• No results found

1. Introduction

1.4. Taste sensitivity

Para construir uma relação de proximidade junto ao leitor, os jornais populares desenvolvem critérios de seleção para que um determinado fato se torne notícia na publicação. De acordo com Amaral (2006), enquanto nos jornais tidos como de referência os valores-notícia vão desde fatos de impacto nacional a políticas públicas importantes ou acontecimentos que gerem desdobramentos interessantes, a imprensa popular trabalha com outros critérios.

Em resumo, um fato terá mais chances de ser publicado num jornal popular se: tiver capacidade de entretenimento, ou seja, divertir com distração, de forma sensória prazerosa; tiver proximidade com o leitor e cause repercussão imediata na vida do leitor; se puder ser simplificado; se houver a possibilidade de narração dramática; se tiver identificação dos personagens com o leitor e se for útil, ou seja, se explica direitos básicos, ensina como viver à semelhança dos famosos ou até como investir o dinheiro (AMARAL, 2006, p. 63).

Tais critérios também podem ser atribuídos aos jornais sensacionalistas, uma vez que o entretenimento e a proximidade são critérios bastante vistos em publicações do tipo. Acrescenta-se o trinômio escândalo-sexo-sangue conforme frisado por Marcondes Filho (1989) como principal critério de noticiabilidade em publicações sensacionalistas.

A preferência por matérias que abordem a violência é considerada típica de periódicos que tendem ao sensacionalismo. De acordo com Angrimani (1995), uma das diferenças entre um jornal sensacionalista e os que apresentam linguagem mais objetiva, considerados de referência, reside na valorização editorial da violência por meio de notícias que explorem crimes tais como assassinatos, suicídios, estupros, vinganças, entre outros.

Entretanto, o autor argumenta que mesmo sendo uma prática com vistas a provocar emoção no público, “(...) ao valorizar a notícia que traduz um fato violento, o jornal sensacionalista está apenas atendendo a um desejo específico de seu público” (ANGRIMANI, 1995, p.57). Ou seja, essa compreensão é uma crítica a quem afirma

que o jornal sensacionalista tem natureza violenta, enquanto os demais informativos não teriam. A violência, conforme o autor, também se dá por meio de editoriais agressivos ou de uma reportagem denunciadora, por exemplo, que se encontram em publicações de referência.

Para Dias (1997), a violência nos periódicos sensacionalistas ultrapassa a escolha dos materiais a serem publicados e se encontra também na linguagem das notícias. Segundo a autora, a violência naturalmente já tem um lugar efetivo na mídia por significar um desvio em relação a um estado considerado normal. No entanto, alerta para o fato de que

A exposição chocante de fatos, acontecimentos e idéias visando a emocionar para além dos graus normais da tensão psicológica caracteriza a ação mais evidente da imprensa sensacionalista para potencializar a violência e torná-la banalizada. Essa observação aponta para a importância de se estar alerta à representação da violência, ou ainda, ao discurso que a elabora, pois “violência são os fatos tanto quanto nossas maneiras de apreendê-los, de julgá-los, de vê-los – ou de não vê-los” (Michaud, 1984:111). (DIAS, 1997, p. 1-2).

Portanto, Dias (1997) enfatiza que a contínua exposição à violência do cotidiano, especialmente quando os crimes cometidos são exacerbados ao máximo, com vistas à sensacionalização do fato, ocorre a banalização da violência, ao ponto de provocar certa insensibilidade diante de fatos que, normalmente, deveriam causar choque ou tristeza.

3 MEIGAS E ABUSADAS: INVISIBILIDADE E VIOLÊNCIA NA IMAGEM DA MULHER NA IMPRENSA SENSACIONALISTA

Determinados padrões de comportamentos são atribuídos às mulheres ou aos homens até o ponto de serem considerados naturais. Os argumentos do tipo biológico costumam ser utilizados como prova indiscutível de que existe diferença entre os sexos – e que, portanto, seriam suficientes para toda uma prática hegemônica de desvantagem em relação à mulher.

Por meio de um sistema de oposições homólogas (alto/baixo, fora/dentro, subir/descer), de aplicação universal, é possível registrar tais diferenças da natureza inscritas na objetividade, segundo Bourdieu (2014). Para o autor, essa divisão entre os sexos aparentemente natural “está presente, ao mesmo tempo, em estado objetivado nas coisas (...), em todo o mundo social e, em estado incorporado, nos corpos e nos habitus dos agentes (...)” (BOURDIEU, 2014, p. 21). Ou seja, pensamento, ação e percepção estão impregnados dessa lógica da dominação masculina.

Dessa forma, o conceito de gênero aponta para a arbitrariedade das chamadas diferenças entre os sexos e atribui à construção cultural as diferentes formas de compreensão do masculino e do feminino na sociedade. Ao apontar tais diferenças, o conceito tem como objetivo ressaltar que elas geram desigualdades. A pesquisadora Louro (1997) afirma que

Teorias foram construídas e utilizadas para “provar” distinções físicas, psíquicas, comportamentais; para indicar diferentes habilidades sociais, talentos ou aptidões; para justificar os lugares sociais, as possibilidades e os destinos “próprios” de cada gênero. O movimento feminista vai, então, se ocupar centralmente dessa diferença — e de suas consequências (LOURO, 1997, p. 45).

Scott (1990), no artigo Gênero: uma categoria útil de análise histórica, explica que o termo começou a ser utilizado por feministas para designar “uma maneira de se referir à organização social da relação entre os sexos” (SCOTT, 1990, p. 72). Ou seja, o gênero enfatiza que as diferenças entre os sexos são construções essencialmente sociais. De acordo com Louro, não são as características sexuais de mulheres e homens, “mas é a forma como essas características são representadas ou valorizadas, aquilo que se diz

ou se pensa sobre elas que vai constituir, efetivamente, o que é feminino ou masculino em uma dada sociedade e em um dado momento histórico” (LOURO, 1997, p. 21).

Num primeiro momento, as feministas que se debruçaram sobre os estudos acerca das mulheres lidaram com a tentativa de tornar o termo capaz de designar não somente um novo campo de estudos, mas também uma categoria analítica válida cientificamente. As pesquisas tentavam trazer visibilidade para as mulheres, mas muitas vezes limitaram-se a descrições de espaços e condições de vida e trabalho. Entretanto, a importância desses estudos reside no fato de tirar a mulher dos rodapés da literatura acadêmica e torná-la o tema central, como frisa Louro (1997).

Segundo Scott (1990), o termo gênero também indica “que qualquer informação sobre as mulheres é necessariamente informação sobre os homens, que um implica o estudo do outro” (SCOTT, 1990, p. 75). Assim, enfatiza-se que o mundo das mulheres também se relaciona ao mundo dos homens.

Acerca disso, Louro (1997) explica que o conceito de gênero “pretende se referir ao modo como as características sexuais são compreendidas e representadas ou, então, como são ‘trazidas para a prática social e tornadas parte do processo histórico’” (LOURO, 1997, p. 22). Ou seja, busca-se trazer a problematização para o campo social. Assim, o termo tem forte carga relacional e, mesmo que os estudos priorizem a análise sobre as mulheres, também acabam por se referir aos homens.

Para Lauretis (1994), o sistema sexo-gênero pode ser entendido tanto como construção sócio cultural quanto aparato semiótico, sendo um sistema de representação que acaba por atribuir significado na sociedade. Ou seja,

Se as representações de gênero são posições sociais que trazem consigo significados diferenciais, então o fato de alguém ser representado ou se representar como masculino ou feminino subentende a totalidade daqueles atributos sociais. Assim, a proposição de que a representação de gênero é a sua construção, sendo cada termo a um tempo o produto e o processo do outro, pode ser reexpressa com mais exatidão: “A construção do gênero é tanto o produto quanto o processo de sua representação” (LAURETIS, 1994, p. 212).

Esse sistema, para a autora, está sempre intimamente ligado aos fatores político e econômico de cada sociedade. Scott (1990) explica que o poder político “não apenas faz referência ao significado da oposição homem/mulher; ele também o estabelece. Para

proteger o poder político, a referência deve parecer certa e fixa, fora de toda construção humana, parte da ordem natural ou divina” (SCOTT, 1990, p. 92).

Isso significa, para a autora, que a oposição binária não é apenas intrínseca ao processo social das relações de gênero, mas também às relações de poder. Tal binariedade é objeto de discussão em diversos estudos, segundo Scott (1990). Assim, questionar qualquer aspecto dessa oposição significaria ameaçar todo o sistema desenvolvido para que as relações sociais assim se conservem.