5.4 VF method with Line Integral Convolution
5.4.1 Comments on results when using VF method with LIC
Goffman privilegia o estudo da ação social nas interações, distribuindo papéis cênicos aos falantes para a representação do ato social. Segundo o autor, os
interlocutores são atores interpretando para a valorização de seu personagem, ou seja de sua ‘imagem’ própria; buscando ainda o respeito e reconhecimento do(s) outro(s) numa tentativa incessante de reafirmação dessa imagem de si mesmo. Em todo processo interativo o indivíduo assume uma linha de conduta, através de atos verbais e não verbais, que expressam seu ponto de vista sobre a situação em questão, o seu julgamento sobre os participantes e o seu auto-julgamento (Goffman, 1974). Daí a base para a definição do conceito de face:
[...] o valor social positivo que cada indivíduo requisita para si, através da linha de ação que os outros supõem que ele adotou no decorrer de um determinado contato. A face é uma imagem de ‘si mesmo’ delineada por certos atributos sociais aprovados, embora possa ser partilhada com os demais, quando por exemplo, podemos transmitir uma boa imagem de nossa profissão ou de nossa devoção dando uma boa imagem de si. (GOFFMAN, p. 9, 1974, trad. nossa)
O valor do engajamento pessoal nas interações é potencializado a partir da noção de face, já que todo indivíduo apresenta uma resposta emocional imediata no contato com o outro. Expressões como ‘ele foi desmascarado’, ‘ficou com a cara no chão’, ou ‘provou que não tem duas caras’ ilustram o quanto o conceito de face está envolvido com a construção da ética do indivíduo, implicando consequentemente uma valoração afetiva à face.
Há que se admitir que o julgamento dos outros, assim como o nosso próprio julgamento encontram-se condicionados à nossa linha de conduta nas interações. Por isso, somos de certa forma prisioneiros da construção e da preservação de nossa imagem, promovida por tudo que verbalizamos ou realizamos.
Goffman (1974) reconhece o esforço dos falantes em prol da preservação de suas faces, cuja realização torna-se uma condição para toda interação. O sociólogo
lembra, ainda, que são as regras do grupo e a definição da situação que determinam o grau do sentimento ligado a cada face e a concordância desse sentimento por todos.
Acreditamos então, que nas ocorrências de mal-entendidos entre brasileiros e franceses, em que haja evidências de um comprometimento afetivo das faces, esse comprometimento possa ser dimensionado nas proporções estabelecidas pelo meio cultural ao qual pertencem os falantes. Ou seja, a causa promotora de um mal-entendido entre brasileiros e franceses será mais sensivelmente considerada em função da importância dada ao fato em suas respectivas culturas.
Quando um brasileiro chama uma falante francesa pela forma de tratamento Madame seguida do primeiro nome de sua interlocutora pode-se gerar um mal- entendido intercultural, que não tem a mesma conotação valorativa de sentimentos envolvidos com as faces. Enquanto para os brasileiros Madame Laura não recebe nenhum significado extra, diferente da forma respeitosa de tratamento de senhora Laura, ou ainda de Madame Laura como falam os cariocas11, para os franceses seu uso pode ser constrangedor e até ofensivo, já que Madame seguido do primeiro nome refere-se para estes à dona de um bordel, a senhora que não é casada, que não recebeu o sobrenome do homem, do marido.
Há restrições impostas coletivamente que delimitam o leque de escolhas lingüísticas individuais nas ações interativas. Isto se deve ao fato de que mesmo não sendo considerada uma super-máxima, a polidez está estritamente relacionada à noção de “civilidade”, portanto, ao habitus e às normas pré-estabelecidas (Oliveira, 2005). Faz-se, então, a pergunta: Como os falantes usam a linguagem para mudar a situação de
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Pronome de tratamento comumente utilizado pelos porteiros e pelos feirantes, no Estado do Rio de Janeiro, para dirigir-se à mulher na condição de ‘patroa’. A forma de tratamento é nesses casos marca de status privilegiado, faz referência ao prestígio do poder econômico-social na relação interpessoal em jogo.
restrição em que eles se encontram sem transgredir regras de polidez, e preservar, ao mesmo tempo, as intenções comunicativas?
Brown e Levinson (1978, 1987) parecem, de alguma forma, ter refletido sobre questões dessa natureza, quando fundamentaram a mais elaborada teoria da polidez. Vejamos algumas considerações importantes para sua compreensão:
1 . O indivíduo adota uma linha de conduta, que corresponde a uma imagem pública, que ele acredita estar em conformidade com as expectativas dos outros indivíduos em um dado encontro. Esse é o conceito de ‘face’, atribuído por Goffman (1974).
2. No decorrer da interação, o indivíduo tenta manter essa linha de conduta, para que não venha a sofrer uma perda simbólica: ‘perder a face’ perante si mesmo e os outros. 3. Para Brown e Levinson (1978) cada indivíduo possui duas faces: a face positiva e a face negativa, que correspondem respectivamente aos conceitos goffmanianos para ‘face’ e ‘território’. Nas palavras dos autores:
face positiva é a auto-imagem consistente positiva ou a
personalidade (incluindo o desejo que essa própria auto-imagem possui de ser apreciada e aprovada) reclamada pelos interactantes.
Face negativa é a requisição de territórios, as reservas pessoais,
direitos a não perturbação – liberdade de ação e liberdade de não imposição. (BROWN E LEVINSON, p.61, 1978, trad. nossa)
4. Em toda interação que conjugue atos verbais e/ou não verbais, em que estejam envolvidos pelo menos dois falantes, temos em potencial uma situação ameaçadora para as quatro faces presentes. Daí a noção de Goffman para ‘face want’: os indivíduos desenvolvem um desejo de preservação das faces.
As faces se traduzem em alvo de ameaça e ao mesmo tempo em objeto de desejo. Tanto Goffman quanto Brown e Levinson trataram desta contradição. Goffman a resolve com a proposta de um trabalho de ‘figuração’ traduzido em português da expressão original inglesa face-work. O trabalho de figuração representa tudo o que uma
pessoa possa fazer para não levar ninguém a perder a face, nem ela mesma. Também, é denominado por alguns pesquisadores em português, como trabalho de ‘elaboração da face’. Ele constitui todos os mecanismos dos quais se valem os falantes para não perderem suas faces durante o processo de interação interpessoal e está estreitamente ligado às regras de polidez, que regem muitas de nossas ações no meio sócio- interacional.
Brown e Levinson respondem a essa mesma contradição, fundamentando o que veio a ser conhecido como o modelo “B-L” da polidez, cuja definição é um compêndio de estratégias tomadas pelos falantes a fim de conciliar o desejo mútuo de preservação das faces. Admite-se a existência de um número grande de atos de linguagem tidos como potencialmente ameaçadores à face, batizados pelos autores de Face Threatening Acts, os FTAs. A partir daí, Brown e Levinson fazem um inventário dos diferentes atos de fala que representariam um FTA às faces positivas e negativas envolvidas no processo interativo:
QUADRO 2
Face Threatening Acts – FTAs (Atos ameaçadores à face) Atos ameaçadores à
face negativa daquele
que os realiza:
Atos ameaçadores à
face positiva daquele
que os realiza:
Atos ameaçadores à
face negativa do
outro (do que sofre a ação):
Atos ameaçadores à
face positiva do outro
(do que sofre a ação):
A oferta, a promessa. O pedido de desculpa, a auto-crítica, a auto-acusação, a confissão. Os contatos corporais as agressões visuais, sonoras, olfativas. as indiscrições, as solicitações, o conselho, a sugestão, a ordem, o pedido, a pergunta. A crítica, a reprovação, o insulto, a injúria, a zombaria, o mal-entendido.
O quadro acima resume a proposta dos FTAs sugeridos por Brown e Levinson, listando alguns atos ameaçadores às faces positiva ou negativa dos interlocutores. Devemos levar em consideração, que alguns atos ameaçam mais fortemente aqueles que os realizam, assim como outros acabam sendo mais perversos sobre aqueles que sofrem a ação. Aquele que ‘promete’ algo se põe em situação delicada, ameaçando sua face negativa, pois terá que empreender um esforço para cumprir a promessa feita. Já no caso de uma ‘crítica’, será o criticado a pessoa posta em evidência na interação, o que terá a face positiva mais fortemente ameaçada através do julgamento realizado.
Para Brown e Levinson (1978) o mal-entendido é considerado como um ato ameaçador à face positiva do outro. Sua ocorrência deflagra a não realização pelo locutor dos desejos e sentimentos do interlocutor, podendo ocasionar situações ofensivas ou embaraçosas realizadas de forma intencional ou acidentalmente. É importante lembrar que para os autores o mal-entendido está fortemente relacionado às noções de divergências e desacordos.
Observamos, também, que um mesmo ato pode se inscrever em mais de uma categoria. A pergunta, por exemplo, ao mesmo tempo representa uma ameaça à face negativa do destinatário e à face positiva do falante. Sendo assim, caberá ao falante a decisão de realizá-lo ou não. Ele poderá ver-se coagido em determinadas situações em que tenha de decidir entre a realização de um FTA que ameace a face de seu interlocutor e o desejo de preservação de sua própria face. Caso o falante decida-se por realizá-lo, Brown e Levinson propuseram algumas estratégias:
1. Realizar o FTA diretamente sem estratégias de reparação (sem atenção às necessidades da face positiva ou negativa).
2. Realizar o FTA através de estratégias de reparação (atento às necessidades da face positiva ou negativa).
3. Realizar o FTA indiretamente, através de uma implicatura. 4. Evitar a realização do FTA.
A escolha de uma dessas estratégias, segundo os autores estará vinculada ao peso que um FTA possui na interação em jogo. Para se dimensionar esse peso devem-se considerar três fatores:
• A distância social entre os participantes (D) • A relação de poder entre os participantes (P)
• A atribuição do grau de ameaça do FTA, imposta pela cultura em questão.(R) Estabelecer-se-á, então, a seguinte fórmula:
Wx = D (F1,F2) + P (F1,F2) + Rx
Para se obter o peso ( Wx ) de um FTA numa dada interação, deve-se considerar a distância social (D) entre os falantes envolvidos, a relação de poder (P) estabelecida entre os mesmos e a valoração do quão ameaçador é o determinado FTA no meio cultural dos falantes.
Para ilustrar a fórmula através de uma ocorrência do corpus, sugerimos a leitura do 2º relato da 4ª entrevista da amostra CPH em nossos anexos. A cena se passa entre um concierge brasileiro e uma hóspede francesa. O mal-entendido ocorre porque ao se oferecer para reservar pessoalmente um horário no salão de cabeleireiro para a hóspede, o funcionário teve seu gesto interpretado como oportunista. A cliente declara no fechamento da conta que interpretou o oferecimento e a atitude de obsequiosidade do concierge como uma forma de obtenção de comissão, o que não correspondeu ao que aconteceu de fato. Neste exemplo atribuímos à variável D os papéis sociais exercidos pelos participantes que pertencem a classes sociais diferentes. Para a Variável P definimos o status de poder socialmente privilegiado para a falante hóspede. O R
representa o peso do FTA para o falante brasileiro dentro de uma contextualização profissional brasileira, em que a cena ocorre. O entrevistado relata o grau de constrangimento (ameaça à face positiva) vivido ao sentir-se acusado de tirar proveito de uma situação profissional que o mesmo interpretava como uma tarefa cotidiana de trabalho. Interpretamos que o resultado do peso (W) obtido na realização deste FTA foi alto, tendo em vista a distância significativa das variáveis P e D e o peso atribuído para a variável R como representatividade do grau ameaçador deste exemplo de mal- entendido na cultura brasileira.
No caso das interações interculturais, duas variáveis (R) estão em questão, pois um FTA não receberá, necessariamente, a mesma atribuição para seu grau de ameaça nas duas culturas, tendo em vista as singularidades existentes na valoração afetiva empregada na preservação das faces numa dada sociedade. Ou seja, caberia nesses casos sugerir a seguinte formulação:
Wx = D (F1,F2) + P (F1,F2) + RCF1+ RCF2
As variáveis (D) e (P) independem dos falantes pertencerem ou não a mesma cultura, pois como vimos são outros fatores que as determinam. Para a especificação, no entanto, de interações em que os falantes são provenientes de culturas distintas, como por exemplo, as que estudamos entre brasileiros e franceses, deverá haver uma variável (R) para representar o teor de risco atribuído ao FTA em cada cultura (CF1 e CF2) envolvida.
A ocorrência de alguns mal-entendidos interculturais deve-se ao fato de que, por vezes os falantes ignoram o quanto um determinado FTA é tido como ameaçador na cultura de seu interagente. Esse desconhecimento ou essa inobservância pode gerar mal- entendidos, já que cabe ao falante escolher a estratégia mais apropriada para a situação,
seja através do uso de reparações, de implicaturas ou ainda da não realização do FTA em questão.
Brown e Levinson (1978) afirmam que “Geralmente, as pessoas cooperam (e acolhem a cooperação dos outros) para a manutenção da face na interação, cada cooperação estando baseada na mútua vulnerabilidade da face.”12 Em parte, essa vulnerabilidade é justificada pelo risco mútuo de ameaça às faces e por sua conseqüente relação com dimensões afetivas envolvidas numa dada interação. Por isso, Brown e Levinson tecem considerações sobre como as diferenças entre as culturas, ou sub- culturas dentro de uma mesma sociedade, podem ser evidenciadas através de seu ethos, ou seja, da qualidade afetiva característica da interação dos membros de uma dada sociedade.
Traverso (1999) acredita que a razão de os falantes dedicarem tamanha atenção a preservação das faces revela a grandeza do envolvimento afetivo relacionado à perda simbólica das mesmas. A autora afirma que a perda das faces é tão fortemente marcada no plano emocional, que pode gerar diferentes sentimentos como o embaraço, a vergonha ou a raiva. Entendemos que nesses casos, a escolha de estratégias de polidez, além de administrar a função reguladora, evidencia o interesse dedicado ao bem estar do interlocutor e valoriza o caráter altruísta das interações.
Certamente, não podemos relacionar toda ocorrência de mal-entendido à perda das faces, nem tão pouco condicioná-lo a sentimentos como o embaraço, a vergonha, a raiva, o constrangimento ou a qualquer outra manifestação afetiva de forma categórica. No entanto, tal fato pode ocorrer como nos permitem admitir alguns exemplos do corpus. Um mal-entendido pode, algumas vezes, impor situações constrangedoras que
12
In general, people cooperate (and assume each other´s cooperation) in maintaing face in interaction, such cooperation being based on the mutual vulnerability of face.”(p.61, 1978)
requeiram dos participantes um maior esforço para atenuá-las através de estratégias de polidez.
Interessa-nos, aqui, investigar em quais circunstâncias um mal-entendido pode representar uma ameaça às faces dos interagentes. Seriam alguns casos conseqüentes de um FTA? De quais estratégias valem-se os falantes para evitá-lo ou atenuá-lo? Nossas análises estão comprometidas com o desenvolvimento dessas questões e para que isso possa ocorrer a contento, contaremos também com a contribuição dos trabalhos de Kerbrat-Orecchioni (1996).