Batalhão, união, quem errar é um bobão. Abaca, xi, xi, quem errar é um saci.
Beterraba, aba, aba, quem errar é uma diaba.
Rá, ré, ri, ro, rua. (Música cantada pelas crianças na brincadeira de pular corda. Registro de campo)
IMAGEM 50: Brincadeira de pular corda. Bairro Taquaril
Fonte: Registro de campo.
As escolhas dos lugares para brincar variam pelas características e pelo tipo de brincadeira que cada um possibilita. São, assim, definidos espaços próprios para uma brincadeira ou outra. As crianças brincam de escorregar no papelão, por exemplo, nos barrancos mais altos, soltam papagaios em lugares onde venta mais, ou ainda brincam de bolinha de gude em determinada rua, pelas características da rua ou porque todos combinaram de se encontrar lá:
Dois meninos sobem o beco com uma garrafa tipo ‘pet’ cheia de bolinhas e inicia-se o seguinte diálogo:
Pesquisador: – Onde vocês estão indo? Menino 1: – Brincar de bolinha de gude. Pesquisador: – Eu posso ir também? Menino 1: – Pode.
Pesquisador: – Onde vocês vão brincar? (Começamos a caminhar.)
Menino 2: – Numa rua que tem ali em baixo.
Menino 1: – Todo dia que você vier aqui nesta rua vai ver um monte
de meninos jogando bolinha aqui. A gente combina de jogar aqui sempre. É o lugar mais doido para jogar.
De fato, em outros dias aquele trecho da rua, recorrentemente, foi usado por crianças para brincar de bolinhas de gude. A mesma característica pôde ser observada na escolha do “pique” nas brincadeiras de pegador.
Ainda na rua, um telefone público da comunidade foi apropriado como brinquedo pelas crianças. Fazendo uso do telefone, as crianças brincam de “falar com outro país”.
Um grupo de crianças estava mexendo no telefone público, colocando no ouvido, falando e desligando.
Pesquisador: – O que vocês estão fazendo? Menino: – Ligando para o Japão
Pesquisador: – É mesmo?
Menino: – É! Quer ligar também? A mulher fala japonês e a gente
responde!
O menino falou em ‘japonês’ ao telefone, sorriu e desligou.
As crianças discavam um número, que sabiam de cor, e uma gravação realmente falava alguma coisa em japonês, provavelmente um serviço de interurbano. Ouvir outra língua e tentar comunicar-se por meio dela era uma brincadeiras para essas crianças, que tinham no telefone público o contato com mundo externo em parte desconhecido, mas imaginado e também elaborado por elas.
Na experiência da brincadeira, portanto, as crianças partilham os significados que marcam sua existência social e ressignificam situações, espaços e objetos, atribuindo novos entendimentos e formas de lidar com os objetos e situações ou criando situações que são do seu imaginário.
Outra interessante característica observada é a relação das crianças com o tempo cronológico. Na maioria das vezes elas demonstraram a competência de fazer uso de controle do tempo. Em alguns casos, mostraram-se atentas aos horários dos ônibus que os pais ou os irmãos mais velhos vão chegar, os horários que têm de ir ao projeto social ou à escola, como revela o registro de campo abaixo:
Crianças: – Quantas horas são agora? Pesquisador: – Onze e dez
Criança: – Nó, só podemos brincar mais quinze minutos; temos que
É interessante perceber que o tempo cronológico, uma marcação do universo adulto, interfere diretamente na vida das crianças. No caso do Taquaril, saber administrar o tempo e a rotina é tentar lidar com causas e conseqüências de realizar ou não tarefas, como cuidar da casa ou dos irmãos, ou saber autonomamente os horários de ir para escola e ainda lidar com o que lhes é autorizado ou não pelos adultos., Isso porque, em muitos casos, os horários em que os adultos voltam são sempre alvo de atenção daquelas crianças que não têm autorização para brincar fora de casa.
Administrando suas rotinas, as crianças brincam de muitas coisas e conhecem muito da comunidade, fazem da sua permanência e circulação pelas ruas um tempo para cartografar os diferentes espaços de brincar:
Logo que cheguei à comunidade, vi um grupo de meninos descendo a rua e perguntei onde estavam indo. [...] Disseram que iam nadar. Surpreendi-me com essa afirmação e logo passei a acompanhá-los. Pareceu-me muito inusitado [...]. Não me recordava de ter conhecido ainda nenhuma piscina, caixa d’água ou nenhum ‘espaço para nadar’ por ali. No caminho, foram explicando que era uma cachoeira, que tinha uma nascente e que ficava do outro lado do Arrudas. Só então percebi que iríamos caminhar um pouco, pois o ribeirão Arrudas não era muito próximo da comunidade. Antes que fizesse qualquer referência a uma preocupação com a poluição do rio, as crianças foram explicando que o rio era sujo, mas a cachoeira não, pois ficava do outro lado do rio e que todo mundo nadava lá quando fazia muito calor. [...] Depois de aproximadamente uns 30 minutos de caminhada, chegamos à margem do rio, rapidamente transposto pelas pedras [...]. Alguns metros depois estávamos lá na ‘cachoeira’.
Algumas questões ganham destaque a partir deste relato. Em primeiro lugar, a cachoeira como espaço de brincadeira no Taquaril transcende os limites geográficos da comunidade e é escolhida pelas crianças pelas oportunidades de brincadeiras que ela oferece: o contato com água, nadar, o alívio do calor, além de todo um repertório de práticas lúdicas desenvolvidas naquele lugar: pular, mergulhar, buscar pedras no fundo da água. A relação estabelecida nesse espaço de natureza escolhido pelas crianças como espaço para brincar possibilitou ao grupo sensações e oportunidades de prazer, desafio e percepção de seus próprios corpos e de suas potencialidade.
É ainda relevante pensar como as crianças manifestam a consciência de que o rio é um lugar sujo, impróprio para brincar, e que (embora não tenha muita segurança disso) a cachoeira é limpa e um lugar adequado para a brincadeira.
IMAGEM 51: Brincando na cachoeira. Fonte: Registro de campo