A relação entre a família/comunidade e a escola desde sempre foi um ponto importante sobre a qual devem ser refletidos os benefícios e os malefícios dessa relação. As duas identidades envolvidas nesta relação, por vezes, colocam entraves à interação que pode existir entre eles. O fulcral na comunicação e colaboração entre as identidades referidas está relacionado com os comportamentos das crianças e as suas aprendizagens.
A interação entre a família e a escola pode ser vista como algo que sempre existiu, uma vez que “(…) a comunicação entre os professores e os pais dos alunos aparece à cabeça, constituindo a forma mais vulgar e mais antiga de colaboração.” (Marques, 2001, p.19). De uma forma ou de outra os pais e os docentes acabam por comunicar-se, mesmo que esta comunicação ocorra apenas nos momentos de avaliação das crianças.
O que se questiona é se é possível ocorrer uma colaboração entre a escola e a família, em vez de ser apenas uma comunicação casual e que não permite que ocorra uma colaboração entre os intervenientes. No entanto, não poderá existir uma colaboração sem existir a comunicação, sendo que
Colaborar significa comunicar com o objectivo de ajudar a resolver problemas ou intensificar e melhorar uma relação. Significa, também, dar as mãos para fazer alguma coisa em conjunto. Esse dar as mãos pressupõe uma comunicação prévia que conduza ao conhecimento
mútuo do mesmo bem – o bem comum- e ao reconhecimento da sua importância. (Marques, 2001, p.30).
Segundo Marques (1996), a colaboração entre a escola e família pode trazer benefícios nas relações das famílias, uma vez que se tornam mais capazes de se envolver nas aprendizagens dos seus filhos, as escolas, por sua vez, tornam-se mais atentas às necessidades e expectativas das famílias, reorganizam o seu processo de tomada de decisão, na medida em que as famílias expõem as suas opiniões e ajudam na mudança das atitudes dos docentes.
A aproximação dos professores às famílias pode fazer com que os docentes sejam libertos de tarefas que devem ser assumidas pelas famílias, uma vez que estas são os primeiros educadores dos seus filhos (Marques, 2001).
Todo o envolvimento das famílias traz benefícios ao aproveitamento escolar das crianças, uma vez que aumenta a motivação destas para o estudo e os pais tornam-se mais conscientes do processo educativo, o que lhes permite apoiar os filhos. No entanto, o beneficio não é apenas para as crianças, como também ocorre beneficio para as famílias, na medida que estás se tornam mais motivadas para se “(…) envolverem em processos de actualização e reconversão profissional e melhoram a sua auto-estima como pais.” (Marques, 2001, p.22).
Os docentes também são beneficiados quando ocorre uma colaboração entre escola e família/comunidade, pois o seu prestígio é reforçado, sentem que o seu trabalho é reconhecido e as expectativas das famílias ajudam os docentes a se sentirem estimulados a melhorar.
A escola, por sua vez, também obtém benefícios sendo a sua imagem social melhorada, começa a dispor de mais recursos comunitários, na medida em que os pais contribuem na realização de atividades com a escola (Marques, 2001).
Na escola existe uma grande diversidade de crianças e como tal, as suas famílias também o são e essa diferença deve ser respeitada, uma vez que quanto maior é a diversidade maior serão as possibilidade de trocas de experiências enriquecedores. Quando os valores da escola coincidem com os valores da família não ocorre uma rutura na cultura e aprendizagem das crianças. Assim, a escola deve tentar responder à diversidade de valores, procurando assumir aqueles que são mais comuns e adequados ao contexto em que se insere.
Deste modo, segundo Spodek (2010), o comportamento das famílias tem influência no desenvolvimento intelectual das crianças, quanto mais são estimulados melhores serão as suas competências, assim as famílias “ (…) que brincam e conversam com os filhos, que os apoiam na exploração e manipulação do ambiente que os rodeia e que lhes proporcionam
29 experiências novas e interessantes têm maior probabilidade de terem filhos criativos, curiosos e competentes.” (p.766). Os conhecimentos que as famílias possuem sobre o desenvolvimento dos seus filhos e a sua influência são fundamentais para um adequado desenvolvimento da criança e para a criação de ambiente relacional.
O envolvimento das famílias/comunidade acarreta benefícios para ambos os intervenientes e principalmente para as crianças, mas existem zonas que devem ficar reservadas aos docentes cuja intervenção do exterior não seja permitida. Estas zonas dizem respeito à tomada de decisões como quais os modelos pedagógicos e metodologias de ensino a utilizar e, também, ao modo como será realizada a avaliação das crianças. Apenas o docente tem conhecimento da diversidade de crianças presentes na sala e considerando esses fatores tomará as decisões que achar mais pertinente para proporcionar um processo de ensino- aprendizagem adequado às crianças com quem trabalha (Marques, 2001).
Considerando os aspetos mencionados a escola e os docentes são capazes de ultrapassar os obstáculos que, por vezes, surgem para a ocorrência de uma colaboração. Todos os envolvidos têm responsabilidades na educação e ensino das crianças e, como tal, essas responsabilidades devem ser repartidas, valorizando o que os une. Tendo em conta os benefícios que a colaboração acarreta para família/comunidade, escola, docentes e, principalmente, crianças vale a pena esforçar-se para que ocorra essa aproximação e troca de responsabilidades.
Segundo Marques (2001), não existe uma maneira correta de envolver as famílias e comunidade, existindo maneiras de proceder que podem melhorar as relações e promover um ambiente acolhedor que facilite a colaboração. Assim, deve existir uma constante interação entre as identidades, como por exemplo na realização de reuniões ou mesmo na comunicação escrita. O principal é que exista uma linguagem acessível a todos os intervenientes e que a escola esteja disposta a “(… ) recorrer as formas alternativas de comunicação, incluindo a realização de visitas domiciliárias, a cargo de equipas formadas por psicólogos escolares e assistentes sociais.” (Marques, R. 2001, p.29).
Concluindo, o objetivo de toda a colaboração e comunicação das famílias/comunidade e escola é servir as crianças através da divisão de responsabilidades que pode ocorrer quando os intervenientes estejam disponíveis e conscientes da sua influência no desempenho das crianças, pois todos contribuem para a educação (Spodek, 2010, p.777).