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A base do processo de inovação é a geração e transmissão do conhecimento, a forma pela qual a sociedade se apropria e processa as informações, tornando o processo produtivo mais competitivo. Com base nesta linha de pensamento, na qual domina a preocupação com os elementos que formam o processo de mudança econômica, é que a teoria evolucionária da mudança econômica rompe assim com o pensamento neoclássico e ortodoxo, conforme discussão apresentada no capítulo três deste trabalho.

De acordo com Lemos (1999), o processo de inovação pode ser compreendido por mudanças radicais ou incrementais. No âmbito das mudanças radicais teríamos o desenvolvimento e introdução de novos produtos alem das novas formas de estruturas organizacionais, assim qualquer dos casos a inovação radical representa uma ruptura com a matriz tecnológica existente. Para Shumpeter (1988), a inovação radical implica com a realização de novas combinações e de recursos10, consequentemente, uma mudança no fluxo circular da vida econômica, gerando ganhos extraordinários para os inventores. Já as mudanças incrementais se relacionam com a melhoria nos produtos existentes ou nas estruturas organizacionais do processo produtivo, também representaria uma transformação inovadora na matriz tecnológica em execução, gerando elevação da produtividade, redução dos custos e aumento da qualidade. Resultando, assim em “otimização de processos de produção, de design de produtos ou a diminuição na utilização de materiais e componentes na produção de um bem podem ser considerados inovações incrementais (LEMOS, 1999, p.158). O processo de inovação radical ou incremental ocorre, por suposto, dentro do sistema econômico e não fora dele, como algo endógeno e faz parte da relação socioeconômica dos agentes da produção. Trata-se pois de “ uma mudança espontânea e descontínua nos canais do fluxo, perturbação do equilíbrio, que altera e desloca para sempre o estado de equilíbrio previamente existente” (SHUMPETER, 1988, p.47).

Como parte intrínseca das relações interativas dos agentes socioeconômicos, a inovação deve ser compreendida como um processo sistêmico e complexo. Longe da visão linear do pensamento econômico neoclássico, a inovação não surge, unicamente, dos avanços na pesquisa científica, mas também do conjunto de conhecimento tácito enraizado nos indivíduos e organizações em localidades específicas. O conhecimento tácito é, na visão dos

10 A realização de novas combinações de fatores de produção em Shumpeter chama a atenção para o surgimento

de novas rotinas nas organizações conforme o pensamento evolucionário, sobre isto ver NELSON e WINTER (2005).

pesquisadores que se preocupam com o tema11, tão importante quanto o conhecimento codificado, tendo ainda a condição de ser transmitido somente no processo de aprendizado interativo. Por isto destacamos a importância das relações interativas dos agentes sociais e econômicos, enquanto o conhecimento codificado pode ser adquirido como uma mercadoria exposta no mercado.

Assim, “a informação e o conhecimento codificado podem ser facilmente transferidos através do mundo12, mas o conhecimento que não é codificado, aquele que permaneçe tácito, só se transfere se houver interação social” (LEMOS, 1999 p. 164). A interação entre os agentes econômicos e sociais é, desta maneira, fundamental para o processo de inovação.

Para Dosi (1988), o conceito mais atual de inovação seria a busca, descoberta, experimentação, desenvolvimento, imitação e adoção de novos produtos, processos e novas técnicas organizacionais, tendo como fonte o conhecimento codificado e tácito, “é, portanto, um processo interativo, realizado com a contribuição de variados agentes econômicos e sociais que possuem diferentes tipos de informações e conhecimentos” (LEMOS, 1999 p.162).

Com base neste conceito, destaca-se a integração entre conhecimento codificado e tácito, implicando no desenvolvimento de capacitações científicas tecnológicas, assim como organizacionais, e aprendizado com base nas experiências particulares de indivíduos e grupos de indivíduos na produção, comercialização e uso de novos arranjos tecnológicos.

O conhecimento das fontes que geram o processo inovativo é importante, ainda, para o entendimento da forma como se conduz a inovação, percebe-se que este processo é estreitamente, um processo de interação social. O que importa para a sociedade é sua capacidade de interação social e não o estoque de conhecimento, de nada adianta para o processo de desenvolvimento de longo prazo, o volume de conhecimento não transmitido. Desta maneira, localidades com melhores sistemas de transmissão do conhecimento alcançam melhores resultados no processo de inovação.

A facilidade de transmissão do conhecimento codificado aumentou consideravelmente a preocupação com sua expansão e difusão, o que torna este tipo de conhecimento similar aos bens tangíveis, disponíveis e convencionais, aproximando-os das mercadorias, mesmo assim, a expansão e facilidade na transmissão do conhecimento codificado não elimina a existência do conhecimento tácito nem facilita sua transmissão, desta maneira a codificação será sempre

11 Dentre os autores destacamos os trabalhos de Dosi, Nelson, Winter e Douglas North.

12 Os avanços proporcionados pelas novas tecnologias de informação e comunicação são exemplos das diversas

limitada e o processo de inovação dependente de todas as fontes de conhecimento.

Assim como a transmissão do conhecimento codificado é facilitado pelos avanços da tecnologia da informação e comunicação, o conhecimento tácito é facilitado pelos avanços na interação dos agentes sociais e econômicos, assim como dos mecanismos de aprendizado interativo. Ganha importância, neste processo, as redes de relações sociais, tais como os arranjos produtivos locais, as associações cooperativas e os distritos industriais. Considerados sistemas com forte dinâmica interna e capacidade de difusão do conhecimento tácito com custos, extremamente, baixos.

O reconhecimento da importância das fontes de conhecimento possibilita a compreensão do processo de inovação como um sistema de relação social interativo e evolucionário. Desta forma, a eficiência dos mecanismos de interação, entre os agentes sociais e econômicos, determinaria a dinâmica do processo de inovação através da difusão do conhecimento tácito e não codificado.

Um fator importante no processo de interação entre os agentes é a complexidade da institucionalidade local, uma vez que as relações de sinergia, a confiança e os mecanismos de comunicação desenvolvidos transformam a aprendizagem em fator competitivo. Este aspecto demonstra que o processo de inovação é, estritamente, localizado, tornando algumas regiões indutoras do processo de inovação enquanto outras, somente, adotoras de inovação.

Com base nesta linha de pensamento, podemos entender a importância das redes de ralação entre os agentes sociais e econômicos como os arranjos produtivos locais, clusters e distritos industriais, assim como as demais formas de associações e cooperativas de produtores, na transmissão do conhecimento através do aprendizado interativo, ou seja, somente estas estruturas dispõem de mecanismos interativos eficientes para troca de conhecimento e aprendizado. Na visão de Dosi (1988), tais relações são de uma importância que explicam diferenças entre o desenvolvimento de regiões.

Ainda, no contexto das relações interativas locais, entre os agentes sociais e econômicos e o processo de inovação, destacamos os Sistemas Nacionais de Inovação (SNI) como responsável pela relação de interatividade entre os atores sociais e econômicos. Além das relações entre os mesmos como responsáveis pela capacidade de aprendizagem de uma localidade.

Segundo Lemos (1999, p.172)

os sistemas nacionais, regionais ou locais de inovação podem ser tratados, desta forma, como uma rede de instituições dos setores público (instituições de pesquisas e universidades, agências governamentais de fomento e financiamento, empresas públicas e estatais, entre outros) e privado (como

empresas, associações empresariais, sindicatos, organizações não- governamentais etc.) cuja atividade e interação geram, adotam, importam, modificam e difundem novas tecnologias, sendo a inovação e o aprendizado seus aspectos cruciais.

O enfoque dos Serviço Nacional de Informações (SNI) demonstra a importância do conhecimento tácito - enraizado nas relações interativas dos agentes locais - para o processo de inovação em localidades específicas e, assim, torná-las indutora do processo de inovação, enquanto em outras localidades a fragilidade dos mecanismos de interação, citados anteriormente, fazem com que algumas regiões sejam, somente, adotoras do processo de inovação. É, pois, neste sentido, que ganha importância a localidade para o processo de inovação.

Assim, o padrão geral do processo de inovação fundamenta-se na importância da difusão do conhecimento - tanto o codificado quanto o tácito -, na dinâmica do contexto institucional das regiões como responsável pelas relações interativas entre os agentes sociais e econômicos, quanto nos mecanismos das estruturas formais e informações de interação entre os atores sociais e econômicos. Distinguindo, para tanto, as localidades que são focos de inovação daquelas que, somente, adotam as inovações originadas em outras regiões.

O processo de inovação, por conseguinte, envolve a solução de problemas que leva em consideração a redução dos custos e a comercialização, geralmente, os problemas são mal estruturados, não podendo as informações disponíveis solucioná-los. Isto posto, a solução de problemas tecnológicos passa pela descoberta e criação, tendo em vista a incapacidade das informações disponíveis em resolvê-los. Assim, a solução de problemas tecnológicos se dá, necessariamente pelo conjunto de atividades e ações, implicando ainda, no refinamento de modelos e procedimentos técnicos específicos (DOSI, 1988).

Além do padrão geral do processo de inovação, convém ser tratado, no próximo item, a natureza do aprendizado interativo, para então descrever o conceito de trajetória tecnológica de base agrária e os paradigmas tecnológicos da produção agrária.