4 Discussion
4.1 Discussion of Main Findings
4.1.4 Biopsychosocial characteristics of chronic pain patients with co-occurring PTSD
Na verdade, a vidência e o misticismo constituem fenómenos com os quais a hierarquizada estrutura clerical, ciosa dos seus direitos e competências, tem muitas vezes relações de suspeição, tendendo a considerar os mesmos como inconvenientes intromissões e encarando-os com indubitável desconfiança. Afinal, à primeira vista, seria bem mais lógico que Deus recorresse predominantemente aos sacerdotes e afins quando pretendesse introduzir na Igreja (ou na sociedade) algumas correções rituais, pastorais ou doutrinárias. Porque recorre, então, a crianças e indivíduos comuns? Muitas vezes simples, algumas vezes simplórios?!
Dito de outra maneira, porque razão há-de Deus servir-se de indivíduos boçais para intervir no mundo, quando possui uma estrutura de representantes especialmente
49 Agostinho e Tomás de Aquino entendiam o êxtase como uma antecipação da visão beatífica: a
67 capacitados, herdeiros dos seus discípulos, intermediários por excelência e a quem, em última instância, tal função competiria?!
Por uma questão de humildade, dirão alguns50!
Mas, então, a hierarquia católica não é suficientemente humilde?!
Enfim! Não é necessário muito esforço para, de uma forma ou doutra, se poderem entender tais fenómenos como potenciais admoestações feitas à Igreja! Não quer dizer, necessariamente, que assim tenham de ser entendidos! Mas, sim, que facilmente podem ser vistos como tal!
Preocupações sociais contemporâneas relacionadas com a crescente mudança cultural de princípios e valores, facilmente fazem entender o mundo numa progressiva dimensão degenerativa e pecaminosa, que a organização eclesiástica não consegue deter, nem inverter. E se é suposto o místico ou vidente falar em nome de Deus, uma eventual crítica celeste à orientação eclesiástica, constitui uma problemática que belisca, implicitamente, a perfeição clerical.
Ora os tempos modernos tornam bem mais compreensíveis tais possibilidades. Não podemos esquecer a operacionalidade do dogma da infalibilidade papal e as consequências que daí decorrem. Se o Papa é o chefe da Igreja e seu responsável principal, se é infalível
nos juízos e decisões que toma, não tem qualquer sentido a mesma carecer de “puxões de
orelhas” da parte de Deus: a mesma entidade que, afinal, há séculos, inspira os seus líderes e, naturalmente, a sua lógica funcional e doutrinária.
As críticas à Igreja tendem, portanto, a ser vistas, por esta, como falsidades de inspiração mais ou menos demoníaca. E se alguns profetas moralistas, como João, acabaram literalmente (noutros tempos) por perder a cabeça e outros encontraram, na imolação, castigo ainda pior, os videntes modernos (místicos muitas vezes, profetas quase sempre) justiceiros e moralistas, acabam, quase sempre rejeitados e desacreditados, quando não, frequentemente, anatematizados.
Não admira, assim, que para lá do esforço para não vulgarizar estes fenómenos, cuja valia decorre em grande parte (não o esqueçamos), da sua excecionalidade51, a grande
50 Alfaric (n.d. citado em Lopes, 2009b:106), diz-nos que existe como que uma teoria na Igreja que
defende que “Deus escolhe o mais fraco do mundo para confundir os fortes e o que há de mais desprovido de saber, para confundir os sábios”. Considerando que se tratam, quase sempre, de interações destinadas, em desespero de causa, a propor aos Homens inflexões de comportamento destinadas a obstar a apocalipses mais ou menos catastróficos (logo a derradeiros avisos, necessitados de ser percebidos em todas as suas implicações), não parece uma opção muito adequada!
68 maioria das aparições e taumaturgias místicas (atalhos para chegar mais perto ou mais diretamente a Deus) acabe, afinal, por não ser reconhecida pela Igreja.
Não admira, igualmente, que alguns milagres sejam, para esta, um incómodo! Não os milagres quotidianos, canonicamente integrados no ritual; como a quotidiana transformação do pão e vinho no corpo e sangue de Jesus. Milagres que ocorrem diariamente: esperados, controlados, habituais.
Mas, sim, os outros. Os milagres fora do controle eclesiástico e do espaço e tempo clericais, inquietantemente inesperados na forma e no conteúdo. Milagres em que os visionários (videntes e afins) manifestam, muitas vezes, as mais bizarras e singulares ideias e comportamentos e proclamam as mais controversas, inesperadas e inoportunas revelações, pondo em causa até, nalguns casos, a própria hierarquia eclesiástica!
3.5 OS ESCOLHIDOS
A eclosão destas epifanias radica, como vimos, em pressupostos vários (tanto estruturais como conjunturais) que na conexão socio-cultural assentam necessariamente. Neste sentido, que o doutrinário cristão plasma e o crente aceita como imperativo de fé, o mal é visto como necessidade estratégica do bem e, o paradoxal, incompreensível quantas vezes, expressão visível de um sentido oculto e hermético, mas, acredita-se, sempre justo e necessário.
Paolo Apolito, que estudou em tempo vivo, as aparições em Oliveto Citra (na Campânia italiana), diz-nos, inclusive, que,
“São as palavras dos diversos atores que constroem o mundo simbólico sobre o qual assentam as aparições e são elas que [deste modo] conferem às alegadas visões um sentido admissível, inteligível, consensual dentro de um grupo, sem as quais aquelas seriam, simplesmente, loucura ou engano” (Lopes, 2009b:129).
É assim o conjunto, algo consonante, das interpretações dos acontecimentos visionários reais ou virtuais que cria, nestes, um sentido simbólico e inteligível. Dito de outra maneira: são os esforços (conscientes ou não) de adequação dos fenómenos
51 Em grande parte, mas não totalmente, claro. Seja como for, os milagres valem, explicam-se e
justificam-se, principalmente, pela sua excecionalidade. São exceção, nunca regra, sob pena de se desvalorizarem, de se vulgarizarem. Aliás, como veremos na Ladeira, os milagres que se tornam quase quotidianos (como os discursos das entidades divinas que, embora servindo-se da vidente, são afinal revelações e manifestações da Virgem e Jesus, em público e direto), deixam, na prática, de ser vistos como tal, enquanto outros, naturalmente mais raros (como um florescer singular ou uma suposta cura), continuam a ser vistos como prodigiosas taumaturgias!
69 alegadamente prodigiosos, que os tornam aceitáveis como elementos integrativos dos paradigmas mentais, bem como rituais e doutrinários vigentes.
Deste modo, os discursos são ativados pelos sujeitos da memória que elegem episódios determinantes acerca da excecionalidade sagrada do lugar e das fenomenologias aí acontecidas.
É aliás, necessário, um processo (às vezes prolongado), de controlo e adaptação (feito de aceitações, reinterpretações, correções, etc.,) para que os novos fenómenos sejam então (se for caso disso) integrados nos cânones existentes. Aquilo a que Zimdars-Swartz (citada em Pimentel, 2004:4) chama de “processo interativo de construção”. E neste participam, naturalmente, os videntes ou místicos, mas não só.
Como vimos, os escolhidos como confidentes de Deus são quase sempre pessoas simples, de formação cultural baixa, emotivos e impressionáveis, levando muitas vezes uma existência dura e boçal, quantas vezes sofrida, sem perspectivas de melhoria.
Para eles, o mundo é, ainda, palco de uma luta entre o bem e o mal (Lopes, 2009b). Luta perpétua, em que o mal confere, de alguma forma, sentido ao bem, não obstante, dever ser periodicamente vencido (ou, pelo menos, contido) em sucessivos confrontos que antecipam o confronto final e, onde cada um é, suposto, ter um papel a desempenhar.
A aparição proporciona-lhes, aliás, uma importante rutura com o quotidiano. Uma importância que os resgata à banalidade prosaica da sua existência e confere, de alguma forma, uma razão de ser, ao seu sofrimento52. Ou, como diz Zimdars-Swartz (citada em Pimentel, 2004:4), ”proporciona os símbolos [entenda-se os referenciais simbólico- devocionais] que permite ao grupo de sofredores encontrar sentido no seu sofrimento.”
Por isso a desacreditação tem, para os videntes, consequências tão dramáticas. Perderam a única coisa que os tornava especiais, singulares (eleitos, afinal) num mundo em que os restantes papéis que desempenham são, quase sempre, irrelevantes.
52 Muitos dos místicos, nomeadamente em tempos passados, eram doentes, deficientes ou
particularmente pobres e necessitados. Tal é visível, inclusive, em muitos exemplos, de datação ignota, que o lendário perpetuou no nosso país. Por exemplo na Urtiga, igualmente perto de Fátima ou, bem ao norte, em Quintanilha/Bragança, o lendário popular guarda lembrança de aparições da Virgem a crianças igualmente pastoras e igualmente humildes que, mudas, começaram a falar, precisamente, para espalhar a mensagem divina. Ou, ainda no Reguengo do Fetal/Batalha, a uma outra criança pastora que, neste caso, chorava com fome e que terá sido brindada com um milagre de multiplicação de pães.
70 Por isso mesmo, tal função de orientador, de escolhido por Deus, é intemporalmente sedutora. E surgem, naturalmente, muitos candidatos. Afinal, quanto mais próximos estamos da divindade, mais adquirimos, como que por osmose, do incomensurável prestígio (e consequente poder) divino. Somos confidentes, gozamos de uma cumplicidade inestimável. Somos o braço direito da sua intervenção no mundo.
Fomos escolhidos por razões ignotas mas, com certeza, justas e legítimas.
Nascemos com a marca divina que faz os Homens assemelharem-se aos deuses. “Quando
eras ainda muito pequena, o meu divino filho e eu, nos fixamos em ti e te escolhemos”; diz a Virgem, numa das suas inúmeras confidências, à vidente do Escorial. “Desde então, Cristo esteve preparando-te para o momento em que a tua hora chegasse. Tu vens sendo polida desde menina53.”
A grande maioria não se consegue impor, é claro. Alguns são aquilo a que a tradição bíblica chama de “falsos profetas54” e hoje se consideram, muitas vezes, bruxos,
alucinados ou, simplesmente, desequilibrados.
O supostamente escolhido por Deus (e cada vez mais pela Virgem Maria), reivindica o papel de alertar os homens para os perigos de continuarem a desrespeitar a vontade divina; de continuarem, irresponsavelmente, na procura dos prazeres fáceis e mundanos55. Alertas respeitando, quase sempre, a situações de decadência moral, num contexto entrópico estrutural, anunciando castigos (implícitos e explícitos) e sugerindo condições sacrificiais para a sua superação.
De caminho, solicita-se a construção de uma capela, igreja ou santuário expressando-se, deste modo, uma preocupação meramente local com a morada da respectiva entidade divina bem como com um eventual incremento cultual. É a visão individual e comunitária posta, afinal, na boca da divindade.
Exige-se, ainda, um prodígio que sirva de avalização sobrenatural e fundamente a necessária credibilidade do fenómeno. No fundo, exige-se um milagre que mostre às pessoas e autoridades religiosas que, acreditar naquele vidente que diz que vê, que fala,
53 In www.geocities.com/ capitolhill/lobby/5820/ espanha3. Html. Acesso em 17 março 2012. 54 É evidente que um falso profeta para uns, pode ser um verdadeiro profeta (vidente e visionário)
para outros. Nomeadamente, se se trata de um reformador; cujas ideias, só por rotura, se podem implementar e frutificar.
55 Se olharmos com atenção, apercebemo-nos facilmente que a maior parte das aparições e
revelações místicas modernas nos apresentam Deus ou a Virgem, como alguém frustrado, triste, muitas vezes revoltado. Impotente para manter o rebanho no bom caminho, recorre então (como estratégia de recurso), a contactos diretos com indivíduos escolhidos, estabelecendo, com eles, acordos de missão.
71 que toca (e que é alvo, natural, de suspeição), pode ser sustentado por uma marca de singularidade divina e transcendental. Muitas vezes, o mesmo, corresponde à cura do próprio místico que, sofrendo dum mal crónico e tido (pela comunidade) como incurável, dele se liberta, milagrosamente, pela fé. O mesmo transforma-se, assim, numa prova viva do poder de Deus, bem como da inegável transcendentalidade da sua missão.
Todavia, mesmo que as aparições e restantes fenomenologias místicas, sujeitas à avaliação e análise da Igreja, venham a ser consideradas “autênticas”, o papel do místico continua a constituir um potencial “pauzinho na engrenagem” da instituição religiosa, mais importante ainda hoje em que a hierarquia clerical não só continua a reservar para si o monopólio da relação quotidiana com o divino (e encara a relação direta como um atalho intolerável) como apresenta, ainda, um modo de vida estabilizado, tradicionalizado e habitual que, estes acontecimentos, de alguma forma, subvertem.
Se o vidente é um religioso (e não é, por acaso, um daqueles líderes que traçam o seu caminho e definem estratégias) o seu futuro está marcado pela relação de forças e dependências hierárquicas em presença. Gradualmente é retirado da circulação; leia-se da visibilidade pública.
Se não o é, a rara aceitação dos fenómenos pela Igreja vai quase sempre implicar um regresso dos acontecimentos místicos e taumatúrgicos à autoridade eclesiástica; que os enquadra, adequa, filtra (e muitas vezes desenvolve) servindo-se do vidente e/ou místico como elemento catalisador. Para isso, o mesmo tem de ser controlado e disciplinado (o que nem sempre é fácil), para que (no contexto, tantas vezes anticlerical (Espírito Santo, 1980; Lopes, 2000) que caracteriza a religião popular) não corra o perigo de tecer considerações que sejam inconvenientes (perigosas mesmo) ou produzir relatos inconciliáveis com anteriores testemunhos já integrados. A sua adesão a uma qualquer congregação ou ordem religiosa (de preferência reservada e pouco acessível) constitui, muitas vezes, a solução mais conveniente.
O controlo destes fenómenos surge, na verdade, como inegável necessidade. Controlados estes, a começar pelo vidente (afastado do mundo e da sua insuportável curiosidade), enquadrados que estejam na ritualidade canónica, os mesmos poderão então servir o seu propósito de incremento devocional do misticismo taumatúrgico, (necessitado periodicamente de se renovar) e, até, de fomento do prestígio doutrinário e clerical.
72 Finalmente, poder-se-á dizer, tais pressupostos podem-se aliar a explícitas ou implícitas reações, contra o, cada vez mais dominante, racionalismo contemporâneo. A aparição emerge, de alguma forma, como prova evidente do equívoco racionalista, afirmação viva do transcendente e, em última instância, desagravo a um Deus olvidado!
Compreende-se assim o apego, à primeira vista inaudito, ao cenário factual que, de uma forma ou doutra, se vai construindo. Potencial elucidação, face àqueles que duvidam e suspeitam!