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Segmentation and Classification

5.5 Concept of the VesselGlyph

Na análise sobre a dominação através de representações simbólicas surge dentro das correntes marxistas, através de Gramsci, a conexão entre a sociedade e a política, governo (Estado, no sentido restrito) e sociedade civil24 , que atua na elaboração e, ou, na difusão das ideologias (falsas consciências), que de forma hegemônica efetivam-se nas esferas da ―superestrutura‖ da sociedade pela classe dominante, como instrumento de legitimação do poder (COUTINHO, 2011 p.20-32).

23 ―Em situações de crise ou de rápida mudança, certos agentes, frequentemente os que eram

justamente os mais bem adaptados ao estado anterior do jogo, têm dificuldades de se ajustar à nova ordem estabelecida‖ (BOURDIEU, 2001, p. 197).

24 De uma leitura restrita de Gramsci, surgiram correntes marxistas de cunho estruturalista, como na

França nos anos 60 do século XX, com a retomada da relação entre a ideologia e o poder, e como a conexão entre a infraestrutura e a superestrutura. Esta teoria, defendida por Louis Althusser, indica que a dominação de classes baseada em uma visão funcional dos aparelhos ideológicos do Estado, como instrumentos de manipulação, a serviço da classe dominante.

Ao contrário da posição gramsciana, para Bourdieu ―o suporte e o efeito da violência simbólica nos corpos [...] não é um ato de consciência visando a um correlato mental, uma simples representação mental suscetível de ser combatida apenas pela força intrínseca das ideias verdadeiras‖ (BOURDIEU, 2001 p. 208).

O equívoco do pensamento gramsciano estaria em reduzir as relações sociais a um processo de libertação política, traduzido em um efeito automático de consciência revelado por uma ação mental. Na ―tomada de consciência‖, o bom senso do dominado, que estaria inserido no seu senso comum, manifestar-se-ia. Dessa forma, os trabalhadores reconheceriam as condições objetivas de sua própria submissão. Ao contrário do defendido por Gramsci, a dominação não se resume às questões relacionadas em ter, ou não, consciência, o que há é um processo de ocultação da objetividade da exploração que fora incorporada, pela inscrição das estruturas sociais nos agentes por intermédio do habitus, pelo qual a dominação se efetiva sem ser reconhecida como tal (BOURDIEU, 2001, p. 169-173).

A divergência entre Bourdieu e Gramsci está na compreensão do modo como se processa a dominação. Pelo entendimento gramsciano da ideologia hegemônica, a dominação seria algo percebido, atribuído a uma ação mistificadora, a um ato deliberado e organizado por meio de ―propagandas‖ colocadas a serviço da classe dominante; a dominação pode ser compreendida como um simples ato de representação de ideias sob o conceito de ideologia dominante. A percepção da dominação simbólica e a sua negação dar-se-iam da mesma forma, por um correlato mental. Portanto a dominação pode ser subvertida, por meio de uma ―tomada de consciência‖, segundo Gramsci. Diferentemente, para Bourdieu, a dominação dar- se-ia pela violência simbólica. A violência simbólica estaria inculcada nos corpos (nas disposições práticas dos agentes), não existindo uma separação entre corpo e mente, congregando a própria essência do ser. A dominação ocorreria por um processo sorrateiro, motivado por uma assimilação inconsciente, incorporada à experiência da vida social cotidiana. Dito de outra forma: enquanto, pela ideologia, a dominação fundamenta-se no consentimento, o fundamento da violência simbólica é o desconhecimento (BURAWOY, 2010 p. 49-79).

Ao imputar a dominação à ideologia25, como uma simples construção de consciência, as correntes marxistas acabavam por atribuir a si mesmas uma visão idealista, uma percepção escolástica de separação entre mente e corpo, negligenciando a constatação de que o mundo

25 Para a posição marxista, o conhecimento seria submetido a uma configuração restrita às ideias,

levando a uma realidade distorcida, ou seja, a uma ideologia. Assim, as ideologias, pela análise marxista,são falsas representações da realidade.

social e o conhecimento desse mundo são unos, o ser humano não se encontra alheio, como espectador desinteressado, mas faz parte dele.

Esse equívoco de assumir uma visão do ―ser‖ separada da situação de objeto da vida prática humana pela tradição das correntes marxistas já tinha sido apontado pelo próprio Marx (2010), nos seus Manuscritos econômico-filosóficos26, de 1844: o processo de alienação seria algo que se originaria do estranhamento na atividade objetiva humana, não se restringido a uma questão da construção do pensamento.

Marx aponta o erro do materialismo apresentado por Feuerbach27, que, ao criticar Hegel, adotou o conceito do ―homem‖ como indivíduo, como ser isolado, com uma postura contemplativa perante o mundo, como um objeto isolado. Marx utiliza a compreensão que o ser se aliena ao não reconhecer a sua essência como parte de si mesmo28. As relações sociais do indivíduo são inerentes à própria existência humana. (MARX, 2010, p. 79-102).

Marx, em seus Manuscritos (2010), afirma que o processo cognitivo é realizado por indivíduos reais, por meio de suas condições materiais de vida, tanto aquelas já encontradas, como as produzidas por sua própria ação. Essa concepção de Marx vai ser retomada por György Lukács em sua clássica obra Para uma ontologia do ser social (2010), que concebe o mundo social e o mundo do conhecimento como conexos. Para Lukács, o ser humano não é abstrato, nem isolado; é por essência um ser social, objetivado nas suas práticas cotidianas.

No enfoque de Lukács (2010), o ser desvincula-se do ser subjetivado, para ele um ser não objetivado é um não ser. Lukács29 passa a considerar a objetividade a forma pela qual o ser se efetiva; a análise da vida cotidiana é o ponto de partida para explicar as formas humanas de objetivação, ou seja, como ser social. Assim como indicado por Marx, essa passagem do ―humano em geral‖ para o ―homem social‖ dá-se pelo trabalho concreto, como modelo ontológico de toda a atividade humana.

26 Os Manuscritos econômico-filosóficos foram escritos pelo jovem Marx em 1844, mas a obra só foi

divulgada em 1930, quase 50 anos após sua morte, e foi pouco analisada pelas principais correntes marxistas do século XX. Alegavam que aquela produção teórica era de um jovem Marx, ainda filósofo, sob influência hegeliana (idealista), que não refletia o seu pensamento maduro, científico e materialista, expresso após a publicação de A ideologia alemã em 1846, e do Manifesto comunista, em 1848. Entre os pensadores marxistas, podem-se citar algumas exceções valorosas que tentaram resgatar o conteúdo dos Manuscritos e do Marx ―humanista‖, como os trabalhos de György Lukács (1885-1971) e de Henri Lefebvre (1905-1991).

27 Teses sobre Feuerbach, as onzes criticas estão incorporadas como anexo à obra A ideologia alemã

(MARX; ENGELS, 2007).

28 A alienação é produzida pelo homem como algo externo a si, ou seja, o homem separado do seu ser,

(alienado).

29 Como decorrência deste debate, Lukács considerou que a dialética pensada por Marx seria um

método aplicável somente ao campo das ciências sociais, por ser uma condição essencialmente humana, e não poderia ser transportada como uma lei geral de funcionamento da vida natural.

Esse ser objetivado pela atividade humana, mais perceptível nos escritos do jovem Marx (2010), aproxima-se do pensamento de Bourdieu (2001). Para ambos, ―o ser humano‖ é concebido em suas relações sociais vividas, enquanto ser social (Marx) ou pelo senso prático (Bourdieu). A consciência (pensamento) humana nasce das relações sociais práticas, ou seja, é um produto social concreto, construído por agentes concretos que interagem na vida cotidiana, no mundo em que estão inseridos.