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Complexity analysis

In document Improving on the Number Field Sieve (sider 30-39)

QD não dialoga com o teatro. Esse tipo de arte não é sequer citada. Apenas, como dito anteriormente, nos documentos externos ao livro, há a indicação de que a autora queria ser atriz. Sabe-se, entretanto, que o livro ganha uma versão teatral, na qual a atriz Ruth de Souza interpreta Carolina Maria de Jesus. No diário, apenas o circo aparece representado como apontado antes.

Já dentre as diferentes formas de arte representadas em TSMM, o teatro é a que merece maior evidência. Durante oito sequências, há planos desenvolvidos no teatro. Além disso, o teatro em si e o camarim são materializados pela narrativa fílmica em outras cinco sequências, o que confirma a importância dessa arte para o filme espanhol. É justamente devido a uma tentativa de falar com uma atriz à saída de um teatro, para obter um autógrafo, que o filho de Manuela é atropelado e morre em consequência do acidente. É também a partir do teatro que Manuela reencontra o seu passado. Tanto a adaptação de Um bonde chamado desejo quanto de Bodas de sangue, falam indiretamente da vida de Manuela.

A primeira conta a história de Blanche Dubois, uma mulher sedutora e misteriosa. Depois de alguns anos de ausência, ela reencontra sua irmã, Stella Kowalsky – papel desempenhado, no passado, por Manuela e em seu grupo de teatro amador –, que vive uma vida miserável ao lado de um marido grosseiro. Esse homem, frustrado e violento, faz de tudo para descobrir os segredos de Blanche e agindo também como um sedutor, fazendo-a dividir- se emocionalmente, acaba por empurrá-la para a sua loucura.

Manuela também sofre devido a um marido, de certa forma, inescrupuloso. Já a obra de Lorca relata um drama inspirado na vida de cidades andaluzas. A narrativa teatral conta a história trágica de uma paixão impossível entre habitantes de uma pequena cidade. Tanto um quanto outro texto tratam do sofrimento feminino. Blanche Dubois, de Williams, e a mãe que perde seu filho na obra de Lorca não são jamais representadas como pessoas felizes, o que lembra a existência de Manuela, também plena de tristeza e dor. A partir desses dois dramas, TSMM reforça a importância e o papel da dor, bem como o espaço que ela ocupa, na vida da protagonista.

Huma Rojo é a atriz principal das duas peças teatrais. Para Manuela e Estéban, assistir à encenação dessa peça no teatro supera o valor de um simples presente de aniversário que Manuela quer oferecer ao rapaz. A peça faz parte de sua vida. E era um desejo dele ver Huma representando Blanche Dubois. Apesar da chuva, Manuela e seu filho esperam à saída do

teatro para pedir a Huma um autógrafo. Manuela não quer ficar, mas Estéban insiste, porém Huma parte direto em um táxi sem que eles consigam o seu intento. Além do mais, é neste plano que Estéban sofre o acidente que o leva à morte, a qual, além de acentuar a importância dessa peça de teatro para a vida de Manuela, provoca, indiretamente, a amizade entre sua mãe e Huma.

Instalada em sua poltrona, durante a encenação, Manuela revê sua história de vida e lembra-se de seu passado. Nesse momento, seu lugar no filme é o de espectadora, o que a aproxima do espectador real do filme, transmitindo-lhe emoção. Ela assiste à peça de Tennessee Williams ao mesmo tempo em que revisita seu passado, e suas lágrimas são interpretadas como o resultado do poder dramático desse autor, o que deixa transparecer o caráter de homenagem desse enxerto.

É somente após o encerramento da peça que o espectador compreende o motivo das lágrimas da heroína. “Nina Cruz te emocionou?” (TSMM), pergunta seu filho quando eles estão já fora do teatro. “Ela não, Stella. Há 20 anos, com um grupo, a gente tinha montado Um bonde chamado desejo. Eu vivia Stella. Seu pai representava Kowalsky”. Vale chamar atenção aqui para o fato de que Manuela liga o nome do pai do rapaz à figura absolutamente masculina daquela personagem, o que, de alguma maneira, distancia ainda mais Estéban da verdade sobre o que ficou obscuro.

Após ter revelado uma parte de seu passado a seu filho, e desvelado ao espectador um pouco de seu segredo, ela promete contar tudo sobre o pai do rapaz na chegada à casa. A promessa é endereçada também ao espectador. Desde que a foto rasgada é materializada no início da obra, resta uma curiosidade, quase tão grande quanto a de Estéban, para conhecer o passado obscuro de Manuela.

No entanto, ela não o desvela nem ao espectador nem ao seu filho nesse momento. Não o faz senão em Barcelona, depois que o rapaz já está morto. É a partir daí que o teatro volta à vida da heroína. Não somente porque ela havia representado Stella, mas porque a perda do filho tem também uma relação com a obra, conforme apontado antes.

Interessante notar que o texto fílmico recorre à peça diversas vezes. A intenção evidente é a de insistir sobre a noção de ir e vir, movimento bastante marcado na vida da heroína. O teatro transforma-se em espaço de catarse e reconstrução da própria identidade para a protagonista. Manuela retorna ao passado, mas esse tempo simbólico é atualizado pela presença da peça. Por coincidência, o grupo de Huma apresenta o espetáculo também em Barcelona. E Manuela não pode se furtar de ir rever a encenação. Desta vez, o passado que vem à tona é seu filho recém-morto.

Esta segunda representação da peça liga a heroína definitivamente a Huma e dá a ela a possibilidade de revisitar seu passado, desta vez através da representação de Stella. Depois de reviver Stella, por ocasião de uma substituição de Nina, atriz que se ausenta da peça, a relação da protagonista com o teatro parece se esgotar, e o palco deixa de ser um assunto de grande destaque para ela, ao menos na condição de atriz.

Em DSA, o espetáculo dado não é uma peça, mas um show em um teatro onde o transformista Letal faz uma imitação da cantora Becky. Para reduzir o sofrimento provocado pela falta da mãe, Rebeca vai vê-lo com frequência. É no teatro que a heroína desvela sua tendência à transgressão das regras impostas pela sociedade onde vive. É nesse mesmo espaço que, depois da apresentação do transformista, ela faz amor com Letal e engravida.

O espaço é materializado ainda uma segunda vez durante a trama. Nessa sequência, Rebeca, após ter saído da prisão, revê Letal. O encontro é um artifício encontrado pelo juiz Eduardo Dominguez para desfazer toda a farsa que envolve a personagem Letal, criado por ele. É o próprio Dominguez quem sugere que Rebeca vá ao encontro de Letal – cuja verdadeira identidade ela desconhece.

Em DSA e em TSMM, as heroínas têm uma função bem especial: elas permitem ao espectador avistar o que acontece nos bastidores, ou seja, subjetivam o espectador no papel que lhe cabe onticamente. E com isso, não por acaso, aproximam esse sujeito da figura emblemática de Eve Harrington. O que se passa no camarim de Letal durante as duas sequências em que Rebeca vai ao teatro é surpreendente. A primeira vez, o que se vê é o transformista e a heroína fazendo amor. A segunda desvela os segredos deste que está inscrito pelo texto fílmico como o provável segundo marido de Rebeca.

Em TSMM cabe a Manuela desvelar o que normalmente nunca é visto pelo espectador: a vida real das atrizes que, sem máscaras, desvelam seus dramas pessoais. Ao mesmo tempo em que a intriga é posicionada pela narrativa em primeiro plano, o que acontece nos camarins permite também o avanço do texto fílmico.

Por meio da sua amizade com Huma, Manuela desvela ao espectador o sofrimento e a solidão da star e a ligação dessas emoções ao sucesso. “O sucesso não tem nem sabor nem odor. Com o tempo, ele se reduz a nada”, revela Huma a Manuela. (TSMM). Como em DSA, em que o fim é o ponto alto da narrativa, a importância do teatro para TSMM é também reforçada pela última sequência do filme.

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