Esta pesquisa investigou o modo de funcionamento psicológico de crianças com deficiência intelectual ao longo da constituição de conceitos científicos em sala de aula, para analisar como se realizam os processos de fossilização e desfossilização durante a construção do conhecimento das crianças com deficiência intelectual. O objetivo não se restringiu apenas em identificar a capacidade da criança em internalizar o conceito, mais também em analisar o processo de constituição do conceito cientifico. Para as peculiaridades desse objeto, a investigação foi realizada por meio de estudo de casos mediante abordagem qualitativa e priorizou a análise microgenética.
De acordo com Merriam (citado por André, 2005), o estudo de caso com abordagem qualitativa apresenta as seguintes características: suas particularidades dizem respeito a focalização de um fenômeno específico e peculiar, o que torna o estudo de caso muito utilizado em pesquisas que pretendem analisar fenômenos que ocorrem diariamente, voltados a situações práticas. Além disso, a análise do caso privilegia também a descrição densa do objeto em estudo e interpreta os resultados encontrados por intermédio de filmagens, observações, entrevistas, ações e palavras dos sujeitos em estudo. Já a dimensão heurística possibilita compreender e descobrir novos conhecimentos a partir do estudo de casos, oportunizando nova leitura do fenômeno investigado. Por fim, a indução mostra que grande parte dos estudos de casos se fundamentam em uma lógica indutiva, o que possibilita a descoberta de novos conceitos e não simplesmente validações ou refutações de hipóteses.
O estudo de caso com abordagem qualitativa, na ótica de Mazzotti (2006), é uma investigação científica contextualizada, determinada a partir de critérios predeterminados, na qual utiliza-se múltiplas fontes de dados e que tem como objetivo fornecer uma visão holística do fenômeno que se estuda. O principal dessa abordagem é que não só haja critérios claros no que diz respeito à seleção do caso como também que a situação configure-se como um caso, por apresentar elementos complexos e intrigantes que motivem o esforço de entendimento e compreensão.
Segundo Freitas (2002), o marco central da abordagem qualitativa refere-se ao olhar de análise, que percebe os sujeitos como históricos, datados, concretos, marcados por uma
cultura como criadores de idéias e consciências que, ao produzirem e reproduzirem a realidade social, são, ao mesmo tempo, produzidos e reproduzidos por ela. A autora fundamenta sua idéia nas premissas de Vigotski sobre o estudo do método das funções psicológicas superiores, onde o mesmo propõe que os fenômenos humanos sejam estudados em seu processo de transformação e mudança, portanto em seu aspecto histórico. Sendo assim, o pesquisador precisa ter em mente que o foco de análise não é a soma dos resultados, mas sim a análise da gênese dos dados e sua relação com o processo de transformação e mudança do fenômeno pesquisado.
De acordo com Vigotski (2003), existem alguns pontos importantes que devem ser verificados em uma pesquisa, para que não ocorram erros metodológicos, sendo eles: o pesquisador não deve restringir-se à descrição dos fatos, pois deve avançar para a análise e explicação dos mesmo; a pesquisa é uma relação entre sujeitos, relação essa que se torna promotora de desenvolvimento mediado por um outro; os fenômenos estudados devem ser considerados em seu processo de transformação e mudança, o que auxilia o pesquisador a ter um olhar na dimensão da relação do singular com a totalidade.
Vigotski (2003) apresentou contribuições metodológicas riquíssimas para a análise da gênese das funções psicológicas superiores. Uma delas é a argumentação do estudo da dimensão histórica dos fatos e ressalta que isso não significa analisar eventos passados, mas sim compreender o processo de transformação dos fatos. De acordo com Góes (2000, p. 3), estudar o curso de transformação significa investigar “as condições passadas e aquilo que o presente tem de projeção para o futuro”.
2 Participantes
Participaram desta pesquisa duas crianças, Danilo e Amanda, com 12 e 14 anos respectivamente. Suas família têm nível sócio-econômico considerado baixo. Ambas apresentam o diagnóstico de deficiência intelectual, sem comorbidades outras, matriculados pública de ensino de Taguatinga – Distrito Federal. A escolha das crianças atendeu alguns critérios essenciais: a professora necessitou ter a disponibilidade para trabalhar com as crianças e interesse em colaborar com o estudo; o conceito investigado não podia ter sido ensinado às crianças. Tais critérios foram essenciais para assegurar a validade da pesquisa.
3 Local
A pesquisa foi realizada em uma turma de classe especial de um colégio de ensino regular da rede pública de ensino de Taguatinga, vinculada à Secretária de Educação do Governo do Distrito Federal.
4 Instrumentos
Para a coleta de dados foram utilizadas a técnica de observação participante, a aplicação do método de classificação do quarto excluído seguida de perguntas críticas e o método de definição de conceitos com auxílio de gravuras (Luria, 1990). Estes instrumentos foram utilizados para identificar os conceitos cotidianos já adquiridos pelos alunos e analisar a apropriação dos conceitos científicos referentes à classificação de seres vivos e seres não vivos, de animais vertebrados e animais invertebrados e a de mamíferos, aves e peixes.
Foram construídos dois tipos de pranchas que apresentavam o mesmo objetivo e conteúdo, pranchas do tipo A e B. As do tipo A se prestaram à análise dos conceitos cotidianos e a prancha do tipo B dos conceitos científicos, e, foram aplicadas individualmente, num total de quarentas pranchas cada versão (anexo 1). Cada prancha foi composta por quatro figuras de seres diferentes, três delas pertencentes à mesma categoria e a quarta pertencente à outra categoria. As categorias presentes na prancha dividem-se em: classificação de seres vivos e seres não-vivos; a classificação de animais vertebrados e animais invertebrados e a classificação de mamíferos, aves e peixes.
Durante a apresentação das pranchas, foram utilizadas, inicialmente, as seguintes perguntas: O que isso? Uma dessas não deve está aqui. Qual? O que essa figura se parece
com as outras? O que essa figura tem de diferente? Como você sabe que é uma (nome da figura, por exemplo, planta) planta? As respostas foram registras em um formulário (anexo
2). As perguntas críticas permitiram que a partir da justificativa da resposta do participante se analisasse o funcionamento psíquico do sujeito, principalmente no que diz respeito à capacidade de abstração e de generalização. Especificamente no caso da deficiência intelectual, o método de classificação do quarto excluído seguido por inquérito é considerado um instrumento que possibilita ao pesquisador identificar o curso de pensamento da criança e
a capacidade de transpor das formas real-concretas de generalizações para o pensamento de generalização abstrata. (Rossi, 2006).
Após a atividade de classificação do quarto excluído, usou-se o método de determinação ou definição de conceitos, solicitando a criança à definição, ou, o significado de uma palavra. Por exemplo: o que é um martelo? o que é um cachorro? O método de determinação ou definição do conceito auxiliou a identificar o funcionamento e as características dos enlaces reais-imediatos ou lógico-verbais que representam o significado da palavra. (Luria, 1987).
Em função da natureza de investigação, foram elaborados roteiros para registro das aulas ministradas, onde utilizou a observação participante, que permitiu analisar com mais propriedade os comportamentos e tomadas de decisões, sentimentos e atitudes da criança ao resolver situações problemas.
De fato, o planejamento e o registro das observações participantes em diário de campo e gravações audiovisuais possibilitou a elucidação do percurso de desempenho da criança, ou seja, o caminho do plano social para o plano psicológico, da regulação social à auto- regulação.
5 Procedimento de Coleta de dados
Na fase preliminar, foi realizado o contato com os responsáveis pelo colégio de ensino especial, com o objetivo de verificar a possibilidade de realização da pesquisa nessa instituição. Solicitada, nessa ocasião, a autorização formal da direção do colégio para viabilização da coleta de dados, através da assinatura do termo de consentimento livre, concedido pelo professor (anexo 5) e pais (anexo 6) das crianças investigadas.
Em seguida ocorreu a inserção da pesquisadora no ambiente da sala de aula, após ser combinado previamente com a professora o conceito científico a ser trabalhado, de acordo com as atividades curriculares desenvolvidas, neste caso, os conceitos de seres vivos e não- vivos; animais invertebrados e vertebrados; e a classificação vertebrados em mamífero, ave e peixe. Em seguida, foram verificados os conceitos cotidianos já desenvolvidos pelas crianças por meio do método de classificação do quarto excluído e do método de definição de conceitos com auxílio de gravuras.
Foram, então, realizadas processos mediacionais visando à formação dos conceitos em foco, em sala de aula, registrando igualmente em diário de campo e em áudio e vídeo. Dessa forma, primeiro foi ensinado a classificação de seres vivos e não-vivos e, a seguir, a
classificação de animais vertebrados e invertebrados; e, por fim, a classificação de mamíferos, aves e peixes.
Na seqüência, após a mediação, as crianças foram ajudadas a realizarem as atividades para o desenvolvimento dos conceitos, quando buscou-se analisar a sua capacidade de avanço na Zona de Desenvolvimento Proximal, e de operar com os conceitos sozinha, ou seja, avaliada a dinâmica do processo de fossilização. Nesse momento, verificou-se a eficácia da internalização e automatização.
Buscou-se identificar processos de desfossilização. Após a criança ter fossilizado determinado conceito, era necessário uma certa flexibilidade mental, para que ela retornasse à zona de desenvolvimento proximal e aprender um novo conceito que dependesse do anterior. Por fim, aplicou-se novamente o quarto excluído e o método de definição de conceitos, com o objetivo de analisar a abrangência de generalização e abstração dos conceitos científicos acerca das classificações já mencionadas.