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Um outro caso, quase contemporâneo, é o de Amélia da Natividade Rodrigues, de vinte e dois anos (de Vilar Chão, concelho de Alfandega da Fé), a quem a Virgem aparece em 25 de Maio de 1946. Mais que o fenómeno anterior, este acontece já num tempo em que a comunicação social escrita estava vulgarizada permitindo, assim, o acesso a dados menos transformados.

É a vidente uma doente, acamada há cinco anos sofrendo de uma doença terminal que, inclusivamente, a tinha já levado a receber a extrema-unção (Anastácio, 1986:29). A descrição feita por uma testemunha direta diz-nos, entre outras coisas, que “a doença lhe fazia engrossar muito a perna direita e o braço esquerdo”. Mais diz ainda, “na boca uma chaga horrível de aspeto canceroso, supurava incessantemente e o pus nauseabundo chegava a apanhar-lhe a boca” (Ilharco, 1971:143).

O pároco, há-de exigir à mesma que peça como sinal divino a cura do seu mal: o que, segundo Anastácio (1986), foi acontecendo gradualmente e que portanto, poderemos adivinhar, não deverá ter constituído, para o dito, uma prova muito evidente.

Alguns dias depois caem flores sob a cama da Amélia, lançadas por um anjo! Flores, essas, que consta, se mantiveram viçosas e perfumadas durante meses86 e que, analisadas na Faculdade de Ciências de Coimbra, serão classificadas, diz-se, como “minúsculas orquídeas desconhecidas na nossa flora87”.

A vidente vê e conversa com Nossa Senhora com frequência. E como é habitual nestes casos, a mística irá ser levada a visitar o Céu. Mas, aqui, o pacote de visitas irá abarcar também o Purgatório e o Inferno, embora se não sabendo bem se se trataram de visitas em corpo ou apenas a visões. Declara que viu, no Céu o Senhor com uma cruz nas

85 www.agencia.ecclesia.pt/cgi-bin/noticia.pl?&id=8339. Acesso em: 19 agosto 2012.

86 O jornalista do Comércio do Porto, Jaime Ferreira, diz que cada vizinho levou uma flor e que as

mesmas, quase dois meses depois, ainda estavam frescas!

93 mãos e que foi a sombra da mesma que, projetando-se na sua testa, aí marcou, em chaga, a mesma configuração88.

As aparições sucedem-se. A casa passa a ser intensamente frequentada. Tais prodígios atraem a atenção tanto de curiosos e crentes como da hierarquia católica e da imprensa nacional. O jornalista do Século Ilustrado comentará: “experiências probatórias dos sobrenaturais prodígios operados na Amélia, radicaram nos seus observadores a convicção de que a Nossa Senhora, na verdade, elegera mais uma portuguesa entre os dignos da sua escolha para ser intermediária na Terra” (in O Século Ilustrado de 14 de Dezembro de 1946).

Opinião idêntica exprime o Comércio do Porto: “ouvindo opiniões sobre este caso, ficamos com a impressão de que a maioria das pessoas se inclina fortemente para a possibilidade da Amélia ser miraculada, estigmatizada e vidente, nimbada por um halo divino devido à interceção de Nossa Senhora que ela diz aparecer-lhe e falar-lhe” (in O

Comércio do Porto, Outubro de 1946).

A 11 de Outubro dezenas de milhares de pessoas (segundo testemunhos jornalísticos trinta ou quarenta mil pessoas) encontram-se aí concentradas e “declaram ter visto um importante mistério do sol, formando um disco azul e rodando com maravilhosos esplendores” (Anastácio, 1986:30).

O Jornal de Notícias e o Comércio do Porto dão conta de tal prodígio. O articulista deste último, refere que, em Vilar Chão (exceto uma ou duas pessoas) “todos dizem ter observado o sol em rotação a largar chispas e luzes e a transformar-se nas mais variadas cores: no rosto da maioria daquela gente notava-se algo de perturbação, de espanto, de místico. O sol, que não cansava a vista, transmitiu emoção e convenceu tratar-se de um espetáculo sobrenatural e nunca visto” (Ilharco, 1971:143).

Contudo a oposição das autoridades civis e religiosas há-de condenar tais fenómenos e, em 1951, a vidente irá ser objeto de um processo de desacreditação e acusada de provocar, fraudulentamente, os estigmas89. O Diário de Coimbra lança alguma luz sobre este processo que deve ter sido não só penoso como algo tortuoso. “Ultimamente

88 Tal terá decorrido da exigência do Padre Humberto Flores, ao pedir à vidente um sinal da

veracidade das aparições. Então, a 14 de Julho, a vidente terá confidenciado ao padre que a Virgem lhe faria aparecer uma cruz na testa, o que sucederia dois dias depois.

89 Levada para o Hospital da Universidade de Coimbra, será sujeita a exames que, segundo o

Diário de Coimbra de 17 de Abril de 1951, a virão a revelar como uma “embusteira de grande categoria”, considerando o mesmo que os supostos milagres nunca aconteceram.

94 certas pessoas, do concelho de Alfândega da Fé, resolveram trazê-la para o Hospital da Universidade a fim de ser submetida a cuidadosa observação90.”

Através dos filtros das comunicações oficiais (ou oficiosas) e, inclusive do periódico que diligentemente descreve a desmistificação, persistem algumas considerações que revelam algo do que terá sido a estadia, aí, da vidente: “isolada (...) sem puder receber visitas” (leia-se, sozinha e rodeada de estranhos hostis), sujeita a “rigorosos exames clínicos” e submetida a duas enfermeiras com a função de “vigiar a criatura91!”

Daqui resultou, dir-se-á naturalmente, o desacreditar da dita, tanto quanto se sabe uma mística ingénua, frágil e inculta. Foi “recambiada para terra da sua nacionalidade”, diz o periódico, acompanhada de uma “enfermeira monitora” cuja função não é difícil perceber. A partir daí é o silêncio sobre a continuação ou não (e por quanto tempo) das práticas devocionais que, tudo o indica, tinham adquirido dimensão considerável.

Sabe-se contudo que, apenas dez anos depois, o Bispo de Leiria oferecerá uma imagem da Imaculada Conceição ao santuário entretanto em construção na vizinha freguesia de Cerejais92; grandioso centro mariano atualmente dotado de infraestruturas

diversas, “pouco compatíveis com a modéstia do lugar bem como com a inexistência de

um qualquer fator taumatúrgico estimulador” (Lopes, 2009b:160). Provavelmente, não foi por acaso!

Vidente mulher, doente, adulta, prodígios diversos que se sucedem durante anos e que se interligam com a cura ou curas milagrosas da mesma e com frequentes estigmatizações. Aparições, quedas de flores, chagas, prodígios cósmicos e visitas guiadas

90 Verifica-se, aqui, outra incongruência etária: Ilharco (1971), Anastácio (1986) e o Jornalista do

Século Ilustrado (1946) dizem que Amélia tem, em 1946, vinte e dois/vinte e três anos o que implicaria quem em 1951 tivesse vinte e sete/vinte e oito anos. Ora o Diário de Coimbra (2 de Fevereiro de 1952) ao relatar o seu internamento diz-nos que a mesma “é solteira e tem 22 anos”.

91 É importante dizer-se que, há sessenta anos, o poder das autoridades civis e religiosas e até dos

notáveis locais (impondo-se pelo prestígio social e ligações àquelas) era substancialmente maior que hoje. As pessoas do povo não tinham, na sua grande maioria (no que respeitava às questões legais exteriores à sua comunidade), consciência sequer dos seus direitos, já de si escassos. Não se sabe quais as consequências destes exames numa pessoa cuja vulnerabilidade psíquica era evidente. Diz-se, apenas, que apresentou sinais de “inquietação”, “nervosismo” e até de “cólera”. É provável que a sua vontade tenha sido quebrada antes de ser “recambiada para a terra da sua naturalidade” acompanhada, ainda, de uma “enfermeira”; leia-se controladora.

Não admira, assim, a sujeição da vidente a estas indagações, que lhe devem ter parecido uma espécie de antecâmara do inferno. Não admira a sua irradiação tutorada para Bragança; entenda-se, para longe dos devotos que com ela conviviam e nela acreditavam.

92 Algumas das construções aí existentes apresentam a data de 1961; concluídas, assim, nove anos

95 ao Céu e ao Inferno e, aqui, igualmente, ao Purgatório. Situações que encontraremos também, na Ladeira do Pinheiro.

Contudo, se esta última, como iremos ver, há-de (contra os poderes instituídos) afirmar a sua sobrevivência, em Vilar Chão nada resta hoje de um fenómeno relativamente recente e que, ainda há pouco mais de cinco décadas, se tinha tornado num dos mais importantes focos de atração taumatúrgica do norte português. Uma vidente mais nova, frágil, enferma, uma localização mais remota e um tempo que não permitia ainda realizar parcerias com outras igrejas, traçou assim o destino das aparições nesta freguesia rural do concelho de Alfândega da Fé.