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Nota-se que a razão humana, como guia para a conduta dos homens em sociedade, sempre se fez necessária de forma que não se pode abrir mão desta no mundo em que estamos inseridos, pois este agir racional justifica nossa presença no cotidiano de nossas relações. A ideia primeira de razão é que ela é um guia, ou seja, é luz para os homens neste mundo. A noção de guia nos faz pensar naquilo que nos orienta infalivelmente rumo a nossos propósitos; no caso aqui, o propósito a ser realizado é o bem à sociedade.

A razão identificada como luz se refere à noção de guia autônomo, que evidencia claramente nossos pensamentos, libertando-nos das trevas da ignorância. Uma das definições

124 A razão como caminho e luz para a conduta dos homens não é uma ideia apenas do século XVIII, pois desde

a Antiguidade clássica grega já se tinha tal noção. Porém pretendo mostrar que tal conceito é tão primordial na filosofia de Voltaire que tal importância a respeito da razão é aqui retomada.

clássicas deste conceito é: “Referencial de orientação do homem em todos os campos em que seja possível a indagação ou a investigação. Nesse sentido, dizemos que a razão é uma ‘faculdade’ própria do homem, que o distingue dos animais”.126 Descartes no seu Discurso Sobre o Método, por sua vez afirma que seria “a faculdade de julgar com acerto e de distinguir o verdadeiro do falso, que é propriamente o que se chama o bom-senso ou a razão”.127

No período iluminista, a partir de 1680, a razão como instrumento de busca do conhecimento se tornou fundamental e em grande destaque. O anseio filosófico do século XVIII atribuía à razão uma característica fundamental que era a salvadora da condição humana. Nesse período, embora enfrentando inúmeras dificuldades, a razão se propunha tirar os homens das trevas, da barbárie e da ignorância128 a que estavam submetidos. Maria das Graças afirma: “ Situadas no contexto do século XVIII, as afirmações de Voltaire não são tão fora de propósito como podem nos parecer hoje. (...) A expansão das luzes é um fenômeno das elites. Voltaire age, pois, com espírito pragmático. Para o povo inculto, a idéia de Deus é um freio moral. A razão é um privilégio de poucos”.129

A razão acima de tudo se propõe nesse século ilustrado, em mostrar qual será sua peculiaridade de ação; ela deseja investigar o mundo e seus elementos aparentemente mais insignificantes para então poder conhecê-los. Assim é preciso afirmar que ela tem como base de investigação a própria experiência, e não, as deduções. Paul Hazard afirma: “ Em vez de

126 ABBAGNANO, Nicola, op. cit., 1960, p. 824. 127 BROGA, Bruno (org.), op. cit., p. 53-54.

128 Compreende-se neste período do século XVIII que a barbárie à qual estava submetido o espírito dos homens

era a violência de um pensamento religioso consolidado desde séculos anteriores. Este pensar se apoiava na religião para fomentar as guerras pela tomada do poder. A baixa Idade Média que se estendeu até o século XV era chamada de Idade das Trevas, pois estas representavam as atitudes intolerantes dos homens, zelosos por uma religião que mais alienava do que educava. Já no século de Voltaire, devemos identificar vários grupos religiosos, principalmente entre os católicos e protestantes calvinistas, que se contrapunham uns contra os outros. Essa hostilidade, na maioria das vezes, resultava em mortes e perseguições incontáveis. É justamente contra essa barbárie que Voltaire se propõe a lutar, com a finalidade de construir um novo pensar, visando a emancipação do homem, e não a sua destruição. Esse novo pensar devia ser orientado pela razão, a única, naquele momento, capaz de salvar os homens das trevas.

129 SOUZA, Maria das Graças de. Voltaire e o materialismo do século XVIII. Dissertação de Mestrado. USP,

partir de princípios apriorísticos, como faziam as pessoas de outros tempos, que se contentavam com palavras e andavam em círculos sem darem por isso, a razão debruça-se sobre o real”.130

Voltaire empenha-se, em seu trabalho, para tentar, naquele momento, modificar a mentalidade religiosa, valendo-se de alguns de seus escritos como, por exemplo, o Tratado Sobre a Tolerância, que em seus diversos capítulos objetivos e bastante intencionais clama pela tolerância e o fim do fanatismo religioso.

René Pomeau, no comentário inicial desse tratado, frisa que Voltaire desejava sensibilizar a opinião do povo em relação aos crimes cometidos pelo pensamento religioso. Era o comportamento moral dos homens dominado pelas superstições religiosas que Voltaire planejava demolir. A proposta última dessa reforma mental era a de que a razão pudesse orientar e guiar as ações dos homens em sociedade. A frase bastante citada por Voltaire, no final de suas cartas, e que recolocamos aqui como força de expressão para este texto, écrazez l’infáme, significava o ódio implacável desse escritor em relação às demências humanas de seu tempo. Em continuidade com o pensamento de Voltaire, Luís Roberto Salinas Fortes, em seu livro, O Iluminismo e os Reis Filósofos, apresenta a importância que a razão possuía no contexto iluminista como guia de orientação ao homem.

Para os iluministas, a razão deveria ser um instrumento soberano de conhecimento e como instância suprema incumbida de reger os destinos históricos do homem e conduzir à sua emancipação diante dos preconceitos do passado, reformando a sociedade em que viviam e procurando o aperfeiçoamento constante da humanidade.131

Voltaire diz que, embora a razão seja limitada, ela foi concedida ao homem com a justa finalidade da ação. Dessa forma, o homem deve se valer das possibilidades que a razão lhe oferece para construir sua felicidade neste mundo. O ser humano deve se preocupar com a

130 HAZARD, Paul. O pensamento europeu do século XVIII. Tradução Carlo Grifo Babo. Lisboa: Presença,

1989. P. 36.

conduta neste mundo, ou seja, ter seus atos iluminados pela razão e não ficar ansioso em conhecer ou ter acesso àquilo que lhe é inacessível à razão.132Paul Hazard fala sobre o limite

que a razão possui: “ A razão é como uma soberana que, tendo alcançado o poder, toma a resolução de ignorar as províncias onde sabe que nunca poderá reinar totalmente”133. Diante desse novo olhar134 de Voltaire, que será o mesmo para os pensadores iluministas de seu tempo,135 a razão se torna cada vez mais necessária, pois, por meio dela, não só o comportamento humano pode servir ao progresso da nação, como também as grandes descobertas científicas podem igualmente contribuir para este progresso no sentido de que a razão esteja presente em todos os âmbitos da atividade humana.

No universo voltairiano, o culto que os homens devem prestar não é mais à religião, mas à razão. A razão é destacada como “deusa”, que é soberana diante de um projeto, no qual a ignorância humana deve se submeter e desaparecer por completo. Verifica-se, com isso, que a razão passa a ser divulgada e compreendida no Século das Luzes como superior à religião cristã, ou seja, desse pensamento religioso, origem das disputas religiosas. Isso fica mais claro

132 Essas coisas inacessíveis que a razão humana não pode pretender, segundo Voltaire, é o conhecimento

metafísico. O discurso racionalista do século XVIII tinha a pretensão de rejeitar todo e qualquer conhecimento que não pudesse ser observado e compreendido pela luz da razão; tudo devia ser submetido ao crivo racional para ter validade e certeza científica. O pai da filosofia experimental é Francis Bacon que em pleno século XVII escreve o Novum Organum Scientiarum. Esta obra de grande rigor científico propunha uma nova organização para a ciência de seu tempo; isto também tinha a intenção de rejeitar o discurso metafísico, ou seja, o conhecimento sobre a realidade divina. O pensamento iluminista por sua vez também propõe um caminho racional para a compreensão do mundo e seus mistérios. A busca da verdade científica não era certamente a meta de Voltaire, ele desejava que, muito mais do que a investigação científica, o homem pudesse agir no mundo racionalmente, guiado unicamente pela razão. BACON, Francis (1561- 1626). Novum Organum ou Verdadeiras Indicações Acerca da Interpretação da Natureza. Nova Atlântida. Col. Os Pensadores - História das Grandes Ideias do Mundo Ocidental. Tradução e notas de José Aluysio Reis de Andrade. São Paulo: Abril Cultural, 1984.

133 Hazard, Paul. O pensamento europeu no século XVIII. Op. Cit... p. 35.

134 A proposta de Voltaire, como figura principal do movimento iluminista, trazia uma novidade às pessoas de

seu tempo que era o uso esclarecido da razão como parte integrante das ações humanas; o novo olhar se refere ao uso da razão para o homem no lugar da fé. A razão devia penetrar o mundo e a vida cotidiana das pessoas, ou seja, os atos humanos deviam ser iluminados pela luz racional. O monstro funesto a ser vencido no âmbito da vida social, política e religiosa era a hostilidade entre os partidos religiosos. O catolicismo pretendia ainda no século XVIII ser a religião dominante, no reino da França, por isso era hostil em relação aos protestantes calvinistas e vice-versa.

135 O projeto iluminista visava o progresso da nação por meio da atividade humana orientando-se pela razão. Não

somente Voltaire, mas também outros pensadores aderiram a esta forma de pensar com base na razão que em tudo rejeitava o discurso religioso para a implantação do discurso racionalista. Por exemplo, cabe destacar aqui a intenção de Diderot quando faz seu comentário sobre a Encyclopédie Française: é preciso investigar tudo, remexer tudo sem escrúpulos quando se tratava de uma verificação racional a respeito da verdade dos objetos pesquisados.

quando compreendemos qual era a intenção de Voltaire para o homem daquele tempo: não ao incentivo às práticas religiosas, pois estas eram geradoras dos crimes mais funestos, mas ao uso livre e esclarecido da razão diante do mundo. O homem devia agir com sua inteligência e não se deixar seduzir por presunções alheias que impedissem sua liberdade de ser e pensar.

O apelo para que esse homem aderisse a essa nova mentalidade foi sentido em todas as dimensões da sociedade: política e religiosa. A nova forma de pensar, defendida por Voltaire, e, concomitantemente, pelo projeto iluminista, era que a ciência progredisse orientando-se exclusivamente por meio da razão, considerada a única capaz de responder aos desafios daquele momento, que eram o fanatismo e o pensamento religioso intolerante. Diante desse contexto em que a atividade racional predomina como penhor de uma nova civilização, deve- se afirmar o seguinte: a razão se tornava critério para tudo, inclusive a base para toda pretensão de conhecimento científico. Da mesma forma, colocava-se também como norma de vida na orientação moral de cada indivíduo: “Os deístas do século XVIII, fundamentam a moral sobre uma religião e afirmam que o homem virtuoso não necessita de Deus”136.

A respeito dessa moralidade do indivíduo137, como alguém que necessita da razão para formar mesmo sua conduta moral em sociedade, Voltaire afirma:

Mas como! Cada cidadão só deverá acreditar em sua razão e pensar o que esta razão esclarecida ou enganada lhe ditar? Exatamente, contanto que ele não perturbe a ordem, pois não depende do homem acreditar ou não acreditar, mas depende dele respeitar os costumes de sua pátria.138

Partindo do Tratado Sobre a Tolerância, sobretudo do último parágrafo do capítulo VI, nota-se que Voltaire abomina a possibilidade do direito da intolerância: “O direito da intolerância é, pois, absurdo e bárbaro: é o direito dos tigres e é bem horrível, porque os tigres

136 POMEAU, René. La Religion de Voltaire. Op. Cit. P. 229.

137 A moralidade aqui não deve ser compreendida como sendo fruto de uma formação religiosa; a moral de cada

indivíduo deve estar conduzindo este para o bom cumprimento das leis e dos costumes de sua pátria. Lembremos que Voltaire possui uma preocupação com o bem físico e moral da sociedade, sendo que isso deve ser uma meta alcançada pelos indivíduos, pois a tolerância depende desse comportamento social onde a razão deve conduzir e orientar cada indivíduo em seus atos.

só atacam para comer, enquanto nós exterminamo-nos por parágrafos”.139 Mediante tais afirmações, reforça-se ainda mais a ideia de que a intenção aqui é de uma mudança de mentalidade, pois a mentalidade vigente naquele momento configurava ainda mais a intolerância e o fanatismo religioso.

A preocupação de Voltaire era social, ou seja, uma mudança na mentalidade vigente da época e que devia acontecer no espírito dos homens, mas para isso ele necessitava de empenho e paciência, pois a ignorância moral140 a que o povo estava submetido ainda

permanecia como um desafio a ser superado pela razão. E a razão era a consciência lenta e infalível que devia instalar-se como luz para os atos de cada indivíduo. Quando se analisam os poderes constituídos, civil e religioso do século XVIII, percebe-se que estes não possibilitavam às pessoas o uso esclarecido da razão como desejam Voltaire e o projeto iluminista.

As Igrejas, católica e protestante, como instituições erigidas para zelar pela paz e o amor, não fazem mais do que digladiarem-se em perseguições intermináveis. Na pena de Voltaire, tais Igrejas sofrem ataques constantes, assim como seus pastores e padres e, por consequência dessas más orientações de seus pastores, o povo religioso em geral. Nessa visão iluminista, nem sempre tais Igrejas cumpriam seus principais deveres na sociedade, pois ao mesmo tempo em que ostentavam seus poderes em dominar, alienavam igualmente seus súditos e fiéis. Assim, o não uso esclarecido da razão e a não liberdade religiosa dos fiéis levavam todos a cultivar a intolerância e, por consequência havia perseguições religiosas. O poder civil, por sua vez, na França, era e muito conduzido pelo pensar religioso: nota-se que, enquanto Henrique IV, na França, estabelece o Édito de Nantes, concedendo com isso uma

139 Id., ibid., cap. VI, pp. 33-34.

140 As atitudes sanguinárias e intolerantes dos religiosos sejam estes católicos ou protestantes calvinistas, do

século XVIII constituía esta ignorância moral. Era, sobretudo, um problema de conduta do homem em sociedade que precisava transformar-se. A revolução que se preparava no espírito dos homens era a luta da razão contra o fanatismo que os impedia de iluminarem-se racionalmente. Os religiosos intolerantes agiam por seus costumes bárbaros e matavam seus irmãos por tê-los como heréticos. Tais costumes produzidos pela mentalidade religiosa deveriam ser domados por uma conscientização lenta, porém infalível, cujo único instrumento fosse a razão.

liberdade parcial de culto aos protestantes, quase cem anos depois, Luís XIV revoga-o, julgando que seu poder absoluto se manteria melhor em um Estado nacional mais estável porque colocado sob uma única religião. A política de Luís XIV era fundamentada nos ideais da religião católica, ou seja, desejava-se com isso uma França “toda católica”. Uma das principais características desta política religiosa foi a sanção do Édito de Fontainebleu – à revelia do papa Inocêncio XI e da Cúria romana – que pretendia, inclusive, obrigar os protestantes a conversões forçadas, constituindo, assim, esses novos fiéis, como “católicos novos”.141

Discriminar alguém por sua forma de pensar ou perseguir com mortes aqueles que deveriam ter a liberdade de optar pela religião que bem desejasse eram atitudes absolutamente contrárias à ideia dos novos pilares da sociedade que os iluministas desejavam construir. Segundo Voltaire, a filosofia deveria ser uma resposta a tais anseios de uma sociedade nova com mudanças sociais e políticas. Ao analisar a filosofia clássica, sobretudo o interesse que esta tinha pela metafísica, ele critica-a dizendo que possuímos uma razão marcada por limites que nos impossibilita conhecer a realidade última das coisas, dos seres e da substância.

O homem é um ser que não difere muito dos outros animais, só lhe é concedido a mais o uso esclarecido da razão. Portanto, antes de ficar desejando conhecer o mistério do além, é preciso aceitar nossa frágil natureza e reconhecer os limites que ela não pode ultrapassar. É preciso se preocupar com o momento atual da existência; partir do ponto em que se está a fim de mudar a sociedade por meio do trabalho árduo sempre auxiliado pela razão. Por meio do pensamento de Voltaire, vamos encontrar esse interesse peculiar – o de uma luta por uma racionalidade presente nos atos humanos. Isso possibilitaria a dissipação da ignorância

141 Os católicos novos eram os ex-calvinistas que obrigados pela lei antiprotestante de Luís XIV se viam

forçados a converterem-se ao catolicismo, pois este pretendia impor uma religião dominante. René Pomeau faz referência a tais conversões forçadas no comentário inicial do Tratado Sobre a Tolerância, de Voltaire. Lá, colocou que o relatório diariamente apresentado para o rei não expressava na realidade o que diziam; eram muitas as conversões forçadas, porém tais conversões não possuíam solidez de fé e convicção por parte destes convertidos. As conversões eram ainda mais motivos de ódio dos protestantes para com os católicos.

presente nos atos das pessoas marcadas pelo desejo de violência, uns contra os outros, por motivos de religião. A ignorância tão mencionada durante toda essa reflexão era a falta de conhecimento, a falta de informação mesmo sobre a religião que dominava nos povos mais pobres. O poema de Voltaire La Henriade não tinha outra intenção a não ser pintar as terríveis imagens do fanatismo142. Essa mesma intenção se percebe em Voltaire no Tratado Sobre a Tolerância.

Voltaire escreve o Tratado Sobre a Tolerância, como já se disse, visando conscientizar estes pobres arrastados pelas superstições, das quais não conseguiam se livrar devido ao domínio da religião. É para o populacho e também para os burgueses e nobres que Voltaire escreve tentando fazer com que estes pudessem sensibilizar-se e usar a razão para libertarem-se de seus atos violentos. A ação incansável de Voltaire em incomodar as autoridades para que olhassem os exageros do fanatismo, nos faz acatar a afirmação de René Pomeau: “ Voltaire não era um homem de gabinete, ele tinha gosto pela ação, pelo fazer e pela pesquisa...”143.