- Esta pedagogia dos surdos, desejada por surdos, nos incomodou na história com os professores surdos de Paris e o pioneiro professor surdo Huet no Brasil? Ela não é nova, ela existe para nós, está contida, latente nos discursos surdos?
Historicamente soube da história da França, os direitos e cidadania eram oprimidos pelas monarquias (autoridades) da época, considerando-os como incapazes, doentes mentais,...
Os pais escondiam filhos surdos e tinham uma forma de comunicação diferente entre si, os gestos, a mímica ou em forma de sinais com classificadores, o padre assistia-os e tinha o objetivo de colhê-los, eles ficavam com medo e escondiam-se. O padre tentava aproxima-los e queria entender a comunicação e colhia-os para o mosteiro.
O padre compreendia que não eram deficientes, considerando sim como diferentes, vivia carregando junto com ele a experiência deles, considerou-os com outra cultura, a própria cultura deles, trabalhou com a educação dos surdos, mostrou o trabalho deles ao rei, ele aproveitou e considerou os surdos como surdos e como capazes. Eles ficaram felizes.
Semelhante a aqui, a cultura surda de SM, parecia a volta dos tempos e espaços daquela França. Depois de construída culturalmente surda, a filosofia ouvicêntrica começou a cair obsoletamente.
No Brasil chegou o professor surdo francês E. Huet, e o rei D. Pedro II construiu a escola de surdos enorme, ele ministrou a LSF para surdos que aprendiam facilmente encantados pelos “sinais facilmente visualizados”.
Com a pressão da política ouvicêntrica brasileira e mundial ele abandonou o Brasil para ir a outro país. A política ouvicêntrica dominante que ocupou a educação de surdos, passou a ser igual a filosofia de vida deles, ensinando-os como normais, como iguais, com o método oralista. Os surdos sofriam controles rigorosos, com duros castigos e com muitas repetições.
2- Contar resumidamente a realidade toda da formação e da Universidade.
- Hoje os surdos voltam e reverberam por uma nova pedagogia? Que passos influenciaram a pedagogia dos surdos?
Naquele tempo morei em Chuí - RS em 2001.
Inscrevi-me em Magistério Particular para Ouvintes em Santa Vitória do Palmar, perto da cidade de Chuí, interessei-me em ser professora para crianças surdas. Porém lá as pessoas me olhavam, espantadas e me negavam, mandavam eu me inscrever no Ensino Médio, me chamaram de “deficiente”. Frustrada, a minha mãe tentou convencê-los em vão. Então, fomos no CRE de Rio Grande e o pessoal de lá disse hesitante: Vamos ver se pode. Enquanto esperava a resposta. Sofria, pensava na não permissão e na resposta positiva de lá. Decepcionei-me muito com a hesitação. Angustiada esperando a resposta, lutei para convencê-los telefonando, mas estavam em recesso (férias) durante uma semana. Enquanto isso, também inscrevi-me no Ensino Médio, começava a freqüentar, esperando ansiosa a resposta de lá.
Enfim, veio a resposta positiva. Aliviada, pensei:
- Por quê? perguntei a minha mãe, dizendo que pensei que eu como surda, para eles, os outros (ouvintes) eu era como uma retardada, uma deficiente mental,...
Nas escolas de ouvintes, não conhecia a História dos Surdos, pois o curso deles era para ouvintes.
3- Contar/explicar o que sente sobre a ciência positiva da pedagogia dos surdos. - A lacuna vivida existente em Pedagogia própria para surdos?
- Diante das muitas tessituras, que pedagogia os surdos querem? - Como e porque nomeamos esta pedagogia?
- Tem algo a volta e a reverberação dentro da formação da pedagogia - A pedagogia dos surdos nos incomoda e incomoda os ouvintes? - Há bastantes perguntas sobre esta incomoda pedagogia? - Há reclamações pela falta da própria pedagogia?
- Ensina-se aos surdos numa formação não pedagógica?
Mudei para o Curso Magistério para Ouvintes, senti-me incluída com os demais ouvintes, sentei esperando a exposição mas fui totalmente oralizada com som seqüencial, esperava ansiosa o recebimento do conhecimento, mas nada, nada, era o “conhecimento vazio”, veio à minha mente ”vazia”.
Ansiei, encarei a perguntar o que? o que? mas recebi pouquíssimas respostas, olhando no quadro, aprendi pouquíssimo. Sofri alguns meses passados até junho e nada, não passei nas provas. Rodei, por não conhecer as palavras, os profundos significados, conceitos, por causa do não recebimento das mensagens através do canal auditivo / oral, ou seja, por eu ser surda, as aulas foram ministradas concentrando-se oralmente ou em voz oral sonoro. Sofria angustiada pelas respostas desses conhecimentos.
4-Contar o que recebeu ou não da arte - educação (literatura, arte, poesia, piada/ humor, cartunista, teatro, filmoplastia) da própria cultura surda dentro do currículo da pedagogia.
- Consegue construir/produzir durante/depois do ensino dessa arte - educação? - Quais são os elementos constantes desta pedagogia (cultura, língua, currículo, etc. .)?
Literatura é como uma vida?
Em Santa Vitoria do Palmar , as professoras explicam os termos hermenêuticos em Português, a língua ouvicêntrica. A minha mãe não conhecia bem essas, pois é primária. Sofri com muito nervosa, tentei procurar livros, dicionários para ler, tentando a resposta mas em vão.
5- Qual a formação da identidade cultural / da mesmidade em relação à área filosófica/poética/política da própria cultura surda dentro da formação da Universidade?
- Qual a importância da cultura e participação do povo surdo na construção da pedagogia dos surdos?
Em Santa Vitoria do Palmar essa formação sem contato da identidade lingüística me fez ser excluída, isolada, ficando mal de saúde.
6- Expor o que tem a política surda e o movimento surdo vividos dentro da Universidade. - a política da diferença
- a política da pedagogia da diferença - a política da pedagogia dos surdos
Naquele momento eu não entendia “nada” naquela situação vazia, não recebia a ajuda dos colegas, nem das professoras para lutar pelo direito de ter alguma acessibilidade, de ser eu mesma, de ser diferente. Sinto a vida “vazia” não tinha convivência cultural dos surdos. E ainda piorei o estado da saúde voltando para casa.