5. Discussion and Conclusion
5.6 Conclusion
O inventário de cicatrizes é uma informação base para mapeamento de suscetibilidade por métodos estatísticos (Barella 2016). Nele, cartografa-se, pontualmente ou com delimitação da área de instabilidade (Parise 2001) os movimentos de vertentes, morfologicamente visíveis na área (Oliveira 2012). A construção dos inventários pode ser realizada por diversos métodos, como análise estereoscópica de fotografias aéreas, cartografia geomorfológica de campo, investigações de geologia de engenharia em escala de vertente, técnicas de sensoriamento remoto, e compilação de dados em arquivos históricos, de acordo com o objetivo, recursos disponíveis e escala de investigação (Guzzetti et al. 2000; Guzzetti 2005).
Segundo Guzzetti 2005, a construção do inventário parte das premissas: i) Deslizamentos deixam marcas identificáveis ou cicatrizes, feições geomorfológicas referentes a mudança da forma, posição ou aparência da superfície topográfica, que podem ser identificadas e classificadas; ii) Em geral, deslizamentos de um mesmo tipo deixarão cicatrizes similares; iii) Deslizamentos não são eventos aleatórios, e resultam da inter-relação de processos físicos que podem ser determinados de forma empírica, estatística ou determinística; iv) Para deslizamentos, pode-se usar o princípio do uniformitarismo, ou seja “o passado e presentes são a chave para o futuro” (Carrara et al. 1991; Aleotti & Chowdhury 1999; Guzzetti et al. 1999).
Guzzetti et al. (2012) classificam os tipos de inventário de acordo procedimentos adotados em sua construção (Tabela 2.3).
Tabela 2.3 - - Tipos de inventário. De acordo com Guzzetti et al. (2012)
Inventário Características
de Arquivo Informações provindas da literatura ou outras fontes.
G eo mo rf oló gico
Histórico Representa os deslizamentos ocorridos sem correlação de tempo, ou com correlação temporal relativa (e.g. recente, antigo, muito antigo, etc).
de Eventos Representa os deslizamentos desencadeados por um único evento (terremoto, evento chuvoso, derretimento de neve, etc). A data dos deslizamentos é relacionada a data ou período do evento.
Sazonal Representa os deslizamentos ocorridos durante uma ou algumas temporadas (e.g. um ano, uma estação do ano, etc). As datas de referência são as dos eventos desencadeadores.
Multitemporal Representa os deslizamentos desencadeados por diversos eventos por um longo espaço de tempo (e.g. décadas). As datas de referência são as dos eventos desencadeadores.
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Diversos fatores influenciam a acurácia do inventário como i) a escala, data, presença de nuvens e resolução das fotografias aéreas ou imagens de sensor remoto; ii) O tipo, escala e qualidade do mapa utilizado para apresentar as informações sobre os deslizamentos; iii) as ferramentas utilizadas na interpretação e análise das imagens; e iv) o conhecimento e experiência do executor da análise das imagens (Guzzetti et al. 2012). Ainda se destaca a interferência ocasionada pela relação de luz e sombra nas imagens (Figura 2.2), devido ao ângulo de incidência da luz solar durante a coleta de imagens (Rogers & Doyle 2003).
A) B)
Figura 2.2 - A Imagem "A" captada em 1946 com luz oblíqua vinda por trás da encosta mostra diversas cicatrizes. A imagem “B”, do mesmo local, captada em 1984 com luz frontal à encosta. Nela não se observam deslizamentos, sendo que em 1983, 5 dos 8 deslizamentos haviam reativado (Rogers & Doyle 2003).
Para Garcia (2012), não se deve utilizar movimentos ocorridos em taludes antrópicos nos inventários de cicatrizes. Este autor explica que como as fontes altimétricas, da qual se derivam diversas bases cartográficas, principalmente o mapa de declividade, normalmente não representam os taludes antrópicos, a demarcação de cicatrizes pode gerar análises equivocadas no modelo final causando sub ou supervalorização de determinados fatores condicionantes. Esse autor ainda releva que degradação das cicatrizes, seja por processos naturais ou por ação antrópica, dificultam o registro de movimentos de massa que tenham ocorrido em um passado mais distante. Mesmo em eventos recentes, como observado por Barella (2016) na catástrofe ocorrida em Nova Friburgo/RJ no ano de 2011 (Figura 2.3), a evolução da passagem é notável, e demonstra um grande encobrimento das cicatrizes em apenas 2 anos.
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Figura 2.3 - Evolução das cicatrizes de deslizamento em Nova Friburgo/RJ, em imagens extraídas do Google Earth Pro (Barella 2016).
A construção do inventário, em escritório, envolve a análise de imagens aéreas e/ou orbitais, e a correlação destas aos modelos topográficos, além das feições geológicas e geomorfológicas (Fell et al. 2008). A sua acurácia estará relacionada à qualidade dos dados, como resolução das imagens e/ou
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escala da base topográfica, às ferramentas empregadas no processo e às habilidades e experiência do interprete (Guzzetti et al. 2012).
As principais informações extraídas das imagens durante a identificação e alocação das cicatrizes estão relacionadas à análise combinada entre textura, conformação, localização, padrão, tonalidade e cor, mudança nos padrões de vegetação e nas condições das drenagens, estruturas geológicas e anomalias topográficas (Guzzetti et al. 2012). A presença de quebras abruptas na continuidade da encosta, concavidades, convexidades e principalmente textura rugosa na zona de acumulação, quando comparada a zona de depleção, podem reforçar os indícios da ocorrência de uma cicatriz (Barella 2016).
Na delimitação de cicatrizes com base em dados topográficos, o resultado alcançado é diretamente proporcional à acurácia do material empregado, logo varia de acordo com a distância entre as curvas de nível ou com a resolução do MDT (Barella, 2016). Na interpretação das curvas de nível Rogers & Doyle (2003) propõem assinaturas de deslizamentos das quais valem destaque: i) contornos opostos no mapa topográfico; ii) presença de crenulações nas curvas de nível; iii) escarpas arqueadas na parte superior do movimento (Figura 2.4).
Figura 2.4 - Anomalias topográficas do relevo propostas por Rogers & Doyle (2003 apud Barella 2016).
Soeters & van Westen (1996) fazem uma lista de parâmetros fotogramétricos derivados de padrões geomorfológicos, de vegetação e de drenagem característicos de instabilizações de vertente (Tabela 2.4).
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Tabela 2.4 - Padrões morfológicos, de vegetação e de drenagens nos processos de instabilizações de encostas e suas respectivas características. Adaptado de Soeters e van Westen (1996).
Característica do terreno Relação com a instabilizações Características fotogamétricas
Mo
rfo
lo
gi
a
Concavidades e convexidades Superfície de ruptura e depósito Anomalias côncavas e convexas no modelo estereoscópico
Morfologia em degraus Escorregamento retrogressivo Vertente em degraus
Escarpa semicircular a
montante afloramento da superfície de ruptura Parte superior do movimento com
Escarpa em tons claros associada com pequenos lineamentos
ligeiramente curvos
Facetas em aclive na encosta Movimento rotacional Depressões ovais e alongadas com condições de drenagens
Morfologia irregular e ondulada (hummocky) da
vertente
Microrelevo associado a movimentos rasos e pequenos
deslizamentos retrogressivos
Textura superficial grosseira contrastando com textura suave ao
redor Vales preenchidos com fundo
ligeiramente convexo, onde formas em "V" são comuns
Depósitos de movimentos de massa derivados de corridas
Anomalias na morfologia dos vales, geralmente lobular e com padrões de
fluxo no corpo Ve ge ta çã o Clareiras na vegetação de escarpas íngremes, coincidindo com a morfologia
do movimento
Ausência de vegetação na superfície de ruptura ou nos degraus no corpo
do movimento
Áreas alongadas em tons claros na coroa ou no corpo do movimento
Clareiras lineares e irregulares ao longo da vertente
Superfícies de deslizamento translacionais, trajetória de corridas
e avalanches
Áreas desnudas mostrando tonalidades claras, geralmente com
padrões lineares na direção do movimento
Vegetação desordenada, interrompida e parcialmente
morta
Deslizamento em blocos e
movimentos diferenciais no corpo Tons de cinza irregulares, por vezes manchados
Vegetação diferenciada associada às mudanças nas
condições de drenagem
Drenagem estagnada devido a faces em aclive, infiltração no lobo frontal e condições diferenciadas no corpo
do movimento
Diferentes padrões de tonalidade associados com anomalias
morfológicas no modelo estereoscópico Dr en ag em
Áreas com drenagem estagnada
Reentrâncias, facetas em aclive e formas onduladas ao longo do
movimento
Diferenças de tonalidade com porções escuras associadas às áreas
úmidas Áreas excessivamente
drenadas
Corpo do deslizamento protuberante, com vegetação diferenciada e erosão do solo
Zonas de tonalidade clara associada a formas convexas
Infiltração e nascentes d'água locais onde o plano de ruptura aflora Nascentes no lobo frontal e em Manchas escuras, ligeiramente curvas e realçadas por uma
vegetação diferenciada Interrupção das linhas de
drenagens
Anomalias de drenagem causadas pela ruptura da encosta
Linha de drenagem quebradas abruptamente Padrões de drenagem
anômalos
Drenagens contornando frontal ou lateralmente o corpo do movimento
Padrão de drenagem curvo com sedimentação a montante
O levantamento de cicatrizes em campo geralmente trata-se de um procedimento complicado, devido a diversos fatores como o ponto de vista ao qual o observador está sujeito, a evolução natural superficial com cobertura por vegetação, a modificação por processos naturais subsequentes, a alteração por ação antrópica, além de restrições geográficas ou legais que podem impedir o acesso a
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regiões de interesse (Guzzeti et al. 2012). Ainda existe a possibilidade de inviabilização da operação devido ao dispêndio de tempo, principalmente em áreas muito extensas ou sem acessos pré-existentes (Wills & McCrink, 2002).