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Querer ser aceite e valorizado pelos outros é uma necessidade inerente a todos os sujeitos, principalmente pelas figuras significativas (79) e o relacionamento com os outros é desejado pelos sujeitos com PB (44,57). Contudo, a presença de situações de aceitação e rejeição vai influenciar o desenvolvimento de determinados padrões de relacionamento social e íntimo (79).

De acordo com o modelo da sensibilidade à rejeição descrito por Pietrzak. Downey e Ayduk (80) os sujeitos que têm sensibilidade à rejeição são aqueles que desde cedo experienciaram rejeição em situações que envolviam pessoas próximas, e por isso, significativas. O medo do abandono e rejeição leva-os a adotarem comportamentos que visam evitar a rejeição. Estes ficam hipervigilantes a qualquer pista que possa ser uma ameaça, e mesmo as situações neutras são percecionadas como ameaças. Ao percecionarem rejeição, a ansiedade aumenta e com esta aumenta a perceção de negatividade e seguidamente expressam reações intensas, comprometendo as relações com essas mesmas pessoas (81) perpetuando um ciclo que leva à confirmação dos seus receios (80,82).

As dificuldades sentidas nas relações interpessoais não são fáceis de ultrapassar em tratamento, mas são de grande importância para a melhoria do funcionamento destes sujeitos porque a qualidade destas tem significado no prognóstico (57). Se conseguirem obter um suporte estável e evitar a angústia interpessoal, o seu prognóstico borderline poderá remitir (39,49).

Os sujeitos com PB têm uma sensibilidade acentuada aos eventos ou estímulos que os rodeiam, nomeadamente àqueles que percecionam como rejeição, fracasso, mas também à solidão que estes possam provocar (83). As características destes eventos fazem despoletar níveis elevados de tensão negativa (84) e os afetos negativos, característicos

desta patologia, são sentidos predominantemente neste contexto interpessoal quando percecionam menos atenção por parte dos outros (85).

O relacionamento que o borderline estabelece com os outros baseia-se na necessidade de cuidados, sentindo o outro como alguém que tem de dar resposta às suas necessidades (86). Estes são dependentes das suas figuras significativas para alcançar o bem-estar e, por consequência, sentem-se dependentes nesta relação. Esta dependência aumenta a probabilidade de sentimentos de abandono e raiva (16) dado que, o medo intenso de abandono ou rejeição, quer este seja real ou imaginário, pode levar a tentativas de controlo sobre o outro (86). A dificuldade em controlar os impulsos, leva-os a agir estas emoções (16), provocando instabilidade no seu funcionamento (86).

O desapontamento, o abandono e a raiva têm maior probabilidade de surgirem com as suas figuras significativas quando estas não se mostram disponíveis (16). A incapacidade para lidar com a frustração pode levá-los a vivenciar, por estas, a raiva, passando de bons a maus objetos, oscilando assim entre a idealização e a desvalorização (86). Os afetos negativos mais frequentemente vivenciados intensamente nestas situações são, para além da raiva, o desespero (2), a ansiedade e a tristeza (87), a depressão e o medo (88), sendo frequente, os sentimentos de culpa posteriores à raiva (86).

Um estudo (89) demonstrou que nos casais, onde a mulher tem diagnóstico borderline, existem comportamentos negativos acentuados relacionados com o domínio e controlo do outro, e conflitos, perpetuando e acentuando o diagnóstico borderline. Estes comportamentos, existindo nos dois elementos, são mais frequentes nas mulheres, exceto ao nível do evitamento e criticismo que se mostra similar no casal. Estes autores sugerem que perante estas características o parceiro possa apresentar também características de personalidade disfuncionais, até mesmo PB. Quando percecionam o companheiro como menos agradável, reagem negativamente e quando é percecionado como mais assertivo e dominante sentem mais afetos negativos por poderem suscitar um ataque à sua autonomia e segurança e interferir com a sua autoestima (85).

As dificuldades no relacionamento com os outros associam-se a características que podem ser distinguidas em dois subgrupos na PB. O subgrupo “dependente” associado a características como a baixa autoconfiança, excesso de comodismo, submissão, dificuldade de expressão das suas necessidades aos outros, e o subgrupo “autónomo” onde os sujeitos se apresentam como dominantes, controladores, demasiado assertivos, autocentrados, vingativos e emocionalmente distantes. O subgrupo “dependente” foi o mais frequente nesta amostra não clínica (90), indo ao encontro dos resultados doutro estudo efetuado num contexto clínico (91).

No entanto, existem famílias que tentam ajudar o familiar com patologia borderline, seja ele um filho(a), companheiro(a), pai ou mãe, contudo, criar um ambiente contentor para o borderline é uma tarefa bastante dificultada pelas características de personalidade que estes apresentam. As famílias reportam que viver com estes sujeitos equivale a viver em permanente estado de alerta, receando que a qualquer momento, de forma imprevisível e intensa, aconteça algo relacionado com a sua impulsividade, comportamento autodestrutivo ou instabilidade emocional. Referem, ainda, um esforço para manter o meio familiar aceitável, contudo têm sentimentos de impotência, culpa e mágoa perante a patologia do familiar, sem poderem recorrer a qualquer apoio institucional (92), tornando, por sua vez, difícil manter um ambiente facilitador à melhoria das dificuldades do borderline a nível relacional e à remissão da sua patologia (39,49).

Um membro da família com PB pode tornar a família disfuncional, dadas as suas características. No entanto, é reconhecido o valor que a família pode ter no tratamento desta patologia pela importância que podem ter no despoletar ou na manutenção das crises. A falta de envolvimento das famílias pode levar à fraca adesão aos tratamentos, e consequentemente, levar ao seu abandono. A psicoeducação das famílias poderá ajudá- las, apoiando-as e capacitando-as a lidar com um membro com PB (93).

A sensitividade que o borderline tem ao nível das relações interpessoais precede a instabilidade emocional e os comportamentos impulsivos (16). A reatividade emocional, a impulsividade, e os comportamentos autodepreciativos são despoletados pelos eventos stressores que ocorrem na relação, e os sentimentos crónicos de vazio, as explosões de fúria, o medo de abandono e os altos e baixos dessa relação podem ser expressões da dificuldade sentida ao nível relacional (92,94). A dificuldade em estar sozinho, e a desconfiança em relação às intenções dos outros são antes, de acordo com estes autores, o reflexo das dificuldades que estes sujeitos têm com eles próprios (16).

Por outro lado, o mesmo autor sugere também que se as dificuldades interpessoais são vistas como uma consequência da instabilidade emocional e da impulsividade, as emoções sentidas como insuportáveis no seio da relação são agidas através de comportamentos agressivos e autodestrutivos devido à dificuldade em controlar os impulsos, perturbando, assim, o relacionamento com os outros (16). Coifman et al. (95) concluíram que os comportamentos impulsivos e autolesivos surgem na ausência de stressores interpessoais, mas são previsíveis na presença da intensidade emocional. Se o borderline não tem estratégias que lhe possibilitem lidar com as emoções, então o sentimento de bem-estar, de estabilidade e confiança no outro que o borderline necessita, depende da perceção que este tem das suas interações com os outros e da disponibilidade da figura significativa (16).

A correta perceção dos eventos ou das situações é necessária a um funcionamento interpessoal adequado, bem como à capacidade de regulação emocional (85) e de estabilidade da autoestima (96). No entanto, a vivência do aumento dos afetos negativos (97) pode interferir no processo cognitivo e influenciar a sua perceção dificultando o seu relacionamento com os outros (98). Está descrita, a dificuldade que o borderline tem em reconhecer e discriminar corretamente as emoções (95,99), percecionando emoções negativas em faces neutras (100-102). Se ele perceciona negatividade no outro, quando esta característica não existe, poderá interferir de forma significativa no seu relacionamento interpessoal (99-101).