• No results found

Evidence from a field and lab experiment

8. Concluding remarks

Primeiramente, é interessante pontuar que o procedimento adotado

pela Instituição seguiu um padrão que optou pela classificação individual de

unidades documentais, mediante o assunto e o formato, desconsiderando-se a

identificação dos gêneros e espécies predominantes nos grupos inteiros, ou

seja, nas séries documentais. Tal opção, conforme se verificou em

depoimentos, define uma posição institucional justificada pela crença de

facilitar o tratamento e o acesso ao acervo.

No entanto, é preciso dizer que essa abordagem institucional

prescindiu da etapa de fixação dos fundos e que isso tendeu a dificultar a

própria preservação da sua identidade e dos seus subconjuntos. Além do mais,

no que tange o acervo como um todo, tal abordagem contribuiu para gerar

situações diversas, conforme se expôs, que tendem a prejudicar o acesso e a

recuperação da informação, fatos que serão demonstrados ao longo do estudo.

E os aspectos evidenciados nas situações previamente expostas

convergem para um ponto. O processo de reunião de acervo, desencadeado

pela Instituição ao longo dos anos, tem se dado em função de posição

orientada por uma visão que se aproxima daquela caracterizada pelo chamado

paradigma incorporacionista do final do século XIX, quando se conduziam

práticas de inclusão de documentos aos acervos, sem atentar para um outro

Na Fundação, isso se expressou sobretudo nas propostas de

implementação de projetos institucionais de levantamento de acervo, os quais

não foram seguidos dos procedimentos arquivísticos compatíveis. Este

posicionamento resultou, como se viu, em uma configuração de acervo

bastante peculiar e de análise complexa.

Mas, essa situação parece derivar de outra. A Instituição vem

reunindo documentação em fase permanente - ou, excepcionalmente,

intermediária - , oriunda de órgãos públicos ou privados que realizam uma

espécie de doação de massas documentais à Fundação, que as recebe,

basicamente em função de um compromisso com o patrimônio documental e

da preocupação com a construção da memória histórica da cidade.

Assim, a Fundação, que de fato tem a missão de zelar pelo

patrimônio passa, por esta via, a incorporar fundos que não sofreram gestão

arquivística nos órgãos de origem. Evidentemente que o problema, já no

âmbito institucional, tende a se ampliar e a gerar obstáculos no tocante às

intervenções a se efetuarem no tratamento do acervo.

Provavelmente, o interesse por projetos de levantamento e a

necessidade de constituição de acervo foram os fatores que desencadearam o

processo de incorporação de documentos, situação que recrudesceu ao longo

do tempo, na medida em que prescindiu do procedimento paralelo de

identificação e avaliação arquivística dos fundos. Isto conformou posturas,

realidades e ditou as estratégias de abordagem de acervo observadas.

Algumas dessas posturas foram previstas e justificadas pelo Estatuto

inclusive em item anterior, que trata das atribuições do Setor de Arquivos,

Pesquisas e Publicações. Nele, menciona-se a necessidade de promover a

ampliação do Arquivo, por meio de aquisições e doações de acervos (Araxá,

2001 a, 7). E assim, ainda que se possa dizer, em tese, que no atual Estatuto

da Instituição haja a proposta de monitorar o controle do acervo, o que se

observa, na prática, é que a ampliação e as aquisições - e não o

monitoramento do crescimento e o conseqüente controle do conteúdo

documental - têm dado a tônica institucional.

Todo o panorama traçado evidencia ainda uma outra situação. Em

termos de missão institucional e compromisso social, a Fundação tem ampliado

de forma tal a sua abrangência - esforço que não vem se repetindo no quadro

funcional, sobretudo em âmbito técnico - , que isto pode vir a interferir nas

tomadas de decisão em relação às questões referentes aos arquivos.

Isso se confirma no seu organograma, de estrutura burocrática e não

condizente com a atual conjuntura institucional. Nele, nota-se que a distribuição

dos cargos, nos respectivos níveis de colaboração e subordinação, tende a

tornarem difusas as competências e atribuições de indivíduos e setores,

quando analisadas umas em relação às outras. Um risco que se corre é o de

que tal dispersão gere um contínuo desvio nas atenções referentes à

problemática do acervo, frente a outras necessidades e prioridades

eventualmente consideradas mais urgentes.

Pelo exposto, infere-se que a posição assumida pela Fundação,

desde o início do processo de formação e configuração do próprio acervo, tem

depositária de documentação, sendo esta subsidiária do paradigma de

incorporação de acervos. Conseqüentemente, o campo de atuação da

Instituição tem se limitado ao recebimento de documentação posta em depósito

sob sua guarda, sem que todavia desenvolvam-se perspectivas de ampliação

de tal atuação para o nível do estabelecimento de política arquivística

institucional de avaliação e recolhimento.

Portanto, é preciso que a Instituição reconheça que o seu papel

frente ao município é mais amplo, porque se refere à manutenção de acervos

arquivísticos e não simplesmente ao seu depósito. Tal reconhecimento, em

nível institucional, pode lhe designar conduta diferenciada, já que manter

implica ter nas mãos, ou seja, exercer o controle sobre algo, que neste caso

seria o conteúdo intelectual do acervo.

Na verdade, a atuação da Instituição caminha em direção oposta. Há

uma tendência ao crescimento da documentação e por conseguinte

recrudescimento do descontrole e geração de lacunas no processo de

recuperação da informação arquivística. Tanto mais, quando se considera que

a Fundação enfrenta o problema de dispor de um quadro técnico reduzido nas

áreas de atuação diretamente vinculadas ao tratamento dos arquivos.

Mas, tais fatos não depõem necessariamente contra a Instituição.

Tampouco, o seu reconhecimento significa que se esteja assumindo a posição

de responsabilizá-la por ter desenvolvido, durante anos, uma conduta

caracterizada pelo excesso de zelo com a documentação. Ao contrário, se

pretende fazer com que amplie a visão para o conhecimento de novos

de natureza arquivística, tendo em vista a sua manutenção e disponibilização

eficiente aos usuários. E é claro que tudo isto se dá, à medida que se admite

que a Fundação pode vir a ser de fato uma instituição mantenedora de

registros e informação social. Basta que assuma esta missão em sua real

dimensão e que caminhe firmemente nesta direção.

Nesta hipótese, primeiramente haveria que pensar em definir uma

política institucional para o acervo, que ultrapassasse os impasses gerados

pelas posições adotadas ao longo dos anos. Naturalmente, isto teria que vir

junto com tomada de decisão em direção à teoria arquivística, que possui a

prerrogativa de embasar cientificamente as soluções para os problemas e

situações evidenciados.

Obviamente, não se descartaria a possibilidade do desenvolvimento

de política de gestão administrativa, dado que há uma necessidade de

ampliação do número de profissionais encarregados dos arquivos e de melhor

distribuição de suas funções e competências. Isto poderia levar a uma

reformulação do atual organograma institucional.

Em relação ao exposto, pesa também o fato de que no atual

Estatuto ou lei de criação da Fundação, não se faz menção direta a um

provável papel de administradora de arquivos locais, ao menos nos moldes das

funções desempenhadas pelos chamados Arquivos Públicos Municipais, que

são as entidades designadas por lei para o exercício e responsabilidade sobre

a gestão dos arquivos do poder Executivo. Isto reforça o entendimento de que

Por outro lado, é possível vislumbrar no conteúdo subliminar do seu

atual Estatuto, que a Fundação entende e assume um caráter que está próximo

ao de uma instituição mantenedora de arquivos, especificamente no capítulo

que enumera as atribuições do Setor de Arquivos, Pesquisas e Publicações.

Isto, aliado ao fato de que não existe um arquivo municipal na cidade de Araxá,

pode vir a significar, em última análise, que as tarefas de manutenção dos

arquivos e de preservação da memória local venham a ser de fato e de direito

suas atribuições. Mas, é preciso que se dê visibilidade a esta condição por

meio de dispositivos legais.

Uma tomada de posição desse nível, seria de fato algo de

importância vital para os arquivos institucionais. E se justificaria, não somente

pela razão natural identificada à missão da Fundação, como também pela sua

responsabilidade com um acervo composto por documentação abrangente, que

transcende os limites da história local. A cidade de Araxá, no século XIX e

início do XX, abarcou relativa extensão territorial, alcançando distritos que hoje

emancipados se configuram em cidades de pequeno e médio porte na região

do Alto Paranaíba e Triângulo Mineiro. A julgar por esse aspecto, estariam

também justificadas as ações que trouxessem perspectivas de mudança.

Por outro lado, não se pode deixar de admitir que a Instituição

conseguiu ultrapassar limites relativamente importantes em tarefas complexas

da Arquivologia. E na superação destas etapas reside o seu mérito. De forma

que, na atualidade, está sob condições de prosseguir, voltando-se para as

discussões de um projeto institucional duradouro, que a eleve ao patamar

país, desafiando a lógica dominante, imposta pela opacidade informacional do

Estado. Não por acaso, este é também o desafio que tem se apresentado à

Arquivologia, nas últimas décadas. Sem dúvida, aceitá-lo representaria um

salto qualitativo na trajetória da Fundação Cultural Calmon Barreto.