Analisar a interação comunicativa requer atenção reservada ao mal-entendido, visto que defendemos, aqui, sua natureza intrínseca ao discurso. No entanto, nem sempre essa assertiva foi, ou é, consensual nas pesquisas dedicadas ao tema. Em dois mil e três Laforest publicou que apenas há uns doze anos começou-se a rever a conceituação, demasiadamente negativa, do mal-entendido como incidente infeliz e particularmente freqüente nas interações interculturais (Laforest, 2003).
É inegável que a situação assimétrica de diferentes competências lingüísticas e/ou comunicativas entre falantes de culturas distintas favoreça o surgimento de mal- entendidos. Porém, faz-se necessário esclarecer, que nossa opção pela análise do mal- entendido ‘intercultural’ não credita sua ocorrência, unicamente, à comunicação exolíngüe. Trata-se aqui, apenas, de uma abordagem para o fenômeno conversacional, considerando sua característica de transversalidade, que ratifica sua presença nos mais diversos tipos de interações discursivas.
O limiar entre o ‘entendido’ e o ‘mal-entendido’ privilegia a formação de um terreno pantanoso, já que não há como caminhar com segurança sobre o relevo da intercompreensão mútua. O processo comunicativo não pode ser reduzido a automaticidade de uma decodificação de dados.
Ao contrário, a comunicação se assemelha muito mais à montagem cooperativa de um complexo quebra-cabeças, que os falantes co-constroem, produzindo o sentido a cada nova peça agregada. Por isso, é tão apropriada a metáfora empregada por Lodge (1991, p.46) que compara a conversação a um jogo de tênis com uma bola de massa de modelar que ganha uma nova forma a cada travessia da rede. O falante da vez deixa
impressa sua contribuição e ao final do jogo, a forma modelada será resultante das influências múltiplas dos jogadores. Esta metáfora ilustra como a conversação se transforma em espaço de negociação para a construção do sentido. Por isso mesmo, afirma Trognon (2003, p.54) que a comunicação humana e em particular a comunicação linguageira abriga inúmeras ocasiões para o mal-entendido.
Dascal (2006) aponta para a existência de um distanciamento considerável entre os dois pólos opostos da incompreensão total e da ilusória intercompreensão absoluta. O mal-entendido costuma ser inserido exatamente em uma posição mediana, assim como uma série de fenômenos que levam o prefixo mis - em inglês: misunderstanding, mishearing, mispronounce, etc. Eles parecem apontar para algum desvio, não intencional, no decorrer do trajeto interativo.
Entre as ciências da linguagem houve uma corrente14 que redirecionou o interesse pela ambigüidade, enquanto fenômeno da língua, para o estudo do mal- entendido, enquanto fenômeno do discurso (LAFOREST, 2003, p.10). As pesquisas atuais sobre o mal-entendido procuram explorar diversos fatores sobre o tema: suas causas, sua tipologia, o tratamento dado pelo falante, suas influências sobre o discurso em construção, e ainda seu parentesco com outros fenômenos conversacionais etc. Até mesmo sua definição mereceu diferentes abordagens, como será exposto na seção seguinte.
3.1. A administração do mal-entendido nas interações
Apresentamos, a seguir, algumas orientações teórico-metodológicas sobre o mal- entendido através de estudos que privilegiaram abordagens semânticas e pragmáticas da
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linguagem em uso numa dada cultura e/ou em situações interculturais. Destacamos as contribuições de Bazzanella e Damiano (1999), Weigand (1999), Dascal (2006), Traverso (2003), Lüsebrink (2003) e Kerbrat-Orecchioni (1992), que se mostraram de extrema relevância para nossas análises.
3.1.1. Algumas teorias: definições, tipologias, reparações e efeitos do mal-entendido
• Carla Bazzanella e Rossana Damiano
Para Bazzanella e Damiano (1999) o mal-entendido deve receber um tratamento de processo continuum: as autoras rejeitam a acepção bipolar, empregada por alguns estudiosos do fenômeno, cuja fundamentação é a ausência ou a presença de ‘compreensão’ nas interações.
Segundo as pesquisadoras, uma definição adequada para o mal-entendido reuniria em um lado ‘o caminho para o entendimento’, ‘o entendimento’ e ‘o mal- entendido’ e colocaria em uma outra margem, isolado, o ‘não entendido’. Ou seja, na verdade, o mal-entendido seria uma forma de entendimento, inserido no próprio processo da compreensão e que deveria ser monitorado e negociado na interação.
A partir da análise de um corpus informal de falantes italianos, Bazzanella e Damiano (1999, p.181) propõem cinco níveis de ocorrência para o mal-entendido: fonético, sintático, lexical, semântico e pragmático (estando este último envolvido com os atos de fala indiretos, a força ilocucionária, as implicaturas, a ironia, a metáfora, a relevância, o tópico e planos). Ao invés de apontarem causas determinantes para a ocorrência de mal-entendidos, as autoras optaram por especificar uma série de “gatilhos” que estariam relacionados à promoção do fenômeno. Divididos em categorias
(a) estruturais, (b) relacionadas ao falante, (c) relacionadas ao interlocutor e (d) relacionadas à interação entre os participantes, os gatilhos foram especificados da seguinte forma:
(a) Gatilhos estruturais:
(1) Distúrbios no canal comunicativo;
(2) Similaridades entre elementos do código lingüístico; (3) Problemas causados pelo uso de uma língua estrangeira; (4) Ambigüidades estruturais (lexical ou sintática).
(b) Gatilhos relacionados ao falante:
(1) Fatores ‘locais’, como deslizes no tom, concepções erradas, uso de formas ambíguas.
(2) Fatores ‘globais’ relativos à estrutura da informação nos níveis pragmático e sintático (tais como a polidez, a indeterminação, e os anaculotos)
(c) Gatilhos relacionados ao interlocutor:
(1) Problemas de conhecimento, como falsas crenças, incompetência lexical, lacunas no conhecimento enciclopédico.
(2) Processos cognitivos, como inferências erradas e o peso cognitivo de seus efeitos sobre a produção do interlocutor.
(d) Gatilhos relacionados à interação entre os participantes: (1) Conhecimento não partilhado;
(2) Tópico de organização; (3) Focalização de problemas.
As autoras destacam a ambigüidade entre os gatilhos estruturais como um dos fatores mais freqüentemente ligados à promoção de mal-entendidos. Elas esclarecem ainda que a presença de um ou a reunião de vários desses gatilhos no decorrer do discurso tornam o processo de compreensão mais custoso, não resultando, no entanto, obrigatoriamente em um mal-entendido. Considerando os casos em que esses gatilhos venham desencadear um mal-entendido, em algum dos cinco níveis anteriormente expostos, Bazzanella e Damiano apresentam um esquema representativo para ilustrar o ciclo de negociação desse fenômeno conversacional, desenvolvido pelos falantes. Vejamos a figura 1:
Figura 1: Ciclo de Negociação do mal-entendido adaptado de Bazzanella e Damiano (p.827, 1999). NÃO SIM NÃO SIM NÃO SIM NÃO SIM
Mal-entendido: A não coincidência entre o significado do falante e a interpretação do interlocutor no turno N.
A interação prossegue sem nenhuma mudança.
1.O mal-entendido foi percebido?
2.O participante que percebeu o mal-entendido
realiza uma reparação?
Pode ocorrer incidentes na comunicação.
TURNO DA REPARAÇÃO
3.REAÇÃO DOS INTERLOCUTORES
ACEITAÇÃO
3a. A ACEITAÇÃO FOI COMPLETA? “NOVO COMEÇO” RECUSA COMUNICAÇÃO FRACASSADA 3b. A RECUSA FOI COMPLETA?
Não haverá reparação, caso o mal-entendido não seja detectado, porém se ao contrário, ele for percebido pelo falante ou pelo interlocutor, um turno de reparação um turno de reparação poderá ou não ser gerado. A reação dos interlocutores pode promover uma aceitação ou recusa do reparo (passo 3). No primeiro caso, se a aceitação não for considerada completa, ela poderá requerer um novo turno de reparação até que um acordo seja estabelecido. No segundo caso, a recusa da reparação pode apresentar certa flexibilidade, permitindo novas tentativas de reparos, ou ainda a recusa pode ser categórica, ocasionando o fracasso da conversação.
• Edda Weigand
Weigand (1999) disserta sobre diferentes tipos de mal-entendidos e afirma que o propósito de estudo seleciona a abordagem mais adequada para o fenômeno. Entre os casos mais importantes, apresentamos a listagem que adaptamos da autora (1999, p.764- 766):
1. O caso de “cross-cultural” (mal-entendido intercultural):baseia-se no fato de que a comunicação é uma atividade dependente da cultura, justificando vários casos de mal- entendidos decorrentes das diferenças lingüísticas e culturais dos participantes. Podem ocorrer não somente em comunidades inter-étnicas como também pode resultar de diferentes papéis culturais assumidos numa dada comunidade (comunicação do homem
vs mulher).
2. O caso de aspectos desviados ou aspectos laterais: os aspectos desviados são os mal- entendidos deliberadamente planejados e os casos que não recebem resolução, já os aspectos laterais reúnem os casos de prevenção do mal-entendido.
3. O caso da comunicação como má comunicação: há duas abordagens a se considerar, a primeira inserindo os casos de compreensão na comunicação e os casos de mal- entendidos ou má-comunicação como desvios da comunicação; a segunda considera a linguagem em uso como permanentemente problemática, sendo assim, os casos de má comunicação não seriam falhas, mas considerados como uma parcela do ato de comunicar.
4. O caso do mal-entendido em um modelo harmônico: é a contraposição da visão da comunicação como má comunicação. Aqui, a comunicação deve produzir o
entendimento. A análise do mal-entendido dentro de um modelo harmonioso considera os interlocutores pertencentes a uma mesma comunidade. Devem-se distinguir os problemas externos (sociais, culturais e diferenças lingüísticas) e os problemas internos relacionados ao modelo harmônico (referências problemáticas e implicaturas seqüenciais problemáticas)
A exposição dessa variedade de tipos para o mal-entendido (mais específico, casos marginais ou desvios) evidencia, segundo Weigand (1999), a possibilidade de inclusão do fenômeno em um dos dois princípios gerais: o que remete a ‘diferentes casos de distúrbios na comunicação’ ou o que aborda a ‘comunicação como inerente à má-comunicação’.
Para o tratamento de suas análises, a autora despreza em princípio todos os casos expostos, justificando seu interesse pelo que chama de ‘uma definição padrão’ para o mal-entendido. Sua linha de abordagem exige que se estabeleça, de imediato, um conceito para ‘o entendimento’ na linguagem em uso. O que, consequentemente, também demandaria o esclarecimento de qual modelo de linguagem em uso é concebido.
Para Weigand (1999), o homem é guiado por propósitos, sejam emocionais, materiais, cognitivos ou comunicativos. Identificar significados nos exige o reconhecimento do propósito para o qual a língua foi utilizada. A autora afirma que é a necessidade dos seres humanos de viverem e trabalharem juntos (por nós interpretada como a necessidade de ‘interagir’), que determina o propósito geral de todas as ações comunicativas e o propósito de ‘caminhar para o entendimento’ através de jogos de ações dialógicas.
É por intermédio desse jogo de ações dialógicas que os participantes fazem uso da habilidade complexa que constitui a linguagem para esclarecer e regular a
comunicação mútua, os seus propósitos dialógicos e consequentemente ‘caminhar para o entendimento’. Com as palavras da autora:
[...] a chave da questão não é o entendimento, mas ‘caminhar para o entendimento’ em um nível interativo. Nosso modelo de ‘caminhar para o entendimento’ nos jogos de ações dialógicas, portanto, tem que aceitar ou tolerar a possibilidade de casos de mal-entendidos que de qualquer maneira são inerentes à sistemática da linguagem em uso.15 (WEIGAND, p.769, 1999, nossa trad.)
Uma parcela dos mal-entendidos apresentados por Weigand corresponde a erros e outra parte pode estar relacionada a diferenças ligadas às interações interculturais. Porém, o modelo padrão de mal-entendido se encontra no nível da competência comunicativa e possui alguns traços constitutivos, adaptados por nós, aqui, da apresentação de Weigand (1999, p.769-770):
o O mal-entendido é uma forma de entendimento que é parcialmente ou totalmente diferente do que o falante tencionou comunicar.
o Sendo uma forma de entendimento, ele faz referência a um lado avesso do significado ou do lado avesso do enunciado, e representa um fenômeno cognitivo que pertence ao interlocutor.
o O interlocutor que “mal-entende” não tem consciência disso.(...)
o O mal-entendido não pode ser considerado um ato cognitivo porque o ouvinte não é consciente disso; em vez disso, o mal-entendido representa uma habilidade ou inabilidade do ouvinte (...)
o O mal-entendido poderá ser normalmente corrigido no desenvolvimento da ação do jogo dialógico. Podemos estar confiantes que chegaremos a um entendimento no jogo de ação dialógica como um todo, até mesmo se um enunciado tiver sido mal compreendido. Significado e entendimento ou mal-entendido de um enunciado não são unidades autônomas por si mesmas, mas uma parte da interação dialógica. É em função do Princípio Dialógico geral que a linguagem em uso pode tolerar casos de mal-entendido.
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“[...] the key notion is not understanding, but coming to an understanding on an interactive level. Our model of coming to an understanding in dialogic action games, therefore, has to accept or tolerate to a certain degree cases of misunderstanding which are somehow inherent in the systematics of language use.”
Weigand sustenta a definição para o mal-entendido padrão, considerando que o significado lingüístico utilizado pelo falante nem sempre é corretamente identificado pelo ouvinte, e que não se pode prever as inferências, nem desconsiderar os componentes cognitivos e emocionais que os falantes empenham numa dada interação, e finalmente, por questão de economia discursiva, quando se ‘diz’, na verdade, ‘nem tudo é dito’.
• Marcelo Dascal
Para dar início à análise de um mal-entendido, Dascal (2006) considera que todo enunciado possui ‘camadas de significância’, exatamente como a estrutura de uma cebola. As camadas mais internas são relacionadas ao conteúdo proposicional, geralmente tratadas pela semântica e as camadas mais externas estão ligadas às implicaturas conversacionais, tradicionalmente a cargo da pragmática. Haveria ainda uma camada intermediária que dá conta das forças ilocucionárias sobre as quais não há um consenso se pertencem à semântica ou à pragmática. Para o autor, os procedimentos analíticos se desenvolvem, então, a partir da definição de qual camada percente um determinado mal-entendido. Alguns exemplos, analisados por ele, mostram que não são raros os casos em que mais de uma camada é atingida. Nas palavras do autor:
Na verdade, o mal-entendido – como o entendimento – resulta de formas específicas de interação entre as diferentes camadas. A análise, portanto, requer não só a identificação das camadas, mas também uma descrição dos mecanismos de interação envolvidos, uma vez que o seu mal funcionamento pode ser a causa do mal- entendido. (DASCAL, p. 327, 2006)
Essas camadas de significância estão relacionadas a quatro perguntas elaboradas por Fillmore (1976) em que a resposta errada dada a qualquer uma delas poderia resultar na ocorrência de um mal-entendido. São elas:
a. O que ele disse?
b. Do que estava falando? c. Por que resolveu dizer isso?
d. Por que disse da maneira que disse?
A partir dessas questões podem-se identificar vários tipos de mal-entendidos, levando em consideração, segundo Dascal, o tratamento dado pela semântica tradicional, pela lingüística e pela filosofia no caso da primeira pergunta, já a segunda questão é tratada pelas versões atuais e ampliadas da semântica (como a “frame” ou a “scene-semantics” de Fillmore, 1976), a pragmática cuida da terceira (teoria dos atos de fala a lógica da conversação) e a quarta fica a cargo da retórica.
O autor apresenta a exigência conversacional como um conjunto formado pela elocução de um dado falante A, suas injunções para optar pela realização de determinados atos de fala, sua administração de regras e princípios comportamentais, enfim sua posição ao longo da conversação e o contexto comunicativo. Diz, ainda, que a resposta de um falante B para a elocução do falante A deverá corresponder à percepção de B à exigência conversacional estabelecida e às quatro perguntas. Quando a interpretação de B da elocução de A for extremamente diferente daquilo que A pretendia comunicar, é provável que a resposta de B será inadequada aos olhos de A, e o mal-entendido poderá surgir. Dascal afirma que é possível detectar a(s) camada(s) responsáveis pelo mal-entendido para que possam ser processadas as reparações cabíveis.
Observar a capacidade do falante A para decidir se houve ou não um mal- entendido por parte de B parece uma pré-condição para responder a qualquer uma das quatro perguntas interpretativas, antes de retomar sua vez na troca conversacional.
Estabelece-se uma condição sine qua non para o bom funcionamento da conversação em todos os seus níveis a disponibilidade de meios para verificar se houve um mal- entendido (Dascal, 2006).
Para Dascal, essa pré-condição de verificação ocupa lugar de destaque na geração e compreensão das implicaturas griceanas, visto que elas demandam um maior esforço dos interlocutores para averiguar se realmente houve uma violação intencional de uma das máximas.
Reconhecendo o papel fundamental que a noção de mal-entendido exerce sobre a compreensão das implicaturas griceanas, o autor sugere a inclusão de duas regras especiais para o seu monitoramento: 1º “Verifique se existe uma explicação causal” e 2º “Verifique se há um mal-entendido”.
Perscrutar possíveis mal-entendidos, através da seleção de palavras, ou atos de fala, ou ainda reforçar o trabalho de prevenção, são atitudes sugeridas por Dascal e pelas pesquisas de Traverso (2003) e Galatolo (2003). Aquela mostrou que em situações de argumentação de inquietudes interpretativas os falantes tomam mais precaução, auto- reformulando e verificando os enunciados; a segunda autora comprova que as mesmas medidas são tomadas em grande escala nas interações acadêmicas com o intuito de minimizar a ocorrência de mal-entendidos e conseqüentemente salvaguardar a face do falante.
Mesmo sem dar crédito à infalibilidade de qualquer medida de prevenção ou reparação de mal-entendidos, Dascal atribui aos falantes a responsabilidade de produzir interpretações confiáveis das elocuções de seus interlocutores e de acompanhar os efeitos de suas próprias elocuções a fim de monitorar e corrigir, quando possível, os mal-entendidos discursivos.
• Veronique Traverso
Em princípio, Traverso (2003) toma emprestada a definição de Galatolo e Mizzau (1998) para o mal-entendido, enfatizando o fato de que há um espaço de tempo em que os falantes não se dão conta da ocorrência da divergência ou do distanciamento entre suas interpretações sobre o enunciado.
A autora (2003) faz uma minuciosa exposição daquilo que considera como fonte e causa do mal-entendido e faz um levantamento de tipos de tratamento dado ao fenômeno.
Primeiramente, ela define as fontes através das quais os mal-entendidos se manifestam, destacando quatro grandes grupamentos:
(a) O texto conversacional: os signos empregados, as referências, a entonação, o tema das trocas, as interpretações dos atos indiretos não convencionais etc.
(b) A estrutura da interação: os problemas ligados ao corte e à hierarquização dos elementos constituintes das unidades textuais como as trocas, as seqüências etc.
(c) Os quadros participativos: quanto maior o número de participantes na interação, maiores serão as chances da ocorrência de um mal-entendido.
(d) A situação e seus elementos constitutivos: os participantes, o quadro, ou seja, o lugar, o tempo e a finalidade da interação.
Quanto às causas do mal-entendido apontadas pela autora como fatores que favorecem sua aparição foram listados os dados contextuais, situacionais e extrasituacionais. Traverso (2003) apresenta também alguns tratamentos dados ao mal- entendido através dos processos de auto-reparação ou heteroreparação. Segundo ela, quanto maior o tempo entre o turno que contém o mal-entendido e aquele que dá início a sua reparação, maiores serão os riscos empreendidos na interação.
Ao rever a definição para mal-entendido Traverso chama a atenção para os usos estratégicos do fenômeno no discurso:
O mal-entendido constitui um distúrbio na ordem tranqüila da interação que os participantes deverão, às vezes, comentar, explicando e desta forma justificando o instante de distração que ocasionou seu ‘erro’ de direção, suas representações do outro que os conduziu a acreditar que ele poderia ter dito o que ele não disse, etc. É a partir desta dimensão relacional que podemos discernir utilizações mais estratégicas do mal-entendido.(TRAVERSO, p.103, 2003, trad. nossa)
Traverso acredita que o mal-entendido comprometa de certo modo as faces dos interlocutores, já que a dinâmica interacional envolve também aspectos relacionais. A produção de um mal-entendido pode evidenciar uma divergência interpretativa decorrente da construção interiorizada da ‘imagem’ de nosso interlocutor, daquilo que pensamos que nosso interlocutor deveria ter dito ou poderia dizer.
Descartando os casos de mal-entendidos deliberados, em que podem ser usados como pretexto para justificar uma ‘falta’ cometida de forma voluntária, a autora aponta dois importantes usos estratégicos do fenômeno: salvar uma dada situação, e conseqüentemente, salvar as faces dos interlocutores, evocando um mal-entendido para evitar uma interação conflitante; ou ainda reconduzir a interação à sua via quando o interactante formular um enunciado que apresente um mal-entendido, que poderia desestabilizar seu interlocutor, caso mostrasse a ambigüidade em seu enunciado. Na primeira possibilidade temos o que a autora chama de ‘quase mal-entendido’ pois ele não tem caráter acidental.
Traverso (2003) preocupou-se sobretudo em distinguir situações em que os mal- entendidos são imediatamente reparados daquelas em que são mais sistematicamente explorados pelos participantes da interação.
• Hans-Jürgen Lüsebrink
Lüsebrink (2003) acredita que nas interações interculturais tanto as trocas comunicativas em que ocorrem disfunções, quanto às formas de comunicação bem sucedida tenham o mesmo grau de importância. Para o autor, os casos de disfunções revelam-se particularmente interessantes por evidenciar obstáculos parcialmente ocultos das expectativas de falantes pertencentes a diferentes culturas.
Em sua perspectiva o mal-entendido se traduz como um processo de atribuição de sentidos divergentes entre os participantes de uma dada interação. Sua ocorrência,