• No results found

3.5 Hierarchical collision detection

3.5.7 Constructing the BoxTree

Para falar de raça recorro a Kabengele Munanga que diz:

47 BRAUDEL. op. cit., p. 49-50.

[...] Etimologicamente, o conceito de raça veio do italiano razza, que por sua vez veio do latim ratio, que significa sorte, categoria, espécie. Na história das ciências naturais, o conceito de raça foi primeiramente usado na Zoologia e na Botânica para classificar as espécies animais e vegetais. Foi neste sentido que o naturalista sueco, Carl Von Linné conhecido em Português como Lineu (1707-1778), usou para classificar as plantas em 24 raças ou classes, classificação hoje inteiramente abandonada48.

Como se pode observar ao falar de racismo, no tópico anterior, fiz referência a Carl Von Linné para que se pudesse verificar a origem biológica do racismo. Novamente vem à cena o mesmo Linné, como ator curinga49citado por Munanga, para esclarecer a origem do vocábulo raça, o que demonstra que os dois conceitos possuem parentesco entre si; no mínimo, estão atados por laços de origem. Assim, unidos por laços de origem, sofrem as mesmas idiossincrasias e as mesmas características semânticas. Dessa forma, é, ainda, Munanga que vem em meu auxilio:

Como a maioria dos conceitos, o de raça tem seu campo semântico e uma dimensão temporal e especial. No latim medieval, o conceito de raça passou a designar a descendência, a linhagem, ou seja, um grupo de pessoa que têm um ancestral comum e que, ipso facto, possuem algumas características físicas em comum. Em 1684, o francês François Bernier emprega o termo no sentido moderno da palavra, para classificar a diversidade humana em grupos fisicamente contrastados, denominados raças50.

Conforme Foucault, raça é um conceito que tem acompanhado os seres humanos a alimentar lutas e conquistas de grupo que por alguma razão sente-se superior a outros. O dicionário de Cashmore51 nos apresenta o vocábulo de três maneiras: raça como classificação; raça como significante; raça como sinônimo. Raça como classificação se refere a um grupo ou categoria de pessoas conectadas por uma origem comum.

O termo raça, prossegue o dicionário, entrou para a língua inglesa no inicio do século XVI, e desse momento em diante, até o inicio do século XIX, foi utilizado para

48 MUNANGA, Kabengele. Uma abordagem conceitual das noções de raça e etnia, racismo, identidade e etnia. Cadernos PENESB. Niterói: EdUFF, 2004, p. 16.

49 É aquele ator responsável por desempenhar vários papéis numa montagem cênica. 50 MUNANGA. op. cit. , p. 17

se referir às características comuns apresentadas em virtude de uma mesma

ascendência. Esse uso prevalente do termo não impediu que a mesma época, ele fosse empregado de forma menos rígida, como por exemplo, para indicar descendentes de uma mesma ancestralidade ou como sinônimo de nação. Cashmore chama atenção para o fato de que os diversos empregos concomitantes do vocábulo raça, rompem com a suposição de que a palavra só possa ser usada de uma única forma cientificamente válida52.

Raça como significante, a análise do discurso trata a raça como significante – uma expressão, som ou imagem cujos significados são viabilizados somente por meio de aplicação de regras ou códigos. Dessa forma, os significados da raça estão codificados e podem ser decodificados somente nos parâmetros do discurso. Aqui, não se pode perder de vista os conceitos lingüísticos de Ferdinand Saussure de significante e significado. Para Saussure o significante do signo lingüístico é uma "imagem acústica" (cadeia de sons). Consiste no plano da forma. O significado é o conceito, reside no plano do conteúdo. A indeterminação de “raça” possibilita a sua polissemia, isso quer dizer, possibilita a abertura para várias interpretações.

Nesse caso, conforme Cashmore, o termo polissemia é mais condizente que o termo ambigüidade, pois ambigüidade sugere apenas um duplo sentido. “Raça”, por sua vez, é um significante mutável capaz de significar diferentes coisas para diferentes pessoas em diferentes lugares na história. E mais, desafia as explicações definitivas fora de contextos específicos. A maneira pela qual o significante “raça” é decodificado e lido pelos sujeitos é o significado que também, por sua vez, só é possível pelo uso das regras do discurso53.

“Raça” como sinônimo se refere ao termo “raça” quando aplicado aos grupos dos organismos vivos. Nesse caso, segundo Cashmore, o termo foi usado em pelo menos quatro sentidos diferentes. Sendo que o uso mais comum do termo em biologia às subespécies, ou seja, a uma variedade de espécies que desenvolveram características distintas por meio de isolamento, mas ainda não perderam a capacidade de procriar e produzir híbridos férteis com outras subespécies da mesma espécie. Atualmente,

52 CASHMORE. op. cit., p. 446-447. 53 CASHMORE. op. cit., p. 450-451.

conforme o autor, os biólogos preferem o termo subespécie ou linhagens à “raça”, evitando assim, a confusão de sentidos associado ao termo “raça” 54.

O segundo sentido de “raça” como sinônimo é aquele em que o termo surge como sinônimo de espécie, como por exemplo, na expressão “raça humana”, esse uso é frequentemente utilizado para ressaltar a unidade da espécie humana55.

O terceiro sentido é aquele em que o termo é utilizado como sinônimo de nação ou grupo étnico, como por exemplo, “a raça francesa”, ou “a raça alemã”. Conforme Cashmore esse terceiro sentido tornou-se obsoleto, entretanto foi muito comum nos séculos XIX e inicio do século XX.

O quarto sentido é aquele que pode significar um grupo de pessoas socialmente unificados numa determinada sociedade em virtude de marcadores físicos como a pigmentação da pele, textura dos cabelos, os traços faciais, ou coisas do gênero. Segundo Cashmore, algumas pessoas especificam o termo “raça social” quando o empregam no quarto sentido. E mais, as sociedades que reconhecem as raças sociais são invariavelmente racistas, na medida em que os membros do grupo racial dominante acreditam que aos fenótipos estão ligadas características intelectuais, morais e comportamentais. Nesse caso, raça e racismo andam de mãos dadas56.

A partir das acepções do vocábulo raça, constantes no Dicionário de Relações de Étnicas e Raciais, pode-se inferir que raça é um modo, uma forma de nomear a diferença entre os membros de uma coletividade particular e a “outra” – a “alheia”. Segundo, Anthias e Yuval Davis:

A raça estabelece uma fronteira entre aqueles que partilham certas características biológicas ou fisionômicas que “podem ou não ser vistas como expressas principalmente em cultura ou estilos de vida, mas não sempre fundadas na separação de populações humanas por alguma noção de hereditariedade de traços comuns ou coletivos57.

54 CASHMORE. op. cit., p. 453. 55 CASHMORE. op. cit., p. 454. 56 CASHMORE. op. cit., p. 455-456.

O conceito de raça com base nas diferenças fenotípicas consiste na

classificação dos indivíduos partindo do pressuposto de que as diferenças no fenótipo têm relação direta com o as variações no intelecto e habilidades das pessoas.

A idéia de “raça” provém de um período de expansão colonial e foi largamente empregada como um argumento legitimador da dominação européia. Como se pode observar, a raça, “ao enunciar como naturais os modos de ser no mundo e as culturas institucionais em que e através das quais esses modos de ser são expresso, tanto estabelece como racionaliza a ordem de diferença como uma lei da natureza” 58.

Em termos de revolução darwiniana, a raça significa uma subespécie, fundo de reprodução ou gene comum. Gobineau, um dos grandes teóricos do racismo confunde raça com grupos lingüísticos básicos. Argumenta que cada raça tem suas línguas naturais, peculiares a ela, raça. No século XIX, os lingüistas europeus, ao classificar as raças, tratavam das afinidades e diferenças no sistema de representação lingüística dos vários grupos de língua mais do que os traços físicos. O significado preponderante de raça, em qualquer interseção de tempo e espaço, faz parte das condições preeminentes dentro do meio social em questão, e por estas é influenciado. “A princípio, a raça foi identificada com classe ou status e, mais tarde, significou cultura, etnicidade, ou nação”. 59

Hoje, há argumentos substanciais que contestam a validade do conceito de raça do ponto de vista biológico. Decidir cientificamente quem pertence a uma determinada raça, devido a constante mistura de fundo genético, em decorrências de migrações, é algo problemático. Por outro lado, “a idéia de excelência ou atraso social e intelectual dependente de “raça” é insustentável”. 60

Duas premissas básicas devem ser levadas em conta quando se pensa em raça. A primeira é a de que “raça” é um conceito arbitrário, fluido e mutável ao longo da história. A segunda é a de que, embora a validade científica de “raça” seja contestada, hoje, a classificação conforme as diferenças físicas conservam uma força que não se pode questionar; força que provém da visibilidade dos traços físicos. O que significa

58 GUIBERNAU. op. cit., p, 94. 59 GUIBERNAU. op. cit., p. 96. 60 GUIBERNAU. op. cit., p. 96.

dizer que “raça” possui um caráter eminentemente social e funciona como uma

pedra angular a estruturar a edificação das relações sociais de determinadas sociedades. O conceito de “raça” corta transversalmente as fronteiras do estado nacional, porém a discriminação, a classificação e a organização das relações sociais entre “raças” acontecem em Estados que têm o poder de reforçar políticas que contêm meios capazes de incluir ou excluir pessoas, privilegiar com poder e recursos grupos selecionados e decidir quem tem o direito ou não de se tornar cidadão.

É importante ressaltar a complexidade do termo raça, pois não se trata de uma categoria estável. O papel a ser cumprido pelo termo raça será sempre contingente e histórico. É um equívoco falar de raça como se fosse uma ‘coisa’. Algo reificado, um objeto que pode ser medido como se fosse uma mera entidade biológica. Raça é uma construção, um conjunto de relações sociais. Nesse particular, há que se reconhecer que as dinâmicas raciais têm suas próprias histórias e são relativamente autônomas, embora elas, também, participem, contribuam para formar e, por sua vez, também são formadas por outras dinâmicas, também, relativamente autônomas, envolvendo classe, gênero, realidades coloniais e pós – coloniais e assim por diante.

As dinâmicas raciais costumam operar de modo sutil e nem por isso menos poderoso, mesmo quando elas não se encontram presentes nas mentes dos autores envolvidos. Aqui é relevante que se estabeleça uma distinção entre explicações funcionais e explicações intencionais.

As explicações intencionais são aquelas que decorrem de intenções autoconscientes a guiarem nossas políticas e práticas. As explicações funcionais estão implicadas com os efeitos latentes das políticas e práticas, ou seja, a dinâmica racial já se encontra de modo latente nas políticas e práticas, embora isso não seja dito ou pronunciado, ou sequer pensado em nível de consciente. Nesse sentido, a raça obtém boa parte de seu poder em função do seu ‘encobrimento’. Portanto, opor-se à raça não quer dizer que devemos ignorá-la, mas, ao contrário, devemos cada vez mais nomeá-la, trazê-la à tona, encará-la em toda sua dimensão.

Em suma, o conceito de raça deve ser entendido como um constructo social, que engloba em sua constituição histórica uma dimensão que é também biológica, não no sentido de que seja uma realidade que explique a diversidade humana e a divida em

raças estanques61, mas no sentido de que produz a legitimidade dos efeitos da

classificação racial universal estabelecido no século XVI, a partir de uma concepção baseada nas relações de poder, estabelecida no mundo com o colonialismo, capaz de gerar um padrão de poder e de distinção hierárquica entre as raças, e conseqüentemente um sistema definidor de subalternidades.

Segundo Elisa Larkin do Nascimento, a negação e o silêncio em torno da questão do racismo se dão através dos processos pelo qual este se “manifesta” no contexto sociocultural brasileiro, isto é, se revela através de um processo que transforma a idéia original de raça,

a partir do esvaziamento do conteúdo racial das relações discriminatórias para uma perspectiva de neutralidade baseada em uma hierarquia racial de escala gradativa de cor e prestigio que classifica pela “marca” ou pelo fenótipo, de origem racial ou étnica, portanto, não-racista62.

Portanto, a substituição da idéia de “raça” pelo mote da cor permitiu à nação construir uma pretensa ideologia anti-racista, fundamentada em toda uma teoria academicamente formulada e socialmente consolidada no imaginário popular, capaz de encobrir a realidade de um sistema de dominação racial de extrema eficácia. No entanto, “a noção de Raça, firmemente embutida na hierarquia social da cor, carece de realidade biológica, mas exerce uma função social de forte impacto concreto sobre a vida real. Trata-se do fenômeno de raça socialmente construída”. 63