Para 78% das serpentes estudadas, o período de permanência na quarentena variou de 90 a 120 dias (Figura 11). Esta variação ocorreu devido à impossibilidade de serem efetuadas colheitas em determinadas semanas, por indisponibilidade de material, de laboratórios ou de pessoal.
O alimento foi oferecido aos animais (Tabela 4), aproximadamente, a cada quinzena, com exceção do período entre 16 de maio a 2 de julho, durante o qual o alimento foi oferecido apenas uma vez, pois era final do outono, início do inverno, e a temperatura ambiente havia caído consideravelmente. Também nestas semanas ocorreu o maior número de ecdises, o que contribuiu para reduzir-se a ingestão. Em 2 de julho, quando havia 49 serpentes na quarentena, apenas cinco (10,2%) ingeriram o alimento oferecido. A seguir, em 16 de julho, verificou-se um aumento da ingestão, a qual, posteriormente, decresceu, o que é um fato digno de nota. O tempo médio decorrido entre cada ingestão, em 75% daquelas serpentes que não vieram a óbito durante a quarentena, variou de 20 a 40 dias (Figura 13). Cowan (1968), quando descreve os sinais do que chama de “síndrome da má adaptação”, enfatiza a recusa em alimentar-se no cativeiro (“anorexia psicogênica”) e a decorrente fragilização do organismo frente aos agentes de enfermidades. Por outro lado, sabe-se que um dos primeiros sinais de que um animal não está saudável pode ser a diminuição ou a perda do apetite.
Durante o período de quarentena, observaram-se sinais clínicos em cinco serpentes; destas, quatro apresentaram dificuldade respiratória (Quadro 3). Na serpente 50, a dificuldade respiratória já havia sido registrada na primeira colheita e, de relevante, apenas a presença de vermes adultos no lavado. Das serpentes 21 e 22, havia sido isolada
amostra em BHI, com a segunda apresentando alterações em seu hemograma.
Vieram a óbito, na quarentena, no decorrer de quase cinco meses (de 25 de abril a 14 de setembro), nove dos 51 animais deste estudo (Figura 15 e Quadro 4), três fêmeas e seis machos, correspondendo a uma mortalidade de 17,7%. O corpo da primeira serpente a vir a óbito, a de número 23, foi, erroneamente, congelado antes de realizar-se a necropsia, o que poderia trazer alterações macroscópicas e interferir na pesquisa de bactérias em amostras dos órgãos internos. Por esta razão, a necropsia não foi realizada e, inicialmente, cogitou-se excluir este indivíduo do estudo, tomando um outro em seu lugar, o que afinal resultou em um grupo de 51 animais, na primeira colheita.
O tempo de permanência nos galões, antes da primeira colheita, das serpentes 51, 48, 37 e 29 variou de 27 a 54 dias. Das serpentes 52 e 23, são conhecidos apenas os períodos decorridos do recebimento à primeira colheita (Tabela 1). Comparando-se o comprimento e o peso inicial das serpentes sobreviventes com aquelas que vieram a óbito, não foi encontrada diferença significativa entre os grupos (Tabela 3).
Na primeira colheita, não foram observados sinais clínicos em nenhum dos animais que vieram a óbito, assim como foram negativas as pesquisas de OPMV. Na pesquisa de bactérias, o animal 23 foi positivo para Pseudomonas aeruginosa (o único positivo também no lavado), e o animal 52, o único positivo para bactérias na avaliação citológica do lavado. Ambos apresentaram vermes adultos no lavado e a presença de ovos na avaliação citológica, assim como o animal 37. A serpente 61 também apresentou vermes adultos no lavado. Comparando- se as variáveis hematológicas e a proteína plasmática total das serpentes sobreviventes com aquelas que vieram a óbito, observou-se que a mediana de basófilos foi significativamente menor no último grupo (Tabela
12), embora tenha permanecido dentro dos limites da “normalidade”. Segundo Mader (2000) e Thrall et al. (2004), os basófilos de répteis, assim como os de mamíferos, parecem processar imunoglobulinas de superfície e liberar histamina por degranulação, e basofilias estariam associadas a infecções virais e parasitárias. Individualmente, observaram-se: na serpente 23, eosinofilia; na 24, azurofilia; na 29, leucopenia, com azuropenia e linfopenia, e diminuição na PPT; na 48, heterofilia, azurofilia e linfopenia; na 51, trombocitopenia e diminuição na PPT; na 52, leucocitose, com heterofilia e linfocitose; na 61, leucocitose, com azurofilia e linfocitose; e na 62, monocitose (Anexo E1). Estas observações devem ser consideradas com reservas, já que, como afirmam Mader (2000) e Thrall et al. (2004), quando da avaliação das respostas hematológicas de répteis, fatores externos como as condições ambientais, que podem intensificar ou inibir a resposta do animal à doença, não devem ser menosprezados. Ainda segundo estes autores, as respostas celulares no sangue dos répteis são menos previsíveis do que aquelas no sangue dos mamíferos e aves, endotérmicos, cujos microambientes celulares são mais estáveis. A hematologia teria mais valor como uma ferramenta para acompanhar a evolução dos pacientes répteis na doença ou na terapia.
O tempo de permanência deste grupo de animais que veio a óbito na quarentena variou de 15 a 84 dias. Os três animais dos quais a pesagem ao óbito foi realizada, o 51, 52 e 61, apresentaram redução do peso de 35%, 39% e 24%, respectivamente, em relação ao da primeira colheita (Quadro 4). As serpentes 23 e 29 não se alimentaram, em 15 e 81 dias de quarentena, e foram aquelas a apresentar sinais clínicos neste período (Quadro 3). As serpentes 24, 37, 48, 52 e 61 alimentaram-se uma vez, em 36, 56, 68, 67 e 59 dias; e as 51 e 62, duas vezes, em 63 e 84 dias, sendo que a primeira regurgitou uma vez (Anexo D).
A necropsia da serpente 23 não foi realizada, pelos motivos já citados. Na avaliação do estado geral das outras oito serpentes, em
uma observou-se magreza (no 24) e, em outras três, caquexia (nos 29, 48 e 52). Nestas, e em outras duas (nos 37 e 51) – em seis delas, portanto -, o estômago, ou o trato digestório, encontravam-se vazios. Nos pulmões, em três foram encontradas alterações (nos 24, 52 e 61), duas com a presença de vermes (nos 52 e 61), também relatada em outras duas (nos 29 e 37). A presença de vermes no pulmão já havia sido diagnosticada nas serpentes 37, 52 e 61.
Na pesquisa de OPMV verificaram-se, em dois animais, resultados positivos (Quadro 7). Da serpente 51, foi positiva, ao nested PCR, a segunda passagem da cultura celular e, das amostras da serpente 52, foram positivos o teste de hemaglutinação da segunda passagem da cultura celular e o nested PCR do macerado de pulmão.
A pesquisa de bactérias nas amostras de traquéia e pulmão (Quadro 12) revelou a presença de: Salmonella enterica subsp. diarizonae (O48:i:-) na traquéia da serpente 37, e Salmonella enterica subsp.
diarizonae (O61:c:-), na traquéia da serpente 61 (Quadro 13); Pseudomonas aeruginosa em ambos os órgãos das serpentes 24, 29 e
52, e Pseudomonas putida nos da serpente 51; e Aeromonas hydrophila naqueles das serpentes 61 e 62 (Tabela 10). Outros bacilos Gram- negativos foram isolados, significativamente, das serpentes 48, 51, 52, 61 e 62.
A recusa em alimentar-se, que pode ser decorrente de inadaptação ou doença, ou ambas, resulta na deterioração do estado geral do animal com queda da imunidade (Cowan, 1968). Neste momento, é grande a suscetibilidade do organismo aos agentes infecciosos, e o sistema respiratório, nos répteis, é um dos mais atingidos (Jacobson, 1978, Frye, 1991, Junge & Miller, 1992). Entre os agentes bacterianos, Pseudomonas aeruginosa e Aeromonas hydrophila estão comumente envolvidos nas infecções do trato respiratório (Mavridis et al., 1993b, Murray, 1996, Kolesnikovas, 1997). Os dados obtidos neste estudo são concordantes com estas informações, contidas na literatura
compulsada. Um questionamento, no entanto, surge com relação às serpentes nas quais diagnosticou-se a presença do OPMV após o óbito, em amostras de pulmão. Já teriam estes animais vindo portadores do OPMV da natureza, apesar dos exames do lavado da primeira colheita terem sido negativos? Ou a contaminação com o vírus teria ocorrido após adentrarem o cativeiro?
É interessante notar que os animais números 23 e 24 participaram da mesma colheita, permaneceram, na quarentena, em locais contíguos (as caixas eram arranjadas em ordem numérica) e, provavelmente, a limpeza de suas caixas era feita na mesma ocasião. Como as serpentes eram colocadas em uma “caixa de espera”, para que a sua própria fosse higienizada, questiona-se se, neste momento não pode ter havido o contágio da serpente 24, já que de ambas foi isolada a mesma espécie de bactéria, após o óbito. O mesmo raciocínio seria válido para os casos das serpentes 61 e 62, já que de ambas foi isolada
Aeromonas hydrophila. Os animais 51 e 52, por sua vez, ambos positivos
para o OPMV, apesar de não terem participado da mesma colheita ficavam também em caixas contíguas. Segundo Cranfield & Graczyk (1996), considera-se que o principal modo de transmissão do vírus é através do ar, com utensílios, caixas e seus conteúdos, contaminados, tendo uma possível participação. Nas amostras da primeira colheita, o vírus não havia sido detectado nestas serpentes, o que leva a pensar na hipótese de que tenha sido adquirido após a entrada na quarentena e, neste caso, a perguntar qual teria sido a fonte de infecção.
6.3 Informações da segunda colheita de amostras das serpentes