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Conclusion and Future Perspectives

A primeira capa a ser analisada teve como manchete “Policial enciumado mata mulher a facadas”, evidenciando toda a crueldade do assassinato. Logo abaixo, um subtítulo acrescenta “Acusado se entrega e diz que não aceitava traições”. Assim, percebe-se logo uma tentativa de inocentar ou atenuar o ato cometido: ciúmes e traição. Dessa forma, o crime é justificado na matéria não por violência doméstica ou machismo, mas por culpa da vítima. A violência é quase romantizada quando é justificada dessa forma.

Disso, compreende-se que o homem, diante de uma suposta traição da esposa, se viu obrigado a defender a própria honra e vingar-se. Ou seja, há uma estreita relação entre virilidade e violência, conforme atesta Bourdieu (2004). O autor explica que a honra se inscreveu no corpo masculino como um conjunto de disposições naturais e que o governa, mas sem obriga-lo automaticamente a agir.

Dessa forma, a honra tornou-se um habitus ou uma lei social incorporada, já que é reconhecida por todos e resulta de um trabalho social de nominação e inculcação de uma identidade social. Já a virilidade, segundo o autor, “entendida como capacidade reprodutiva, sexual e social, mas também como aptidão ao combate e ao exercício da violência (sobretudo em caso de vingança), é acima de tudo, uma carga” (BOURDIEU, 2004, p. 76).

Torna-se uma carga especialmente por ser uma cilada para o homem: ao mesmo tempo em que é um privilégio, provoca tensões que impõem ter de provar a virilidade a todo tempo e ainda na esfera pública. Por isso, matar a facadas e confessar o crime – ou, nas palavras da manchete, “se entregar” – mostram que o homem defendeu a sua honra, que foi manchada por supostas traições da mulher.

Além disso, o ato de se entregar demonstra publicamente que a honra foi restaurada por meio de uma morte violenta e, portanto, merecida do ponto de vista do criminoso. Assim, conclui Bourdieu: “A virilidade, como se vê, é uma noção eminentemente relacional, construída diante dos outros homens, para outros homens e contra a feminilidade, por uma espécie de medo do feminino, e construída, primeiramente, dentro de si mesmo” (BOURDIEU, 2004, p. 79).

Em relação às cores, percebe-se a predominância dos tons quentes: a manchete na cor amarela harmoniza com os grafismos vermelhos que imitam pingos de sangue

que, por sua vez. A imagem do policial, por sua vez, contrasta principalmente com a palavra “enciumado”, visto que seu semblante parece tranquilo. Dessa forma, o sentido que se passa é o da frieza do crime cometido, como se ele tivesse com um sentimento de “dever cumprido” ou até mesmo de “honra lavada”.

A imagem que ilustra a manchete, com o homem parecendo calmo, como se estivesse certo não só da impunidade, mas da honra lavada, resume bem o modo como as vítimas de violência doméstica são retratadas na imprensa: com descaso e frequentemente como coniventes com a violência sofrida.

A manchete da segunda capa analisada foi “Mulher tem a cabeça decepada em assassinato”. Por se tratar de um crime brutal, é possível visualizar uma tentativa do jornal em buscar um equilíbrio entre a foto, a manchete e os grafismos utilizados. A foto, que retrata o local onde a vítima foi encontrada, tem predominância da cor preta, a fim de assegurar não apenas o contexto no qual o corpo da mulher estava (um lugar ermo), como também o sentido sombrio do crime.

O tom macabro do crime é ampliado quando se percebe que os faróis do carro (nas cores amarela e vermelha) iluminam uma poça d’água, cuja lama segue até o limite do recorte fotográfico, encontrando-se com o grafismo de sangue que cobre toda a borda do espaço da foto e da manchete. O tom amarelo do fundo aparece mais uma vez, a fim de contrastar com o vermelho-sangue do grafismo. Vale salientar que o vermelho do grafismo também se confunde com a cor vermelha do fundo que ocupa a parte superior da capa do periódico.

Fazendo um paralelo com o escuro da imagem que ilustra a manchete do dia está a mulher seminua do “Essa é demais!!!”, vestida com uma lingerie preta. O sentido que se pode apreender é que até mesmo a sensualidade característica das mulheres que estampam a capa do Já foi atenuada, como se estivesse de “luto” pela vítima brutalmente assassinada.

Nesta manchete, a opção por utilizar a palavra mulher tem um sentido bastante específico: não se sabe a identidade da vítima encontrada. Enquanto na primeira capa a mesma palavra foi usada como sinônimo de esposa, bastante comum na linguagem coloquial, nesta deseja-se ressaltar a única informação que se tem em relação ao crime. Ainda, o termo “decepada” tem maior função do que apenas chocar o leitor: ligar o tom macabro conquistado por meio da imagem e dos grafismos, fazendo uma ponte entre os tons frios e quentes apresentados.

Figura 26: Capa 2

A terceira capa teve como manchete “Não sabemos o que pode nos acontecer”. Acima, a chamada “Mais medo em Queimadas” e, abaixo da manchete, um subtítulo que diz “Famílias das vítimas da barbárie sofrem ameaças”. As cores do título e da chamada harmonizam entre si, com a predominância dos tons quentes: amarelo, vermelho e branco. As fotos que ilustram a manchete são das mães das vítimas da “Barbárie de Queimadas”, segurando as fotos das filhas com semblante de tristeza e impotência.

O sentido que se quer passar é o de sofrimento sem fim pelo qual passam essas mães: por meio de expressões como “mais medo”, “sofrem ameaças” e a ideia de não imaginar o que (mais) pode acontecer, a capa consegue transmitir ao leitor o terror psicológico que assombra os familiares das vítimas.

Inclusive, o uso do verbo assombra não foi gratuito: o fundo que costumeiramente é vermelho ou amarelo (ou a combinação das duas cores) desta vez é escuro, quase preto, como que indicando a falta de esperança dessas famílias, que não conseguem “ver a luz no fim do túnel” e estão cobertas pela “sombra do medo”.

Isso também salienta a incerteza apresentada pela manchete. Ou seja, toda a combinação de manchete, palavras e cores servem para mostrar a dor dos parentes das vítimas do caso e reforçar que perder as filhas foi apenas o começo disso. Ainda, pode- se perceber que a mulher da capa – desta vez vestindo biquíni – está o mais distante possível da manchete, para que a intenção de emocionar o público não seja quebrada por meio de uma imagem sensual que se contrapõe ao tema abordado.

A última figura analisada neste tópico trouxe como manchete “Dupla mata mulher e dá tiro na cabeça de criança”. Com letras garrafais e na cor vermelha, o sensacionalismo do fato é ainda mais ressaltado por meio da imagem e dos grafismos. A foto ilustra uma pessoa coberta por um lençol branco deitada numa maca, sendo levada por socorristas do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) para uma ambulância.

Percebe-se que a brancura do lençol apresenta sinais de sangue, provando que a pessoa deitada está ferida. Por sua vez, o grafismo faz uma correlação entre o fundo branco (assim como o lençol) e uma mancha cor de sangue, como se fosse o padrão de uma pessoa que sofreu disparos de uma arma de fogo e ensanguentou o local.

O fato de os criminosos terem assassinado uma mulher, nesta manchete, ficou em segundo plano: o foco foi o tiro na cabeça de uma criança. Com um subtítulo que diz “Estado de saúde da garota é considerado grave”, salienta-se ainda mais a importância dada à criança ferida. A imagem da foto, dessa forma, pode-se inferir se tratar da mulher assassinada que, coberta, transmite o sentido cruel do ocorrido.

Ainda, a “mulher demais” parece mostrar-se indignada, o que pode ser interpretado como desconforto pelo assassinato ocorrido ou ainda por mostrar o corpo e, portanto, os braços cruzados podem ser vistos não apenas como uma tentativa de cobrir uma parte do corpo, mas como um escudo que a protege do julgamento alheio.

Figura 28: Capa 4