• No results found

A existência de indivíduos que necessitam sobreviver por meio da venda dos materiais recicláveis, advém desde a revolução Industrial no início do século XX, com a implementação da indústria gráfica.

Há registros de compradores de sucata no bairro do Brás, em São Paulo, principalmente materiais ferrosos, “o ‘garrafeiro’, figura respeitada pelo trabalho desempenhado e que, no decorrer do tempo, foi dando lugar ao catador, que, por sua vez, recolhem os resíduos recicláveis de diferentes locais, desprendendo sua mão de obra sem custo algum” (PINHEL, 2013).

No decorrer do século XX, com a transformação do perfil das cidades por meio da industrialização, o modelo consumista passou a dominar o ser humano. O intenso crescimento populacional urbano (sociedade industrializada) acarretou a geração maciça de resíduos sólidos.

Por outro lado, o grande número de pessoas desempregadas em razão das exigências impostas pelo mundo do trabalho, impulsionou a falta de oportunidade e a fragilização das relações humanas. A grande veiculação da sobrevivência dessa crescente sociedade é a produção de “coisas” e o seu consumo.

Na sociedade de produtores, sujeitos cuja mão-de-obra não possui utilidade, associada a todos os bens que a demanda do presente e do futuro são capazes de produzir, sobretudo com maior rapidez, maior lucratividade e de modo muito mais “econômico”, tais sujeitos são vistos como falhos no sistema vigente.

Numa sociedade de consumidores, eles são os “consumidores falhos”, indivíduos carentes de dinheiro que lhes permitiria ampliar a capacidade do mercado consumidor, e que criam um novo tipo de demanda a que a indústria do consumo, orientada para o lucro, não pode responder nem “colonizar” de maneira lucrativa. Os consumidores são os principais ativos

da sociedade de consumo, enquanto os consumidores falhos são os seus passivos mais irritantes e custosos (BAUMAM; p. 102, 2005).

Desse modo, a sociedade prescrita industrial, do crescimento da produtividade e de lucros, transforma-se na sociedade urbana, moldando-se na cidade do capital, com justaposições de interesses e com a imposição do consumo exagerado, deixando de lado a humanização, a solidariedade e a coletivização (LEFÉBVRE, 1991).

A instabilidade ocasionada pela falta de emprego produz sentimentos de aflição, insegurança, depressão, ansiedade e distúrbios emocionais; sentimentos presentes na sociedade urbana (BAUMAN, 2005).

Desta feita, os sujeitos que a compõem, vivenciam o estado de vulnerabilidade às ações impostas pelo sistema economicamente dominante, bem como a marginalização e a exclusão no sistema contemporâneo. O processo da individualização corrobora para com a produção de espaços “descoletivizados” por intermédio das “coisas” adquiridas.

Em outras palavras, sujeitos exclusos deste processo autoproduzem seu lugar de maneira individual e egocêntrica, resultando na segregação por intermédio de valores e de interesses do sistema. Embora o espaço seja produzido por toda a sociedade, a sua apropriação se dá, principalmente, pelos mais pobres e fragilizados, por meio de lutas e disputas (MENDES, 2015).

Assim, o processo de marginalização inerente ao indivíduo “coisificado”, visto como produto descartável e instável face ao sistema, pressupõe uma sociedade pautada na valorização do estereótipo.

A “população excedente” é mais uma variedade do “refugo” humano, restando apenas coletar os resíduos externalizados pela sociedade do consumo. Essa massa humana constitui- se de desempregados que, por sua idade, vulnerabilidade social e baixa ou nenhuma escolaridade, não encontram lugar no mundo do trabalho. Há também outro contraste no perfil desses trabalhadores, indivíduos que possuem certo nível de escolaridade, mas que, por sua vez, não encontram posição profissional no mundo marcado pelo dinamismo da tecnologia.

Outro aspecto considerável é a vulnerabilidade emocional desses homens e mulheres: sujeitos oprimidos pela violência, pelo sofrimento e pelo preconceito; trabalhadores explorados por comerciantes intermediários – sucateiros e donos de áreas dos lixões - obrigados a disporem o fruto de seu trabalho – os materiais recicláveis – a preço inferior ao praticado no mercado.

Dessa forma, o desenvolvimento da atividade denominada de catação possui vínculo extremo com a pobreza, sobretudo o anseio de tais trabalhadores pela sobrevivência em meio à sociedade urbanizada. As necessidades dos sujeitos vinculam-se diretamente ao sustento de si e de seus familiares, culminando no garimpo dos materiais recicláveis em sacos de lixo espalhados pelo meio urbano ou nos lixões. É sabido que muitos indivíduos se sujeitam a baixa qualidade de vida e aos riscos iminentes à sua saúde (decorrente do ambiente insalubre), na busca pela sobrevivência.

Nas cidades brasileiras, a figura do catador não era reconhecida pelo poder público, que julgava não ter nenhuma obrigação para com essa realidade. Assim, poucos olhares acompanhavam esses sujeitos escravizados pelos grandes sucateiros e atravessadores, detentores dos meios e das condições de trabalho.

Ademais, por meio da compra dos resíduos recicláveis, estocagem e encaminhamento às indústrias de reciclagem, os atravessadores englobam, quase sempre, todo o excedente produzido na fase da coleta, além de controlar e determinar o preço dos resíduos que são destinados a esse grupo (FÉ; FARIA, 2011).

Em virtude da grande quantidade de resíduos recicláveis, a realização da catação desses materiais é possível sem qualquer insumo tecnológico ou mesmo de meios de produção específicos ou qualificação profissional definida. O processo de catação possibilita a remuneração do indivíduo em pequenos períodos de tempo, pois o mesmo apresenta-se com grande liquidez e escoamento do material.

A partir da década de 1990, diversas ações e incentivos à coleta seletiva preconizaram o início ao fomento do trabalho com a inclusão dos catadores. As políticas e ações relativas ao gerenciamento dos resíduos por estímulo dos governos, organizações não governamentais, instituições de fomento e incubadoras, surgiram como sobrevida aos catadores espalhados pelo espaço urbano (PINHEL, 2013).

Uma das estratégias relevantes à real efetivação dessa prática é a organização dos catadores por meio de cooperativas ou associações. Para tanto, a vontade política, somada aos investimentos estruturais e humanos, e ações que contemplem: a) a regulamentação das atividades dos catadores; b) a logística de coleta dos materiais nos domicílios; c) o escoamento às formas de produção e comercialização dos resíduos; d) o fomento financeiro e infraestrutural; e) a representatividade e a formação política dos integrantes desses empreendimentos, se faz necessário.

Não obstante, a organização dos sujeitos no modelo associativista também está presente em muitos municípios brasileiros. Tal prática abrange a promoção de ações inerentes

à educação, assistência social, cultura e representação política de interesses de classes. As cooperativas objetivam o cunho econômico, propiciando a viabilização do negócio produtivo do empreendimento junto ao mercado.