Constitui o tecido humano de maior dureza sendo essencial às funções de protecção dos tecidos internos e à absorção de forças mastigatórias. Simultaneamente, esta característica também lhe confere elevada transparência e radiopacidade resultante de um elevado grau de mineralização que o tornam, apesar da sua dureza, frágil, quebradiço e vulnerável à acção dos ácidos provenientes da placa bacteriana, gástricos ou de proveniência alimen- tar. Em volume, é composto por 95% de componente inorgânico, maioritariamente sob a forma de cristais de hidroxiapatite constituídos por fosfato de cálcio. A parte orgânica ape- nas representa apenas 1 a 2% do total do volume, sendo o restante formado por água que vai diminuindo com a idade. A formação de esmalte é da responsabilidade exclusiva dos ameloblastos. Inicialmente formam uma matriz orgânica composta por diversas proteínas que quase em simultâneo, sofre a sua mineralização por deposição de cristais inorgânicos,
sulta de uma elevada actividade produtiva de ATPase, fosfatase alcalina e enzimas lisosó- micas, por parte das células estruturais. A ausência de colagénio na sua matriz proteica em detrimento de multiagregados polipeptídicos, bem como o seu baixo teor em água, confe- rem-lhe baixa elasticidade. Das proteínas com maior representatividade destacam-se a:
• Tuftelina
Detectável na JAD, desempenha um papel importante na fase inicial da deposição de cristais minerais.
• Amelina
Está presente na porção mais externa e periférica dos cristais de esmalte.
• Amelogenina
Representa cerca de 90% do componente orgânico diminuindo durante a transformação de esmalte imaturo em maduro, até ao seu desaparecimento.
• Enamelina
Encontra-se na periferia dos cristais. Liga-se à ameloblastina formando uma malha que serve de guia à confi guração dos limites dos prismas e na constituição da baínha dos mesmos. A disposição destas proteínas regula a morfologia e o tamanho dos prismas, modulando e inibindo o crescimento anómalo, através também, da albumina cuja pre- sença na matriz inibe a formação da hidroxiapatite e consequentemente, o crescimento dos prismas.
Os iões de cálcio e fosfato, utilizados pelos ameloblastos na formação dos prismas de es- malte, provêm dos capilares existentes no órgão de esmalte. A sua difusão é regulada por hormonas e vitaminas, cuja defi ciência na sua concentração, como se verifi ca em determina- dos distúrbios, proporciona anomalias na estrutura deste tecido tornando-o mais vulnerável à cárie dentária. O esmalte adulto caracteriza-se por ser acelular, e assim, sem capacidade reparadora, ou seja, não se reconstrói como sucede no caso da dentina. Apesar disso, é remi- neralizável, dependendo essa capacidade do grau de permeabilidade que possua. Pelo facto de ser avascular e não ser inervado por fi bras sensitivas também não transmite sensações dolorosas. A espessura de esmalte dentário, distância entre o limite externo do dente e a JAD, é variável e atinge valores máximos, entre 2 a 2,5 mm nas cúspides de molares e pré-molares e no bordo incisal dos caninos e, por norma, é menor em sulcos intercuspídeos e nas fossas (Avery 1992a).
Com a idade, os dentes perdem a sua permeabilidade e, como tal, tornam-se incapazes de através da água receber o aporte de iões, nomeadamente os fl uoretos (F-) que ao substitui-
rem os radicais hidroxilos (OH-) tornam o esmalte menos solúvel na presença de ácidos,
conferindo a este tecido maior resistência ao desenvolvimento da cárie (Avery 1992a; Ei- senmann 1998a; Eisenmann 1998b).
Em função da organização estrutural que apresenta, o esmalte pode classifi car-se em dois tipos: esmalte prismático e aprismático. Com excepção do esmalte aprismático, as unida- des básicas estruturais do esmalte dentário são os cristais de hidroxiapatite dispondo-se em primas hexagonais. Por norma, são maiores que os existentes na dentina ou no osso; podendo apresentar de 100 a 1000 nm de comprimento, 30 a 70 nm de largura e uma altura de 10 a 40 nm. São essencialmente constituídos por sais de fosfato de cálcio, com a fómula holográgica Ca10(PO4)6(OH)2 e carbonato de cálcio CaCO3, podendo-se tam- bém encontrar sulfatos, magnésio, ferro, cobre e essencialmente, fl úor (F-). Por sua vez, os
cristais são constituídos por unidades estruturais de associação de iões de sais minerais, também hexagonais, que apresentam no seu núcleo central o radical hidroxilo (OH-) e iões
cálcio (Ca2+). Nos seus vértices externos encontram-se iões de cálcio (Ca2+) alternando com
iões fosfato (PO4-) dirigidos para o núcleo interno. Envolvendo externamente estas estru-
turas moleculares, encontra-se água formando uma capa de hidratação capaz de permitir as trocas iónicas, entre a estrutura interna e externa do prisma, nomeadamente dos radi- cais (OH-) por (F-), e dos radicais Cálcio (Ca2+) por iões sódio (Na+), magnésio (Mg+), entre
outros. O esmalte prismático, que representa a maior parte do esmalte dentário insere-se entre duas porções de esmalte aprismático, a externa que recobre a superfície dentária e a interna da JAD. Os prismas que o compõem têm em média 10 μm de comprimento e possuem largura variável dependendo das duas regiões que o compõem: a cabeça (mais larga) e a cauda ligadas por um istmo, conferindo uma anatomia fusiforme. Os diferentes prismas dispõem-se perpendicularmente da periferia até à JAD, apontando as cabeças para a porção externa sendo estas capazes de absorver as forças de contacto. Encontram-se ajustadas linearmente, encaixados uns nos outros. Transversalmente, relacionam-se com um desfasamento de aproximadamente de metade do seu comprimento à semelhança das escamas de certos répteis. Internamente, os cristais de hidroxiapatite variam a sua posição em função da zona que ocupam, desde paralelos ao maior eixo do prisma na região da cabeça até uma posição de perpendicularidade na cauda passando por inclinações su- cessivas nas zonas intermédias. Externamente, e associando os diferentes prismas entre si, encontra-se uma fi na camada de substâncias orgânicas praticamente insolúvel, formando um retículo de aproximadamente 50 nm e criando uma interface de baixa mineralização
A orientação dos prismas de esmalte faz-se por planos circunferenciais concêntricos em torno do maior eixo dentário, verifi cando-se, porém, que os diferentes prismas se posicio- nam num padrão ondulante e apresentam, em relação à superfície dentária, diferentes an- gulações em função do tipo de dentição e da região da coroa dentária. Na região cervical dos dentes decíduos verifi ca-se uma tendência para a posição horizontal, enquanto que, na mesma região para os dentes defi nitivos, fazem um ângulo superior a 90º em relação à superfície, apontando na direcção apical. Nas regiões cuspídeas, em ambas dentições os prismas fazem um ângulo recto em relação à face externa dentária e nos sulcos e fossas das regiões oclusais verifi cam-se ângulos aproximados a 60º em relação à superfície oclusal (Avery 1992a; Eisenmann 1998b).
O esmalte aprismático encontra-se essencialmente nas regiões cervicais e no interior das fossas e fi ssuras oclusais, mas ausente nas cúspides. Muito embora não seja unânime o seu aparecimento na dentição defi nitiva, é característico da primeira dentição dispondo-se os cristais de hidroxiapatite perpendicularmente à superfície externa e sem defi nir estruturas prismáticas (Avery 1992a; Eisenmann 1998b).
3.3.1. Estruturas secundárias do esmalte com possível relação com a cariologia
As estrias de Retzius, também chamadas linhas incrementais, resultam de períodos de paragem de deposição mineral no esmalte durante a sua formação, podendo-se verifi car uma proporcionalidade entre ambos. A existência de linhas mais largas denuncia a possi- bilidade de alterações metabólicas ou distúrbios nutricionais favorecendo um excesso de material orgânico nestas zonas e, consequentemente, uma menor mineralização (Eisen- mann 1998b).
Independentemente da sua origem, as fi ssuras de esmalte, com espessura da ordem de grandeza do micrómetro, correspondem a fendas com origem na porção mais periféri- ca, prolongando-se até ao seu interior e correspondendo à intersecção de duas zonas de tensão distinta. Quando originárias antes da erupção dentária, estas estão preenchidas por matriz de esmalte não mineralizado ou por células do órgão do esmalte podendo atravessar prismas ou mesmo seccioná-los. As fi ssuras que ocorrem após a erupção são de origem traumática e correspondem às zonas de extensão anteriormente referidas. Nestas circunstâncias, encontram-se preenchidas de saliva e matéria orgânica. A entrada e saída de fl uidos nestas estruturas legitima a possibilidade de mineralização à posteriori, condu- zindo assim, a uma diminuição aparente do risco acrescido de cárie (Eisenmann 1998b).
Os fusos adamantinos, com origem na JAD e comprimento variável entre 10 e 15 μm, alojam os prolongamentos de odontoblastos provenientes da dentina e que se prolongam no esmalte. A maioria só possui líquido dentinário e estão na origem da transmissão de estímulos a partir do esmalte e no desenvolvimento do refl exo de dor (Avery 1992a; Eisen- mann 1998b).
A membrana de Nasmyth representa a última segregação dos ameloblastos perdurando desde a exfoliação dentária até aos primeiros contactos oclusais. Protege o esmalte de ac- ções cariogénicas e pode existir durante toda a vida principalmente nas zonas proximais, com menor acesso à escovagem dentária e ao atrito por ela produzido (Avery 1992a; Ei- senmann 1998b).