desfecho da vingança da personagem Nina contra a personagem Carminha, a madrasta que havia provocado a morte do pai dela e a deixado em um lixão ainda criança.
Já em maio de 2013, estive em Nova Olinda exatamente nas duas últimas semanas da novela Salve Jorge. Novamente, o assunto mais comentado era a prisão dos vilões da trama, que traficavam e escravizavam pessoas para fora do Brasil. Nesse caso, o que mais me chamou a atenção não foi os comentários em si sobre o fim da novela, mas o uso de bordões de alguns personagens por parte dos moradores da cidade. Ouvi bordões como ―aham, aham, aham‖ da personagem delegada Helô e ―Pi pi pi pi recalque, sou Maria Vanúbia e não sou bagunça‖ de uma das personagens, moradora do Alemão e traficada no final da novela. Estes bordões foram usados por um vendedor de
frutas na feira, por uma cliente na padaria e por duas adolescentes que conversavam sentadas na pracinha em frente à Casa Grande, para citar alguns exemplos.
O uso dos bordões da novela pelos moradores da cidade de Nova Olinda chamou-me a atenção, mas, na verdade, a surpresa maior sobre esse fato foi quando presenciei esse uso dentro da ONG Fundação Casa Grande. Crianças e adolescentes brincavam com as expressões a toda hora. No dia seguinte ao capítulo em que a personagem Maria Vanúbia foi traficada, mas conseguiu fugir da máfia, cheguei na Casa Grande após o almoço e encontrei Yasmin, uma das meninas que faz parte da equipe de recepcionistas mirins, na frente da casa falando para as outras crianças o bordão da personagem, mas de forma errada. O que me chamou mais atenção foi todas as outras crianças corrigirem Yasmin, dizendo a expressão corretamente. Não só as crianças brincavam com os bordões, mas também jovens, como Naninha, de 23 anos e responsável pela equipe de recepcionistas do museu, repetiam os jargões da novela ao longo das atividades que exercia na ONG.
Quanto ao uso dos bordões por parte dos moradores de Nova Olinda, acredito que me chamou a atenção mais pelo fato de, ao ouvi-los, constatar que a cultura vivida na cidade é perpassada pelo universo simbólico da cultura de massa. Já em relação às crianças e aos jovens da Casa Grande falarem esses bordões, inclusive no espaço físico da ONG, acredito que me surpreendeu porque, como pesquisadora que acompanho a proposta sócio-educativa da instituição, esperava por uma atitude diferenciada dessas crianças e desses jovens.
Beaud e Weber (2007) falam desses momentos de surpresa durante a etnografia.
O motor da pesquisa etnográfica, aquilo que faz ver e ouvir, é a surpresa. Ela é oferecida pela desambientação, no caso clássico; ela é conquistada por distanciamento, no caso da pesquisa em campo familiar. Essa surpresa não vale por si mesma, de forma imediata. Vale como comparatismo em ato. Se estou surpreso, é que esperava por outra coisa. É preciso então explicitar aquilo que eu esperava e o que apareceu. É a diferença entre os dois que faz sentido. (BEAUD e WEBER, 2007, p.193)