Acontece, entretanto, que este carácter «fechado» do corpo (cujas fronteiras físicas me permitem dizer «o meu corpo» – e, ao mesmo tempo, me permitem reconhecer uma certa «autonomia» dele relativamente aos outros corpos) não impede que haja nele, ao mesmo tempo, uma «abertura» constitutiva a esse «exterior» de si. Ou seja, faz parte da natureza constitutiva do «meu corpo» não apenas o estar de certo modo separado e, nesse sentido, o «fechar-se» ao exterior, mas também o «abrir-se» a ele – algo que, provisoriamente (antes de analisarmos melhor o que isto significa) podemos ilustrar com as seguintes palavras de V. Woolf: «I meet the eyes of a sour woman, who suspects me of rapture. My body shuts in her face, impertinently, like a parasol. I open my body, I shut my body at my will» (W, 46-47)54.
Esta «abertura» do «meu corpo» ao exterior, ao contacto com outros corpos, deve-se à natureza «porosa» ou «permeável» que o caracteriza. Semelhante «abertura» possibilita uma constante troca ou permuta entre o «meu corpo» e o mundo. Aliás, não se trata de uma «abertura», mas antes de uma pluralidade de formas de abertura. Vendo bem, é tudo aquilo que está em causa em fenómenos como por exemplo a respiração, a alimentação, a procriação, a audição, a visão, o tacto, etc. Ou seja, o corpo é permanentemente invadido pelo mundo e evade-se no mundo, absorvendo-o e sendo
54 Abstraimos aqui de um aspecto que é referido no final deste passo, onde se fala da possibilidade de «abrir» ou «fechar» o corpo como se quer. O que aqui importa é a própria ambiguidade do corpo, enquanto consente ao mesmo tempo a sua demarcação como algo separado e a sua abertura ao exterior de que se demarca. É esta estrutura fundamental de ambiguidade que possibilita o tipo de alternâncias referido por V. Woolf e os fenómenos em que a alternância em causa (o corpo ser qualquer coisa ora fechada ora aberta) parece depender da vontade – que, se assim se pode dizer, «faz agulha» entre as duas possibilidades.
nele absorvido (a «abertura» do corpo não é, por isso, unidireccional – como se apenas permitisse que as coisas «chegassem» ou que apenas «saíssem» dele – mas sim bidireccional, no sentido em que o corpo é «afectado» pelo mundo mas também «afecta» o mundo): «Now my body thaws; I am unsealed, I am incandescent. Now the stream pours in a deep tide fertilizing, opening the shut, forcing the tight-folded, flooding free. To whom shall I give all that now flows through me, from my warm, my porous body?» (W, 41-42).
Esta «porosidade» do «meu corpo», que faz dele um lugar de trocas, constitui-se como o primeiro indício da indefinição daquilo que é «próprio» dele, i.e., daquilo que é inteira e exclusiva «propriedade» dele. Poderia acontecer que, por exemplo, ao nível mais básico, o meu corpo pudesse ser considerado independentemente do ar que respira, daquilo de que se alimenta, da temperatura que o envolve, etc. (e, consequentemente, daquilo que «devolve» ao mundo directa ou indirectamente em virtude dessa «recepção»). Mas, de facto, o que acontece é que essas «trocas» não são «acessórias»: elas são «fundamentais» e, por isso, necessárias para o meu próprio corpo; pois, certamente, ele não seria o que é na ausência dessas mesmas trocas. Ou seja, o meu corpo depende inteiramente disso que lhe é exterior55.
A compreensão disto (deste sistema de trocas constitutivo do meu corpo) aponta já para aquilo que está aqui em causa e que, provisoriamente, podemos definir como sendo a «indefinição dos contornos do corpo próprio». Esta indefinição implica que qualquer localização absoluta que «abstraia» o «meu corpo» daquilo que o envolve (e que lhe é exterior), qualquer consideração que o isole do sistema de trocas que lhe é característico, na verdade envolve um erro fundamental – o erro da ilusão de captação daquilo que é «próprio» do corpo. Não se quer dizer com isto que o corpo não tenha «fronteiras» nítida e vincadamente definidas ou que essas fronteiras não se revistam de importância. O que se quer dizer é que essas fronteiras são fronteiras dentro de um «território» que na verdade se prolonga para lá delas, de tal modo que a importância dessas fronteiras vem precisamente de o corpo estar ao mesmo tempo para lá delas, em ligação com esse «para-lá» e ser, nesse sentido, «extra-territorial» em relação a si
55 É aquilo que tão agudamente se acha expresso no fragmento atribuído a Epicarmo quando descreve aquilo que nós somos como ἀσκοὶ πεφυσαμένοι – ou seja como «odres inflados». Cf. Diels, H., Kranz, W., Die Fragmente der Vorsokratiker (eds.), Weidmann, Dublin/Zürich, 1970-1971, (23 B 10). O que aí se acentua é especificamente a dependência da respiração, mas em última análise isso constitui como que um emblema de tudo o mais em que o nosso corpo e aquilo que nós somos depende permanentemente (e nesse sentido não menos permanentemente é feito) daquilo de que difere ou que lhe é exterior.
mesmo.
A natureza «porosa» do corpo, que permite os diferentes fenómenos de «transubstanciação» do exterior em interior e vice-versa (e a consequente ausência de delimitação precisa das fronteiras que em absoluto separam um do outro), permite também compreender melhor a peculiar forma de relação «continente/conteúdo» que está em causa quando se fala do modo como o corpo se encontra no mundo. Começamos a perceber, a partir daqui, que o estar dentro de é ser parte constitutiva de e não um mero acrescento a, perfeitamente localizado em. Ou seja, o modo como os corpos se encontram no mundo corresponde a um complexo sistema de trocas internas. Este sistema abrange diferentes redes (e, em grande parte, indefinidas ou muito confusas redes) de relações e dependências entre os corpos, de tal modo que não se conseguem seguir os fios (também podemos dizer os emaranhados de nexos) que ligam as coisas umas às outras:
I walk in the afternoon down to the river. All the world is breeding. The flies are going from grass to grass. The flowers are thick with pollen. The swans ride the stream in order. The clouds, warm now, sun-spotted, sweep over the hills, leaving gold in the water, and gold on the necks of the swans. (W, 74)
Vendo bem, em última análise, nada escapa a este emaranhado, cada coisa, mesmo a mais simples ou a mais delimitada está ligada ao corpo próprio por um novelo. Até o mais distante está envolvido com o corpo no emaranhado do próprio acontecimento da percepção ou da notícia que me põe de algum modo em contacto com ele e que é, ao mesmo tempo, um vector de ligação entre o corpo (onde a própria percepção ou a notícia está de algum modo sediada) e a totalidade do mundo (que fica patente e aberta nessa percepção ou nessa notícia). De onde resulta que não apenas não há nada que não esteja de algum modo em cruzamento com o corpo, mas, para além disso, as formas de cruzamento (as modalidades de cruzamento) entre o que quer que seja e o corpo são múltiplas, acumuladas, «sobrepostas», etc. Nesse sentido, o corpo próprio é ao mesmo tempo a própria explosão do mundo.
O que daqui se depreende é que a relação do «meu corpo» com o mundo não pode mais ser reduzida à evidência da identificação de um «aqui», de uma posição perfeitamente delimitada e localizada – porque o «meu corpo» não se opõe ao mundo, ele é (numa forma peculiar que ainda teremos de averiguar melhor) mundo. Ora, dada a
indefinição daquilo que prende o «meu corpo» ao mundo (traz o mundo ao meu corpo, etc.), e que faz perder de vista os seus «contornos» («contornos» esses que o reduziam à ocupação de uma posição no espaço ou no tempo), o que importa agora perceber é qual a situação do corpo no mundo. Por outras palavras, não sendo o mundo um espaço no qual o «meu corpo» ocupa um lugar preciso, a que corresponde este «estar no mundo»?
A este respeito, importa ter em consideração o que H. Maldiney diz em Regard,
parole, espace:
Dans le paysage nous sommes investis par un horizon qui est lié chaque fois à notre ici. Or la relation ici-horizon exclut toute systématisation de l’espace qui nous fournirait des repères. Quand nous cheminons dans l’espace du paysage nous sommes toujours à l’origine, au ici absolu.56
Esta diferenciação, estabelecida por Maldiney, entre mundo compreendido como
espaço abstracto e mundo compreendido como paisagem é determinante para
percebermos o modo como o corpo se encontra no mundo. A noção de «paisagem» implica, como o dá a entender Maldiney, a posição do corpo numa situação original; uma situação que se caracteriza, justamente, pelo facto de o «meu corpo» ser o centro, a origem, o «aqui absoluto» de uma paisagem (e não de ser um mero «ponto» no espaço). Quer dizer, a posição que o «meu corpo» ocupa no mundo não é sistematizada, é antes
situada pela própria relação que, de cada vez, estabelece com ele. O que é preciso
compreender antes de mais é a própria estrutura da situação, ou seja, aquilo que, estruturalmente, é característico da situação do corpo no mundo. A este respeito, Maldiney diz o seguinte:
L’être-perdu est la situation de l’homme dans l’espace du paysage. [...] Entre l’espace du paysage et l’espace géographique il y a toute la différence du chemin et de la route. Mais seul chemine en plein paysage le vrai promeneur ouvert à l’étendue que s’ouvre à lui, et qui marche, où qu’il soit, dans le monde entier.57
A situação original que caracteriza a forma estrutural como o «meu corpo» se encontra no mundo é a de ele se encontrar «perdido» no espaço da paisagem (uma paisagem que é a sua, uma vez que ele é, de cada vez, o centro, o «aqui situacional
56 Maldiney, H., Regard, parole, espace, Éditions L'Age d'Homme, Lausanne, 1994, p.149. 57 Ibidem.
absoluto», a origem da própria paisagem). Quer dizer, por um lado, o «meu corpo» diferencia-se do mundo (o que me permite, precisamente, diferenciar-me daquilo que não sou) mas, por outro lado, não se separa dele, pois o mundo aparece como uma paisagem interna da própria apresentação que tem lugar no ou através do «meu corpo». Ou seja, o mundo exterior consiste, em certa medida, numa paisagem interna do próprio corpo que se acha constitutivamente implicado nele. De sorte que o corpo não é um mero acrescento ao mundo – mas antes o seu «centro» ou «origem». Por outras palavras: por um lado, o «meu corpo» é sempre este «aqui» em que de cada vez me encontro, mas, por outro lado, a natureza desse «aqui», em virtude da sua «abertura» constitutiva, é a de se encontrar «perdido» no meio da própria paisagem58. Esta situação
original que caracteriza a forma como o «meu corpo» se encontra perdido no mundo
(perdido até na familiaridade que tem com as coisas do mundo), pode ser comparada com aquela que é descrita por Neville em The Waves:
The train slows and lengthens, as we approach London, the centre, and my heart draws out too, in fear, in exultation. I am about to meet – what? What extraordinary adventure waits me, among these mail vans, these porters, these swarms of people calling taxis? I feel insignificant, lost, but exultant. With a soft shock we stop. I will let the others get out before me. I will sit still one moment before I emerge into that chaos, that tumult. I will not anticipate what is to come. The huge uproar is in my ears. It sounds and resounds, under this glass roof like the surge of a sea. We are cast down on the platform with our handbags. We are whirled asunder. My sense of self almost perishes; my contempt. I become drawn in, tossed down, thrown sky-high. I step out on to the platform, grasping tightly all that I possess – one bag.’ (W, 53)
Importa agora analisar, um pouco mais em pormenor, em que é que consiste este
estar perdido no meio da paisagem.
58 Isto não significa, de todo, que naturalmente nos consideremos perdidos. Criamos permanentemente sistemas referenciais que nos permitem determinar onde nos encontramos, aquilo que somos, o que esperamos fazer, etc. Há, como vimos, uma orientação pragmática natural, que faz que o corpo se relacione com o mundo sem que a relação exponha o facto de a nossa situação original nele ser a de nos encontramos perdidos. Aliás, naturalmente pode até existir desorientação, mas tal desorientação tem apenas um aspecto regional num sistema global que se tem dominado. Por exemplo, posso perder-me numa cidade, não saber em que rua estou, mas isso não impede que eu continue a saber, a ter como seguro, a cidade onde estou. Acontece, no entanto, que precisamente por nos encontrarmos entretecidos no mundo, por nos encontrarmos sempre já no meio do mundo, não podemos ter uma visão exterior dele, i.e., não podemos sair dele para ter uma visão global e, por isso, perfeitamente orientada. Assim, toda a orientação é sempre regional – numa situação original de perdição ou de desorientação global que tende a estar adormecida.