3. Analysis of the draft directive
3.4. Measures, remedies and procedures
3.4.6. Conditions of application and safeguards - Article 10
Na época, médicos e puericultores apontaram diversas causas para a mortalidade infantil: o desconhecimento completo que a mãe portuguesa tinha das mais elementares regras de puericultura e higiene infantil, a falta de vigilância sobre a regulamentação do trabalho das mulheres, a insuficiência da assistência
médica às mães pobres e seus filhos, a fome nas famílias populares e as áreas insalubres da cidade onde as crianças residiam. Também as feministas, entre as quais Ana de Castro Osório e Adelaide Cabette, desde o início do século insistentemente pugnaram e agiram pela educação da puericultura e a assistência às mães pobres. A médica Adelaide Cabette leccionou puericultura no Instituto Feminino de Educação e Trabalho em Odivelas.
Fernando Lancastre, diretor do Dispensário Popular de Alcântara (fundado em 1893 pela rainha D. Amélia), em 1932 realçou, com grande apreensão, a falta de alimentação conveniente das progenitoras para a amamentação dos bebés nos primeiros anos de vida: «Nas famílias pobres de Lisboa, há, isto de uma maneira geral, é claro, três categorias para a alimentação: os que comem melhor, os pais, os que comem com mais cuidados, muito principalmente quando novos, os filhos, e finalmente os que comem os sobejos, as mães. É esta uma das razões de definhamento da nossa raça. Mães fracas e mal alimentadas, nunca darão filhos fortes, nem nunca farão boas amas para eles»3.
No ano seguinte, durante a semana do Mutualismo, promovida pelo Jornal «O Século», entre 15 e 22 de Janeiro, em vários pontos do país, a médica Laurinda Alembre, na conferência que proferiu na Associação de Socorros Mútuos de Empregados no Comércio em Lisboa, intitulada «O mutualismo e as suas modalidades», defendeu e apelou ao associativismo mutualista feminino onde as mulheres poderiam encontrar a assistência necessária durante a gravidez, o puerpério e na amamentação, cuidados às mães que resultariam em benefícios para a vitalidade das crianças4.
Já estando em funcionamento desde 5 de Dezembro de 1932, em Lisboa, a tão ansiada Maternidade Dr. Alfredo da Costa, em 1936, o seu director Augusto Monjardino deu uma entrevista à jornalista Maria Teresa de Freitas, do Diário de Lisboa, publicada com o título: «Olhemos pela Infância! Na Maternidade Alfredo da Costa». Questionado sobre se eram suficientes as maternidades da Assistência Pública em Lisboa o médico respondeu: «Não chegam... Em rigor nós devíamos ter mais duas maternidades: uma em Alcançara e outra em Xabregas… onde se receberiam as operárias mais pobres…»5. Zonas estas que eram os grandes pólos industriais
da cidade.
Também as precárias situações existentes na zona oriental de Lisboa foram relatadas pelo médico Manuel Vicente Moreira, descrevendo as habitações degradadas em que viviam famílias inteiras, parte da população operária de Lisboa, em redor do Largo de Santos-o-Novo, no Vale Escuro, no Alto do Varejão: «casebres de madeira», «miseráveis barracas», «barracas de madeira e lata, onde a custo consegue penetrar o Sol e onde o ar entra por todos os lados», «as barracas velhas e desconjuntadas não têm esgotos», «coabitam com vacarias e estrumeiras, a céu aberto, perto das quais brincam as crianças que habitam nos casebres, num espectáculo confrangedor», «sem água e sem luz»6(o que também ocorria na zona ocidental da cidade).
Situações estas que podiam provocar epidemias, sobretudo no verão. Tratavam-se, pois, de problemas de saúde pública, pelo que o médico apelava à CML à construção de casas sociais, como as do bairro do Caramão da Ajuda.
3 Lancastre (1932) :17.
4 O Século, 22 de Janeiro de 1933. 5 Diário de Lisboa, 11 de Janeiro de 1936. 6 Moreira (1934): 19-21; (1950): 2-11.
Imagem 1: Furna na zona oriental de Lisboa, anos trinta
Fonte: Manuel Vicente Moreira (1950), Problemas da Habitação (Ensaios Sociais)
Situado na alameda do Beato, o lactário nº 4, pertencente à Associação Protectora da Primeira Infância, fundada em 1901 pelo coronel Rodrigo António Aboim de Ascensão, foi no relatório de 1941, caracterizado como sendo dos «mais movimentados e que serve uma vasta área de densa população, de mais pobre viver», «de mais acentuada necessidade do ponto de vista físico e de feição social»7. Podemos conhecer o contexto de
uma das famílias, que tinha recorrido pela primeira vez à instituição. A mãe, com 32 anos, já estivera internada no Hospital de Santo António dos Capuchos por debilidade pulmonar, fazendo tratamento preventivo na Associação Nacional dos Tuberculosos. O pai era caldeireiro na Fábrica de Material de Guerra em Braço de Prata. A família morava na quinta Manuel Alves nos Olivais. A bebé admitida no lactário tinha 1 mês e 3 dias e os pais tinham mais dois filhos vivos, cinco já tinham falecido, um de sarampo, três de bronco - pneumonia e outro de tuberculose.
Sobre a falta de assistência às grávidas já em 1932 um morador de Xabregas lamentava: «…E quanto a parteira diplomada, que qualquer terra de província possui, subsidiada pela respectiva Câmara Municipal, com obrigação de prestar os seus serviços às parturientes pobres, é coisa que tão pouco existe nesta freguesia da capital do País!»8.
7 Associação Protectora da Primeira Infância (1941): 7. 8 O Século, 30 de Março de 1932.
Também a falta de infra-estruturas e de saneamento são apontados no estudo de António Emílio Abrantes de 1938. Refere-se a deficiência de iluminação e arejamento das habitações, os prédios com poucos ou nenhuns esgotos, a falta de água em alguns e a fraca distribuição noutros. Por exemplo, a nível de alguns bairros insalubres referia: «a zona compreendida entre a R. Maria Pia, desde Alcântara- terra a Sete rios e daqui pela de Santa Ana do casal do Alvito e Igreja de Alcântara; ….os bairros clandestinos da zona oriental, sobretudo do Alto do Pina ao Alto do Varejão e Chelas»9. Existiriam em 1938, em Lisboa, cerca de 11 174 barracas
clandestinas, localizadas como se pode observar pelo mapa, predominantemente nos Olivais, Beato, Monte Pedral, Penha de França, Campo Grande, S. Sebastião da Pedreira, S. Isabel, Ajuda, Alcântara e Belém.
Mapa 3: Localização das habitações clandestinas, Lisboa, 1938
Fonte: António Emídio Abrantes (1938), Elementos para o estudo do Plano de Urbanização da cidade de Lisboa, CML A socióloga da saúde e da doença Lesley Doyal refere que na Europa a diarreia era considerada a maior causa de mortalidade infantil estando estreitamente relacionada com a falta ou ausência de água potável10.
Situação que pelo estudo de 1938 se confirma para Lisboa, uma vez que muitas zonas para norte, ocidente e oriente da cidade ainda não eram abastecidas de água, estando projetados reservatórios para prover estas zonas em Telheiras, Tapada da Ajuda, e Olaias.
9 Abrantes (1938): 8. 10 Doyal (1995): 33.
Conclusão
Neste estudo demonstrámos que a mortalidade infantil atingiu a percentagem de 19,42% na cidade de Lisboa em 1936. Em 1937 foi possível verificar que a mortalidade infantil, afectando mais os lactantes, era devida maioritariamente à diarreia e enterite, prevalecendo nos bairros mais populares e operários de Lisboa, essencialmente nos meses mais quentes. Esta situação conduzia os médicos e puericultores a reiterar a preocupação sobre as condições da deficiente alimentação e de habitabilidade das crianças das classes populares. A mortalidade infantil em conjunto com o decréscimo de nascimentos durante a década de trinta alarmavam porque conduziam, como se designava na época, à degenerescência da raça e das novas gerações.
B
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