As participantes apresentaram diferenças em relação a busca pelo atendimento médico. Dentre as diferentes influências foram observadas questões relativas ao conhecimento da doença e do próprio corpo. Para V. Silva (2005) o comportamento de uma população em relação aos problemas de saúde e uso de serviços médicos seria construído a partir de universos sócio-culturais específicos, no qual os significados das experiências são formulados baseados na percepção de si e conceitos de adoecimento.
A maior parte das entrevistadas apresentou agilidade na procura dos serviços de saúde:
“... Ai como a minha consulta aqui do retorno ia demorar, eu fui lá no médico que me diagnosticou da outra vez. Ginecologista da família. Ele disse que provavelmente não era nada, mas me mandou fazer os exames. Quando veio o resultado, era de novo. (Camélia, 61 anos, casada, ensino fundamental incompleto, atendente, recidiva).
“... eu peguei e já tomei providencia pra fazer o tratamento”. (Hortência, 39 anos, divorciada, ensino fundamental incompleto, desempregada).
“Ai eu procurei o médico. (Jasmim, 47 anos, ensino médio completo, cantineira).
“...Aí eu fui e pedi pra médica pra eu fazer uma mamografia.”. ( Dália, 27 anos, casada, ensino médio completo, desempregada).
“... Ai eu já marquei consulta com o ginecologista, ai já me encaminharam pra fazer os exames necessários. Ai desde que eu descobri eu tinha certeza que era.” (Gérbera, 46 anos, solteira, ensino fundamental incompleto, do lar). Dessas participantes, apenas uma não relatou ter suspeitado de seu sintoma ser algo preocupante ou um câncer de mama, corroborando a pesquisa de Bergamasco (1999), na qual a suspeita das mulheres em relação à doença foi algo que as fez buscar rapidamente o atendimento médico, um fator relevante para o sucesso do tratamento. Embora tenham sido ágeis na busca pelo atendimento médico, esse, nem sempre foi tão rápido:
“Aí ele fez os exame da mama e mandou que ela levasse o exame no postinho e o postinho mandava pro outro postinho. Ai nunca que saia esse resultado. Aí minha filha foi e falou com uma colega lá do postinho do, aí ela foi e arranjou outro dia e nós conseguimo. Fomos lá no postinho do outro bairro e o médico operou lá , fez a operação que tirou um pedaço do caroço e aí eu vim aqui pra medicina e daqui já foi tudo encaminhado, tudo direitinho”. (Amarílis, 77 anos, casada, ensino fundamental incompleto, aposentada).
O relato da Amarílis ilustra que a rapidez pela busca por atendimento por si só não garante uma rápida solução para o problema, a agilidade dos serviços de saúde também tem importante parcela nessa situação. A dificuldade para marcar consultas pelo SUS , a longa espera e demora dos resultados dos exames, fatores que atrasariam ainda mais o início do tratamento da doença. A inadequação de alguns profissionais dos serviços de saúde também retardou ainda mais o início do tratamento:
“Depois fui na médica, ela falou: “Não isso não é nada não, não é maligno não, deve ser benigno.” Ai eu “vortei” pra casa e foi crescendo né e tipo doe, dá aquela ferroada e foi quando pensei: “Vou vortá lá na médica”. Aí vortei lá e ela preocupou e falou: “Não não tá certo mesmo não.”. (Tulipa, 68 anos, casada, ensino fundamental incompleto, do lar)
Nesse caso há ainda um outro fator de extrema relevância: o erro da conduta médica diante do sintoma da paciente, fato que retardou o início de um tratamento, no qual a agilidade e precocidade na identificação dos sintomas são elementos importantes para o sucesso do mesmo. Este fato confirma o alerta de C. Silva (2000), quanto as tranquilizações indevidas por parte dos profissionais, pois essas poderiam contribuir para o atraso do início do tratamento.
No caso de Tulipa, a dor exerceu um papel importante em seu retorno na busca pelo atendimento médico, assim como também influenciou a busca pelo atendimento de outra participante:
“... Ai eu , ai passou um pouco começou assim uma dorzinha estranha, ai eu fui no médico. Ai o médico me examinou e mandou pra fazer mamografia, ai na mamografia deu. (Margarida, 57 anos, solteira, ensino médio completo, empregada doméstica)
Provavelmente pelo incômodo provocado, a dor na mama foi um componente que estimulou a procura pelo atendimento médico. Dado este, também verificado por V. Silva (2005). A existência de dor também foi um sinal relatado pelas mulheres na pesquisa de Bergamasco (1999), e acordo com a autora referida, tal sinal assinalaria para a mulher a possibilidade de tratar-se de um câncer de mama, o que ocorreu com uma das participantes desta pesquisa:
“Ai eu ficava naquela: “Ai meu Deus daí quando vai no médico e o médico vai falar que eu to”. Ai eu sou muito decidida também né, ai um dia eu levantei e falei: “Não hoje não tem problema, hoje eu vou no médico”. Tomei banho, troquei a roupa e falei: “Eu vou ali no pronto socorro” por que eu moro ali pertinho. Cheguei lá o rapaz: “ O que que é dona Orquídea? Cheguei e falei: “É porque eu tô com um problema na mama”. (Orquídea, 47 anos, casada, ensino médio completo, empregada doméstica)
No caso de Orquídea apesar do medo da confirmação da possibilidade de ser um câncer de mama ter retardado a busca do atendimento médico, após um período, esse medo cedeu espaço para o enfrentamento da situação. Talvez tenha ocorrido uma negação parcial da situação. Nesse tempo, a participante pôde preparar-se melhor para o diagnóstico. Assim, a demora pela procura do serviço de saúde foi necessária para que a paciente iniciasse um processo de elaboração e enfrentamento da situação. Embora o tempo do paciente deve ser respeitado, nesse caso, pode prejudicar e gerar um agravamento da doença.