PART II INTERNATIONAL EXPERIENCE
14. CONCLUSIONS PART II
A vida de Ramakrishna, venerado na Índia como um santo, despertou a reverência de todas as classes sociais do seu país e de muitos sábios ingleses e alemães do século XIX. Uma curta biografia a seu respeito foi escrita pela primeira vez em janeiro de 1816 pelo professor C. H. Tawney, catedrático de sânscrito na Universidade de Calcutá, na Imperial and
Quarterly Review, sob o título Um Moderno Santo Hindu. Este
artigo chamou a atenção do professor Max Müller, que comentou sobre o artigo na mesma revista em agosto de 1896. Em 1898, impressionado pela originalidade deste Santo, pesquisou, compilou e publicou Ramakrishna, Sua Vida e
seus Ensinos. Ramakrishna nunca freqüentou uma universidade ou mosteiro; não tinha o
hábito da leitura e era livre de todo sectarismo e do fanatismo do mundo religioso. Viveu todas as religiões de forma experiencial e seus ideais espirituais abraçam os ideais de todo o gênero humano.
pequena aldeia de Bengala. Filho de brâmanes humildes, Khudiram Chattopadhyaya e Chandra Devii. Aprendeu a ler e a escrever numa escola do lugarejo. Após a sua iniciação na pratica da meditação, adotou o nome de Ramakrishna. (LEMAÎTRE:1986). Já aos seis anos teve a sua primeira experiência de êxtase e aos sete anos, com a morte do pai, tornou-se mais introspectivo e atraído para os cantos e rituais sagrados. Naquele período, participou de um grupo de teatro, onde, encenar Shiva foi para ele muito marcante e, desta forma, ele também conheceu importantes escrituras do hinduísmo. Com dezesseis anos, acompanhou seu irmão mais velho Ramkumar, para Calcutá, onde este deveria trabalhar como professor de sânscrito, mas acabaram seguindo para Dakshineswar. Lá, Rani Ramani, uma rica viúva, e o seu cunhado Mathur Babu, haviam construído um templo, próximo ao Ganges, dedicado a Kali, a Mãe Divina. Seu irmão tornou-se o sacerdote do templo e, quando ele faleceu, Ramakrishna, com 20 anos de idade, ocupou o seu lugar. Nesta missão, seu sobrinho Hriday, com apenas dezesseis anos, muito o ajudou.
Ramakrishna sabia que os inúmeros deuses do hinduísmo eram manifestações limitadas do espírito supremo e que este não poderia ser compreendido pela inteligência finita do homem. Ele acreditava que aquele que fica preso aos desejos terrestres, só pode adorar Deus através das formas que lhe são acessíveis, mas este seria apenas um caminho, porque “a forma leva ao sem forma, a palavra ao silêncio, o êxtase ao Satchitananda”. Em
O Ensinamento Espiritual de Sri Ramakrishna, por Swami Vijoyananda temos: “1057-
Aplica-te à busca de Chit (Consciência Pura) para realizar a Sat (Existência Pura)” e desta forma alcançar a bem-aventurança (Ananda).
Kali, a deusa de quatro braços, a forma feminina de Kala, o Tempo, encarnação de Shiva, o aspecto feminino do Deus, foi a deusa a quem Ramakrishna se dedicou em sua busca apaixonada pelo divino. Ele era um oficiante fervoroso e suplicava à Mãe para que se revelasse. Muitas vezes não comia, nem bebia, vivia num estado de confusão, passando por períodos de alucinação, o que fê-lo tornar-se conhecido como o “ Louco de Deus”. Nesse período, foi aconselhado pelos médico a voltar para sua cidade natal, onde permaneceu por mais de um ano. Em 1859, casou-se com a pequena Sarada Devi, que tinha apenas cinco anos de idade – foi uma união espiritual. Após o casamento, a menina voltou para a casa dos pais e só voltou a ver o marido dez anos depois. Ao que consta, jamais tiveram uma relação sexual e, para ele, cada mulher era a representação da Divina Mãe. Ramakrishna voltou aos serviços no templo e várias vezes foi assaltado por visões alucinantes. Em 1861, sua protetora Rani Rasmani faleceu, mas seu cunhado Mathur Babu
continuou lhe dando apoio. Nesse período, Ramakrishna encontrou seu primeiro mestre, uma mulher conhecida como Monja Brâmane, Bhairavi Brahmani, praticante dos ritos vaishanavitas e tântricos. Quando perguntou se suas experiências eram sintomas de loucura, ela respondeu-lhe:
Meu filho, bem aventurado é o homem que conhece esta loucura. O universo inteiro é louco; alguns são loucos de riqueza, outros de prazeres, outros de glória, outros de cem outras coisas. São loucos do ouro que possuem, de seus maridos ou mulheres, loucos de coisas insignificantes, loucos do desejo de dominar alguém, loucos de todas as tolices possíveis, mas nunca loucos de Deus. (BHAIRAVI, apud, SMEDT, 1973: :209:17).
Ramakrishna no seu caminho em busca do Divino, exercitou-se na prática do controle da mente, seguiu a senda do yoga-meditação e do auto-conhecimento. Praticou o hinduísmo em todo seu aspecto devocional e, em 1874, conheceu o cristianismo, a religião do amor, da piedade e ficou fascinado com a vida e a doutrina de Jesus, que ele chamava de “o mestre-ioga”. Também praticou o islamismo (1886) e se dedicou ao deus sem forma, o Alá; e ao budismo, a religião do amor universal, que busca o fim de todo sofrimento humano. Sobre as religiões, costumava dizer aos que o ouviam: “Na oficina do oleiro há muitos utensílios diferentes: potes, jarros, pratos, pires... Mas tudo isto foi feito com o mesmo barro. Assim também, Deus é um, embora seja adorado em diversos países e épocas sob nomes e aspectos variados”. (Ibid, 25).
Ao final, depois de percorrer tantos credos e práticas, iniciou-se no Vedanta, por orientação da Mãe Divina, o caminho do monismo puro, do misticismo, com seu segundo guru, o monge Totapuri. Com ele, aprendeu a mensagem suprema “Tat Twan Asi” – Tu és Isto, o Verbo, o Absoluto, que está além de todo o conhecimento, no silêncio. Ele reconheceu sua enorme dificuldade em mergulhar sua mente no vazio, de mergulhar no estado “incondicionado” pois sua mente ficou presa à visão da Divina Mãe, tornando-se uma barreira em seu caminho.
Em 1884, Ramakrishna estava sozinho quando entrou em samadhi e teve uma queda; após uma fratura no braço esquerdo, sua saúde foi se tornando cada vez mais debilitada. Apesar da dor, nunca deixou de atender as pessoas que o procuravam e, mais tarde, em 1885, um refluxo de sangue na garganta provocou uma grave inflamação, que veio a se transformar em câncer. Foi levado para Calcutá, onde foi tratado pelo homeopata Doutor Sarkar. Seu sofrimento foi grande e, ao final, apenas podia ingerir algum líquido, mas, enquanto seu corpo definhava, sua alma crescia. Sua esposa e discípula Sarada Devi,
ao lado de outros discípulos, cuidaram dele até o último momento. Entre eles, Vivekananda, na época com 23 anos, o seu discípulo predileto e continuador de sua missão ao lado de Sarada Devi. Ramakrishna foi um mestre bastante liberal e era contra as proibições decretadas com autoridade cega . Para ele, as religiões deveriam ser tolerantes, livres e seu aconselhamento, bem individualizado, era feito segundo o grau de maturidade espiritual, intelectual e mental do discípulo.
No meio da noite do dia 15 de agosto de 1886, Ramakrishna5 , ainda respirando com
dificuldades, disse a Naren (Vivekananda): “Cuide bem destes jovens!” referindo-se aos seus discípulos. Repetiu o nome de Kali três vezes e na manhã do dia 16, faleceu.
Neste mesmo ano, 1886, foi criada a Ramakrishna Mission ou Missão Vedanta que tem como lema “a própria libertação e o bem estar do mundo”. A Ordem tem como objetivo atender interesses sociais cuidando de hospitais, orfanatos e escolas e, para isto, conta com a colaboração de muitos estrangeiros. Atualmente, existem 143 centros espalhados pelo mundo e, no Brasil, em São Paulo, foi fundado, em 1974, o Ramakrishna
Vedanta Ashrama, filiado atualmente à Ramakrishna Math de Adyar, no sul da Índia. O
movimento chegou ao Brasil através da pessoa do Swami Brahmananda Maharaj, que estava sediado na cidade de Buenos Aires, Argentina. Ele foi convidado a realizar algumas palestras em São Paulo, a respeito da filosofia Vedanta e, desde então, o movimento tem crescido. Em 1999, foi enviado ao Brasil o primeiro monge indiano, Swami Nirmalatmananda, para administrar o movimento. Atualmente, já existem sedes nas cidades do Rio de Janeiro, Curitiba e Belo Horizonte e, além das atividades comunitárias, realizam palestras e sessões de meditação. O Yoga-Meditação é utilizado pelos monges da Ordem Ramakrishna como um meio eficaz para se atingir a realização e faz parte da filosofia do movimento ajudar os seres humanos a descobrir a sua essência divina.
Os ensinamentos de Ramakrishna e a filosofia Vedanta ficaram mais conhecidos no mundo ocidental, graças a participação do seu discípulo, o Swami Vivekananda, no
Primeiro Congresso Internacional das Religiões, em 1893, em Chicago. Foram poucas as
obras de Ramakrishna trazidas para o Ocidente, mas seus ensinamentos foram bastante divulgados através de seus discípulos. Um novo congresso aconteceu nos Estados Unidos vinte e sete anos depois, desta vez na cidade de Boston. Em 1920, realizou-se o
Congresso Internacional de Religiões Liberais e a Índia enviou como representante o
5-A maioria dos autores acreditam ter Ramakrishna alcançado o estado de samadhi mais elevado, mas Mestre Bohdan nos ensinou que ele atingiu o chamado samadhi “com semente” pois ficou preso a imagem de Kali, a Mãe Divina. Sobre os vários tipos de samadhi falaremos no capítulo terceiro.
Swami Yogananda, um jovem de apenas 27 anos de idade.