2 Methods
2.3 Measures
Como vimos, os dois últimos séculos incrementaram um determinado tipo de manifestações hierofânicas que persistiu até finais do século XX. Sintetizemo-lo: aparições de Jesus e cada vez mais da Virgem (associadas, ou não, a fenómenos místicos complementares), interpretadas por crianças e adolescentes (ainda, e sempre, especialmente femininas), vivendo em ambientes rurais e remontando, de forma evidente, a uma causalidade frequentemente escatológica.
As mudanças sociais e de valores gerarão, naturalmente, numerosos avisos divinos, face aos desviantes caminhos trilhados pelos Homens. Incremento da vida urbana, liberalidade de costumes, perceção de uma realidade universal nem sempre conforme os preceitos cristãos, mudanças de valores morais e éticos e dessacralização da sociedade, tornar-se-ão, aos olhos de muitos, dolorosos e intoleráveis.
Uma globalidade em desenvolvimento permitirá conhecer melhor um mundo para lá dos limites estritos de cada aldeia ou cidade e visualizar, assim, uma situação mundial bem diferente do microcosmos local, cristão e ocidental. O mundo parece assim, caminhar para o abismo! As cidades surgem como um antro de pecado, onde, como dizia a conhecida cantiga popular, “a maldade campeia!”
A reação chocada do crente fá-lo olhar para o passado com particular saudade, e a procurar em rústicos e esquecidos meios sociais, quase imutáveis (logo menos
50 atingidos pela mácula corruptora) uma secular matriz de valores cristãos, pura e genuína e, de alguma forma, redentora.
A divindade procurará, assim, os indivíduos mais ingénuos e incorruptos, salvaguardados do vírus mundano e com eles irá comunicar em episódios de vidência, desencadeados pela necessidade de combater os tais pecados do mundo e prevenir a esperada vingança de uma divindade sempre desiludida com os Homens e farta de esperar pelo seu, sempre adiado, arrependimento! Vingança anunciada, expressa numa destruição parcial ou total, relativa ou absoluta, mas sempre catastrófica.
Assim, grupos sociais fragilizados (ou sentindo-se abandonados), tendem a gerar os seus próprios rituais, estabelecendo atalhos na relação com Deus. Fracos ou vulneráveis, revelam a necessidade de um poder ausente, podendo descobrir esse poder em entidades
que participam dos seus rituais. [Poder necessário] “que engloba uma parte de medo num
universo mal explicado” (Hatzfeld, 1993:202), logo estranho e temeroso.
Os tempos modernos acarretarão um aumento, ainda maior, desta inquietante globalidade universal. Outras religiões competirão pela adesão dos crentes, enquanto os místicos passarão a interiorizar perspectivas sociais e culturais mais amplas e alargadas. Manter-se-ão as motivações desagravatórias, fomentadas por mudanças sociais e culturais cada vez mais rápidas, mas ver-se-ão emergir novas preocupações (conflitos bélicos e posições ideológicas) e, no contexto de um acesso mais fácil e habitual a dados hagiológicos, multiplicar-se-ão, igualmente, as personagens. A personalidade dos sujeitos (místicos, alucinados ou simples visionários) passará a ser embebida de contextos doutrinários a que os seus congéneres anteriores não tinham tido acesso.
Nesta tendência globalizante, os santuários, saídos há mais ou menos tempo dos escassos fenómenos clericalmente reconhecidos, adquirirão contornos potencialmente universalizantes30. Um novo tipo de âmbito cultual se virá a implementar. O incremento do marianismo por diversas razões de globalismo e institucionalização, virá a criar cultos como o de Fátima (o mesmo se poderá dizer de Lourdes, La Salette, Aparecida ou Guadalupe) em que as respetivas imagens constituem simples duplicados da imagem
30 Universalidade que tende a levar ao desaparecimento dos respetivos cultos comunitários. E,
concomitantemente, de uma moral comunitária que lhe era inerente. De uma forma mais lenta, ao esbatimento dos cultos intercomunitários que as romarias regionais corporizam.
51 padrão aí sediada; quanto muito veículos mais próximos para chegar a ela. Constituem simples réplicas e não, como acontecia anteriormente com os santos e as diversas Nossas
Senhoras, entidades específicas portadoras de particularidades cultuais e devocionais próprias.
- Porque o universalismo tornou o local de culto conhecido em todo o mundo e conferiu-lhe uma dimensão focal bem definida.
- Porque a institucionalização lhe confere uma configuração/padrão homogénea (pouco diferenciada) e a impulsiona como imagem iconográfica oficial da Senhora de Fátima.
- E ainda (e talvez, principalmente) porque a importância cultual do Santuário de Fátima (hoje altar do mundo católico), tanto na abrangência como na intensidade, esvazia naturalmente de importância outros focos marianos como, aliás, tem esvaziado outros centros peregrinacionais um pouco por todo o país: mais intensa e, compreensivelmente, no centro do mesmo.
É o globalismo moderno aplicado ao sagrado devocional.
Universalismos mediáticos31 irão permitir fundir os antigos místicos, estáticos,
videntes e confidentes, numa complexa matriz heterogénea, já visível séculos atrás, mas agora assente em personagens carismáticas, dotadas da consciência do seu poder enquanto líderes religiosos, dispostos a lançar mão de todas e mais algumas estratégias32 para obter da Igreja a ambicionada aprovação.
Aprovação que, se frustrada, pode dar origem a cismas e à criação de novas seitas. Ou então, sem assumir roturas, desenvolver percursos rituais próprios e autonómicos. Mesmo que o caminho tenha que ser percorrido contra as hostis (ou relutantes) religiões instituídas.
31 Onde é possível divulgar ideias e doutrinas, por meios anteriormente não disponíveis. Uma
inequívoca, embora relutante, liberdade de culto, permite a sua afirmação cultual e pode gerar repúdios diversos face a tardias estigmatizações (afinal, sempre presentes), entre modelos oficiais e populares de entender a religiosidade. Outras formações e autoformações culturais permitem ao místico organizar-se administrativamente (mesmo à revelia da organização canónica) de forma mais eficaz e, a tirar partido inclusive, dos direitos legais que assistem a organizações do género.
32 Aliás, as novas condições da vida contemporânea, que subtraem muitos místicos à autoridade
eclesiástica, permitem igualmente prolongar a autonomia dos fenómenos que, em tempos idos, se desenvolviam de forma controlada.
52 CAPÍTULO 3
- VIDÊNCIA E MISTICISMO
Falámos, já, da necessidade de profetas nos tempos modernos. Da sua função alertadora e catalisadora da vontade divina. Dos profetas bíblicos da antiguidade judaica herdou o cristianismo grande parte do seu messianismo, reconvertido depois em configurações proféticas mais ou menos populares ou canónicas. Mas porquê, então, o judaísmo elevou a figura do profeta a uma dimensão messiânica?
Porque, aí, Deus era não só único e omnipotente, como ainda um Deus nacional; entenda-se o Deus de uma nação (e só dela) que a si mesma se denominava “povo escolhido”. Deste modo, a salvação tornara-se um desígnio étnico33, refletindo-se no
comportamento do povo e, a necessária punição face aos desvios (trazendo consigo, fome, humilhação, apostasia e servidão), condição imprescindível à catarse nacional, que pretendia preparar os homens para o inexorável fim dos tempos.
Daí a necessidade de personagens que, periodicamente, pudessem coagir os hebreus a regressar ao caminho da obediência tão facilmente esquecido por aquele “povo de cerviz dura!”
Ora, o Deus cristão, embora constituindo uma divindade universal, é sujeito a um entendimento nacional que possui por detrás hábitos destes (bíblicos ou não) de milénios. Daí, a razão de, em determinados momentos, as pessoas tenderem a encarar as preocupações divinas como dirigidas (implícita ou explicitamente) a uma determinada nação: a sua34! Daí as nações e os estados, tenderem a colocar-se sob a proteção de divindades cristãs: cristológicas ou não. A própria Virgem Maria, pelas suas condições especiais de intercessão, tem sido, de há alguns séculos a esta parte, entidade privilegiada desses mesmos desideratos.
E nem sequer a evidente incongruência que seria a Virgem (ou outra divindade afim) poder favorecer especialmente um país cristão em detrimento (quando não em oposição) a um outro, desmobiliza tal pretensão. De facto, subsiste sempre a esperança de que as nossas preces sejam mais sinceras, as nossas dádivas melhor recebidas, as nossas
33 Que na tradição judaica atingiu o número preciso e simbólico (obviamente) de “144.000”
indivíduos. Necessariamente judeus. Necessariamente “justos”.
53 necessidades melhor valorizadas. E já agora (como emerge, quase sempre, destes acontecimentos), que a dita divindade tenha uma predileção especial por nós!
Pois, quando se é escolhido, adquirem-se não só as correspondentes responsabilidades, mas, igualmente, privilégios (Lopes, 2009b). Afinal, tanto com os deuses como com os homens, a falar é que a gente se entende!
As intervenções divinas, que as aparições e prodígios afins configuram através dos tempos, hão-de, assim (pese embora o universalismo enquadrador), relacionarem-se preferencialmente com problemáticas nacionais. A universalização das ideias e preocupações, que as últimas décadas irão fomentar, vão porém, gradual e crescentemente, fazer emergir preocupações mais alargadas (como veremos adiante) multinacionais e universais.
Hoje em dia, pode dizer-se que os profetas campeiam ainda, com o sobrenatural reivindicando contactos frequentes (quantas vezes quotidianos), mas os mesmos estão especialmente adstritos a seitas cristológicas modernas que, movimentando-se cada vez mais num agressivo mercado de religiões, permitem a afirmação de líderes igualmente carismáticos, mais ou menos espontâneos, com implícitas pretensões políticas e sociais.
Afinal, a separação entre os poderes seculares e religiosos, bem como a respeitabilidade social das religiões tradicionais (pouco propensa a agitações e propagandas), torna, aqui, tais pretensões, convenhamos, bem mais difíceis.
Mais difíceis! Não necessariamente, impossíveis! Até porque, de uma forma ou de outra, místicos e visionários, participam sempre de características premonitórias e adivinhatórias, hoje como ontem, desejo perene e inconfessado.
Hoje como ontem, a Igreja tem de lidar com candidatos a santos, vivos e mortos. Personagens peculiares, quase sempre extáticos em maior ou menor grau, reivindicando vivências de santidade que, esta, tenta depois (ou não) enquadrar em modelos de agir e de viver, vistos como adequados e modelares.
“Examina as mensagens transmitidas pelos videntes e a vida dos extáticos. Retêm o que é conforme à fé e à moral evangélica. Tal é o sentido dos processos de beatificação. O
54 fenómeno miraculoso, em si mesmo, não é retido35 a não ser como um sinal” (Guitton,
2000:47).
Sinal, contudo, indispensável! Principalmente, enquanto catalisador, na Terra, do percurso dos Homens para o Céu.
3.1 ÊXTASES
Entendido como ato místico de união com Deus, o êxtase existe em todas as religiões36. Constitui, contudo, uma ação particularmente marcante na religiosidade cristã,
nomeadamente quando exacerbada, podendo ser acompanhado de manifestações chamadas estigmas (feridas que reproduzem as chagas da paixão de Cristo), bem como de bilocações, insensibilidades, catalepsias e diversas manifestações proféticas. Porquê então, poder-se-á perguntar, particularmente cristã?
Devido, essencialmente, a quatro tipos de razões:
O cristianismo é uma religião revelada. Assente numa filosofia de vida, transmitida por Deus, como condição única para alcançar a bem-aventurança eterna.
O cristianismo é uma religião soteriológica. Concede a salvação a quem seguir o respetivo modelo doutrinário, consubstanciador de uma vivência de acordo com os cânones.
O cristianismo é uma religião escatológica e apocalíptica. Possui uma dimensão entrópica, tendendo o mundo para uma destruição catastrófica, que apenas a oração e o sacrifício podem obstar ou, pelo menos, adiar.
35 Aliás, o milagre constitui um fenómeno sempre incerto. Poder-se-á dizer que o mesmo
corresponde, em última instância, à expressão visível de uma erupção do sagrado num mundo profano ou, visto no contexto da religiosidade cristã, àquilo que resulta da ação de Deus “em descontinuidade com a ordem natural das coisas” (Guimarães, 1984:28).
Mas se os cristãos acreditam igualmente numa poderosa entidade maléfica (negativa, se quisermos), capaz, igualmente, de gerar prodígios (mais ainda porque, sendo o mestre das ilusões, tende a iludir e a confundir os Homens), como, então, os distinguir?
Segundo Santa Teresa (citada em Guimarães, 1984:28), as revelações que “sons de Dios, proceden siempre en alma muchas virtudes, assi para el bien de quen las recibe, como para la salud de otros muchos”. Poder-se-á dizer, então, que as ações são divinas se protagonizadas por pessoas virtuosas e destinadas ao bem! Contudo, o bem que eventualmente provocam, dificilmente poderá ser considerado critério absoluto: ou não seja o mesmo, muitas vezes, ambíguo, pouco evidente, desfasado no tempo e, afinal, suscetível de ser, também ele, fruto de demoníacas ilusões. Restam os atributos de virtudes, que tornam os místicos em verdadeiros santos. A não ser, é claro, que também aí chegue a ilusão demoníaca.
36 Nas religiões orientais o objetivo não é Deus, mas o nirvana. Contudo, todas elas pretendem
participar da harmonia divina, fundir-se com ela, procurando atingir a simbiose mística com a deidade ou com o estado de iluminação, não tão diferentes assim. Abandono da mundanidade, interiorização, êxtase, meditação, oração, etc. No Ocidente, tal objetivo possui, como dissemos, um carácter antropomórfico. Logo tende a atingir, mais facilmente, contornos de corporalidade.
55 O cristianismo é uma religião militante. A salvação é individual mas imbrica-se com a salvação coletiva. O mundo está ameaçado e só a conversão dos pecadores (ateus e heréticos incluídos) o podem salvar.
Psicólogos (James, 1906; Jung, 1939; Freinet, 1976) e teólogos (Underhill, 1955; Guitton, 2000) concordam que existem êxtases de vários tipos e, inclusivamente estádios; níveis, se preferirmos. “Os êxtases repousantes”, por exemplo, ligados ao desprendimento, ao silêncio e à concentração, levam ao vazio, que é a essência” (Guitton, 2000:336).
O Bhagavad-gitá, diz-nos que, nestes casos, o movimento tumultuoso do pensamento (solicitado pelos sentidos e pelas recordações) deve parar. Quando o estado de vazio é obtido (com a ajuda de certas posições corporais e a repetição de fórmulas oratórias como os mantras) então a transcendentalidade da alma humana passa a dominar. Invade-a e ilumina-a! Exige, assim, uma preparação mental, afinal não tão diferente daquilo que acontece com os cristãos. Orações monótonas e recitações de terços, conduzem ao afrouxamento do pensamento racional e à impregnação pelo transcendente irracional. Da oração, passa-se à contemplação e, daí, ao abandono à vontade da personagem transcendental; Deus, se quisermos!
De uma forma naturalmente prosaica, poder-se-á dizer que o abandono oriental é dirigido à identificação e fusão com o ovo cósmico de que cada um é uma partícula e pelo conhecimento (iluminação) aí pode ascender, enquanto o ocidental é dirigido a uma divindade, feita amor e bondade, com que se há-de partilhar uma eterna bem-aventurança futura.
E embora os cristãos acreditem que o êxtase não se alcança pela simples vontade humana (mas que é, de alguma forma, outorgado), o mesmo é, na verdade, alcançado muitas vezes de forma natural ou induzido por drogas mais ou menos alucinogéneas (Laranjeira, 1936). Pode, ainda, ser fomentado por músicas e danças repetitivas, concentrações exacerbadas, estados de exaustão ou conjugações várias destas condições37. Seja como for, no êxtase, o indivíduo torna-se numa espécie de simbionte de uma realidade superior (leia-se, entidade), que o possui e o comanda. Entidade celeste que descobriu através de uma experiência passiva e interior. Tal como explica o autor anónimo confessional acerca da “santa da Ladeira”.
37 E produzido por múltiplas razões: mágico-operativas, oraculares, experiências emocionais,
56 “A natureza física de Maria está, então, sob inteiro controle do personagem celeste que se manifesta. Como um envelope vazio, ela não está mais consciente das suas palavras nem dos seus gestos. Neste estado, ela possui uma força que não é sua. A sua fisionomia muda. Adquire, frequentemente, uma grande beleza ou uma doçura maravilhosa. Ou, então, traduz a pena e a angústia para as almas” (Continuação dos Mistérios da Ladeira do Pinheiro, 1975:71).
Afinal, já Aristóteles, dois milénios e meio atrás, defendia que não se devia exigir, “dos que estão a ser iniciados nos mistérios, que se entreguem ao estudo ativo, mas que sejam passivos diante da experiência interior” (White, 1964:183-184).
Milénio e meio depois, Bernardo de Claraval38 (Guitton, 2000:86), considera o
êxtase o supremo grau da contemplação; em “que a alma se une a Deus, assim como uma gota d'água que cai no vinho, se dissolve e adquire o sabor e a cor deste”. São Boaventura (1221-1274) vê no êxtase, a elevação acima de si mesmo, em direção à fonte do amor supra-intelectual: “estado de douta ignorância, no qual a obscuridade dos poderes cognoscitivos se transforma em luz sobrenatural” (Guitton, 2000:92).
É, assim, o abandono mais completo nas mãos de Deus. Feito de desprendimento interior e alheamento exterior. Sem sensações físicas de prazer ou dor. Sem pensamentos e razões que atrapalhem a plena diluição no inamovível.
“Esta he a serenidade de amor em que me sinto andar, sem ter affecto ou pensamento algum, que ordenado não seja pelo movimento destas águas; deixando-me ir de cima dellas até donde suas ondas me quizerem deitar, sem o trabalho e o cansaço de andar a pé, porque quem se deixa de si mesmo por amor de Deos, fica isento de todos os trabalhos” (Santa Anna, 1742:281).
Em seu livro Mysticism, Underhill (1955), aborda os três aspetos distintos (físico, psicológico e místico) em que o estado de êxtase pode ser estudado.
Fisicamente, considera, o êxtase é um transe, acompanhado de reduzida respiração e circulação, com rigidez dos membros e, muitas vezes, uma total anestesia. O seu início é geralmente gradual, após um período de contemplação do inominável.
Psicologicamente, é uma unificação completa de consciência ou seja, o foco deliberado sobre uma ideia, um conceito, uma imagem.
Misticamente é um ato sublime de perceção: o último estado de contemplação. De fusão plena com o incognoscível. A embriaguez do infinito!
38 Monge cisterciense e grande propagador da Ordem e defensor da Igreja. Uma das personalidades
57 “Durante o êxtase, os místicos supõem ver e sentir Deus e, com esta afirmação eles crêem permanecer no facto da sua experiência, quando, na verdade, não fazem senão uma interpretação” considera, porém, Binet (citado em Laranjeira, 1986:11).
De facto, para a psicologia religiosa, quando um místico diz que tem conhecimento experimental, intelectual ou afetivo de Deus, experimenta, sim, realidades de ordem emocional: “ignorando que essa certeza experimental da divindade, significa a exaltação de um estado psíquico, avolumado até ao grau alucinatório” (Belo, prefácio de Laranjeira, 1986:11).
Seja como for, esta fusão íntima com a divindade (Maslow, 1971; Granger, 1985; Varenne, 1989), constitui, de alguma forma, como que uma nova síntese que, embora indizível, reformula e reequaciona a personalidade do místico39.
De acordo com Hubert (citado em Hatzfeld, 1997:18), ”a religião é a administração do sagrado”; entenda-se, assegura a relação entre o sagrado e o profano, bem como a passagem de um ao outro. A mesma gera, assim, um domínio em que a dúvida e a inquietação não estão, de todo, ausentes. Dúvida que impele à busca, quantas vezes angustiada, de tranquilizadoras verdades e convicções.
“A religião não é o contrário da dúvida, não é a certeza triunfante (…) a hesitação está bem integrada na atividade religiosa. Concebemos que as religiões querem exorcizar as incertezas e chamar os crentes a esse alto grau de convicção onde se está acima de qualquer inquietação. Trata-se, contudo, de um ideal raramente atingido” (Hatzfeld, 1997:40).
É, contudo, o mais próximo que nos podemos aproximar de uma certeza, tanto macro como microcósmica. Para uns, apesar de tudo ainda insegura (até pela incerteza da interpretação da tradição oral ou dos livros sagrados), para muitos, contudo, suficientemente clara e definitiva.
Aliás, nas religiões doutrinárias, escritos sagrados diversos, imbuídos de ensinamentos revelados diretamente ou indiretamente pelas divindades (algumas vezes englobando paradigmas modelares que servem de exemplo e orientação) e a existência de uma classe de intermediários e interpretadores, contribuem para reduzir tais dúvidas a
39 Pode ser levado até ao amor carnal (mesmo que simbólico), não isento de erotismo, tal como se
verificava, entre outras, com Santa Teresa (1960). Ao tentar sufocar os instintos naturais, acaba-se por canalizá-los num outro sentido e atiçá-los ainda mais.
58 limites aceitáveis. Intermediários e interpretadores, cuja ação, naturalmente, se reveste de um prestígio e exercício de poder, que a sua relação com o Divino catalisa e impregna.
Valências de que (embora irregularmente) também participam videntes e místicos, também eles reivindicando tais qualidades.
Afinal, se as visões constituem momentos importantes na relação percepcional com a esfera do divino, o êxtase constitui, segundo Gobry (citado por Guitton, 2000:335) algo ainda mais íntimo e sensitivo: “a visão indica simplesmente que se conhece, à distância, o mundo sobrenatural. O êxtase, que se está lá.”
“O êxtase é um gozo perfeito: uma felicidade que encerra todos os bens imaginários e absorve todos os sentidos. Mas também é um conhecimento contemplativo; sem raciocínio nem discurso” (Granger, 1985:31).
Daí decorre um prazer extático que tem muito de simbiótico e orgânico; a, assim chamada, “beatitude do místico”, do “santo” ou, ainda, da “santa40”, como é mais comum!
Fase supra-intelectual de ascensão mística, em que a busca teológica e cerimonial da divindade cede lugar a um sentimento de estreita comunhão (ou mesmo de identificação) com a mesma, o conhecimento atingido pelo místico é, assim, “obrigatoriamente individual e subjetivo” (Granger, 1985:32).
Conhecimento que surge, deste modo, como um substituto da razão. Uma outra forma de alcançar a sabedoria; muito mais rápida e, é suposto, absoluta41. Atalho para o saber, a que só têm acesso os eleitos; que assim se encontram dispensados de um processo