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Fabio Melo afirma que, depois de serem expulsos da Índia, os ciganos teriam vivido durante muito tempo em Zangui, província que fica entre o Egito e a Etiópia. Segundo o

95PEREIRA, Cristina da Costa. Op. cit. p. 81.

96 “O conceito de marimô serve, afinal, para proteger a estrutura familiar e é comum a todos os grupos ciganos.” Marimô significa impuro e esta impureza está atrelada à realização de práticas como: “comer entre não-ciganos,

ir à casa dos não-ciganos, comer em restaurante.” A autora Cristina Pereira afirma que a instituição do marimê não é mais praticada. Ibidem. p. 79-80.

44 autor, baseados nesta informação, cronistas do século XVIII escreveram que os ciganos se originaram nesta região, denominando-os de Zigeuner, gypsy, gitanos, zíngaros, que seria derivado de egiptian. Porém, como já afirmamos, os estudos linguísticos questionam a origem egípcia dos ciganos.98A autora Cristina Pereira defende que os ciganos foram denominados

egípcios em região das viagens feitas em Modon, local que se chamava Pequeno Egito.

Para Fraser, estas denominações derivam do substantivo bizantino Adsincani, povo conhecido por serem adivinhos, domadores de ursos e cobras, músicos e feiticeiros e que nunca parava no mesmo lugar durante muito tempo. A primeira referência a este termo surgiu em 1068, em Constantinopla, pois os bizantinos, normalmente, se referiam aos ciganos como sendo Atsínganoi. Baseado em estudos linguísticos, Fraser sugeriu que os ciganos saíram da Índia rumo à Pérsia e, antes de o país cair sob o domínio árabe, no século VII, seguiram para a Armênia, onde ficaram até meados do século XI, quando fugiram, devido à guerra causada pela invasão dos mongóis, rumo ao território ocidental de Bizâncio – Constantinopla e Trácia – e então se espalharam pelos Bálcãs e pela Europa. Os primeiros que apareceram neste continente, no início do século XV, possuíam pele escura, dizia-se que andavam como nômades por penitência e declaravam que tinham vindo do Pequeno Egito.99Moonen afirmou

que esta era a denominação utilizada para descrever uma região da Grécia, mas que os europeus da época interpretaram como sendo o Egito, na África.100

O primeiro registro de ciganos na Europa Ocidental apareceu na Alemanha, em 1417, onde eles se exibiam como saltimbancos e acrobatas. Liderados por um conde ou um duque, portavam salvo-condutos na garantia de serem bem-recebidos nos lugares por onde passavam. Os ciganos apresentavam-se como peregrinos e adquiriam o salvo-conduto e as cartas de recomendação dos príncipes, em especial de Segismundo, rei dos romanos. Quando fugiram para Roma, reis, nobres e até o Papa orientavam a todos para tratá-los bem. Estas cartas foram utilizadas demasiadamente, a ponto de começarem a não ser mais aceitas. Fraser afirma que muitas dessas cartas passaram a ser falsificadas, pois algumas delas permitiam aos ciganos roubar sem ser punidos.

A primeira menção de cartas papais nas mãos dos Ciganos está consignada a 16 de Julho de 1422 numa crônica Suíça: nesse dia, diz-se aí, o Duque Miguel do Egipto e os seus acompanhantes apresentaram aos cidadãos de Basiléia “boas cartas de salvo-conduto do Papa e do nosso senhor Rei e outros senhores”.101

98CHINA, José B. D´Oliveira. Op. cit. p. 15. 99 FRASER, Angus. Op. cit. p. 52.

100 MOONEN, Francis. Op. cit. 101FONSECA, Isabel. Op. cit. p. 75.

45 Nos séculos XIII e XIV, quando chegaram à Valáquia e à Moldávia (moderna Romênia e Moldova), os ciganos foram escravizados pelos voivodas (proprietários da terra), pelo Estado e pelo clero. Tudo indica que a escravidão teve início com exploração fiscal, até ser declarado que qualquer cigano sem dono era propriedade do Estado. A escravização se deu com o intuito de evitar que fugissem da região, pois preenchiam o espaço existente entre os camponeses e senhores da região com as suas especializações em certos ofícios.

Os Ciganos, propriedade dos mosteiros e dos boiardos, viram destroçados os seus direitos individuais até ficarem absolutamente à disposição dos seus senhores: eles e os seus filhos tornaram-se alfaias que podiam ser vendidas, trocadas ou dadas; um romeno ou romena que cassasse com um desses ciganos tornava-se também escravo.102

Os ciganos sofreram mais de 400 anos com a escravidão nestas regiões, mantidos como força de trabalho, não eram remunerados e sofriam maus-tratos. O clero justificava a escravidão pelo mito da maldição cigana, relacionado à descendência de Caim. Devido ao longo período que passaram exercendo trabalho forçado, ciganólogos, como Isabel Fonseca,

103 afirmam que a região da Romênia abriga atualmente o maior número de ciganos vivendo

em um único país. Isso não significa que os ciganos desta região vivem em igualdade social; ao contrário, continuam sendo discriminados.

A abolição da escravidão cigana na Romênia aconteceu por volta do século XIX e marca o início da segunda onda migratória dos ciganos, quando passaram a migrar voluntariamente para outros países.

No quadro a seguir, procuramos mapear a presença cigana na Europa Ocidental a partir do século XV, buscando compreender o processo migratório dos ciganos por diversos países europeus:

102FRASER, Angus. Op. cit. p. 63. 103 FONSECA, Isabel. Op. cit.

46 QUADRO 2

Presença cigana na Europa Ocidental

LOCALIDADE ANO DE APARIÇÃO

Barcelona 1447

Portugal Final do século XV

Inglaterra 1512

Roma Meados do século XVI

Escócia 1540

Fonte: Fonte: MOONEN, Frans; PEREIRA, Cristina; FRASER, Angus. ANDRADE JUNIOR, Lourival.104

No século XVI, é possível observar em diversas regiões europeias a intolerância aos ciganos através de leis e decretos anticiganos, que proibiam a sua entrada nos reinos; permitiam que fossem açoitados; solicitavam a sua retirada do país de imediato; que os condenavam ao degredo; e permitiam o assassinato dos membros deste povo. Do final do século XIX até o início do século XX, aumentou o número de leis e medidas anticiganas na Europa.

Essas medidas eram tomadas como precaução diante do desconhecimento sobre as intenções das viagens realizadas pelos ciganos por várias regiões. Alguns acreditavam serem os ciganos espiões devido ao conhecimento tático que possuíam sobre o país e os habitantes, informações necessárias para o sucesso das suas viagens. Sendo assim, segundo Angus Fraser, 105os ciganos não eram bem-vindos em algumas cidades da Alemanha e, baseados na

acusação de espionagem, os alemães criaram no ano de 1498 um decreto que expulsava todos os ciganos das terras germânicas. Porém, diante da existência de 300 estados germânicos, era difícil unificar as ações contra este grupo e as leis e decretos se mostraram ineficientes.

Segundo o autor, foram encontrados vestígios, que remetem aos anos de 1447 a 1472, da presença de ciganos em Aragão e na Catalunha, onde chefes ciganos haviam se beneficiado de salvo-condutos reais. No reino de Castela, eles haviam sido bem recepcionados e protegidos por membros da nobreza espanhola em troca de auxílios prestados com o arranjo de “belos cavalos”. Com a união das coroas de Castela e Aragão, em 1479, e a promessa de restabelecimento da lei e da ordem, as cartas de proteção começaram a cessar e aquelas que continuavam a ser emitidas tinham uma duração limitada. No decreto dos reis católicos

104 Todos já referenciados no texto, com exceção de: ANDRADE JÚNIOR, Lourival. Da barraca ao túmulo:

cigana Senbica Christo e as construções de uma devoção. Tese apresentada ao curso de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2008.

47 emitidos em 1499, foi estabelecido que os ciganos deveriam se tornar sedentários ou arrumarem um dono; caso contrário, seriam banidos por 60 dias.

Fraser afirma que inicialmente os ciganos apareceram no norte da Itália, chegando ao sul de Roma por volta do século XVI, de modo a constar nos arquivos italianos em dois momentos distintos. O primeiro registro estava relacionado ao assassinato de uma família, e segundo fala de um cigano que foi citado por receber um pagamento depois de tocar cítola. Segundo o autor, Veneza foi a primeira a emitir decretos contra a presença de ciganos, e logo depois Milão também adota medidas contra o grupo por considerá-los uma ameaça pública. A expulsão alcançaria todos os Estados pontifícios apenas no ano de 1552, quando os ciganos são apontados como causadores de desordem, roubos e escândalos.

Em Portugal os ciganos aparecem na literatura a partir do século XVI, e sua presença neste país foi marcada por inúmeras medidas repressivas que os baniam e os proibiam de entrar no reino. Com a lei de 1538, os ciganos nascidos em Portugal, quando expulsos do território, eram enviados para as colônias na África e posteriormente para o Brasil.