Dadas as importantes influências do Estado nos meios de comunicação, referidas no ponto anterior, torna-se agora relevante focar o estudo dessas influências, especificamente em televisão, contrastando com o modelo privado que se foi afirmando ao longo dos anos. Já se conhecem algumas das fragilidades que a televisão pública atravessa atualmente, mas é necessário ir ao fundo da questão para perceber como é que o serviço privado conquistou os espetadores e deixou para trás uma televisão pública destruída e esquecida.
Um pouco por todo o lado, o modelo de televisão pública esboroou-se, desvitalizou-se, para não dizer desmoronou-se, em proveito de um entusiasmo angélico pela televisão privada, subitamente tornada de todos os encantos perdidos pela televisão pública. (Wolton, 1994:22)
Na origem do serviço público de televisão, predominante na Europa do pós-guerra, haviam estado o medo, a negação do predomínio comercial e a democratização. Um meio de comunicação tão poderoso, influenciável e tão perto do povo, provoca o medo daqueles que se encontram no poder e por isso havia a necessidade de criar um mecanismo que pudesse seguir de perto a televisão e servisse os interesses dos governos de alguns países. Ao consumirem os produtos do Estado, as classes médias mantinham-se controladas politicamente e ideologicamente, o que era menos um problema para o Estado. (Torres, 2011). Outros, não viram com bons olhos a privatização de canais na América do Norte e por isso recusaram-se a aderir a um modelo centrado principalmente no mercado e na obtenção de lucro. Por último, o objetivo de democratizar a sociedade, ao informar segundo ideais culturais igualitários e sem custos, o que apenas era conseguido através do modelo de televisão pública, neste caso defendido por historiadores, escritores e outros intelectuais, que hoje continuam a manter estes argumentos, como é o caso de Goulart Brandão em Portugal.
Deste modo, a televisão generalista pública deve garantir, através das suas programações, o pluralismo e o acesso da diversidade ao ecrã, garantir a língua, a cultura e a coesão nacional. Deve assim ser um ponto de referência para todos os membros do público e um factor de coesão social e de integração de todos os indivíduos, grupos e comunidades, dando uma enorme importância na formação, informação e até no entretenimento das pessoas, em que a qualidade das suas emissões é determinante. (Brandão, 2002:20)
A televisão pública europeia apresenta valores direcionados sobretudo para o cidadão, para que ele tenha acesso a toda a informação. Na América do Norte, mais concretamente, os objetivos passam por obter os melhores retornos económicos, através de uma política de mercado.
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Na Europa, a televisão pública baseia-se na necessidade de várias opções para satisfazer as necessidades de todos os consumidores, a fim de fomentar a diversidade de oferta, a cultura nacional e internacional e o desenvolvimento das relações sociais. Contudo, a diferença que mais de destaca entre os dois modelos é o modo de regulamentação de um e outro. A política, mais especificamente o Estado, são os grandes mentores e impulsionadores do serviço público televisivo europeu. A televisão americana pública (PBS), mais recente que os canais privados, depende apenas das oscilações de mercado. Na Europa, à exceção da Inglaterra (que abriu um canal privado logo em 1954), todos os países servem o modelo da televisão pública regulamentada pelo Estado e dirigida para todos os cidadãos.
A partir dos anos 50, é notável o poder que a televisão pública detém no panorama audiovisual. Em vários países europeus, o serviço público de televisão controlava cada aparelho televisivo nacional e por isso detinha também sobre a população o poder de “educar-informar- entreter”. (Torres, 2011)
Em “Elogio do Grande Público”, Dominique Wolton enumera três épocas cruciais da história do serviço público de televisão. Na primeira época, “1950-1970: O domínio do modelo de serviço público” é notável a vontade do Estado controlar o meio de comunicação mais poderoso da época e as orientações culturais e sociais que ditaram uma fase de ouro para o serviço. O período segundo é, na visão de Wolton 1970-1980, o que ele considera de “confronto dos dois modelos”. Nesta época, a evolução técnica trouxe, tanto para a televisão, como para os restantes meios de comunicação, um vasto leque de novas oportunidades de difusão e partilha de informação. O êxito da televisão pública, aliado a novas oportunidades televisivas aumentou a necessidade de novas ofertas para o público, que ansiava por mais e melhor. A televisão pública não foi capaz de responder a essas necessidades e mantinha-se atrasada em relação ao avanço da sociedade.
(…) perante a reticência da televisão pública em se abrir e renovar, é que o público, inicialmente bastante fiel, começou a sonhar com o fruto proibido. A consequência disso foi a crispação ainda mais forte do controlo político sobre a televisão e uma transformação do discurso sobre a televisão de serviço público numa retórica oca, desligada do real. (Wolton, 1994:27)
A progressiva falta de atuação da televisão pública provoca a última fase. “1980-1990: A reviravolta.” Em 30 anos, a opinião pública foi mudando e a televisão pública não conseguiu acompanhar essas mudanças. As empresas privadas aproveitaram tal facto para investir no audiovisual com o objetivo de agradar aos consumidores. Numa tentativa desesperada de combater o avançar dos canais privados, a televisão pública procurou desenvolver uma política idêntica à dos canais privados, assente na publicidade e nos lucros financeiros.
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(…) a mesma obsessão pela audiência, a mesma redução da diversidade de programação, a mesma diminuição dos documentários científicos, culturais e sociais; o mesmo aumento da dimensão de “espetáculo” da política…” (Wolton, 1994:29)
Na década de 1990, o serviço público de televisão europeu encontrava-se em ruínas. Em países como a França, os problemas financeiros levam a televisão pública a subsistir através de uma taxa paga pelos franceses e através da publicidade. A programação está completamente desviada dos princípios que orientam a televisão pública e focada no combate à concorrência.
Perspetivando globalmente a situação dos operadores públicos de televisão, confrontamo-nos com um panorama audiovisual confrangedor. Acumulação de dívidas, uma grelha de programação que mais parece um clone dos canais privados, parcialidade no tratamento de assuntos políticos- eis um retrato que poderia aplicar-se à RTP, à RTVE, à RAI, à ARD, à France 2 e 3 e até mesmo à, por tradição, intocável BBC. (Lopes, 1999:1)
Para se ultrapassarem as dificuldades que ainda se mantêm atuais, devem ser criadas medidas no domínio da tecnologia, dos conteúdos e principalmente ao nível económico, para que o serviço público de televisão não despareça completamente daqui a poucos anos.
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Cap.3. A informação televisiva
Este capítulo centra-se no estudo da informação televisiva, com as suas condicionantes, técnicas, componentes e estruturas. Numa primeira fase é descrita a importância da informação em contexto televisivo, passando pelas várias condicionantes a que esta está sujeita, técnicas e humanas, e pelas manipulações que, voluntária ou involuntariamente, são feitas e que culminam na construção de uma nova realidade. São também estudadas as formas e mecanismos utilizados na criação dos conteúdos e as fases que se apresentam até à exibição das notícias, dando destaque aos critérios jornalísticos utilizados na hora de decidir quais os acontecimentos que devem ser noticiados.
Mais tarde, é feita uma apreciação sobre a importância do direto e as potencialidades que este pode oferecer na criação de uma informação-espetáculo, motivada por questões comerciais e económicas.
Por último, e mais concretamente, é feita uma análise geral do telejornal, a sua estrutura, as técnicas mais utilizadas de organização, e o papel preponderante do apresentador, ao ser o principal rosto da informação exibida.