• No results found

Gilberto Freyre, no prefácio à primeira edição de Casa Grande & Senzala, publicado em 1933, relatando a sua chegada aos Estados unidos em 1931, para estudar na Universidade de Colúmbia, diz: “o professor Franz Boas é a figura de mestre de que me ficou até hoje maior impressão” 182. Gilberto Freyre prossegue, ainda, no prefácio:

Creio que nenhum estudante russo, dos românticos, do século XIX, preocupou-se mais intensamente pelos destinos da Rússia do que eu pelo do Brasil na fase em que conheci Boas. Era como se tudo dependesse de mim e dos de minha geração; da nossa maneira de resolver questões seculares. E dos problemas brasileiros, nenhum que me inquietasse tanto como o da miscigenação. Vi uma vez, depois de mais de três anos maciços de ausência do Brasil, um bando de marinheiros nacionais – mulatos e cafuzos – descendo não me lembro se do São Paulo ou do Minas pela neve mole do Brooklyn. Deram-me a impressão de caricaturas de homens. E veio-me à lembrança a frase de um livro de viajante americano que acabara de ler sobre o Brasil: the fearfully mongrel aspect of most of the population. A miscigenação resultava naquilo. Faltou-me quem me dissesse então, como em 1929 Roquete Pinto aos arianistas do Congresso Brasileiro de Eugenia, que não eram simplesmente mulatos ou cafuzos os indivíduos que eu julgava representarem o Brasil, mas cafuzos e mulatos doentes. 183

181 SKIDMORE. op. cit., p. 201.

182FREYRE, Gilberto. In: prefácio à primeira edição em 1933, p. 11. 183 Id., Ibid., p. 11.

O trecho acima é uma espécie de declaração, testemunho do representante de uma geração das elites brasileiras que trouxe para si a tarefa de engendrar um futuro para a nação brasileira sobre a questão racial. Esse, por sinal, é um dos motivos pelo qual afirmo que tudo aquilo que foi engendrado pelas elites, sobre a questão, não foi obra do acaso. Essas propostas foram pensadas, refletidas e devidamente ruminadas, para que, as elites, sem perder o rumo nem o prumo, pudessem organizar o país e suas peculiaridades raciais, de modo a consolidar a imagem de uma sociedade harmoniosa e sem conflitos. E, além disso, confirmar e reafirmar seu domínio, retirando do “outro”, oprimido, toda e qualquer possibilidade de reação. É nesse sentido que acontecerá o estratégico deslocamento de raça para cultura. Senão, vejamos o que pensa Freyre:

Foi o estudo de antropologia sob a orientação do professor Boas que primeiro me revelou o negro e o mulato no seu justo valor – separados dos traços de raça os efeitos do ambiente ou da experiência cultural. Aprendi a considerar fundamental a diferença entre raça e cultura; a discriminar entre os efeitos de relações puramente genéticas e os de influências sociais, de herança cultural e de meio. Neste critério de diferenciação fundamental entre raça e cultura assenta todo o plano deste ensaio. Também no da diferenciação entre hereditariedade de raça e hereditariedade de família. 184

A obra de Gilberto foi construída para explicar a questão racial brasileira tentando refutar os entraves da raça e do clima e reduzindo toda e qualquer possibilidade de conflito. Nesse sentido, o colonizador português é pintado como tolerante que não hesitou em injetar doses de seu sangue para construir o ‘paraíso racial’ nestes trópicos. Entretanto, apenas desenhar o senhor como tolerante não era suficiente, havia que se recuperar algo de positivo na raça negra, esse é o ponto que irá facilitar o deslocamento de raça para cultura.

Clóvis Moura185 reconhece que o negro, na obra de Gilberto Freyre, é analisado sem o dogmatismo arianista, mas reintegrado na sua condição de componente de uma cultura que a escravidão não conseguiu reduzir totalmente. Significa dizer que, 184 FREYRE, Gilberto. In: prefácio à primeira edição em 1933, p. 11-12.

será este resto de cultura que sobrou dos estragos da escravidão, que se

constituirá no ponto de apoio de Gilberto Freyre para elaborar sua narrativa de sociedade de convivência harmoniosa. Desse ponto de vista, Freyre contesta a posição de Silvio Romero acusando-o de seguidor de um modismo que surgiu entre os brasileiros sofisticados, que consistiria em ocultar todas as influências africanas existentes na sociedade brasileira – hábitos alimentares, costumes, palavras, e tudo mais passível de ser ocultado.

Importa referir que antes de Gilberto Freyre, vários intelectuais da elite brasileira já haviam realizado tentativas de interpretação e compreensão do Brasil pelo viés da composição racial, Dentre os quais destaco – Adolfo Varnhagem, Rocha Pombo, Silvio Romero, Euclides da Cunha, Roquete Pinto, Paulo Prado, Aberto Torres, Manoel Bonfim e Oliveira Viana. 186

Gilberto Freyre, em sua interpretação do Brasil, contesta, revê, questiona ou retoma os intérpretes que o antecederam. È assim que, para além de Silvio Romero, retifica Euclides da Cunha acusando-o de “nem sempre justo em suas generalizações”. Tal retificação, já fora feita por Roquete Pinto, ao observar que Euclides da Cunha, ao exaltar o “jagunço”, atribuindo-lhe valores de herança indígena, não percebe que o “jagunço” não é um mameluco e sim resultado das três raças. A tese de Roquete Pinto respalda-se na composição racial prevalente nas duas unidades federativas, objetos do estudo – Bahia e Minas –, lugares em que se espalhou o africano.

“Muito do que Euclides exaltou como valor da raça indígena, ou da sub-raça formada pela união do branco com o índio, são virtudes provindas antes da mistura das

186 Adolfo Varnhagem obteve reconhecimento como historiador com a publicação da História Geral do

Brasil em dois volumes (1854-1857). José Francisco da Rocha Pombo. (1857- 1933). Jornalista, escritor, historiador, foi membro do Instituto Histórico Geografico. Escreveu História do Brasil. Silvio Vasconcelos da Silveira Ramos Romero (1851-1914), foi crítico literário, ensaista, poeta, filósofo, professor e politico. Dentre outras obras, escreveu História da Literatura Brasileira em 02 vol. Euclides da Cunha, jornalista, notabilizou-se por escrever Os Sertões, relato sobre Canudos. Edgar Roquete Pinto. (1884-1954). Médico, etnólogo, escritor, professor. Foi membro da Academia Brasileira de Letras, membro do Instituto Histórico Geografico. Fundou a sociedade Rádio Rio de Janeiro em 1923. Paulo Prado, notabilizou-se pela obra Retrato do Brasil. Alberto Torres (1865-1917), notalizou-se pelas obras:

A Organizaçao nacional e O Problema Nacional Brasileiro (1914). Manoel Bomfim. Notabilizou-se pela obra: América Latina, males do Brasil (1905), onde refuta as convicçoes de Silvio Romero sobre a teoria do branqueamento brasileiro. Oliveira Viana (1883-1951). Professor, jurista, sociólogo. Membro da Academia Brasileira de Letras e do Instituto Histórico Geográfico. Notabilizou-se pelas obras:

Populaçoes meridionais (1920); (1923); Raça e Assimilaçao (1932); Formation Ethnique du Brèsil

coloniel (1932).

três raças que da do índio com o branco; ou tanto do negro quanto do índio ou do português”.187

Gilberto Freyre, em sua cruzada de recuperar as influências da cultura de herança africana, no Brasil, refuta considerando incoerentes, as teses de Nina Rodrigues, quando este, ao comparar os estoques de africanos de colonização do Brasil e dos Estados Unidos, fixa-se na inferioridade dos negros fula-fula – maioria dos africanos trazidos para o Brasil –. Os negros fula-fula, conforme Nina Rodrigues, teriam sido levados em menor escala para os Estados Unidos. Nessa perspectiva, também, Gilberto Freyre acusa Oliveira Viana de ser “o maior místico do arianismo no Brasil”.

O professor Oliveira Viana, o maior místico do arianismo que ainda surgiu entre nós, menos coerente que o cientista maranhense, escreveu num de seus brilhantes trabalhos: os próprios negros americanos muito superiores, aliás, aos nossos, em virtude da seleção imposta pelas contingências da luta com um adversário temível, como é o anglo-saxão, ficou muito abaixo do teor médio da civilização norte-americana. 188

Entretanto, a interpretação da sociedade brasileira de Gilberto Freyre não pára em Casa Grande & Senzala. Ela prossegue em outras obras, em particular, Sobrados e Mucambos e Ordem e Progresso. Angelica Maués afirma que a interpretação do Brasil de Gilberto Freyre, “marca algumas diferenças que devem ser assinaladas”:

[...] Em primeiro lugar, ele realiza uma espécie de redefinição do mestiço, apresentando como dado novo, em relação ao problema da mestiçagem, que é o rompimento com o determinismo biológico, introduzindo, de forma inovadora, a explicação cultural, ou social, como gosta de enfatizar, no trato da situação racial brasileira – leia-se a influência maléfica da escravidão na forma (perniciosa) de ser do negro.

E ainda mais, continua a referida autora afirmando que Gilberto Freyre, ao declarar a sua filiação a Franz Boas e sua tese culturalista – segundo a qual a diversidade entre grupos raciais tem sua explicação no ambiente social e não nas características próprias de cada raça -, Freyre marca diferença em relação aos outros intérpretes da época. A passagem da explicação racial para a cultural. Melhor dizendo,

187 FREIRE. op. cit., p. 81. 188 FREIRE. op. cit., p. 327.

essa passagem não se dá de maneira automática, mas através da reavaliação do

papel da raça negra. “E aí o dado crucial é a consideração de que negro enquanto raça não é inferior ao branco, sendo as diferenças, imputadas à sua condição de escravo”. 189

Com efeito, sem perder de vista o foco principal de sua tese – A Casa Grande e o patriarcado brasileiro –, Gilberto Freyre elabora sua trama, não apenas sua, é verdade, mas de toda uma geração das elites brasileiras, incomodadas com os entraves que raça e clima representavam ao desenvolvimento do país. Retirados os entraves, em particular o da raça, mais incômodo e difícil de ser administrado, recupera-se o conforto e a comodidade e o racismo é banalizado ao extremo, a ponto de parecer ausente do solo brasileiro. Permanece o preconceito, mas racismo não existe. Existe sim uma situação de democracia racial. Situação que somente virá a ser questionada, como se viu no primeiro capítulo deste trabalho, na década de 1950, com o Projeto Unesco.