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2. THEORY

2.2. The causes of cervicogenic dizziness

Há então necessidade de se evidenciar a luta das mulheres e a elaboração de seus percursos intelectuais durante a história – “desde muito tempo, as mulheres negras vêm lutando para serem sujeitos políticos e produzindo discursos contra hegemônicos” (RIBEIRO, 2016, p. 19).

Sojourner Truth23 é uma mulher importante na saga de intelectuais negras que ainda que

não tenham produzido uma obra escrita, marcaram um período histórico na defesa pelos interesses e lutas das mulheres negras.

Truth foi uma mulher afro-americana escravizada e que após conquistar a liberdade, em 1827, tornou-se uma conhecida oradora abolicionista. Ela utilizou seu corpo24 e sua voz para

confrontar as normas sociais e construir novas maneiras de existir, desafiando discursos racistas e sexistas que desumanizavam as mulheres negras.

A participação de Sojourner Truth resistindo à hostilidade foi importante porque permitiu representatividade de suas irmãs negras – escravas e livres:

[...] ela trouxe um espírito lutador à campanha dos direitos das mulheres. Este foi o contributo único e histórico de Sojourner Truth. E no caso das mulheres brancas esquecerem que as mulheres negras não são menos mulheres que elas, a sua presença e o seu discurso serviu de constante recordação. As mulheres negras também iam obter os seus direitos (DAVIS, 2016, p. 51).

O discurso “Eu não sou uma mulher25”, proferido por ela na I Convenção sobre os

Direitos das Mulheres em Akron, em 1852, apresenta características que permitem compreensões sobre o caráter contra hegemônico das mulheres negras no contexto da escravidão e que podem ser estendidas até os dias atuais.

Sozinha, Sojouner Truth salvou o encontro de mulheres de Akron das zombarias disruptivas promovidas por homens hostis ao evento. De todas as mulheres que compareceram à reunião, ela foi a única capaz de responder com agressividade aos argumentos, baseados na supremacia masculina, dos ruidosos agitadores. Com seu inegável carisma e suas poderosas habilidades como oradora, Sojouner Truth derrubou as alegações de que a fraqueza feminina era incompatível com o sufrágio (DAVIS, 2016, p. 70).

Isso porque, conforme apontado por Davis (2016), seu discurso se pautou em uma lógica irrefutável e quando “o líder incompatível dos provocadores afirmou que era ridículo que as mulheres desejassem votar, já que não podiam sequer pular uma poça ou embarcar em uma

23 Nascida em 1797 em um cativeiro em Swartekill, Nova Iorque, Isabella Baumfree adotou o nome de Sojouner Truth a partir de 1843 (RIBEIRO, 2017).

24 Meredith Minister (2012) relata que Sojourner Truth tinha um corpo que, além de preto e feminino, era também incapacitado, visto que carregava marcas de um acidente de trabalho que feriu sua mão. A autora problematiza que embora a história desta importante mulher negra tenha sido explorada extensivamente a partir das perspectivas exclusivas de raça, feminilidade e deficiência, a erudição está apenas começando a considerar as relações entre esses estigmas. Isso reforça que a separação desses discursos em blocos separados de opressão não identifica como essas opressões se perpetuam e sustentam. Explorar a relação entre estes três estigmas de debilidade, feminilidade e alteridade racial no século XIX estabelece uma base para considerar como Sojourner Truth usou seu próprio corpo para navegar entre esses estigmas.

carruagem sem a ajuda de um homem” (DAVIS, 2016, p. 71). Truth questionou quem era esta mulher referida e proferiu:

Muito bem crianças, onde há muita algazarra alguma coisa está fora da ordem. Eu acho que com essa mistura de negros do Sul e mulheres do Norte, todo mundo falando sobre direitos, o homem branco vai entrar na linha rapidinho. Aqueles homens ali dizem que as mulheres precisam de ajuda para subir em carruagens, e devem ser carregadas para atravessar valas, e que merecem o melhor lugar onde quer que estejam. Ninguém jamais me ajudou a subir em carruagens, ou a saltar sobre poças de lama, e nunca me ofereceram melhor lugar algum! E não sou uma mulher? Olhem para mim? Olhem para meus braços! Eu arei e plantei, e juntei a colheita nos celeiros, e homem algum poderia estar à minha frente. E não sou uma mulher? Eu poderia trabalhar tanto e comer tanto quanto qualquer homem – desde que eu tivesse oportunidade para isso – e suportar o açoite também! E não sou uma mulher? Eu pari 13 filhos e vi a maioria deles ser vendida para a escravidão, e quando eu clamei com a minha dor de mãe, ninguém a não ser Jesus me ouviu! E não sou uma mulher? Daí eles falam dessa coisa na cabeça; como eles chamam isso… [alguém da audiência sussurra, “intelecto”). É isso querido. O que é que isso tem a ver com os direitos das mulheres e dos negros? Se o meu copo não tem mais que um quarto, e o seu está cheio, porque você me impediria de completar a minha medida? Daí aquele homenzinho de preto ali disse que a mulher não pode ter os mesmos direitos que o homem porque Cristo não era mulher! De onde o seu Cristo veio? De onde o seu Cristo veio? De Deus e de uma mulher! O homem não teve nada a ver com isso. Se a primeira mulher que Deus fez foi forte o bastante para virar o mundo de cabeça para baixo por sua própria conta, todas estas mulheres juntas aqui devem ser capazes de conserta-lo, colocando-o do jeito certo novamente. E agora que elas estão exigindo fazer isso, é melhor que os homens as deixem fazer o que elas querem. Agradecida a vocês por me escutarem, e agora a velha Sojourner não tem mais nada a dizer (TRUTH, 2002, p. 47).

O discurso, feito de improviso, foi registrado pela feminista Frances Gages26. A partir dele

se tem dados para discutir a movimentação de mulheres deste período contra uma categoria hegemônica do ser mulher – categoria pela qual mulheres negras estavam negadas. A interseção da raça com o gênero surge como imperativo, trazendo nova significação ao termo mulher, que em busca da liberdade não poderia lutar apenas contra o patriarcado, mas também contra outras opressões que estivesse sujeita, neste caso, a opressão racista.

Ribeiro (2018) apresenta um poema de Truth no qual é possível perceber a crítica desta ativista em relação a mulheres de classe social privilegiada que estavam à frente do movimento feminista. No poema “On woman’ dress poem” a poeta diz “é melhor vocês reformarem a si

26 Frances Gages é uma das autoras de um importante material da primeira onda do feminismo “The history of woman sufragge” (1881).

mesmas em primeiro lugar”, e essa estrofe “aponta para uma possível cegueira dessas mulheres em relação às mulheres negras no que diz respeito à perpetuação do racismo e como, naquele momento, esse fato não era considerado relevante como pauta feminista por elas” (RIBEIRO, 2017, p. 24).

Desta forma, “o que a voz de Sojouner traz, além de inquietações e necessidades de existir, é evidenciar que as vozes esquecidas pelo feminismo hegemônico já falavam há muito tempo. A questão a ser formulada é: por que demoraram tanto a serem ouvidas?” (RIBEIRO, 2017, p. 24).

Há também de se destacar a importante atuação de Sarah Grimké (1792-1873) e Angelina Grimké (1805-1879), conhecidas como as irmãs Grimké, que também ligaram a questão da escravatura à opressão das mulheres, promovendo discussão sobre a forma como as opressões se interseccionam.

Sarah e Angelina não estavam preocupadas, pelo menos não o exprimiram – em questionar a desigualdade social das mulheres. A sua principal prioridade era expor a essência desumana e imoral do sistema da escravatura e responsabilidade especial das mulheres na sua perpetuação. Mas quando a supremacia masculina atacou-as, perceberam que enquanto não se defendessem como mulheres – e os direitos das mulheres em geral – ficariam para sempre impedidas de aceder à campanha de libertação dos escravos (DAVIS, 2016, p. 37-38).

Estas irmãs estavam profundamente envolvidas no movimento de abolição. Em 1836, com a escrita do panfleto “Um apelo às mulheres cristãs do Sul”, elas lutaram contra a escravidão. Em 1835, uma das irmãs, Angelina, escreveu uma carta de aprovação a William Lloyd Garrison que posteriormente publicou em seu jornal abolicionista, The Liberator.

Os textos e as leituras destas duas espantosas irmãs foram entusiasticamente recebidos por muitas mulheres que estavam ativas no movimento feminino antiescravatura. Mas alguns dos homens líderes na campanha abolicionista reclamaram que a questão dos direitos das mulheres confundiria e alienaria aqueles que estavam apenas interessados em derrotar a escravatura (DAVIS, 2016, p. 38).

A partir de Davis (2016) é possível compreender a atuação e as produções destas irmãs como percursoras da interseccionalidade, já que além de produzirem análises extensas do status da mulher também denunciaram a isenção dos “homens líderes na campanha abolicionista, que reclamaram que a questão dos direitos das mulheres confundiria e alienaria aqueles que estavam apenas interessados em derrotar a escravatura” (DAVIS, 2016, p. 38). Na sequência, um trecho de uma de suas cartas, apresentado por Davis (2016):

Um dia Bonaparte repreendeu uma senhora por se ocupar com política. “Senhor” disse ela “num país onde as mulheres são colocadas para morrer, é muito natural que as mulheres queriam saber os motivos disso”. E queridas irmãs, num país onde as mulheres são degradadas e brutalizadas, onde são expostas ao sangue humano debaixo do chicote – onde são vendidas, roubado os seus salários, tiradas dos seus maridos, saqueadas da sua virtude e da sua descendência; certamente nesse país é muito natural que as mulheres queiram saber a razão porque – especialmente quando esses ultrajes de sangue e horrores sem nome são praticados violando os princípios da nossa constituição (GRIMKÉ apud DAVIS, 2016, p. 38).

Tem-se então nesta militância das irmãs Grimke um chamado para que as mulheres se juntassem em uma tarefa urgente, compreendendo que a sua própria opressão se sustentava e perpetuava na continuidade da existência do sistema da escravatura.

Davis (2016) discute que a consciência destas irmãs permitiu compreender a inseparabilidade da luta da libertação dos negros e da luta da libertação das mulheres

[...] elas nunca foram apanhadas na armadilha ideológica de que uma luta era absolutamente mais importante do que outra. Elas reconheciam o carácter dialético da relação entre as duas causas. Mais do que outras mulheres na campanha contra a escravatura, as irmãs Grimke chamaram a urgência da inclusão constante da questão dos direitos das mulheres. Ao mesmo tempo que argumentavam que as mulheres nunca alcançariam a sua liberdade independentemente do povo negro (DAVIS, 2016, p. 39).

A partir do exposto, evidencia-se que mulheres negras denunciavam a indissociabilidade das opressões nos seus movimentos de luta. Estes relatos permitem mais do que mostrar uma “disfonia em relação à história dominante do feminismo, mas também a urgência por existir e a importância de evidenciar que mulheres negras historicamente estavam produzindo insurgências contra o modelo dominante e promovendo disputas de narrativas” (RIBEIRO, 2017, p. 24). Válido se desestabilizar verdades acerca da história e da existência de mulheres negras.