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O universo onomástico feminino recenseado no tombo de Soure é substancialmente inferior ao masculino. Contudo, tal facto não comprova a presença de um menor número de mulheres; atendendo à época tardo medieval assinalamos como factor essencial desta discrepância, a preponderância “esmagadora” do género masculino na sociedade medieva.

A visibilidade do mundo masculino é como que “palpável”, os seus nomes, feitos e estatuto social, surgem naturalmente na descrição do homem medieval; por outro lado, o género feminino prima pelo anonimato, pelo recato do lar e pela submissão ao pai, irmão ou marido. A sociedade medieval e a religião cristã, concebiam o homem como género dominante, apto para a tomada de todas as decisões; contrastando com a submissão, à época, tida como socialmente correcta do género feminino; frases como “o poder é masculino a submissão é feminina”293, com Santo Agostinho, “o homem partilha com Deus o difícil mas necessário

encargo de «guardar» as mulheres”294 ou na quinta carta aos Efésios “Ora, como a Igreja se

submete a Cristo, assim as mulheres, aos maridos, em tudo”295, conferem e servem de

justificação para o domínio do masculino sobre o feminino.

A submissão feminina medieval foi uma realidade quase absoluta; contudo existiram algumas excepções, mulheres que devido ao seu estatuto e poder económico conseguiram sobressair no universo masculino, mulheres cujos nomes poderiam ser precedidos por “Dona”, ou “de”, “da” na precedência dos apelidos e patronímicos; falamos das mulheres foreiras, das que, por viuvez passaram a administrar os bens de família, tornando-se notáveis na sociedade medieval; todavia não tenhamos ilusões, os casos de mulheres “notáveis”296 foram escassos na

Idade Média, sendo na sua maioria votadas ao anonimato e pela representação masculina, “a mulher de”, “a mulher que foi de”, são frases redigidas no tombo de Soure que o atestam. Percebe-se assim que o domínio masculino é cabal, não só a nível social como também a nível onomástico, sendo capaz de “silenciar” a identidade feminina, sonegando à mulher até o seu nome.

293 HOMEM, Maria Isabel Miguéns de Carvalho, op. cit. (2017), p. 173.

294 DUBY, Georges; PERROT, Michelle - História das Mulheres. A Idade Média, vol. II (1993), p. 122 (Agostinho, Sermo IX: De decem cordis in Sermones ad populum, pl. 38, 84.)

295 Carta aos Efésios 5, 24-25. In Nova Bíblia dos Capuchinhos.

296 Com esta afirmação não pretendemos retirar valor ao género feminino, mas sim aludir à opressão a que estas estavam sujeitas.

92 A documentação medieval no que respeita ao estudo da mulher é pelo que já foi descrito, pouco esclarecedora e incompleta. Facto que se coaduna com o tombo de Soure onde o universo onomástico refere dezassete mulheres representando apenas 12% do total dos dois géneros.

Das mulheres adultas em 1508, distinguem-se com três ocorrências, “Catarina”, “Maria” e as “anónimas”, cuja identificação depende directamente do marido; com dois resultados identificamos “Isabel” e Margarida”, por último e com apenas uma ocorrência cada identificamos “Beatriz”, Clara” e “Joana”. Do anteriormente exposto concluímos que o domínio onomástico feminino é dividido entre “Catarina”, onomato cuja preferência na Idade Média, chegou a equiparar-se a “Maria”, facto que é corroborado no tombo de Soure, dividindo o pódio ainda com as mulheres anónimas, constatando a submissão feminina de tradição medieval.

Destaca-se no feminino a utilização do patronímico com dez onomatos (76,92%), um único apelido “Coutinha” pertencente a Maria Coutinha que ostentava ainda o prenome “Dona”, e três alcunhas “Botelha”, “Draga”, “Pequena”297. No que respeita à composição dos nomes

evidenciam-se com dois onomatos doze ocorrências e com três onomatos um caso “Maria Afonso Pequena”, supostamente já falecida em 1508 assim como “Clara Martins” e a “mulher de Antão Gonçalves”. Seguidamente coligimos esquematicamente a onomástica feminina identificada no tombo de Soure.

As mulheres que foram referidas no tombo de Soure, foram logo à partida, por esse motivo, mulheres notáveis, foreiras de propriedades agrícolas e urbanas, como o caso de Dona Maria Coutinha, cujo prenome faz supor um estatuto mais elevado, sendo mulher de D. Fernando de Menezes detentora de várias casas em Soure, usufruindo das rendas dos moinhos desta vila e de uma tença de 25.000 reais, sabendo-se que em 11 de Julho de 1513, Dona Maria Coutinha doou todos os seus bens móveis e de raiz ao seu sobrinho Simão Freire298.

297 Maria Afonso Pequena possui no seu nome, patronímico e alcunha.

Quadro 11 – Nomes femininos mencionados no tombo da comenda de Soure de 1508

Assinalamos com * os nomes registados em anotações posteriores. Nome

Próprio Patronímico Apelido Alcunha cargo, Ofício Profissão, Adjunção tópica Relação familiar Situação Localização Fonte

Beatriz Anes Casada com João

Gil Foreira de casal por prazo feito pelos visitadores em três pessoas Casal do Mato, Alencarça Soure, fl. 19

Catarina Botelha Foreira de um canal e

anos mais tarde terá sido foreira da Herdade da Caramoa Dentro do ribeiro do Sopegal, cômaro da levada dos moinhos da vila, perto de Soure Soure, fls. 6, 16v

Catarina Anes Foi mulher de Pêro

da Ega Viúva, tem testadas de courelas Perto de Soure Soure, fl. 9

Catarina Anes Foi mulher de João

Afonso Giraldo

Viúva, foreira de vinha em 2ª pessoa, prazo confirmado por Infante D. Fernando em 3 pessoas

Termo de Soure

Soure, fl. 13v

Catarina* Jorge Filha de Jorge Pires Recebeu de seu pai

como dote de casamento um prado

Termo de Soure

Soure, fl. 13v

Clara Martim Falecida, foi foreira de

vinha em 2ª pessoa em prazo confirmado pelo Infante D. Henrique, teve ainda chão e vinha em mortório ficando o almoxarife encarregado de cuidar desta última

Cômaro da levada dos moinhos da vila, perto de Soure e termo de Soure Soure, fls. 5, 13, 16

94

Guiomar* (Dona)

de Faria Foi casada com

Afonso da Silva

Foreira de uma granja Termo de Soure

Soure, fl. 10

Isabel Dias Foreira de meio casal,

em terceira pessoa por um prazo feito em três pessoas Granja do Ulmeiro, termo de Montemor o Velho Soure, fl. 24

Isabel Fernandes Viúva, foreira de uma

vinha em 1ª pessoa, prazo feito pelos visitadores

Pedregal, termo de Soure

Soure, fl. 14v

Leonor* Fernandes Mulher de Diogo

Gonçalves Foreira de uma parcela de terra Requeixada, termo de Soure

Soure, fl. 15v

Leonor* Machada Filha de Isabel

Fernandes e mulher de Roque Vieira Foreira de vinha em segunda pessoa Pedregal, termo de Soure Soure, fl. 14v

Joana Martins Tem chouso Próximo da

Herdade dos Bacelos, perto de Soure

Soure, fl. 6v

Madalena “terra da Madalena” Perto de

Soure Soure, fl. 6

Margarida Anes Perto de

Soure Soure, fl. 6v

Margarida Simões Foreira de duas

panasqueiras, uma delas tem o nome de “Prado”, foreira de canal Cômaro da levada dos moinhos da vila e perto de Soure Soure, fls. 5, 16 Maria (Dona)

Coutinha Tem casas Vila de Soure Soure, fl. 2v

Maria Afonso a

Pequena Teve terra Perto de Soure Soure, fl. 6

Maria Draga Tem terra Perto de

95

Foi mulher de Antão Gonçalves

Teve vinha Termo de

Soure

Soure, fl. 15 Mulher de Estevão

Gomes Foreira de um canal Cômaro da levada dos moinhos da vila

Soure, fl. 16v

Foi mulher de João de Aguiar Foreira de vinha e de prado Termo de Soure Soure, fl. 12v

* Foi mulher de Pedro