4. Presentation of findings
4.5. Use negative orders
O mar foi cenário e objeto de múltiplas e incontáveis narrativas e interpretações ao longo dos séculos, em que historiadores, poetas, teólogos, religiosos, artistas, urbanistas e especialistas no campo da medicina, descreveram o mar conforme o tempo vivido e olhar de cada pesquisador ou curioso.
Os textos bíblicos, com destaque para Gênesis e Salmos, relatam com mais profundidade as representações e o imaginário coletivo sobre o mar. O mar é retratado como espaço de salvação, simbolicamente falando e, de perdição para os homens. Uma das passagens mais intrigantes da Bíblia é o acontecimento do Dilúvio Judaico-Cristão, fenômeno divino que puniu os pecadores humanos por meio de fortes chuvas que duraram 40 dias e que inundou a parte terrestre do planeta de água, e que, posteriormente, deu origem aos oceanos. Tal feito foi uma resposta do Criador (Deus) às maldades e tiranias do homem. Deus salvou um mortal chamando Noé, e família (esposa, filhos e esposas), que teve por missão construir uma estrutura de madeira gigante; uma arca, para abrigar além da família, casais de todas as espécies de animais existentes na época, para enfrentar os desafios e incertezas do dilúvio anunciado, e assim o fez, segundo os livros bíblicos
O dilúvio possui várias narrativas, contextos e versões de acordo com cada povo ou civilização, que se assemelham ou diferem dos povos judaico- cristãos. Todavia, o acontecimento tem relatos nas culturas: islâmica, suméria, africana, hindu, grega, maia, asteca, inca e povos indígenas. A figura 1 mostra uma gravura que retrata o dilúvio e os efeitos devastadores junto a homens e animais
Figura 1: Dilúvio – pessoas e um tigre ilhados
A partir das impressões fantásticas e simbólicas que o homem aferia ao mar, como ilustrado na figura 1 que retrata o episódio do Dilúvio, Corbin (1989) também discutiu sobre o real e o simbólico no que diz respeito ao mar e às praias com alto grau de detalhamento, incluindo as narrativas sobre o mar, o banho de praia, a prática de veraneio e a relação das classes aristocráticas europeias com o mar por meio da medicina terapêutica (banhos medicinais). Assim, o autor descreveu, de forma criteriosa e cronológica, a relação do homem-mar e a construção da praia no domínio do imaginário ocidental.
Segundo o referido autor, que também relatou sobre o imaginário coletivo do mundo ocidental a partir do século XV, período que o sagrado impunha e ditava a forma de pensar do homem, conferindo à cosmologia um forte valor simbólico, sobretudo, no que diz respeito ao mundo marítimo. O mar é visto, nesse contexto, como espaço que abriga as mais terríveis criaturas e monstros, dentre os mais ilustres e temidos está o Leviatã, uma espécie de dragão do mar que atacou o arcanjo São Miguel de acordo com os relatos bíblicos.
Durante um longo período da Idade Média até início da Idade Moderna, o mar foi visto como um mundo de criaturas monstruosas, de horror e obscuridade, sendo temido pelos navegadores e um desafio para a prática do velejo em mar aberto. Nesse contexto de mitologia e simbolismo religioso, o caráter demoníaco do mar é uma cólera, principalmente em dias de fortes tempestades e outras intempéries marítimas.
Nos séculos XVI e XVII as embarcações eram ainda precárias para o advento de longas viagens e não se tinha tecnologias apropriadas para o enfretamento dos “perigos” do mar. Esse conjunto de fatores se juntava às questões religiosas de natureza simbólica, o que aferiam ao mar status de desgraça, doenças, criadouro de animais ferozes e invencíveis, um verdadeiro temor para quem se atrevesse navegar em águas indomáveis. Por conseguinte, as embarcações que não obtinham sucesso nas empreitadas mercantilistas, exploratórias ou expansionistas, em que o imaginário social coletivo em relação ao mar era alimentado por crenças fabulosas e fantásticas que eram reforçadas e difundidas pelos religiosos da época.
O homem era submisso ao mar, devoto e refém, pois o mar se constituía como purgatório para minimizar ou exaurir os pecados praticados em terra firme. Ir e retornar enfrentando as monstruosidades do mar era um símbolo de redenção e boa conduta, pois àqueles que não tinham esse destino permanecia ali mesmo no mar para ser punido pelos feitos errôneos (CORBIN, 1989).
Segundo Corbin (1989, p. 23), “o litoral antigo é também receptáculo dos excrementos do mar; é ao longo da praia que este se purga e expele monstros”. É atribuída ao mar a função de expulsar e rejeitar todas as impurezas, secreções e tudo que putrefaz a vida marinha.
A salinidade e a presença das algas e animais mortos (matéria orgânica) também agrava a imagem negativa que o homem tem do mar e do banho de praia, pois o mau cheiro e o incômodo do sal na pele humana são motivos para não se apreciar o banho e outras práticas de lazer junto ao mar. Sendo o mar uma verdadeira repulsa ao olhar humano e ao desejo de viver ou passear a beira-mar.
No século XVII surge o gosto e a inspiração de poetas e artistas pela beira-mar. O contexto natural de cores, ventos, luz solar, balanço das ondas e as incertezas das profundezes do mar, tornam-se fontes de criação férteis para a produção artística e literária nas praias europeias, especialmente as francesas (CORBIN, 1989).
No início do século XVIII, o sal do mar ganha outras concepções conforme narrado por Corbin:
O sal, enfim, torna a onda pesada, “controla evaporação” e regula desse modo a circulação da água na atmosfera. Quanto ao betume, forma uma substância viscosa que impede o mar de corroer as terras que revestem o fundo de seu leito. Graças a essas duas substâncias, a praia irá revelar-se como lugar salubre por excelência, desde que se submeta à ação equilibrada dos ventos, escapando assim da estagnação (CORBIN, 1989, p. 39).
Nessa perspectiva traçada por Corbin, o mar passa a ter outras conotações graças ao atributo natural “sal”, especialmente, o banho de mar para fins terapêuticos passa a ser recomendado pelos médicos “curistas” na Europa Ocidental.
Os holandeses deram uma expressiva contribuição ao domínio da navegação e atividade naval, impulsionados pelo mercantilismo construíram navios robustos e modernos à época para poder lidar e domar a fúria dos oceanos. Sendo assim, Amsterdam e Rotterdam por meio de grandes portos se firmaram na rota das grandes navegações mercantilistas, tornando-se “portões de entrada e saída” de produtos de todas as partes do planeta. Posteriormente, a Holanda também se torna um importante caminho para as viagens com fins turísticos nos séculos XVII e XVIII, por meio do Grand Tour9.
O Grand Tour tem duas fases experimentais, são elas: 1ª) Grand Tour Clássico, baseado em observações e registro neutro de galerias, museus e artefatos altamente culturais e 2ª) Grand Tour Romântico, que presenciou a emergência de um turismo voltado para a paisagem, de uma experiência muito mais particular e inspirada nas belezas sublimes do cotidiano (URRY, 1996, p. 20). Vale ressaltar que, esse modelo de viagem, origem do turismo moderno, visava que a viagem exercesse um papel fundamental na educação cognitiva, intelectual e perceptiva da classe alta inglesa.
A viagem turística nasceu como um processo de distinção social. Corbin (1989) enfatiza que tal processo foi motivado por meio da viagem clássica, o qual foi potencializado pela atividade turística moderna. Os conhecimentos filológicos exigidos no contexto ainda amador, característicos do final do século XVIII, a sensibilidade estética de que deve dar mostras em uma época em que o código pitoresco refina a capacidade visível de análise, desenham um horizonte cultural revelador e novo. Desse modo, as descobertas e enriquecimento cultural adquiridos por meio das viagens clássicas ou românticas irão guarnecer as classes sociais mais abastadas de experiências e prazeres possibilitados pelas viagens turísticas.
Voltando para os estudos do mar, esse espaço natural não servia apenas aos navegadores e pescadores, mas se torna no século XVIII também um espaço contemplativo, em que os viajantes podem desfrutar da paisagem e
9Grand Tour
– No século XVII, o Grand Tour já estava estruturado em viagens que atendiam os filhos da aristocracia e da pequena fidalguia e, no final do século XVIII, os filhos da classe média profissional. As viagens tinham fins de estudos e enriquecimento cultural e aconteciam nas principais cidades da Europa, que concentravam a cultura erudita, a arquitetura, as universidades e preciosas obras de arte (URRY, 1996, p. 19-20).
passeios à beira-mar. O cenário de praia difundiu um modelo social de utilização da beira-mar e contribuiu para popularizar um ritual de práticas marítimas para fins terapêuticos e, posteriormente para o lazer via veraneio (CORBIN, 1989).
Para o referido autor, o olhar direcionado às praias de mar, no final do século XVII e meados do século XVIII, o definem com temor e com repugnância de permanecer nas praias, predominantemente. A figura do oceano terrível, vestígio caótico das catástrofes mergulhadas no passado dos homens, a cólera imprevisível, a imensidão, a pestilência, os perigos, a praia enigmática e o abismo em relação ao desconhecido são traços marcantes no imaginário ocidental sobre esse território do vazio.
Outro cenário se aponta na Europa, a indicação do banho de mar para fins terapêuticos é a nova vedete da medicina da época. Os curistas, higienistas e médicos sugerem o banho de praias de mar, com águas frias e por tempos determinados para o alcance de resultados que amenizem os sintomas de melancolia, splenn (estado de tristeza) e ansiedades.
O mar antes visto como uma figura mitológica indomável, passa a ser no século XVIII, um fonte de energia vital para o ser humano, com função medicinal de abrir o apetite, provoca o sono e o esquecimento das preocupações. O frio e o sal são ingredientes naturais terapêuticos e importantes para a vitalidade humana e cura de muitas mazelas crônicas (CORBIN, 1989). O banho de mar não é apenas um banho frio e desconfortável para os padrões europeus, ele também é medicinal e revitalizador.
Corbin (1989) elucida que o banho de mar segue prescrições médicas, a saber:
A estratégia terapêutica é uma consequência lógica dessas convicções. O paciente deve banhar-se uma vez por dia, ingerir meia pinta de água do mar pela manhã e um copo ao sair do banho; em certos casos, deverá friccionar-se com algas recém-colhidas nos rochedos e tomar uma ducha (fomentação) com água do mar previamente aquecida (CORBIN, 1989, p. 79).
Nesse ponto, o autor descreve, minuciosamente, o que os curistas prescreviam para os pacientes na Europa Ocidental em relação aos
tratamentos de doenças por meio do banho de mar. Quando ele se refere a uma pinta, ele está se referindo a uma unidade antiga de medida de capacidade para líquidos, que na Inglaterra uma pinta correspondia a 0,56 litros.
Muitos eram os ritos sociais em relação ao banho de mar nesse período histórico, pois mulheres e homens tomavam banhos separados e precisavam do auxílio de um (a) banhista para ajudar com a prática do banho e o equilíbrio em meio à força das ondas. Os homens buscavam no mar além de práticas terapêuticas, a natação para fortalecer a musculatura e a virilidade (figura 2). Enquanto, as mulheres tomavam banho de mar, vestidas de forma apropriada para época e eram acompanhadas por ajudantes, permanecendo na beira da praia em águas rasas sem perigo a integridade física.
Figura 2: Banhistas masculinos junto ao mar
Fonte: Paul Cézzanne, Banhistas, Óleo sobre tela, 1890-1892, Musée Orsay (Paris). A pintura de Cézzanne retrata a prática do banho masculino, o que era muito comum no mediterrâneo, onde o banho de praia era,
predominantemente, realizado por homens, além de experimentarem vivências lúdicas, jogos aquáticos e natação (CORBIN, 1989).
A vilegiatura marítima possibilitou no final de século XVIII e início do século XIX, uma arte de viver e se relacionar com as praias de mar, que, segundo Corbin (1989, p. 99) “a codificação de hábitos coletivos, o desdobramento de estratégias de distanciamento e distinção que ordenam o espetáculo de cuidados pessoais individuais relacionados a novos esquemas de apreciação”, o que desenvolveu a construção de modelos inéditos de comportamento social.
A imagem que o homem tinha sobre o mar era, acima de tudo temerosa, pois esse território do vazio carregado de crenças e misticismo detinha segredos difíceis de serem desvendados pela mente humana. O mar, visto como cenário de batalhas, mortes e naufrágios, estava presente no imaginário coletivo, o que permaneceu vivo até mesmo no século das luzes, período que o poder da razão por meio do movimento cultural da elite intelectual europeia do século XVIII povoou e mobilizou a sociedade, visando uma grande reforma na perspectiva moderna e progressista, rompendo com os laços e a tradição medieval que impunha a verdade religiosa como única e absoluta.
Durante todo o século XIX o mar era temido por causar inúmeros naufrágios, pois, nessa época, não era possível domá-lo conforme desejo dos homens, dos marinheiros. O maior de todos os naufrágios aconteceu no dia 15 de abril de 1912, com o navio Titanic que possuía, na época, o título de maior embarcação de passageiros do mundo. Esse navio naufragou antes de completar três horas de viagem, segundo os historiadores; fazendo a travessia entre Southampton, na Inglaterra e Nova York, nos Estados Unidos. Apesar de um século depois do naufrágio do Titanic, o homem e as tecnologias desenvolvidas, desde então, ainda não conseguiram prever e evitar com precisão e eficácia os impactos ocasionados pelos fenômenos climáticos e marítimos (tsunamis, maremotos, tempestades etc.).
Mas, foi no século XX que a relação homem-mar começou a mudar, o que suscitou o surgimento de uma nova cena social, repleta de distinção e o
desejo de usufruir de atividades à beira-mar. Nesse sentido, cidades se estruturaram pelo litoral das principais cidades do mundo e vilas de pescadores se organizaram em sintonia com o universo marítimo.
No início do século XIX, a vilegiatura marítima ganha forma e conteúdo, possibilitando mais sociabilidade e impulsionando o surgimento de núcleos balneares na faixa litorânea das cidades. O mar proporciona prazer, dita um novo estilo de vida e sugere uma nova dinâmica social e econômica. A praia é lugar de encontro, de veraneio, de ostentação e status social.
Nesse período, surgiu na Europa as casas de campo para temporadas de férias, aumentou o número de spas nas cidades do interior inspirado no modelo de vilegiatura balnear, sendo a questão terapêutica o principal predicado desse novo estilo de vida, voltado para a saúde do corpo e utilização de elementos marítimos para fins clínicos (CORBIN, 1989).
A praia passa de lugar de impurezas e mazelas humanas para a condição de espaço de desejo. Porém, é no século XX que a praia é vista como cenário de tratamento não só da mente, mas também do corpo. Técnicas de aproveitamento do sol (bronzeamento) e das riquezas terapêuticas do mar fazem parte do imaginário coletivo da sociedade moderna. Nessa direção são construídas marinas nas cidades mais bem estruturadas para atender os desejos de consumo das classes mais abastadas, isso surgiu na Europa, e, logo, replicou-se para as cidades litorâneas do continente americano.
Nas praias do mundo, inclusive do Brasil são construídas casas de veraneio ou segunda residência para fins de temporadas de férias junto ao mar. Zonas residenciais costeiras são verdadeiras atrações e ditam uma nova realidade de lazer e ócio no litoral do país, especialmente, no nordeste brasileiro, região que abriga os principais destinos turísticos voltados para o segmento de sol e praia dessa porção litorânea do país.
Machado (2000) faz uma análise e interpretação sociológica de comportamentos e de processo sociais de atribuição de sentido à praia. Essa autora defende que a praia possui dois focos: por um lado, um caráter classista que revela estratégia de distinção social e de reprodução social da classe, e;
por outro, os comportamentos e os sentidos que são dirigidos a esse espaço, em particular, exprimem disparidades de gênero.
A autora revela que o imaginário da praia e na natureza marítima não é neutro. Traduz relações de poder, que se expressam na construção de determinadas técnicas corporais e padrões de sensibilidade para o contato com espaços naturais. A maneira de se relacionar com a praia, diferenciava-se em relação aos homens e mulheres. Nesse sentindo, Machado (2000) trabalha também com a questão de gênero quando se refere ao trato humano com a praia, assim como fez Woortmann (1991) ao discutir o papel social da mulher e o ambiente em comunidades pesqueiras do Nordeste, cuja pesquisa destacou a questão do gênero do trabalho da mulher no campo da pesca.
A praia também possui elementos para a realização de práticas lúdicas, um cenário propício às atividades de lazer. Machado (2000) define a praia lúdica do século XX e consagrada no século XXI, como um espaço vocacionado para o prazer e valorização dos elementos “quentes”, divergindo dos ambientes frios. O frio corresponde à austeridade, o vigor e moderação. E o quente diz respeito ao relaxamento, diminuição da tensão e exaltação da libido.
No cenário contemporâneo, as praias de São Miguel do Gostoso são “lúdicas” e “quentes”, pois os moradores e visitantes têm um maior contato com o mar, o sol, a areia e os ventos, diferentemente da “praia terapêutica” que era fria e curadora de mazelas.
A beira-mar é um espaço democrático, cenário de distinção e poder simbólico que formatou ao longo dos anos um campo econômico regado por
habitus culturais (BORDIEU, 2010; 2013). Sendo assim, é possível encontrar
no mesmo espaço litorâneo classes sociais distintas residindo, trabalhando ou no usufruto do mar. Esse mesmo espaço que serve de destino de segunda- residência também é local de práticas laborais para comunidades nativas que vivem do trabalho da pesca, predominantemente, que muitas vezes são repelidas desses espaços para darem lugar ao capital privado representado pelos proprietários das casas de veraneio e pelo próprio turismo, constituindo a
partir da paisagem e dos ritos marítimos uma malha voltada para o lazer contemporâneo.
São Miguel do Gostoso, além de abrigar praias destinadas às atividades diversificadas de lazer, também possui um conjunto de praias que desenvolve a pesca artesanal, atividades modernas como o turismo, a geração de energia eólica e as práticas de esportes de aventura. Todavia, esse destino turístico surgiu como uma pacata vila de pescadores, em que a pesca se apresenta como um dos elementos mais significativos da identidade cultural e a paisagem como a principal motivação e causa para o processo de turistificação que influenciou a transformação sociocultural do lugar, historicamente construída, passando de vila à cidade.
O mar estar para os pescadores assim como a terra estar para os agricultores, ou assim como a vida se apresenta para os poetas. O mar foi o responsável maior pelo surgimento do povoado que deu origem, anos depois ao vilarejo, e, mais tarde, à vila de pescadores (São Miguel do Gostoso), dada a localização estratégica para a navegação no hemisfério sul. E, a partir do século XV, começou a atrair diversos olhares, especialmente, de expedições europeias em busca da expansão comercial e marítima, características desse período histórico conhecido como as “Grandes Navegações”.
Florestan Fernandes reflete sobre a formação e função das vilas coloniais, elucidando que
sob o regime colonial e posteriormente através dos costumes, a vila brasileira típica constituía uma aglomeração semiurbana, inserida em um complexo meio agrícola preponderante, que determinava sua morfologia, a intensidade de sua vida social e, inclusive, a sua duração (FERNANDES, 1972, p. 81)
Na concepção do autor, as vilas coloniais eram “povoados” ou “vilarejos” ou “vilarinhos” ou “arraiais” ou “aldeias” ou “lugarejos”, segundo a tradição lusitana em relação ao conceito de vila, pois não tinham, em princípio, as características urbanas, organizacionais e administrativas de uma vila nos moldes da Europa.
Nesse sentido, essa aglomeração “urbana” denominada de vila era fruto de uma demanda social na visão de Fernandes (1972), uma vez que, havia a necessidade de implantar nas vilas regras de socialidade entres os
pobres que reivindicavam festejos profanos e atividades religiosas. Tais necessidades eram atendidas para amenizar a hostilidade instaurada no seio das vilas entre os pobres e os ricos, bem como, para atenuar a ameaça indígena e da população escrava existente no Brasil.
A vila nos moldes da colônia Brasil tornou-se uma realidade no cenário