As escolas confrontam-se com crianças muito diferentes umas das outras, quer a níveis pessoais como sociais e culturais. Como tal, encontra-se uma grande heterogeneidade nas escolas e nas salas de aulas para a qual deve existir uma nova conceção de organização da escola, reconhecendo o direito a ser diferente.
Desde da década de 70 que experimentaram o que chamaram de ensino individualizado, percebendo que as crianças têm perfis diferentes de aprendizagem e que ao ir ao encontro das crianças ajudava-as no desenvolvimento das suas capacidades (Tomlinson, 2008).
A diferença existente entre as crianças deve ser tomada em conta como um fator de enriquecimento para a comunidade educativa, pois permitirá uma troca de saberes e experiências diferentes e que enriquecerão o processo educativo (Cadima, Gregório, Pires, Ortega & Horta, 1997).
Esta diversidade pode trazer conflitos e dificuldades entre as crianças quando o docente não tem em conta a diversidade e não a aproveita pedagogicamente para a educação na diferença de valores, interesses e atitudes (Lopes & Pereira, 2004).
Para Visser (1993), citado por Niza (1996), a diferenciação pedagógica é um processo “(…) pelo qual os professores enfrentam a necessidade de fazer progredir no currículo, uma aluno, em situação de grupo e através de uma selecção apropriada de métodos de ensino e estratégias de aprendizagem.” (p.47), criando assim oportunidades para todas as crianças aprenderem e desenvolverem as suas capacidades.
O docente quando avalia e reflete sobre a sua ação pedagógica deve ter em conta o modo como disponibiliza os processos de aprendizagem e as diversidades existentes na sala. Quando um docente tem consciência das diferentes crianças que tem ao seu cargo inicia um
33 processo moroso de mudança na sua intervenção que tem por base a investigação, a reflexão e a possível partilha de experiências entre docentes.
Colocar em prática a diferenciação pedagógica requer planificar anteriormente e uma adequação do trabalho a realizar com as crianças, sendo certo que é importante que o planeamento considere o grupo de crianças como uma unidade, mesmo que ocorra o trabalho diferenciado (Morgado, 2003).
De modo a desenvolver um trabalho de diferenciação pedagógica adequado aos alunos o docente deve ter a autonomia e liberdade para selecionar conteúdos curriculares que sejam pertinentes e importantes para o universo cultural das crianças. Assim, terão motivações emergentes relacionadas com os seus contextos culturais e de vida. Como refere Lopes e Pereira (2004), a motivação é um fator muito importante e dele depende a aprendizagem das crianças.
Durante a abordagem à diferenciação pedagógica é importante que o docente tenha em atenção a fragilidade das crianças, com quem está a trabalhar quer na perceção que têm de si enquanto pessoas que aprendem (autoconceito académico) como na imagem que têm de si em termos globais (autoestima) (Morgado, 2003). Estes fatores podem influenciar o modo como as crianças aprendem e se o docente os respeitar cria um clima de confiança e de respeito mútuo fundamental para a troca de conhecimentos.
A comunicação entre todos os intervenientes no processo de ensino/aprendizagem é importante, pois esta “(…) acaba sendo não apenas o meio de comunicação mas o instrumento que o estudante pode usar para ordenar o meio ambiente.” (Bruner, 1976, p.17). Através da liberdade de comunicação as crianças mobilizam experiências e vivências para o contexto de aprendizagem o que potencia a integração das competências de cada criança.
Esta comunicação entre as crianças promove um trabalho de cooperação, o que fundamenta atitudes de interajuda e desenvolve competências de comunicação, no sentido em que as crianças mobilizam padrões de interação verbal (Spillman, 1991 citado por Morgado, 2003).
Para utilizar a diferenciação pedagógica é necessário que o docente crie um ambiente de confiança e aceitação mútua entre todos os elementos do ensino/aprendizagem, de modo que as crianças se sintam confiantes e não sintam tensões pelo facto de realizarem papéis diferentes. No sentido de criar um ensino eficaz o docente deve ter a habilidade “(…) para criar o ajusto clima emocional para o trabalho, o qual permitirá aos alunos o envolvimento apropriado e a atitude requerida para aprendizagem.” (Dean, 2000 citado por Morgado, 2003, p. 96).
As tarefas de aprendizagem que os docentes podem colocar em prática no contexto de uma diferenciação pedagógica são relativamente ao trabalho acrescido para as crianças que demonstram mais capacidade, definir atividades diferentes para aquelas com competências diferentes e delegar a mesma atividade a todas mas esperar que a qualidade e quantidade de trabalho seja diferente consoante as capacidades de cada uma (Webb & Vulliamy, 1996 citados por Morgado, 2003).
A aprendizagem diferenciada requer que o docente trabalhe com
(…)a turma toda, outras vezes, com pequenos grupos ou ainda individualmente. Estas variações eram importantes não só para fazer com que cada aluno progredisse na sua aprendizagem e melhorasse as suas capacidades, como também para reforçar um sentimento de comunidade no grupo. (Tomlinson, 2008, p.14).
Na sala, o docente tem de gerir e monitorizar atividades em simultâneo, ajudar as crianças a criar regras de comportamento, facultar instruções específicas para as atividades e orientar as várias experiências de aprendizagem. Para que o ensino diferenciado seja eficaz as crianças devem se movimentar e falar de modo objetivo, respeitando os colegas e não criando conflitos (Tomlinson, 2008).
A criação de grupos de trabalho deve ser de forma flexível e deve possibilitar que as crianças escolham como também, por vezes, devem ser escolhidos pelo docente. Estes grupos devem ter crianças fortes em algumas áreas e crianças menos fortes, para que partilhem responsabilidades preparando as crianças para a vida.
Quando os alunos estão num ambiente de aprendizagem diferenciada
(…) Todos se sentem bem recebidos e contribuem para que qualquer outra pessoa também se sinta bem-vinda; O respeito mútuo não é algo negociável; Os alunos sentem-se seguros na sala de aula; Há uma expectativa generalizada de desenvolvimento; O professor ensina para o sucesso; Há uma nova espécie de justiça evidente; Professor e alunos colaboram em prol do desenvolvimento e sucesso mútuos; Prepara continuamente os alunos para serem membros contribuidores de um grupo. (Tomlinson, 2008, p.45).
De forma conclusiva, na aplicação da diferenciação pedagógica existem sempre coisas a acontecer na sala, e implica que o docente “(…) tenha uma percepção nítida das competências e capacidades do aluno a partir da qual disponibilizará suporte e orientação para o processo de desenvolvimento e aprendizagem do aluno.” (Morgado, 2003, p.85).
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