Para o desenvolvimento do Seminário de Pesquisa, partiu-se da concepção de ser
humano complexo, constituído de corpo, mente e espírito. Para que o professor pudesse
vivenciar plenamente – em sua complexidade – e refletir a respeito do processo de musicalização vivenciado e de sua prática pedagógica, a organização dos Encontros foi baseada em um procedimento triádico entre teoria, prática e reflexão. De acordo com Freire (1996, p. 22), “a reflexão crítica sobre a prática se torna uma exigência da relação Teoria/Prática sem a qual a teoria pode ir virando blábláblá e a prática, ativismo”.
A fim de que a relação Teoria/Prática ocorresse, era necessário que o educador estudasse os textos indicados especificamente no Seminário; e com o intuito de que essa relação pudesse ser percebida, pensada e compreendida, criou-se um espaço para que ele tivesse a oportunidade de trazer suas experiências prévias e as realizadas com seus alunos, a partir do repertório de Brincadeiras e Músicas vivenciadas. De acordo com Fernandes (2012), “a formação contínua de educadores que trabalham com ensino de música na escola, requer pesquisa e desenvolvimento de projetos que levem em conta o educador, o contexto de sua vida e de seu trabalho” (In: ABEM, 2012, p. 132).
Recorda-se que os textos indicados para leitura foram selecionados, a fim de fundamentarem a prática, para que esta fosse compreendida e apreendida por eles. Uma vez que se entende o indivíduo como um ser complexo, adota-se o ponto de vista segundo o qual não é possível fragmentar a forma de aprender. Por esse motivo, escolheu-se a união da ação, teoria e reflexão, e se elegeram as Brincadeiras da Cultura da Infância como principal recurso para a
formação musical do pedagogo, pois a brincadeira envolve o indivíduo integralmente e o conduz à prática e apreciação musical. “Em suas formas mais complexas o jogo está saturado de ritmo e de harmonia, que são os mais nobres dons de percepção estética de que o homem dispõe. São muitos, e bem íntimos, os laços que unem o jogo e a beleza” (HUIZINGA, 2010, p. 09-10).
Em sua descrição a respeito do jogo, o filósofo Huizinga (2010) fala a respeito de “nobres dons da percepção estética” que todo indivíduo possui, a qual é esquecida em boa parte dos cursos para formação de professores, nas escolas de Educação Básica, especificamente em aulas de Música. Portanto o jogo, impregnado de “ritmo e harmonia”, ao unir Música, movimento e gesto, coloca o ser humano em contato com a beleza dos sons e movimentos que seu próprio corpo produz, da Música e da estética de diferentes manifestações culturais e sociais que ele, o jogo, carrega consigo. “Por Estética, não estamos propondo uma disciplina que se preocupa da produção poética, do ‘belo’; mas focalizando a Estética como estesia, uma capacidade que permite a percepção, através dos sentidos, do mundo exterior”. (PICOSQUE e MARTINS, 2012, p. 35)
A partir do exposto, torna-se possível compreender que as Brincadeiras abrangem, em sua essência, o ser humano como um todo, sobretudo sua dimensão espiritual. Percebe-se, portanto, a urgência em preparar professores capazes de despertarem e potencializarem essa dimensão das crianças que frequentam as escolas de Educação Infantil e Anos Iniciais do Ensino Fundamental, uma vez que se vive em um período histórico em que o resgate de valores humanos se faz necessário. Nesse contexto, as diferentes linguagens expressivas, em especial, a Música, é uma importante ferramenta para essa finalidade, pois
a música transcende os aspectos estruturais e estéticos se configurando como um sistema estabelecido a partir do que a própria sociedade que a realiza elege como essencial e significativo para o seu uso e a sua função no contexto que ocupa (QUEIROZ, In: MARINHO e QUEIROZ, 2005, p. 50).
O principal propósito em se pensar na organização de um ambiente onde o professor possa estudar e refletir a respeito do valor da Educação Musical na formação do ser humano, e vivenciar um processo de musicalização por meio de Brincadeiras da Cultura da Infância, é que ele tenha a possibilidade de ser a própria testemunha de seu desenvolvimento musical e humano, com a chance de olhar e refletir a respeito dos sentimentos e sensações experimentadas, além dos novos conhecimentos adquiridos.
Ouve-se correntemente, no discurso de profissionais que trabalham com formação de professores e/ou atuam na academia, comentários a respeito da integração entre teoria e prática, como se fosse possível separá-las. Não se pode afirmar que, enquanto um indivíduo brinca, não existe aprendizado.
Ficou claro, durante o desenvolvimento do Seminário, que a reflexão dos educadores se dava, em grande parte das situações, a partir de suas experiências anteriores, bem como das brincadeiras realizadas com suas turmas de aluno em seus ambientes de trabalho. Supõe-se que isso se dava devido à falta de hábito em sair do âmbito próprio e estudar pesquisas de outros educadores, como forma de ampliação de suas próprias referências, de modo a facilitar a pensarem e repensarem, tanto em sua formação, quanto em sua prática docente. Além disso, esse tipo de postura pode ser atribuída à visão segmentada do conhecimento que, em geral, se tem, que dificulta ou mesmo impede o entendimento da prática como processo de aprendizagem. Ainda é comum a ação ser entendida como o ato motor em si –, sem relação com o raciocínio, e a teoria como pensamento, como processo puramente cognitivo, sem sequer ponderar a respeito da sensibilidade do indivíduo, presente e essencial em todo o processo de ensino e aprendizagem.
Somos preparados biologicamente para sermos sensíveis, para roçar o mundo com nossos órgãos dos sentidos transformando essa coleta sensorial em informação para gerar processos cognitivos. Aquilo que é sentido transforma- se na fonte primária da cognição. O corpo é a porta de entrada de todo conhecimento e por isso o entendimento corpóreo se faz fonte para o conhecimento (PICOSQUE e MARTINS, 2012, p. 35).
Infere-se, a partir do observado no decorrer do Seminário de Pesquisa, e do referencial teórico estudado, que as Brincadeiras da Cultura da Infância como meio para a aproximação do pedagogo ao fazer musical, são capazes de despertar a sensibilidade, característica humana contemplada na prática/apreciação musical e frequentemente esquecida na formação inicial e contínua das pessoas.