Câmara da Indústria da Construção (CIC), da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG), lançou em setembro de 2008, o “Guia de Sustentabilidade na Construção”, um importante instrumento para disseminar conhecimentos e auxiliar na reflexão, na decisão e na atitude prática dos empreendedores, incorporadores, empregados e clientes da indústria da construção, conscientes de que a solução para a problemática ambiental ligada, direta ou indiretamente, às edificações, depende da ação de cada um, em cada fase do ciclo de vida do empreendimento.
O Guia se sustenta no conceito de construção sustentável definido pelo Conselho Internacional para a Pesquisa e Inovação em Construção (CIB), como “o processo holístico para restabelecer e manter a harmonia entre os ambientes natural e construído e criar estabelecimentos que confirmem a dignidade humana e estimulem a igualdade econômica”(CIB, 2002, p.8).
Assim, ele foi concebido a partir da contribuição de especialistas, e de empresários e profissionais que operam na cadeia produtiva da indústria da construção no Estado de Minas Gerais, com objetivo de propor dicas práticas e ordenamento dos passos para que a aplicabilidade desse conceito possa, gradativamente, ser inserida nas edificações desse Estado.
Seu conteúdo é expresso cinco capítulos, assim distribuídos:
1. Introdução à Sustentabilidade
1.1. Definição de Sustentabilidade
1.2. Construção sustentável e princípios básicos
2. Pré-condições de Empreendimentos Sustentáveis 3. Desenvolvendo um Empreendimento Sustentável
1.3. Componentes e Benefícios 1.4. Agenda do Empreendimento 1.5. Dicas de Sustentabilidade
Fase de Concepção
Gestão de água e efluentes Gestão de energia e emissões
Gestão de materiais e resíduos sólidos Qualidade do ambiente interno
Qualidade dos serviços Referência Bibliográfica Bibliografia sugerida
Fase de Projeto
Sustentabilidade do habitat (sítio) - qualidade da implantação Gestão de água e efluentes
Gestão de energia e emissões
Gestão de materiais e resíduos sólidos Qualidade do ambiente interno
Qualidade dos serviços Referência Bibliográfica Bibliografia sugerida
4. Conclusões e Recomendações 5. Referências Complementares
Três pré-condições essenciais para os empreendedores criarem as bases para o desenvolvimento de projetos genuinamente sustentáveis, são assim apresentadas:
Pré-condição 1 – Um projeto de sustentabilidade tem que ter qualidade: a gestão da qualidade estimula a melhoria constante dos processos empresariais, que estão ligados ao consumo de recursos naturais, produtividade, desperdício, durabilidade, entre outros.
Pré-condição 2 – Sustentabilidade não combina com informalidade: selecionar fornecedores formais de materiais, serviços e mão-de-obra, estimula o aumento da profissionalização e a eliminação de empresas com atividades ilícitas.
Pré-condição 3 – Busca constante pela inovação: quando possível e viável, utilizar novas tecnologias, quando inviável, buscar soluções criativas, por meio da parceria com agentes promotores de inovação e oferta de novos materiais, equipamentos e capacitação da mão-de-obra.
Ao contrário do que sugere o senso comum, nem toda ação pontual que tem como meta contribuir para a sustentabilidade do empreendimento realmente alcança seu objetivo. Isso ocorre porque, muitas vezes, não há uma preocupação prévia em alinhar as ações com as características do entorno. É nesse ponto que falham muitos sistemas voluntários de certificação de empreendimento, pois eles assumem que as ações sugeridas terão impactos positivos independentemente das
características do local onde o empreendimento está inserido (NASCIMENTO; NICOLÓSI, 2008a).
Todos os aspectos da sustentabilidade devem se revelar em todas as fases do ciclo de vida de uma edificação. Porém, é importante destacar que no Guia em questão, são tratadas apenas as duas primeiras fases: (I) Concepção e (II) Planejamento/Projeto.
Logo, sua primeira recomendação é que o empreendedor elabore a “Agenda do Empreendimento”, ou seja, uma ferramenta que permitirá que ele e sua equipe prevejam e classifiquem os impactos sociais, econômicos e ambientais que podem ser gerados pelo empreendimento, para subsidiar a definição de ações prioritárias, em consonância à disponibilidade de recursos, para implantação, usando como referência as “dicas” abarcadas nesse Guia ou em outras referências.
O Relatório de Controle Ambiental, o Estudo de Impacto Ambiental (EIA), o Relatório de Impacto Ambiental (RIMA), o Estudo de Impacto de Vizinhança (EIV) e alguns Planos Diretores já apresentam informações acerca das características da área do empreendimento e entorno. Após o estudo dessas informações, têm que se estimar os impactos ambientais da implantação em todo seu ciclo de vida, para abrandar os riscos de formação de impactos negativos e consequentes custos adicionais para sua mitigação. No manual Levantamento do Estado da Arte: Canteiro de Obras (CARDOSO; ARAÚJO, 2007), os autores elencam os possíveis impactos ambientais ligados às diferentes atividades da construção, podendo ser uma referência útil aos interessados.
A Figura 11, adaptada de CEOTTO (2007), sugere como priorizar as ações concretas a serem implantadas no empreendimento e, assim, finalizar a elaboração da “Agenda do Empreendimento”. Segundo descrito no referido Guia, devem ser colocadas na tabela, nos quadrantes específicos, todas as ações práticas com potencial para inclusão no projeto do empreendimento, seguidas da estimativa do custo de implantação e do retorno social e/ou ambiental esperados.
Figura 11 – Ferramenta para análise e priorização de ações práticas Fonte: Adaptado de CEOTTO (2007)
Seguem abaixo o resumo das Dicas de Sustentabilidade - ações concretas, que esse “Guia de Sustentabilidade na Construção” recomenda para as duas primeiras fases do ciclo de vida do empreendimento: Concepção e Projeto.
Fase 1 – Concepção:
1º aspecto: sustentabilidade do habitat (sítio) e qualidade da implantação
Harmonização com o entorno.
Compromisso com Grupos de Interesse.
Evitar grandes movimentações de terra e destinação de grandes volumes para o aterro sanitário público e locais inadequados.
2º aspecto: gestão de água e efluentes
Avaliar disponibilidade hídrica da área de implantação na concepção do empreendimento.
Conceber Plano de Uso Racional da Água (PURA) – Figura 12. a
Figura 12 - Funcionamento do PURA Fonte: REVISTA TÉCHNE (2006)
3º aspecto: gestão de energia e emissões
Avaliar e alinhar as variáveis climáticas, humanas e arquitetônicas buscando soluções na área de energia com maior viabilidade econômica e ambiental para o empreendimento.
4º aspecto: gestão de materiais e resíduos sólidos
Avaliar sistemas construtivos para o empreendimento com base em critérios de sustentabilidade.
Avaliar e alinhar as variáveis climáticas, humanas e arquitetônicas, buscando soluções na área de energia com maior viabilidade econômica e ambiental para o empreendimento.
6º aspecto: qualidade dos serviços
Implantar o Sistema de Gestão da Qualidade.
Fase 2 – Projeto:
1º aspecto: sustentabilidade do habitat (sítio) e qualidade da implantação
Projetar empreendimento acessível.
2º aspecto: gestão de água e efluentes
Realizar um Programa de Conservação de Águas (PCA) com base no “PURA” – Figura 12.
Avaliar e especificar equipamentos e dispositivos hidráulicos economizadores.
Projetar um sistema de infiltração de águas no empreendimento.
Projetar sistema hidráulico prevendo a medição individualizada de água. Avaliar a possibilidade de adoção de sistema de aproveitamento de água de chuva.
Avaliar a possibilidade da adoção do sistema de reuso de água.
3º aspecto: gestão de energia e emissões
Cuidados especiais com Instalações Hidráulicas de Água Quente - Sistemas centrais.
Definição de estratégia para reduzir o consumo de energia durante o ciclo de vida do empreendimento com base em informações bioclimatológicas.
Especificação de equipamentos economizadores de energia no projeto do empreendimento.
Utilizar softwares para a avaliação da eficiência energética de projetos. Planejamento do sistema de iluminação artificial.
Sistemas de automação. Aquecimento solar.
Figura13 – Programa de conservação de água em edificações novas Fonte: FIESP et al. (2005)
4º aspecto: gestão de materiais e resíduos sólidos
Especificar somente materiais em conformidade com normas técnicas. Iniciar e prever a implantação do projeto de gerenciamento de resíduos da construção.
Projetar para o futuro.
Seleção de materiais e fornecedores adequados com as premissas da sustentabilidade.
5º aspecto: qualidade do ambiente interno
Identificar as potencialidades microclimáticas da região para propiciar melhor conforto ambiental ao empreendimento.
Análise do desempenho térmico de diferentes componentes de edificações. Incluir projeto de aproveitamento da iluminação natural no planejamento do empreendimento.
6º aspecto: qualidade dos serviços
Formalidade e legalidade. Qualificação dos especialistas.
Desenvolver o projeto visualizando a implantação do Sistema de Gestão de Qualidade.