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Diferente do caso da transição de conclusão do ensino médio, que nos interessa porque observamos que se trata de desigualdades persistentes, a transição de entrada na universidade nos interessa especificamente porque apresenta níveis de desigualdade de oportunidades crescentes entre 2000 e 2010. Ainda que esse movimento não seja surpreendente se tomamos como ponto de partida os pressupostos da teoria da desigualdade maximamente mantida, não deixa de ser intrigante que este crescimento tenha ocorrido concomitantemente com um aumento significativo na oferta de vagas para este nível educacional. Ademais, parece ainda mais pertinente refletir sobre a associação entre participação no mercado de trabalho e progressão educacional rumo a universidade dado que a transposição da barreira universitária na progressão educacional dos jovens geralmente se efetiva em uma idade em que já lhes é permitida a participação no mercado de trabalho, para a qual muitas vezes a credencial de nível médio já se faz condição suficiente.

Vimos anteriormente que nossas análises para T1 sugerem que os diferenciais de classe de

origem nas chances de conclusão do ensino médio estão associados a diferenciais de classe nas chances de participação no mercado de trabalho conjugado ao abandono da progressão educacional:será que o mesmo é observável para as chances de progressão rumo ao ensino superior?

O painel 24 apresenta os gráficos de distribuição empírica acumulada das probabilidades de

pertencimento aos destinos definidos para a realização de T2, que referem-se a todos os

jovens elegíveis à entrada na universidade, ou seja, referem-se a todos que haviam completado o ensino médio.

As desigualdades nas chances de pertencimento às categorias de conjugação entre estudo e

trabalho em T2 são muito mais proeminentes do que em T1. As probablidades de entrada no

ensino superior não conjugada ao trabalho denunciam uma clara vantagem dos jovens no estrato superior sobre os demais estratos, e uma sobreposição das curvas referentes aos dois estratos mais baixos, sugerindo uma distribuição similar de chances de entrada na universidade sem participação no mercado para jovens provenientes destes estratos, com grande concentração em patamares muito baixos de chances de pertencimento a esta categoria. Há um pequeno deslocamento desta sobreposição entre 2005 e 2009, o que indica um ligeiro aumento nas chances dos jovens com origem em V+VI em relação ao estrato mais baixo. Mas, em termos gerais, não há mudanças significativas no padrão de desigualdades

de classes nas chances de realizar T2 através da dedicação exclusiva aos estudos – se pode-

Painel 24. Distribuição Empírica Acumulada das Probabilidades de Pertencimento às Categorias de Alocação de Tempo por Classes de Origem – T2 - 2001, 2005 e 2009

Fonte: PNAD, IBGE. 2001, 2005 e 2009. Elaboração do autor.

Entrar ensino Superior Entrar ensino Superior + Trabalho Não Entrar ensino Superior +

Trabalho Não Entrar ensino Superior

2001

2005

na universidade dedicando-se exclusivamente aos estudos, tendência mais pronunciada inclusive no estrato mais alto, entre 2001 e 2005. As vantagens associadas à origem no estrato superior também se fazem notar nas chances de prosseguir na carreira educacional rumo à entrada no ensino superior conjugada com a participação no mercado de trabalho. Para os 3 anos analisados, a curva de probabilidades sugere chances maiores de pertencimento a esta categoria para os jovens com origem em I+II+IVa+IVc2, o que nos indica que existem

diferenciais de classe nas chances de entrada na universidade – conjugada ou não à inserção

no mercado de trabalho – que claramente favorecem os estratos sociais superiores.

No entanto há diferenças muito relevantes nas chances dos jovens dos outros estratos, se comparamos as chances de entrada na universidade com dedicação exclusiva aos estudos e a entrada conjugada à participação no mercado de trabalho: para os três estratos mais baixos, as chances de entrada na universidade conjugada ao trabalho são maiores do que as chances de dedicação exclusiva.Isso sugere que na maior parte dos casos, a transposição da barreira universitária na progressão educacional está condicionada à participação no mercado de trabalho. A evolução temporal destas probabilidades indica, por outro lado, que as chances de entrada na universidade através da via que conjuga progressão com trabalho são crescentes para todos os estratos de origem.

As maiores desigualdades na distribuição das probabilidades entre classes de origem são observadas na categoria que indica abandono da carreira educacional com inserção no mercado de trabalho. Neste caso, as curvas de distribuição das chances dos dois estratos mais

baixos (V+VI e IVc2+VIIa+VIIb) evidencia que as chances de que a categoria de destino em T2

seja o abandono da progressão educacional com participação no mercado são muito maiores do que para os dois outros estratos analisados, em todos os anos.

Destaca-se que a evolução temporal da distribuição das chances por estratos de origem é consistentemente persistente, o que sugere um cenário de poucas mudanças no padrão de acentuadas desigualdades nas chances de abandono da progressão educacional na transição de entrada na universidade. Trata-se de um achado surpreendente se considerarmos que o período 2000-2010 é marcado por um aumento considerável na oferta de vagas no ensino superior no país, por um crescimento no patamar de investimentos públicos neste nível de

ensino – tanto investimentos diretos nas próprias instituições públicas quanto investimentos

indiretos no financiamento do ensino superior privado, via concessão de bolsas vinculadas a

vantagens tributárias às instituições – e também por reformas que visaram ampliação do acesso

às universidades públicas através da adoção de políticas de ação afirmativa. A desigualdade nas chances de abandono da progressão educacional na entrada da universidade é muito mais pronunciada do que as desigualdades observadas nas chances de pertencimento à mesma

diferenciais de classe na propensão à entrada no mercado de trabalho face à progressão educacional são muito mais marcantes quando os indivíduos detém a credencial do ensino médio, o que aumenta as chances de participação de indivíduos provenientes de estratos sócio- econômicos mais baixos.

Os jovens com origem no estrato mais alto também apresentam em geral menores chances de

que a categoria de destino em T2 seja o abandono do sistema educacional, não conjugado à

entrada no mercado de trabalho, o que reforça o argumento de que os diferenciais de classe operam de maneira mais pronunciada na entrada no ensino superior. As curvas de distribuição das chances entre os jovens deste estrato para a categoria de abandono da progressão sem entrada no mercado de trabalho opõe muito claramente o estrato superior aos demais estratos, que tenderam no período a terem distribuições cada vez mais similares nas chances de pertencimento a esta categoria, crescentemente distintos com relação às curvas observadas para os jovens nos estratos superiores. Com isso, nossos achados avançam na compreensão dos padrões de estratificação na entrada do ensino superior ao demonstrarem que no período recente a desigualdade de classes no acesso à universidade se reforça também por padrões diferenciados entre estratos nas chances de abandono do sistema educacional, independente da inserção no mercado de trabalho.

O painel 25, que apresenta o efeito líquido da classe de origem sobre as chances de

pertencimento às categorias de destino em T2 por idade evidencia algumas mudanças na

realização de T2 rumo à dedicação exclusiva aos estudos. A tendência geral aponta um padrão

em “U” invertido, no qual as chances de pertencimento a esta categoria aumentam até os 20 anos e passam a decrescer a partir daí, o que ocorre entre todos os estratos de origem. Há uma diminuição, que também perpassa todos os estratos, nas idades para as quais as chances de realização desta transição são maiores, e também há uma ligeira diminuição nas desigualdades

por classe de origem, mais pronunciadas quanto mais jovens os indivíduos – mas que tendem

a diminuir à medida em que consideramos idades mais avançadas. A entrada no ensino superior conjugada à participação no mercado de trabalho apresenta tendência quase linear

com o avanço da idade, e são maiores as chances de que esta categoria seja o destino em T2

quanto mais velhos os indivíduos. O aumento nas chances de pertencimento a esta categoria é mais pronunciado entre os jovens com origem no estrato mais alto, mas as chances dos jovens com origem nos estratos mais baixos também aumenta entre 2001 e 2009. Comparando- se à entrada no ensino superior com dedicação exclusiva aos estudos, os resultados sugerem que somente entre os mais jovens dos dois estratos superiores as chances de entrada na universidade são maiores com dedicação exclusiva aos estudos do que conjugada ao trabalho.

para todos os jovens com origem nos dois estratos mais baixos – as chances de entrada no ensino superior conjugada ao trabalho são maiores.

As chances de abandono do sistema educacional, sem entrada no mercado de trabalho, são altas entre os mais jovens e tendem a decrescer significativamente com o avanço da idade. No caso desta categoria de destino, as desigualdades por classe de origem são menos

pronunciadas do que o observado nas demais categorias de destino em T2. Ainda que as

chances sejam sempre menores entre os jovens com origem em I+I+IVc1+IVa2, as desigualdades tenderam a diminuir entre os demais estratos, e de uma maneira geral, as

chances de pertencimento a este destino em T2 tenderam a diminuir para todos os estratos de

origem. Mas estão nas chances de abandono conjugado à participação no mercado de trabalho

as maiores desigualdades por classes de origem em T2. Entre 2001 e 2009, a maior diminuição

nas chances de pertencimento à este destino foi observada entre jovens com origem no estrato mais alto, que no início do período já apresentavam chances bastante baixas de abandono da progressão rumo ao ensino superior, conjugada ao trabalho. Para os demais estratos, as chances de pertencimento a esta categoria são muito mais pronunciadas, ainda que haja uma ligeira diminuição entre 2001 e 2009.

Painel 25. Efeito Líquido da Classe de Origem por Idade nas Chances de Pertencimento às Categorias de Destino em T2– 2001, 2005 e 2009

Mas qual a associação desta dinâmica de estratificação no acesso ao ensino superior e a oferta de vagas universitárias? Apresentamos anteriormente dados que sustentam que houve no

período um aumento significativo na oferta de vagas – tanto públicas quanto privadas – mas

que, e apesar disso, parâmetros de desigualdade no acesso a este nível se intensificaram, bem como manteve-se constante a relação entre a oferta pública e a oferta privada de oportunidades educacionais no nível superior. Existe alguma associação entre a natureza desta oferta e os padrões de estratificação por classes de origem no acesso ao ensino superior? Seria uma oferta predominantemente privada de vagas no nível superior um fator que determine aumentos nos níveis de desigualdade? Estas são questões sobre as quais a literatura brasileira em estratificação educacional ainda não se debruçou e com elas também pretendemos apresentar uma contribuição inovadora às análises do caso brasileiro. Para tanto, no painel 26 buscamos pistas para responder a estas questões, e apresentamos o efeito líquido da classe de origem

sobre o pertencimento aos destinos definidos para T2 por níveis de predominância da oferta

pública sobre a oferta privada8:

Painel 26. Efeito Líquido da Classe de Origem por níveis de predominância da oferta privada de vagas universitárias nas Chances de Pertencimento às Categorias de Destino em T2– 2001, 2005 e 2009

Fonte: PNAD, IBGE. 2001, 2005 e 2009. Elaboração do autor.

8O eixo x indica o número de vagas públicas para cada 100 vagas privadas, e no gráfico varia de 0 (predominância

de oferta privada) a 100 (igualdade entre oferta pública e oferta privada, ou 100 vagas públicas para cada 100 vagas privadas). Este indicador é igual a razão entre o número de vagas privadas e o número de vagas públicas (privadas/públicas) dentro de cada estado, em cada ano analisado (2001, 2005 e 2009).

As evidências de existência de associação entre níveis de predominância da oferta privada e

as chances de pertencimento aos destinos definidos em T2 não são muito robustas para os

anos de 2001 e 2005. Em geral refletem o padrão de desigualdades até aqui evidenciado, no qual os jovens de estratos superiores tem vantagens relativas nas chances de progressão, conjugada ou não ao trabalho. Os resultados para 2009 nos parecem mais robustos, e sugerem que quanto menos predominante for a oferta privada, maiores as chances de entrada no ensino superior, conjugada ou não à participação no mercado de trabalho. No entanto esta associação se mostra mais forte no caso da dedicação exclusiva aos estudos, e menos proeminente na progressão associada à participação no mercado de trabalho. O inverso é observado com relação às categorias que não envolvem a continuidade da escolarização no nível superior: quanto menos predominante a oferta privada, menores as chances de que os indivíduos abandonem a carreira educacional, participando ou não do mercado de trabalho. No entanto, no caso do abandono, a associação entre o tipo de oferta e as chances de pertencimento a

esta categoria são significativamente maiores entre os jovens dos estratos mais altos – o que

sugere que níveis mais paritários de oferta por segmento tendem a favorecer mais aqueles que tem origem sócio-econômica privilegiada, enquanto a associação é similar para os estratos de origem ao analisarmos as chances de abandono conjugada à entrada no mercado de trabalho.

Os resultados para a análise de T2 nos sugerem que as desigualdades nas chances de

progressão entre categorias que conjugam estudo e trabalho sao muito mais pronunciadas entre aqueles que são elegíveis à entrada na universidade do que entre os que são elegíveis somente à conclusão do ensino médio. A propensão à entrada no mercado de trabalho é mais alta, e as evidências sugerem que há diferenciais nestas propensões dependendo da classe de origem do jovem. Os resultados também demonstram que a conjugação entre progressão educacional e trabalho é o caminho mais comum para os jovens com origem social diferente do estrato sócio-econômico mais alto que analisamos de atingirem o nível superior de ensino, mas ainda assim as chances de progressão permanecem baixas se comparamos às chances

de abandono conjugado ou não ao trabalho. É neste ponto que as desigualdades em T2 são

mais marcantes: é nas chances de abandono da progressão educacional conjugada ao trabalho que as barreiras de classe se demonstram com maior força em favor da progressão dos mais privilegiados.