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3 Africa, climate change and cooperation

3.1 Africa and climate change consequences

Durante todo o trajeto teórico que Vigotski percorreu, a questão da natureza social das funções psicológicas superiores estave presente. Pino (1999) discute a respeito do termo “função” que Vigotski faz uso no decorrer de seus escritos. Nos trabalhos de Vigotski, não está presente o motivo pela escolha do termo “função”, mas é certo que o seu caráter semântico é bem diferente das teorias funcionalistas. Quando Vigotski (2003) refere-se à gênese das funções mentais superiores, o autor utiliza diferentes termos para designar a mesma coisa: formas superiores de conduta, formas mentais, processos mentais superiores e funções mentais superiores. Independente da utilização indistinta do termo, ao entender o psiquismo como constitutivo de um conjunto de funções de natureza social e não de ordem biológica, Vigotski rompe com as perspectivas funcionalistas e estruturalistas e também com as visões biologizantes e mecanicistas da concepção sobre desenvolvimento humano.

De acordo com Pino (2000, p.71), a terminologia “função” permite compreender o psiquismo como algo dinâmico, que está sempre em transformação:

algo que nos faz pensar na criação ininterrupta do velho no novo, do significado dado na flutuação do sentido. Entendido assim, o termo função permite ver as “funções mentais” de que fala Vigotski como um acontecer permanente. Conservando um certo grau de consistência e de continuidade, apresentam-se sempre sob o signo do novo. É claro que a capacidade de pensar, de falar, de registrar em memória etc, são funções permanentes da pessoa, mas sujeitas às leis

históricas das condições da sua produção: produção da fala, das idéias, das lembranças etc. Essas funções são portanto função dessas condições de produção, as quais não permanecem sempre necessariamente as mesmas. O que nós pensamos, o que nós dizemos, o que nós rememoramos depende das condições concretas em que isso ocorre. Se isso não impede que idéias, discursos ou lembranças possam ser reproduzidas no tempo com uma certa persistência, elas têm de ser cada vez (re)pensadas, (re)ditas ou (re)memoradas.

Vigotski foi um dos precursores ao tentar esclarecer que o desenvolvimento possuiu uma lei genética que é social e que toda função psicológica ocorre primeiro na interação entre pessoas, configurando-se assim como um episódio social. Indica-se, então, que o social e o cultural constituem a chave principal do seu construto teórico. Para o autor, “o homem é uma pessoa social, um agregado de relações encarnadas num indivíduo” (1989, p.58). Porém, os termos “social” e “cultural” muitas vezes são utilizados como sinônimos, o que não precisa os seus significados no campo da educação.

Para que se possa fundamentar o papel dos termos social e cultural no desenvolvimento das funções psicológicas superiores, se faz necessário circunscrever esses termos no contexto teórico proposto pela abordagem histórico-cultural. Segundo Pino (2000), o termo social caracteriza comportamentos de sociabilidade existentes no mundo naturalmente e não configuram uma organização social; já o termo cultural apresenta esse caráter de organização de idéias e comportamentos específicos em determinada comunidade.

Na evolução das espécies, mudanças vão ocorrendo e novas habilidades e capacidades surgem, permitindo ao sujeito transformar a natureza conforme sua necessidade e criando suas próprias condições de existências. Isso possibilita que o homem modifique o seu próprio modo de pensar e agir. Os momentos de rupturas fazem com que o homem transcorra da passagem do natural, a filogênese, para a ordem do social, a ontogênese.

A função elementar refere-se à natureza biológica, o desenvolvimento da filogênese, enquanto a função superior trata da natureza social, que constitui-se no plano da ontogênese. De acordo com Vigotski (2003), as funções biológicas não desaparecem, mas sim criam uma via de superação ao adquirem uma nova roupagem, e são incorporadas na história do sujeito a partir de sua participação na cultura. Pino (1991) esclarece que entender o desenvolvimento humano como cultural é o mesmo que dizer que o desenvolvimento humano é histórico, portanto refere-se ao processo que o homem realiza na natureza e em si mesmo como parte integrante dela. Ainda segundo Pino, a abordagem histórico-cultural pretende estudar a relação entre sujeito e sociedade. “No lugar de perguntar como a criança se comporta no meio

social, diz ele, devemos perguntar como o meio social age na criança para criar nela as funções superiores de origem e natureza sociais”. (Vygotsky 1989, p.15).

As funções psicológicas superiores, tais como pensamento, linguagem, formação de conceitos, memória, potencial criador, são os aspectos essenciais que distinguem o ser humano de outras espécies. Esses processos apresentam um caráter social que se desenvolve apenas se o sujeito estiver inserido em situações sociais. Já os processos psicológicos elementares são de origem filogenética, não sendo aspectos determinantes para o surgimento e transformações das funções psicológicas superiores.

Essa lei genética do desenvolvimento é a mesma tanto para as crianças normais quanto para aquelas que apresentam algum comprometimento intelectual. O ciclo da lei fundamental da psicologia apresenta processos de transição do percurso interpsicológico para o intrapsicológico. Para exemplificar o processo de internalização, Vigotski (1997) estudou o desenvolvimento da criança no caminho da linguagem exterior a interior como forma fundamental de conduta coletiva, de colaboração social com os outros que se converte em forma interior de atividade psicológica da própria personalidade.

Entretanto, esse processo ocorre de uma maneira peculiar nas crianças com deficiência intelectual, nas quais o defeito e a incapacidade do desenvolvimento das funções superiores se encontram em uma relação distinta do defeito do desenvolvimento insuficiente das funções elementares. Essa diferença é o ponto principal para que se possa compreender o desenvolvimento das crianças com deficiência intelectual. Segundo Vigotski (1997), pode-se vislumbrar essa idéia na qual o desenvolvimento incompleto do pensamento gera um atraso intelectual na criança.

O desenvolvimento incompleto das funções psicológicas superiores nas crianças com deficiência intelectual configura-se como fator secundário que não deriva do próprio defeito orgânico, mas sim de seus sintomas originários. Sendo assim, Vigotski (1997) se propõe a estudar por que as funções superiores se desenvolvem de maneira incompleta em crianças com atraso mental. O desenvolvimento incompleto das funções superiores é uma subestrutura secundária sobre o defeito, que apresenta um funcionamento particular que transcorre da seguinte maneira:

El niño normal responde al conflicto de modo mucho más moderado, más elástico, por médio de transiciones más graduales y conectadas entre si. Encuentra la forma de dar uma solución de compromiso al conflicto, lo cual le permite no interrumpir e inmediato el trabajo iniciado. La conducta de los niños mentalmente retrasados tiene, em esta situación, um caráter mucho más incoherente y se subordina a la ley de –uma cosa o la outra-. Una de las diferencias fundamentales de los niños

retrasados consiste em el estancamiento y el entorpecimiento, em la difícil movilidad del material psíquico [...] en comparación con un nino normal, el retrasado parece ser más maduro em el sentido de su menor dinamismo y menor movilidad de sus sistemas psíquico y de una mayor rigidez y fragilidad de los mismos (VIGOTSKI, 1997, p.253 e 256)

As particularidades do funcionamento intelectual das crianças que apresentam dificuldades no campo cognitivo estão relacionadas à constituição da estrutura psíquica, constituída pela insuficiência das funções elementares que comprometem o desenvolvimento ontogénetico das funções psicológicas superiores, nas quais, por sua vez, o pensamento apresentará menor mobilidade, flexibilidade e maior rigidez mental.

Os construtos teóricos de Vigotski possibilitam um delineamento metodológico das pesquisas que pretendem investigar o percurso dos processos das funções elementares em funções psicológicas superiores, pois apontam à importância da função mediadora no desenvolvimento intelectual do sujeito. Segundo Rossi (1993, p. 9), “a ação do sujeito sobre o objeto é mediada socialmente pelo outro e através de signos”. Assim, a atividade intelectual apresenta-se como um produto interpsíquico.

O sujeito, a partir do nascimento, apropria-se dos conhecimentos da cultura na qual está inserido e essa apropriação ocorre em decorrência das relações interpessoais que são preconizadas no contexto social da criança. Depreende-se que essa apropriação acontece quando o sujeito parte do processo da interação com o outro, transformando-o em processo interiorizado; então, o conhecimento é realizado internamente. O sujeito apropria-se dos conteúdos culturais por meio do processo chamado internalização. Segundo Rossi (2006, p.2), a “internalização é a reconstrução interna, intrapsicológica, de uma operação externa com objetos e bens culturais com os quais o sujeito interage. A atividade externa ao sujeito, realizada no contexto cultural torna-se atividade interna ao sujeito”

Segundo Vigotski (2003), o processo de internalização das funções psicológicas superiores consiste, principalmente, em três aspectos: o primeiro relaciona-se ao inicio do processo de uma atividade externa que começa a operar internamente. Esse mecanismo é de grande valia para o desenvolvimento das funções psicológicas superiores e para a compreensão da utilização dos signos. O próximo processo representa uma atividade interpessoal que é modificada num processo intrapessoal. As funções psicológicas que têm origem no social, através da “atividade prática e instrumental, porém não individual, mas em interação ou em cooperação social” (Coll, 1982, p.82), referem-se ao nível interpsicológico que se transforma, posteriormente, em um processo intrapsicológico. O terceiro discute a

transformação do processo interpsicológico para o intrapsicológico, que é fruto do percurso histórico do desenvolvimento. “A internalização de formas culturais de comportamento envolve a reconstrução da atividade psicológica tendo como base as operações com signos” (Coll, 1982, p.75)

Portanto, Coll (1982), embasado pela abordagem de Vigostki (2003), postula algumas idéias centrais para que se possa compreender o processo de internalização:

a) a melhor forma para entender a mente é observar como ela muda; b) as funções mentais superiores têm sua origem na atividade social; e c) funções mentais superiores são mediadas por instrumentos e signos.

Percebe-se que as funções mentais superiores são construídas e transmitidas no nível social, ao passo que o sujeito adquira condições de internalização dos conhecimentos oferecidos pela sociedade através dos signos. “A internalização das atividades socialmente enraizadas e historicamente desenvolvidas constitui o aspecto característico da psicologia humana; é a base do salto qualitativo da psicologia animal para a psicologia humana”. Vygotski (2003).

Assim, o processo de internalização dos significados, mediados culturalmente nas relações entre os sujeitos, é umas das principais colaborações da abordagem histórico- cultural. Conforme Rossi (2006, p.3), ao se apropriar do pensamento de outra pessoa, através da linguagem, o sujeito constrói concomitante sua linguagem e seu pensamento. A apropriação do que circula na realidade objetiva, no mundo, é um movimento dialético mediado por signos. Então, as funções psicológicas superiores são constituídas por meio da mediação semiótica.