LOURENÇO FILHO Do Departamento Nacional de Educação
Não podemos desconhecer, na vida de Afrânio, as grandes atividades do cientista e do homem de letras. Elas são imensas. Poder-se-á afirmar, no entanto, que as atividades do educador lhe foram fundamentais; ou, pelo menos, que essas atividades lhe deram toda a esplêndida unidade de que se reveste, e a marca inconcebível com que esse espírito de eleição atuou na cultura brasileira, por mais de meio século.
Essencialmente, Afrânio era professor. Dos mais completos. dos mais bem dotados, dos mais apaixonados pelo ensino. Professor ele o era na cátedra, no livro, na t r i b u n a de conferen-cista, na simples conversa. Não tinha jamais o ar doutorai, nem elevava o indicador, nessa agressiva a t i t u d e magistral. que lauto conhecemos. Mais de 30 anos de ensino — grande parte em duas cátedras, ainda uma parte, em três — não lhe haviam de re tirar aquela espontaneidade e aquela simplicidade de dizer, aquela graça natural com que sabia sublinhar um dito irônico, disfarçar a c r í t i c a pôr vezes contundente, ou tornar t r i v i a i s os lances de erudição, a mais profunda. Trinta anos de trabalho, para outros, áspero e esterilizante, não lhe bastariam para consumir as qualidades de admirável exposição, nem para imprimir-lhe as deformações profissionais de que a prática do e n s i n o é tão f é r t i l . O mestre nele deveria resistir ao magistério. O artista, às fadigas da obra,
Foi na qualidade de professor que mais de perto o conhecemos e com ele convivemos, cerca de um lustro, dia a dia. Nesse prazo — e os registros do I n s t i t u t o de Educação podem atestá-lo - não deu uma só falta, nunca chegou um minuto atrazado, nunca despediu a classe um instante antes da hora regulamentar Ao contrário, por vezes, o professor da aula seguinte deveria reclamar, pois que os alunos seguiam Afrânio,
pelo corredor, em animadas perguntas sobre a matéria explanada ou em comentários aos problemas propostos.
O encanto pessoal nele não se modificava ao entrar na sala de aulas. Em Afrânio havia o que podemos chamar de "presença total", expressão plena de uma personalidade, força atuante, mas persuasiva, que aos circunstantes se dava sem reservas nem cálculo. Inteligência, sensibilidade, ação — tudo em perfeita sinergia, tudo em amorável equilíbrio, predispondo ao trato do espírito c ao comércio de idéias. Na maioria das pessoas, essas formas de vida se acusam como em planos diferentes; ora, é a inteligência, aguda, sim. mas por isso cortante; ora, a sensibilidade, derramada e, por isso, enfadonha; ora, a ação, intempestiva, e que, por isso, nos põe de sobreaviso. Em Afrânio, qoie seria maior?... Não o saberiam dizer mesmo os que mais de perto com ele privassem, e que, junto dele, não sentiam nenhuma fadiga, emoção perturbadora ou sobressalto. Apenas o encanto de quem apreciasse atraente mas calma paisagem, a que a marcha do sol, a cada instante, mostrasse novos e insuspeitáveis aspectos, por contraste de luz e de sombras.. "Há na pedagogia (escreveu ele mesmo, no "Ensinar a Ensinar") uns galhos mortos; são os velhos mestres hiráticos, distantes, ("'sabe com que está falando?") que tornam fria e até repulsiva a ciência que comunicam. Fica o mestre comuni-cativo, que conversa antes que dogmatiza, que permite a dúvida, que explica (explicar é desdobrar...) que corrige, que aprende às vezes do a lu n o . . . numa simpatia de afeito, numa s in to n ia de idéias, que tornam o ensino um prazer. Foi pensando em tais mestres e discípulos, em tal ensino e aprendizagem, que Michelet disse esta frase de ouro: "A educação é uma amizade..." Assim era Afrânio, retratado por ele mesmo.
Os seus textos didáticos, menos corridos que entrecorta-dos de parêntesis, de notas, de subentendidos — como acabais de ver — o que lhe empresta alguns pontos a impressão de estilo telegráfico, com pontuação eminentemente pessoal, dão idéia da riqueza de aspectos de suas aulas. São textos para serem lidos em voz alta. Mas, dão apenas uma idéia, é claro, pois, que lhe falta aquela "presença total", emanada do mestre, com que as idéias e as observações se compunham, faziam pensar, faziam sorrir e encontravam, afinal, ninho cálido no espírito e no coração dos alunos.
Que tais atributos humanos pudessem ser transpostos para as tarefas e encargos da administração escolar era outro segredo dele. Afrânio dava a impressão, pelo menos na época em que o conhecemos, não de dirigir, mas de ser dirigido. NÃO ordenava nunca; pedia opiniões, pedia conselhos, levemente
sugeria. ou rogava, o que s u b i u fazer com graça e malícia. Aos que não o conhecessem proximamente, deixava a idéia de incerteza, consigo mesmo, de quase lisonja, com os outros. Enganavam-se, no entanto. Sabia ele sempre muito bem o que queria, e como queria. Todos o levavam para onde ele quisesse e na formal pela qual ele q u i s e s s e . . . Isso explica os seus assinalados serviços na direção da Escola Normal, em 1915, onde criou uma escola modelo e, pela primeira vez, ao que saibamos, fez realizar no Brasil uma demonstração de d i d á t i c a experimental, para verificação de processos da leitura. Explica as transformações que operou, sem grandes choques, na Chefia da Instrução Municipal, a que logo foi chamado. Esclarece ainda a grande obra que realizou, com Anísio Teixeira, da Universidade do Distrito Federal, em 1935.
Do professor ao administrador escolar vai largo passo. Reitor e professor da Universidade, ao mesmo tempo, ele continuava, porém, a ser o modelo dos professores, não misturando jamais as duas funções. Sempre n a t u r a l , sempre bem disposto, com aquela pontinha de jovialidade à flor dos lábios e nos olhos sempre brilhantes, em uma e outra das funções. No entanto, que firmeza de convicções e que coerência de propósitos! O ensino continuou a ser para ele o mesmo labor apaixonado: pontualidade, rigor e e x a t i d ã o nas t a r e f a s . A administração era em parte uma e x t e n s ã o dessa a t i t u d e , mas só em parle. "A educação é uma amizade": a administração, na maioria dos casos, inimizade, mas para ele, foi ainda mútua confiança e estima.
Se há distância entre o mestre e o administrador, maior a i n d a há entre o educador de oficio, nesses dois tipos represen-lados. e o educacionista. Aquele maneja os fatos, as realidades imperiosas, as necessidades presentes. O educacionista lida com símbolos, cifras e palavras, dados, impressões, documentos, para interpretá-los, servindo à verdade no passado, ou para i n f l u i r com ela no f u t u r o . E, por isso que lida assim com símbolos, o educacionista por vezes simboliza demais, criando seres de razão, fugindo à realidade. Afrânio foi também de nossos grandes educacionistas, pesquisador da história, da educação, animador de debates pedagógicos, propugnador de reformas, um pouco político da' educação, um pouco sociólogo, um pouco filósofo. Aí, cm tudo expandia a imensa cultura c, por todas essas províncias, caminhava seguro. Em tudo embora sempre levemente irônico, era sereno. Menos, é certo, quando verberava o descaso dos poderes públicos pela educação, como se vê do causticante discurso com que justificou emendas à reforma constitucional de 1925. Com que mágua profunda, con-
fessando-se, antes, um cético, dizia ele estas palavras: "Mas o assunto do meu discurso, senhor Presidente, é dos mofinos.. ." E com que mágua comentava, depois: "O Brasil é eterno, pode esperar... Até lá..."
Nos três livros intencionalmente escritos sobre educação: "Ensinar a Ensinar", "História da Educação" e "Educação Feminina", e ainda, na maior parte de "Marta e Maria", podem-se colher pensamentos sobre filosofia educacional, sobre psicologia, sociologia da educação, administração escolar, política educacional, didática. Em tudo há perfeita coerência de princípios, desde que se compreenda a tinha progressiva das idéias desses escritos, preparados no decurso de mais de vinte e cinco anos. Em "Ensinar a Ensinar", cuja primeira edição é de 1923, Afrânio insiste nas raízes biológicas da educação. Na "História da Educação , que se publicou em 1933, diz, na introdução, que a "educação é a civilização em marcha", como é também a "socioplástica" e "os consertos e adaptações do indivíduo aberrante à sociedade". Nas páginas finais do mesmo livro, já agora na segunda edição, afirma que "a educação é a adaptação da natureza à sociedade", "a aquisição de hábitos sociais', "a interação organizada e dirigida". "Educar é conviver bem, desde cedo, para bem conviver mais tarde".
De tudo lira uma consequência: "A educação é a saúde da sociedade". E logo a aplica, de modo verdadeiro, ao caso nacional: "Desde muito venho dizendo c redizendo, que outros o digam e redigam — todos os males do Brasil têm no âmago no intimo da estrutura encoberta, ou indiscretamente, um vício de educação. Abusos do poder» transtornos econômicos, erros financeiros, rebeldia, insubmissáo, anarquia mental e moral,
tudo é, simplesmente, e principalmente,
um vicio de educação",
Tais idéias, aliás, vêm mais explanadas nos estudos de "Maria e Maria". Mas virão apenas daí?... Como e por que essa firme convicção sociológica, num espírito de formação médica, naturalmente predisposto, portanto, à indagação individual e biológica?. . . Como e por que, tendo iniciado a sua carreira pela psiquiatria, Afrânio que poderia ler sido, se o quisesse, um êmulo de Saneie de Santis. de Binei, de Decroly, mais se veio a preocupar com os aspectos sociais da educação?...
Não sabemos se nos aventuraremos muito em dizer que a seqüência dos lemas de seus próprios trabalhos nos poderá explicá-lo. A psiquiatria e a criminologia, nos fins do século passado e início deste apresentavam profunda reforma em que Afrânio colaborou. Encarando a um tempo a loucura e o crime, em seu primeiro trabalho, foi levado a estudar, logo depois, as formas da parábola, cujo conceito claro (na afirmação do
próprio Kraepelin) ajudou a firmar. Isso lhe mostraria a importância do ajustamento social, e de suas formas aberrantes, nos desvios da educação. Pelo caminho da higiene, e das tenta-tivas da terapêutica, encontrava ele a educação, e a educação na sua forma mais ampla, a de processo social. Muito importa a criança, é certo, e Afrânio o salienta, quando mostra a necessidade de uma escola que a tenha por centro. Centro da escola, não porém, centro da educação, esta, agora e sempre, "adaptação do homem aherrante", "saúde da sociedade", "so- cioplástica", enfim. Este termo de que gostava de usar e, às vezes mesmo de abusar, define-lhe profunda convicção.
l)ir-se-á que isso explica o educacionista, o propugnador de amplas reformas, o político da educação, não porém, o professor, a ação militante na cátedra, em que tanto se compra-zia. E é a pura verdade. Por que ao magistério sempre se devotou Afrânio. por que nele se afirmava, fazendo resplandecer toda a sua inigualável personalidade? Porque, afagado das musas, senhor das ciências e das artes — "artes maiores" — Afrânio se sentia bem em ser mestre-escola, em ensinar pacientemente, em explicar, em conduzir uma classe, em estar atento os horários e provas — "artes menores"?
Perguntamos-lhe, certo dia, numa de nossas costumeiras palestras no Instituto de Educação. "O interesse pelo ensino, pela escola, disse- me ele, veio de meu pai, que, por si mesmo. no interior da Bahia, fez a sua cultura". E depois de uma pausa, em que apenas lhe transpareceu no rosto leve expressão melancólica: "Mas não foi só. Houve a minha primeira mestra. Chamou-se Maria da Purificação e merecia esse nome pela doçura e pela pureza da inteligência. Ela ensinou-me a ser mestre.. ."
Em discurso de paraninfado, pouco depois, Afrânio evocava essa figura tão cara, dizendo, agora, em público: "A mim nunca me esqueceu minha primeira mestra, a cujo suave e terno influxo, parti resoluto para todas as conquistas da inteligência. Por um carinho de seus olhos aprovadores dei todas as minhas energias por aprender. Por uma palavra de confiança à minha aplicação e ao meu procedimento, dei-me a honra de fazer um caráter, a par dessa confiança. Sua mão, posta em minha cabeça — sinto-a tantas vezes nesse mais de meio século que venho vivendo, era uma consagração tão íntima, que fui menino prodígio na escola, por causa dela. Nenhuma coroa de rei, nenhuma capela de loiro, valeria esse afago de minha mestra. Entre as santas mulheres de minha vida, a minha professora, foi a que amei de um amor mais puro e desinteressado... Não tenho remorsos, tudo o que pude de força e tra-
balho lhe dei, correspondendo a seu amor. Depois de meus pais, foi a essa mestra inicial, e aos outros que a continuaram, que devo o pouco que sou".
De uma ou de outra forma — (que sabemos nós das influencias reais que sobre nós tenham atuado?) — Afrânio teve a dar unidade a toda a sua obra esse amor pelo ensino e essa visão social da educação. Dessa gigantesca obra, já em 1919, escrevia Medeiros e Albuquerque que não se diria a de um so homem, mas a de lodo um cenáculo de cientistas e homens de letras. E ela tem perfeita unidade porque, em tudo e por tudo, nela se vê expressa, ou se sente, o impulso de educar, de servir à melhoria da cultura e do entendimento entre os homens.
Para repelir conceitos de outro inesquecível companheiro desaparecido — Venâncio Filho — Afrânio "educou as crianças por seus livros didáticos c diretamente na chefia da Instrução Municipal; educou a adolescência pelo sonho e ficção de seus. romances; educou enfim, a médicos, advogados, engenheiros, por seus estudos especializados; c a adultos, em geral, pelos livros de ensaio, variados e valiosos".
Afrânio foi educador por índole, por identificação com a sua primeira mestra, por observação social e convicção científica. No verso de Mallarmé, que tanto gostava de evocar, "Tout existe polir aboulir à un livre", não via a vaidade de autor, nele tão plenamente satisfeita, mas o desejo de comunicação, de dar-se em espírito e sentimento, de tender à comunhão d( almas.
A educação para ele era amizade, a compreensão e a estima. Era a saúde da sociedade, o bem e o útil. Mas, com isso e acima disso, era também beleza — a graça e a harmonia de sua personalidade, que a outras se manifestava e em outras passava a i n f l u i r .
Por isso ousamos afirmar que a unidade subjacente e toda a sua grande obra advinha do sentido educativo que o anima-va. Nela se transfundiam a argúcia do c i e n t i s t a , os ímpetos do artista, a coragem e a pertinácia do cidadão. Afrânio foi Afrânio, tal como agora o vemos, no esplendor da imortalida-de, porque condescendeu em exercer, de forma a mais humana, esta humilde tarefa, que ele tanto exaltou: a de ensinar a educar.