Uma vez que o problema da identidade se cruza com o problema da determinação de «conteúdos» ou daquilo que nos aparece (onde estes se revelam defectivos e deixam margem para questões acerca da identidade) bem como com o problema das próprias estruturas fundamentais de articulação em que todos os
conteúdos estão «montados» e se inscrevem (onde estas se revelam problemáticas), aquilo que cabe agora perguntar é: qual o estatuto de realidade disso que aparece?
O que primeiramente percebemos é que há algo da identidade que permanece em fuga. Mas, se há algo da identidade que permanece em fuga, então isso que de cada vez aparece é sempre já um outro que se sobrepõe ao próprio e, por isso, o esconde. Quer dizer, a apresentação que temos da identidade das coisas é uma apresentação em que aquilo que aparece se faz passar por – uma apresentação que não apenas esconde o próprio como, para além disso, se faz passar por ele. Neste sentido, podemos dizer que
isso que aparece se mostra disfarçado, de tal modo que não se reconhece o disfarce
como disfarce, antes se toma o disfarce como sendo o próprio. Todavia, este fazer-se
passar por reveste-se de um aspecto peculiar. Pois não podemos entender esse
«disfarce» da identidade das coisas como algo inteiramente diferente daquilo ou daquele que se esconde por detrás. O ponto de vista filosófico permite-nos compreender que esse disfarce, não sendo o próprio, nos remete internamente para isso que não sabemos o que é. Quer dizer, por um lado, reconhecemos que a identidade das coisas se encontra velada por máscaras; mas, por outro lado, a máscara é, em certa medida, uma expressão do próprio rosto. E isto porque a relação entre máscara e rosto é a de uma continuidade
interna e não a de mero acrescento. Ou seja, a máscara não é um mero adereço que
oculte o «verdadeiro rosto», ela consiste antes numa dissimulação interna do próprio rosto. Assim, a máscara é diferente do rosto que oculta, todavia, não é separável dele. Por isso, é através dela que o próprio rosto se expressa e, simultaneamente, é nela que o rosto se furta. Quer dizer, é a própria máscara que estabelece a tensão para o rosto que expressa e oculta. Desta forma, sendo o rosto o suporte da máscara e sendo a máscara inseparável do rosto (porque é uma expressão dele), qualquer tentativa de encontrar o rosto por detrás da máscara parece fracassar. E isto porque sabemos que a teia de identidade e diferença é elástica – de sorte que aquilo que encontramos por detrás das máscaras são ainda outras máscaras (i.e., outras expressões diferentes do mesmo) que, por sua vez, ocultam ainda outras máscaras. Ora, sendo assim, podemos tentar desmascarar indefinidamente isso que se esconde, esse rosto para que tendemos, que sentimos a escapar, que procuramos. Mas sabemos também que qualquer revelação poderá ter como resultado ainda e sempre uma máscara. O que implica então este reconhecimento de que aquilo que temos do rosto da identidade das coisas são
máscaras?
O que percebemos é que a realidade se encontra montada sobre determinações ficcionais, i.e., que o real se apresenta edificado (e, como tal, apresentado) numa estrutura de ficção.
O que importa desde já clarificar é o facto de real e ficção não poderem ser entendidos como polos opostos da apresentação. Quando dizemos que a realidade se encontra montada sobre determinações ficcionais, o que está em causa não é a determinação do valor de verdade da identidade das coisas fora de um ponto de vista que sobre elas incida (até porque tal seria impossível, uma vez que podemos alterar a visibilidade das coisas dentro do ponto de vista, podemos «alargá-lo», podemos até criticá-lo, mas nunca o podemos abandonar). Assim, o que nos importa é determinar o estatuto do real no ponto de vista, i.e., na apresentação que temos das coisas, e não num outro ponto de vista (ideal) que se possa considerar como estando mais próximo daquilo que as coisas sejam na sua realidade independente39.
Ora, o que isto parece significar é o seguinte: por maior que seja a proximidade relativamente a isso que tende a escapar, por mais próximos que nos encontremos do verdadeiro «rosto da vida» ou da «identidade sem máscaras», encontramo-nos, ainda assim, a uma distância que não parece superável. E isto porque, como vincámos, a distância não pode ser percorrida (ou encurtada) pelo retirar de máscaras, uma vez que a máscara é constitutiva do próprio rosto ou, de todo o modo, não se revela dissociável dele. Esta é a concepção que podemos encontrar na representação do mundo como um palco ou da vida como um sonho. Nestas concepções a identidade corresponde a uma ficção. Ou seja, nelas o valor real da identidade corresponde ao de uma representação, i.e., de um actor; alguém que usa máscaras, que se faz passar por outro que não é40.
Se aquilo que temos da realidade são representações, então a identidade é, ela própria, uma representação. E, aqui, importa vincar que o modelo da máscara não é apenas relativo àquela que se reconhece no rosto dos outros, aquela que o espectador identifica no rosto de um actor. No caso, é ao mesmo tempo também um modelo
39 A qual, em última análise, se põe como problema e é relevante por causa de e no quadro do ponto de vista em relação ao qual funciona, se assim se pode dizer, como «referente» ou «ponto de fuga».
40 Veja-se, por exemplo, Shakespeare, Macbeth, Act V, Scene V «Out, out, brief candle! Life's but a walking shadow, a poor player that struts and frets his hour upon the stage and then is heard no more: it is a tale told by an idiot, full of sound and fury, signifying nothing»; Cálderon de la Barca, La Vida es Sueño «¿Qué es la vida? Un frenesí. ¿Qué es la vida? Una ilusión, una sombra, una ficción, y el mayor bien es pequeño; que toda la vida es sueño, y los sueños, sueños son».
representativo da relação que o próprio actor tem consigo mesmo – enquanto o que tem de si mesmo é também apenas o representado ou as máscaras que enverga. Ou seja, a identidade não se caracteriza apenas por ser determinada por conteúdos ficcionais, mas também por se apresentar como outra de si, i.e., como personagem de si mesma (como representando um papel: o papel que os papéis representam). Assim, o «rosto real» permanece em fuga e desconhecido para quem o vê e, dado que o que está aqui em causa é também a relação de quem vê consigo mesmo – e quem vê está também preso à máscara (ou às máscaras) com que aparece a si mesmo –, o que permanece em fuga é o próprio actor que representa41. É de notar, no entanto, que isso que não aparece se
encontra, de certa forma, presente nisso mesmo que aparece. Em suma, é como se cada um representasse o papel de si mesmo (precisamente como acontece nos sonhos).
Chegamos assim a um outro aspecto importante na consideração da identidade como uma ficção. Esse outro aspecto diz respeito ao facto de o «desmascaramento» da identidade se encontrar condicionado pelo insuperável afastamento em que se está relativamente ao «rosto real» que suporta a própria apresentação da identidade. Ou seja, não existindo ou não sendo possível identificar um «rosto último», não existe referência que nos permita estabelecer a distância a que nos encontramos do real (a distância a que nos encontramos relativamente à identidade de tudo – quer dizer também, à nossa própria identidade). Assim, por mais máscaras que retiremos à identidade das coisas, a nossa forma de apresentação da identidade das coisas mantém-se a mesma, enquanto continua a não proporcionar senão o contacto com máscaras. Neste sentido, sendo a vida uma representação, pode muito bem não passar (como diz Caldéron de la Barca) de uma ilusão, de uma sombra, de uma ficção – i.e., de um sonho que, por sua vez se pode encontrar dentro de outro sonho, que por sua vez se pode encontrar ainda dentro de outro sonho e assim indefinidamente. Também o «louco» que aparece no Macbeth de Shakespeare e que conta a história da qual nós somos as personagens – o «louco» que parece ter um acesso privilegiado ao real – pode muito bem ser ainda uma personagem num conto mais vasto. Ou então, como Between the Acts procura evidenciar, aquilo que nós julgávamos ser o real (alguém a representar uma peça) é ainda uma peça dentro de outra peça que, por sua vez se encontra dentro da própria obra escrita por Virginia Woolf que é representada por cada leitor. O que assim importa vincar é o carácter de
todo o modo indeterminado da distância em que o ponto de vista se encontra do «rosto real», seja ele ou não um mero «ponto de fuga dentro do próprio acesso» de que se dispõe. Percebemos assim que tudo o que há a descobrir terá de ser descoberto a partir do interior e do desenrolar da própria «peça» – e que, neste sentido, o que nos importa considerar é o estatuto das coisas no nosso ponto de vista.
Vimos anteriormente que os conteúdos apresentados se encontram sujeitos a um enquadramento no ponto de vista e, como tal, são forçados a caber nele. O ponto de vista é interventivo, quer dizer, o ponto de vista «molda» ou «altera» aquilo que a ele chega, criando, desta forma, uma ficção do real. Todavia, a ficção criada coincide, para ele, com o próprio real. É neste carácter interventivo do ponto de vista que reside o problema, porque é nesta intervenção que o real adquire o estatuto de ficção. Mas como?
Sabendo nós que há algo que continua a escapar no tecido da apresentação, isso que foge não produz ou não deixa «buracos» nem na apresentação nem no apresentado. Quer dizer, o ponto de vista não apresenta o «lugar vazio» daquilo que nele falta, i.e., não apresenta «locas» ou cicatrizes de ausência no tecido apresentativo. Pelo contrário, esconde isso mesmo que falta, dobra em si aquilo que falta, de tal modo que não o pode expor mas apenas remeter internamente para ele. Assim, aquilo que de cada vez se apresenta é uma visão ficcionada que resulta da intervenção do ponto de vista na suturação ou costura do tecido da apresentação (mas de tal modo que essa suturação ou costura não se limita a juntar bocados independentes dela, antes está envolvida no próprio «tecido» de todos os bocados, até ao mais pequeno). O nosso ponto de vista não apenas sutura essa «ferida», «buraco» ou «vazio» constitutivos do tecido da identidade das coisas e de si próprio, mas cose também a identidade das coisas umas às outras (criando, como vimos, unidades colectivas mais abrangentes; impedindo assim qualquer «ferida», «buraco» ou «vazio» entre as coisas apresentadas). O nosso ponto de vista intervém na identidade das coisas porque ele próprio, no seu tecido apresentativo, tece metafisicamente as coisas entre si e relativamente a si mesmo. E neste tecer implica-se a si próprio nas coisas, atribuindo-lhes um valor acrescido. Todavia, em vez de este valor acrescentado produzir um saber «a mais» acerca da identidade das coisas, revela apenas um «a menos», pois a identidade de tudo passa a reconhecer-se como que revestida ou travestida pelas determinações que o nosso próprio ponto de vista nelas deposita (mais
uma vez, percebemos o carácter mascarado com que a identidade das coisas aparece na nossa apresentação delas). Assim, o apresentado aparece não apenas como um conteúdo da apresentação, mas como um conteúdo ficcionado da apresentação. De sorte que a própria identidade das coisas se manifesta como uma ficção – não uma ficção que se opõe ou que se substitui ao real, mas uma ficção que se imiscui, que se tece, que se encontra nos interstícios do real com que contactamos.