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Voltaire, mesmo tendo clareza de seu objetivo proposto, que era a luta pela defesa da razão como emancipadora da vida humana, deixa transparecer em sua reflexão algo de seu deísmo um pouco confuso, pois, ao mesmo tempo em que declara a não interferência de Deus na vida humana, se dirige a Deus como se este estivesse perto dos homens. Isso pode ser notado no capítulo XXIII do Tratado Sobre a Tolerância, na “Prece pela Tolerância”.

A oração de Voltaire a Deus possui a forma de uma prece, uma súplica, um pedido que se direciona a Deus a fim de que ele ouça e atenda o pedido de alguém que não merece seus favores. Essa oração faz, além da súplica, um apelo universal à tolerância. As diferenças de pensamento em relação às religiões não podem ser motivo de ódio ou tirania, pois todos devem ser livres para fazerem suas escolhas. Voltaire afirma nesta oração: “Não nos destes um coração para nos odiarmos e mãos para nos matarmos”.152

Nessa prece, Voltaire parece dizer que uma religião que mata e escraviza não pode ser inspirada em Deus, que é ternura e bondade; então o que deve ser ignorado é a religião mal

152 Esta frase de Voltaire se refere aos conflitos entre os cristãos que se matavam impiedosamente dominados por

constituída, e não Deus, que, com sua bondade, só inspira a benevolência e a paz. Assim sendo, devemos então atribuir a Voltaire uma crença em Deus? Aquele homem tantas vezes censurado por seu pensamento antirreligioso, anticlerical deve ser visto como alguém crente em Deus? Sobre isso André Maurois afirma:

“Voltaire crê que um maquinismo divino concebeu, conjuntou e regulou este universo. A grande prova que ele dá dessa crença é, primeiramente, a ordem do mundo, as simples e sublimes leis pelas quais os globos celestes caminham no abismo do espaço. O relógio prova a existência do relojoeiro; a obra maravilhosa do universo mostra um obreiro, e tantas leis constantes demonstram que há um legislador; é necessário para os príncipes e para os povos que a ideia de um Ser Supremo esteja profundamente gravada nos espíritos. Não se pode dizer, porém que esta prova da existência de Deus seja muito sólida, porque ela provaria também a necessidade de crer; mas esta prova agrada a Voltaire, não porque sirva a ele, mas porque serve para o povo; se, portanto a existência do mundo prova a existência de um Deus, não prova contudo, de modo algum, a existência do Deus dos judeus e dos cristãos e nem de outro qualquer Deus particular. O nosso deísta é ao mesmo tempo agnóstico.153

A respeito da benevolência divina, pode-se perceber inclusive que esta inspira também a ideia de tolerância. O capítulo XXII do Tratado Sobre a Tolerância afirma que o interesse das nações exige a tolerância e ela não pode ser desejada como um mero capricho vivido por apenas alguns que julgam suportar outros por suas crenças, uma vez que isso somente não constituiria o interesse essencial das nações. A tolerância supõe a convivência pacífica entre os povos, culturas e religiões e o maior interesse das nações, aqui expresso, não é por uma ou outra religião específica. A religião enganada ou esclarecida não é o que deve atrair o interesse das nações: esse interesse se liga à ideia da construção do progresso em sociedade, que, por sua vez, constitui o essencial interesse de Voltaire.

153 MAUROIS. André (introd.). O Pensamento Vivo de Voltaire. Tradução de Lívio Teixeira. São Paulo: Livraria

Em outras palavras, podemos compreender que a religião pode até e muito proporcionar parte deste progresso em sociedade, porém fará isso na medida em que for “pura e santa” e não intolerante como se tem assistido há séculos entre os cristãos. Curiosamente, o capítulo XXII se intitula: “Acerca da tolerância universal”. É bem característico em Voltaire esse interesse infalível pela tolerância, pois ele tem, diante dos olhos, tempos de perseguições e assassinatos provindos de uma vivência religiosa intolerante e fanática. Por isso se empenha em destruir esse pensamento religioso até as raízes, uma vez que o considera a origem da falsa religião.

Com tudo isso, não se pode esperar de Voltaire elogios em favor desse pensamento religioso fanático, pois a religião enganada por suas crenças supersticiosas não inspirava o modelo de tolerância pretendido por Voltaire. Em se falando de religião no contexto de Voltaire, este afirma que o cristianismo foi a religião mais intolerante que já existiu. A respeito dos povos antigos civilizados, entre eles o judeu, no Tratado Sobre a Tolerância, capítulo XII, afirma que esses povos já possuíam a intenção de uma tolerância universal. E apesar da realidade que vê entre os povos cristãos, mesmo assim se mostra esperançoso, porque “sempre escapam na nuvem dessa barbárie tão longa e tão horrível raios de uma tolerância universal”.154

É preciso perceber que Voltaire, ao falar da tolerância universal, se referia aos povos antigos com uma visão toda particular, indicativa de sua simpatia por uma religião natural. No capítulo VIII do Tratado, afirma: “Os romanos não professavam todos os cultos, não davam a todos a sansão pública; mas permitiam todos”.155 De todos os povos antigos, diz Voltaire, nenhum deles impediu a liberdade de pensar, sejam os gregos, os romanos ou os judeus. Por outro lado, porém, os cristãos sempre pretenderam que sua religião fosse em tudo a dominante. Os romanos toleravam todos os cultos de seus povos dominados, inclusive o culto

154 VOLTAIRE, op. cit., 2000, cap. XII, p. 73. 155 Id., ibid., cap. VIII, p. 41.

dos cristãos, que, por sua vez, não queriam tolerar nenhum outro culto a não ser naquele em que acreditavam.

Dessa maneira, se observa que, por muito tempo, a intolerância religiosa fez parte do cristianismo, quando ele quis justificar a própria fé perseguindo outras religiões. Há uma característica bastante peculiar em Voltaire, sobretudo quando ele ataca práticas de violência contra a liberdade de pensamento. A escolha religiosa ou a não escolha de um credo religioso deve ser garantido a cada um, pois somos livres para fazermos nossas escolhas, inclusive em matéria de religião.

Se para Pierre Bayle a consciência deve ser seguida em tudo o que ela nos indicar, para Voltaire, a razão deve ser igualmente a luz que guia as escolhas neste mundo. Assim, verificamos que em tudo a liberdade humana deve ser garantida a todos os homens. Pensar a ideia de liberdade a partir de Voltaire é, ao mesmo tempo, levar em conta os conflitos tirânicos produzidos pela religião de seu tempo. É diante desse momento de tensão e perseguição religiosa que Voltaire forma sua opinião a respeito do que possa ser a liberdade humana.

Essa liberdade é, em primeiro lugar, o direito de cada um escolher a crença que bem desejar, e, ao mesmo tempo, respeitar opiniões religiosas diferentes. No Dicionário Filosófico de Voltaire, a liberdade assume caráter de poder, o poder de realizar alguma coisa que esteja em nosso pleno domínio. Esse poder envolve a ideia de que posso realizar algo pelo fato disso estar em minha plena liberdade de fazê-lo com segurança, então faço porque posso, faço porque tenho poder para isso.

No período da Luzes, esta tão pretendida liberdade humana deveria ser realizada pela própria razão humana. Ela obriga os homens a reconhecerem seus direitos de humanidade em sociedade. A revolução que se preparava, no espírito dos homens, prenunciava as mudanças sociais e políticas que, naquele momento, a França necessitava para aderir a uma liberdade

que contribuísse para o progresso da nação. Assim, é contra a hegemonia dos poderes civil e religioso que os pensadores iluministas se colocam, a fim de mudar a mentalidade servil. A religião cristã divida nas facções católica e protestante estava sempre pronta a manter a ideia de uma verdade eterna, única e inquestionável, devido ao domínio da religião. As pessoas não tinham a liberdade de questionar as verdades reveladas como os dogmas religiosos, por exemplo. Para Voltaire, a religião incentivava e alimentava o fanatismo em seus fiéis, era ela a responsável por manter os fiéis nas superstições, pois os religiosos eram dominados pelo fanatismo e, assim, eram cada vez mais intolerantes com seus irmãos da mesma religião. Nota-se, portanto, que tais conflitos religiosos eram justificados como práticas justas pela própria religião.

Se, como afirma Voltaire, o interesse das nações exige a tolerância era, então, impossível obtê-la em meio a tamanhas discórdias produzidas pelo pensamento religioso daquela época. Diante das censuras e mortes que esse pensamento causava, de fato a liberdade não encontrava o mínimo espaço fértil para se estabelecer e curar os homens de seus crimes. A consciência daqueles homens, diante de tantas barbáries, não poderia ser tocada pela ideia fundamental do pensamento iluminista, que era um interesse supremo pelo progresso científico e pela emancipação humana.

Voltaire, em seu conto “Elogio histórico da Razão”, 156 mostra que a razão e sua filha, a verdade, não encontraram espaço e acolhida em meio aos horrores das guerras religiosas produzidas pelo fanatismo. Na coletânea de textos de Voltaire O Preço da Justiça, Artigo I, página 7, Dos crimes e das penas proporcionais, afirma: “As leis não podem deixar de ressentir-se da fraqueza dos homens que as fizeram. Elas são variáveis como eles”. Nessa mesma obra, no tema sobre heresia, ele afirma: “A heresia é um dos piores crimes”.157

156 VOLTAIRE. Contos. Tradução de Mário Quintana. São Paulo: Abril Cultural, 1972, p. 649. 157 Id., op. cit., 2001.

Por heresia entendemos o fato de alguém ser perseguido por suas opiniões contrárias à religião dominante. A religião católica e também a protestante158 se viram como soberanas de

um poder absoluto e divino que, por muitas vezes, apoiava-se na ideia de atormentar pessoas por suas crenças.

No Dicionário Filosófico, Voltaire, no verbete “Leis Eclesiásticas e Civis”, afirma que nenhuma lei eclesiástica deve ser válida antes de ser sancionada pelo governo. Afirma, inclusive, que as leis divinas ocupam outro plano, não devem estar submetidas ao mesmo nível das leis civis e, consequentemente, com os negócios burocráticos deste mundo, ideia esta que certamente herdou de John Locke, aquele que estabeleceu a real separação entre Igreja e Estado.

A lei civil é quem deve presidir o Estado. As leis eclesiásticas devem se limitar às suas funções específicas, no que se refere às práticas religiosas que são: abençoar, sagrar e rezar. Diante de todo o histórico que o catolicismo se apresentava por meio de práticas intolerantes, Voltaire mantinha seu perfil de ataque contra tais infâmias, porém sem jamais fazer concessão com a intolerância.

Para Voltaire, Deus devia certamente ser a causa inteligente da formação do universo. Na sua visão Deus se explica como que um relojoeiro que constrói um relógio; o relógio é o produto, ou seja, a obra que tem por trás de si um artesão; este artesão é Deus, e a razão humana é a via inteligente que o pode conhecer. No Tratado Sobre a Tolerância, nas notas

158 A caça aos hereges foi um movimento liderado pela Igreja Católica desde o século XVI quando aconteceu a

Reforma Protestante. Da parte da Igreja existia a intenção de manter a política de adesão a fé para com isso continuar a ser o poder dominante. Observa-se também que este poder arrogava-se ao extremo em todos os sentidos, ou seja, a religião era a maior expressão, a única capaz de se pronunciar a respeito da verdade, pois acreditava ela ser a única intermediadora entre Deus e os homens. Isso certamente fortalecia ainda mais seu poder. Assistia-se à sagração de reis que faziam o propósito de continuar a mesma missão da Igreja no que se refere a caça aos hereges. Luís XIV, por exemplo, foi um dos que fizeram tal propósito. Voltaire faz uma afirmação a este respeito: “Os reis precisavam jurar, em sua sagração, que matariam quase todos os habitantes do universo, pois quase todos tinham uma religião diferente da sua”. (Id., op. cit., 2000, p. 31-32.) O rei Luís XIV, além do propósito que fizera a respeito de continuar a política antiprotestante, desejava como se sabe, uma França toda católica, como Pierre Bayle coloca em Pensées Diverses Sur la Cometè. A revogação do Édito de Nantes por Luis XIV foi a expressão de uma atitude intolerante e incentivo à caça ao hereges. Naquele momento o rei passava a aderir integralmente a uma política civil que em tudo se conformava com a política religiosa do pensamento dominante.

introdutórias, René Pomeau faz uma afirmação mostrando que esse tratado vai além do objetivo de ser uma obra que simplesmente advoga a respeito da tolerância, pois Voltaire também em tudo exige uma liberdade de pensar: “O Tratado da Tolerância revela uma substância da liberdade de pensar”.159

Esta frase marca o fiel posicionamento de Voltaire na luta pela liberdade religiosa e também pela liberdade de pensamento empreendida em favor do Caso Calas, objeto de estudo do primeiro capítulo desta reflexão. Jean Calas fora perseguido pelo pensamento religioso, pois este não possibilitava uma liberdade religiosa; fora morto pelo suplício da roda tendo a sua frente somente como defesa sua inocência e sua liberdade de consciência.160

Verifica-se que na execução do Caso Calas, os juízes de Toulouse foram tomados pela intolerância religiosa, e a liberdade de pensamento não teve a menor chance de ser admitida, pois diante do fanatismo, é a barbárie que se sobressai. Jean Calas morrera inocente, porém sua execução não conseguiu esconder a atitude deste homem em não se deixar dominar pelo fanatismo de seus algozes. Este fato ocorreu em plena época das Luzes na Europa no século XVIII. Voltaire afirma ainda que: “E aconteceu isso em um tempo em que a razão já fazia tantos progressos; os espíritos já se iluminavam afastando-se da barbárie”.161 Na tentativa de aos poucos ir conscientizando a populaça religiosa a respeito dos crimes que cometiam, e que tais crimes só poderiam produzir tantos outros crimes, Voltaire afirma no capítulo IV do

159 VOLTAIRE, op. cit., 2000.

160 Jean Calas morrera vítima inocente de sua sinceridade de consciência. A melhor justiça certamente a favor

deste inocente é ter este caso tido um dos maiores desfechos da época. A Europa inteira tomou conhecimento deste cruel acontecimento, e isso a fez pensar um pouco mais sobre as atrocidades do fanatismo religioso. Nos escritos e campanhas de Voltaire, partindo obviamente do Tratado Sobre a Tolerância, este caso foi não somente advogado como também divulgado, no sentido de alcançar seu maior objetivo que era o de sensibilizar a opinião do povo. O Caso Calas representa, para a Europa do século XVIII, um grito em favor da liberdade de pensar até então negada sobretudo aos protestantes calvinistas, visto que estes eram as maiores vitimas das perseguições religiosas. Essa liberdade tão almejada por Voltaire significava a substituição do fanatismo religioso pelo domínio esclarecedor da razão; a pretensão igualmente a isso era submeter a religião ao domínio das leis, e estas por sua vez, deveriam ser justas e favoráveis ao progresso científico e humano. Voltaire era contra a barbárie por muito tempo cultivada por reis e clérigos, e postulava que a liberdade religiosa se fazia necessária. A intolerância religiosa e civil por muito tempo sobreviveu causando mortes e perseguições; era o momento de reconstruir o homem começando por despertar nele a luz da razão. Sobre isso Voltaire afirma: “A razão esclarece lenta, mas infalivelmente os homens”. VOLTAIRE, op. cit., 2000, p. 30.

Tratado: “Parece-me que não é raciocinar consequentemente afirmar: esses homens insurgiram-se quando lhes fiz o mal; portanto se insurgirão quando lhes fizer o bem”;162

portanto se vê que uma ação benéfica arrazoada com uma boa dose de razão dirigida a outrem, só poderá resultar em um beneficio ainda maior da parte de quem o concede.

Os atos provindos da reflexão e do raciocínio terão como meta o bom comportamento moral do indivíduo em meio à sociedade. Se a preocupação de Voltaire é o bem físico e moral da sociedade, então, nesta ação do indivíduo orientada pela razão, vemos luzes de uma civilização universal baseada no progresso da humanidade, e isso sim, é digno de destaque para o pensamento de Voltaire.