I. The Effect of Liver Oil Concentrates and Highly Purified Vita-
3. Comparison of the Effect of Different Methods for Oral A dmini-
Na seção anterior, analisamos oito trechos do culto televisivo Show da fé exibido no dia dezesseis de junho de 2012. Os trechos foram organizados em três subseções que corresponderam às três articulações composicionais que se engendram no culto, a saber, a Pregação da palavra bíblica, o Testemunho do fiel e o Anúncio de produtos evangélicos. Nosso objetivo foi propiciar uma visão dialógica do processo de apreensão e transmissão da palavra do outro no discurso do culto, atentando-se para os aspectos sociais e valorativos que envolveram esse processo. Além disso, observamos os sentidos produzidos no Show da fé, analisando de que forma esses sentidos fizeram emergir diferentes posicionamentos a respeito de fé, milagres e consumo na sociedade pós- moderna.
Pudemos perceber, por meio das análises, que a palavra do outro apareceu de diferentes maneiras refletida e refratada no discurso dos locutores envolvidos no culto e esse aparecimento revelou um forte diálogo social com vozes de consumo, vozes de concorrência, vozes de ideais de felicidade que circulam amplamente na sociedade contemporânea. Com essas vozes, os locutores concordaram, travaram polêmicas, ressignificaram seus tons, revelando assim a complexidade intrínseca ao objeto estudado nesta tese, que por si só já é um objeto multifacetado tanto no que se refere aos diferentes gêneros discursivos envolvidos, quanto no que se refere aos diferentes locutores e suas posições sociais, diferentes objetos de dizer, diferentes funções de cada
uma das partes recorrentes. Tratou-se, portanto, de um objeto de estudo plurivocal por natureza.
Desse modo, preliminarmente, acreditamos que, com as análises, chegamos a algumas reflexões importantes a respeito dos discursos bivocais analisados, a respeito do discurso publicitário emergente nos discursos e a respeito dos reflexos da sociedade do consumo nos enunciados do culto televisivo. Compreendemos que todos esses elementos se entrecruzam no Show da fé, formando um todo arquitetônico de incitação a crer, aderir e contribuir. Levando em consideração as discussões em torno desse todo arquitetônico de sentidos, destacamos, nesta seção, alguns pontos a serem iluminados, de modo a construir uma reflexão aprofundada a respeito do tensionamento de vozes que emergiram na análise dos enunciados.
O primeiro ponto a ser destacado é o processo de bivocalização e seus modos de engendramento no discurso dos locutores. Por meio das análises, notamos que a bivocalidade não acontece somente quando há a apreensão e transmissão da palavra do outro, mas acontece também quando há o encontro de diversas vozes outras que aparecem refletidas em variados graus no discurso do locutor. Conforme nos explica Bakhtin ([1963]2010b), a ideia do outro não entra “pessoalmente” no discurso, ou seja, “nos discursos bivocais essa idéia ou palavra alheia apenas se reflete neste, determinando-lhe o tom e o sentido” (BAKHTIN [1963], 2010, p. 225).
Dessa maneira, o discurso do locutor percebe tensamente ao seu lado o discurso do outro falando do mesmo objeto e, segundo Bakhtin ([1963]2010b), “a sensação da presença desse discurso lhe determina a estrutura”, isto é, a presença em maior ou menor grau dessa palavra determina as atitudes discursivas diante da apreensão e transmissão. Nesse sentido, conclui o autor que a “maneira individual pela qual o homem constrói seu discurso é determinada consideravelmente pela sua capacidade inata de sentir a palavra do outro e os meios de reagir diante dela”. Essas diferentes reações ficaram evidentes em cada uma das partes que se articulam do culto.
Assim, percebemos inúmeras vezes na Pregação da palavra bíblica refrações de sentidos de autoridade, quando a voz bíblica foi transmitida com fronteiras mais ou menos marcadas, em estilo linear, prevalecendo a ideia de que a voz de Deus merece respeito e obediência, cabendo ao interlocutor ouvi-la e nela crer plenamente. Muitas vezes, também a voz da doutrina da igreja, enfim a voz do Missionário se entrelaçou de tal forma à palavra divina que se criou o efeito de uma só voz, como foi o caso no
(trecho 1), onde o locutor se apropria do querer divino, se pondo como quem sabe o que Deus quer que o interlocutor faça.
No Testemunho do fiel ocorrem também tons de autoridade e muitos reflexos indiretos da doutrina evangélica diluída na voz do locutor. No entanto, no Testemunho do fiel, esse efeito de aproximação da voz divina acarreta outros sentidos, quais sejam efeitos de engajamento do discurso do fiel à voz da igreja e a demonstração que esse engajamento foi positivo (produtivo) para ele, pois recebeu bênçãos em sua vida. Em diversos momentos também, a ressonância da voz do Missionário aparece no dizer do locutor, para polemizar com vozes contrárias, ou seja, com vozes que não acreditam no milagre instantâneo.
No Anúncio de produtos evangélicos, no caso da Nossa TV, também percebemos a presença da voz bíblica, mas no Anúncio ela recebe acentuação diferente. O locutor reelabora o dizer bíblico a fim de ameaçar, colocando em destaque a ação negativa do concorrente de poluir mentes. Aliás, muitas vezes, a palavra alheia, nos diferentes casos ocorrentes, surgiu no dizer dos locutores para imprimir esse tom de ataque ao adversário que perpassou o culto todo. A bivocalidade de tipo ativo, desde o trecho 2, na Pregação da palavra bíblica, até o trecho 7, do Anúncio de produtos evangélicos, trouxe à tona um forte embate que existe entre a doutrina neopentecostal e seus rivais que se traduzem de diversas maneiras: podem ser outras doutrinas religiosas, programações e ações seculares, vozes combatentes de sujeitos que não acreditam na doutrina, no produto oferecido, no milagre prometido.
Outra questão a ser destaca a respeito dos processos bivocais analisados no culto é o efeito de reversibilidade. Em casos onde a palavra bivocal apareceu com fronteiras delimitadas, em estilo linear, e convergindo axiologicamente em discursos bivocais de orientação única, pode-se observar uma estratégia de aproximação com interlocutor, ou seja, há um efeito em que o interlocutor se vê espelhado no discurso do locutor e esse espelho lhe incitaria a ação de acatar aquela imagem de si, o que pode conduzir a realizar a ação proposta e/ou realizar a reflexão proposta pelo locutor. Um exemplo disso acontece no trecho 8, no qual o Missionário-locutor encena a voz do interlocutor aderindo à assinatura da Nossa TV e pedindo a instalação do serviço na sua casa.
Nesse processo, podemos visualizar um movimento exotópico, no qual o locutor utiliza estratégias discursivas visando atingir o interlocutor de modo a projetá-lo no cenário do diálogo. É exotópico para ambas as partes, ou seja, o locutor se distancia de si, locutor, sujeito que detém a palavra e passa a reelaborar em seu dizer uma voz de
outro, atribuindo a essa voz seu tom axiológico de aceitação, de adesão. Ele apresenta o simulacro de um diálogo no qual ele toma distância e controla as duas palavras: a sua e a de outrem. Para o interlocutor, é exotópico no sentido de que ele se encontra distanciado de sua suposta voz, na verdade um simulacro de sua voz e, no decorrer do percurso discursivo, suas imagens podem se encontrar, ele pode assimilar-se como sujeito daquele diálogo e aceitar seu contrato. Pode assumir a voz como sua, sendo este, justamente, o projeto discursivo do locutor.
Além disso, os processos bivocais e suas diferentes nuances também fizeram emergir efeitos de verdade no todo desse culto. Na Pregação da palavra bíblica, as bivocalizações de orientação única que se materializaram com estilos lineares no discurso expressaram efeitos de verdade, refratando-se efeitos de autoridade e legitimidade. O discurso religioso, em tese, tende a pretender causar um efeito de transparência, de uma transmissão direta, verdadeira, portanto, divina e, com isso, tenta apagar as diversas vozes, mas na análise procuramos recuperar essa opacidade a partir da observação de relações dialógicas empreendidas com aspectos sócio-históricos envolvidos. Desse modo, foi possível compreendermos o engendramento dos sentidos evocados.
O segundo ponto a ser discutido refere-se aos aspectos sociais que apareceram reverberados nos enunciados bivocais analisados. Nossas discussões possibilitaram a reflexão em torno da sociedade pós-moderna, seus reflexos e refrações nos enunciados do Show da fé. O modelo capitalista neoliberal, modelo no qual vivemos, instaura a produção de lucros como máxima a ser conquistada por sujeitos, empresas, instituições e esse objetivo de lucro apareceu refrangido nos discursos dos locutores envolvidos no culto.
O sistema neoliberal invade todos os segmentos sociais, e as diferentes esferas da atividade humana se veem diante do objetivo de colocar a obtenção de lucros à frente de reflexões sobre o sujeito e suas reais necessidades. Ademais, até mesmo as necessidades são criadas pela mola propulsora do lucro a qualquer preço. Mas, afinal, de que lucro estamos tratando, quando se refere à esfera religiosa? Por meio da análise e das reflexões contextuais feitas no segundo capítulo, pudemos perceber que, como em todo o modelo capitalista, o lucro é obtido pela minoria a custas da maioria, ou seja, a grande massa produz riqueza e poucos usufruem dos lucros mais substanciais produzidos.
Na esfera evangélica, mais especificamente, no quadrante ocupado pelas neopentecostais, a minoria (os líderes religiosos) enriquece, abrindo cada vez mais templos, comprando concessões de canais televisivos e espaços nos rádios, adquirindo bens e imóveis, abrindo empresas próprias bastante lucrativas. Todo esse império edificado vem sendo, ao longo das últimas décadas, conquistado à custa da contribuição massiva em dinheiro e bens materiais diversos de uma maioria de fiéis que está permanentemente exposta às investidas neopentecostais.
Não obstante, a Teologia da prosperidade apareceu reverberada nos discursos do
Show da fé, sendo uma doutrina bastante frutífera nesse Mercado. No trecho 5, por
exemplo, correspondente ao Testemunho do fiel, analisamos diversos signos ideológicos, como “orar” e “pedir”, que são enunciados pelos locutores, a fim de mostrar uma aparente facilidade de resolução de problemas e essa facilidade decorre de uma das máximas da Teologia da prosperidade: o crente tem direito a todas benesses, basta crer, pedir, orar, mas essas ações só são autorizadas para frequentadores assíduos, comprometidos com a igreja, dita como “obra de Deus”. Aliás, esse tom de facilidade aparente perpassou toda a Pregação, nesse culto, quando praticar a justiça se traduz em ajudar a obra de Deus, enfim, a igreja.
Com efeito, a Teologia adotada pelas neopentecostais e vista ao longo do Show
da fé faz surgir um novo deus, o Consumo. No discurso do Show da fé, o show não é
divino propriamente dito, mas é o show da obtenção, da posse de bens, da aquisição de bênçãos diversas. A grande estrela desse espetáculo é a resolução de demandas, e Deus é mais um dos caminhos que se levam a essa obtenção, sendo Deus colocado como trabalhador a serviço do crente, de sua instantaneidade e sua provisoriedade. O Show da
fé, desse modo, instaura uma negociação complexa, na qual o lucro é o objetivo da
igreja, da televisão e do fiel.
Smith (1985, p. 50) explica que "é por negociação, por escambo ou por compra que conseguimos uns dos outros a maior parte dos serviços recíprocos de que necessitamos”, é uma tendência social a permutar “que originalmente gera a divisão do trabalho", e gera, assim, o Mercado. Todos os envolvidos no discurso do Show da fé estão no terreno da permuta. A televisão, que aparentemente é apenas o veículo, se apresenta como a grande facilitadora da barganha. É na televisão que se refletem e se refratam diferentes sentidos dessa troca simbólica e monetária.
Conforme foi estudado no capítulo anterior, no qual recorremos às reflexões de Dufour (2005), a televisão ocupa lugar de grande destaque em diferentes esferas da
comunicação humana, atingindo diversas classes sócioeconômicas, arrebanhando, cada vez mais, espectadores para a sua multiplicidade apelativa. Suas programações são invadidas por uma publicidade onipresente e agressiva, constituindo o que denomina Dufour (2005, p. 121) de “uma autêntica submissão precoce ao consumo”. É uma submissão em diferentes dimensões de troca simbólica, quais sejam, as dimensões da moda, da arte, da fé, entre outras.
A troca simbólica e monetária faz suscitar múltiplos sentidos no culto televisivo analisado. A ordem de praticar a justiça, confiar em Deus e fazer atos de fé na Pregação da palavra bíblica são oferecidos como caminhos para se alcançar benesses. Tais ações e expectativas (práticas de crença e alcance de benesses) fazem parte de um universo simbólico que se submete às lógicas de uma sociedade do consumo. O universo simbólico torna-se também monetário, pois todos esses atos são incorporados a um discurso velado que incita a barganha com Deus.
No Testemunho do fiel, o universo simbólico encenado é o crer no milagre e querer esse milagre para si. Para tanto, são mobilizados discursos verbo-visuais que incitam a esse desejo de benesses, ou seja, são mostrados bens materiais valorizados socialmente como casa, carro, empresa. Esse universo que envolve valores sociais é apresentado também sob a ótica do universo monetário, que é apresentado como o caminho para se conquistar os bens, ou seja, deve-se patrocinar o programa Show da fé, contribuir para essa obra se expandir.
Já no Anúncio de produtos evangélicos, vimos a troca simbólica e monetária se fundirem. A Nossa TV foi investida de poder contra a imoralidade e contaminação do concorrente e ela pode ser adquirida por valores monetários. Assim, o produto apresentado tanto mobiliza valores do universo simbólico como amor aos filhos, à família, quanto mobiliza valores do universo da concorrência monetária, sendo colocado como um produto mais barato em relação ao concorrente, que tem instalação de aparelho grátis, entre outros.
Aliás, as vozes e os sentidos emergidos a partir desses universos simbólico- valorativos e monetários são o nosso terceiro ponto discutido. No Show da fé estudado, do conjunto de trechos analisados, pudemos perceber efeitos de sentidos e vozes de poder e autoridade, de consumo, de concorrência, de promessa, de ameaça, de ataque. Tais vozes e sentidos aparecem de maneira multifacetada nos gêneros em foco. As vozes de autoridade e poder colocaram os objetos de dizer em patamares divinos. A
Nossa TV, por exemplo, é tão divina e poderosa quanto a palavra pregada na Pregação e quanto o milagre narrado no Testemunho.
No conjunto articulado do culto, há um movimento dialógico que constrói essa autoridade e poder, transferindo e mesclando o poder divino com o poder do locutor. Na Pregação da palavra bíblica, a voz de autoridade e poder é incorporada pelo dizer do locutor, em estilo pictórico, que se apropria da voz de Deus a todo o momento, diluindo-a em seu dizer e misturando seu saber ao saber divino. No trecho 1, o locutor sabe o querer divino em relação às ações dos fiéis. Sua voz é tão respeitada quanto a voz divina. No Testemunho do fiel, a autoridade e o poder divino são atribuídos a duas ações do locutor: crer e contribuir. O fiel, nesse caso, é a prova viva, portanto, dotado de autoridade na sua narrativa de milagre. No Anúncio da Nossa TV, a autoridade e poder são do próprio produto que diz ter uma programação excelente, comprometida com a família, com a moralidade e ainda tem a mensalidade mais barata do Mercado.
As vozes de ataque ao concorrente foram muito recorrentes no discurso em foco. Esse ataque, que se revelou diversas vezes com a mobilização de uma bivocalidade de tipo ativo, colocou o outro em depreciação, mostrando que quem não crê na Pregação da palavra bíblica e no Testemunho está condenado. Nesse sentido, pudemos notar que as doutrinas de outras religiões são entoadas como ruins, de forma bastante velada, os outros canais a cabo contaminam a moralidade dos crentes. O ataque revela-se fortemente também contra vozes que apoiam o sincretismo religioso, prática combatida pelos neopentecostais que esperam ter o pleno domínio do maior número de crentes seguidores de uma doutrina única, o que gera também um maior número de consumidores.
Nesse ponto, percebemos a tensão do discurso do locutor em contato com essa diversidade de dizeres outros que entram em choque a todo o instante. É como se essas vozes concorrentes balizassem as escolhas do locutor, seus modos de organizar o discurso, os valores a serem entoados. Em diversos momentos, essas vozes foram projetadas pelo locutor para tirar-lhes a força, para denegrir-lhes a imagem, de modo que a publicização ocorreu em duas dimensões: a dimensão da promessa, da exaltação do produto em suas diferentes naturezas, e a dimensão do ataque ao concorrente, da criação de uma imagem baseada em valores negativos.
Com efeito, a questão do discurso publicitário é o nosso quarto ponto. Ao recapitularmos as discussões levantadas em torno do discurso publicitário emergido nos discursos que compõem o Show da fé, precisamos colocar em enfoque também os
diferentes produtos construídos nos discursos do culto. A análise realizada mostrou que os discursos, em sua organização e produção de sentidos, apresentam muito além de efeitos propagandistas de incitação a crer, a aderir e a contribuir, ou seja, os locutores engendraram ainda em seus enunciados efeitos publicitários de oferecimento de um produto. Diferentes dimensões desse produto surgiram no Show da fé, mobilizando-se para isso estratégias de valoração social e mecanismos que transformaram objetos de ordem simbólica em objetos de ordem consumível e vice-versa.
Na Pregação da palavra bíblica, a publicização em torno da palavra divina a colocou em patamar de produto, sendo essa palavra algo consumível. No entanto, só se consome essa palavra, por vias do Missionário, de sua doutrina apregoada nas igrejas e no Show da fé pela televisão. Nesse sentido, o próprio Show da fé é colocado também como produto tanto de ordem simbólica, já que ele é o facilitador das bênçãos e o responsável por instruir os crentes no caminho da justiça, quanto de ordem consumível, uma vez que ele participa de uma esfera de concorrência televisiva e também é vendido no site da igreja.
No Testemunho do fiel, o milagre é o produto oferecido. Totalmente de ordem simbólica, as ações miraculosas divinas são colocadas a um custo: ser patrocinador da obra de Deus. No caso do Testemunho, acontece também, como na Pregação, um movimento que coloca o produto primeiramente na ordem simbólica, valorativa e incitando-se o interlocutor a crer no contrato, aos poucos, o produto passa a ter um valor monetário, isto é, o produto passa a valer sócio-economicamente.
Já no Anúncio de produtos evangélicos, o produto anunciado é uma assinatura de TV a cabo que participa abertamente de um cenário mercadológico de concorrência e, aos poucos, como estratégia publicitária, ganha contornos dialógicos de aspectos divinos, passando para a ordem simbólica. A Nossa TV passa a ser oferecida como um produto que deve ser consumida como garantia de uma vida sem contaminação, com mais moralidade para a família etc.
Além disso, ao interlocutor foram instauradas “faltas” nesse Show da fé, estratégia bastante utilizada em anúncios publicitários. Ao interlocutor faltou a prática de justiça, ações de fé que o levem a bênçãos de todas as ordens, faltou moralidade, canais televisivos que não contaminem a família. E essas faltas são instauradas e criam sentidos no discurso em função dos diferentes tipos de locutores e interlocutores em cena. O locutor, como vimos, tem poder ou não de agir sobre o interlocutor, dependendo de sua posição social legitimada ou não, seu saber sobre o produto etc.
Decorre dessas questões o quinto ponto a ser destacado nessas considerações, quais sejam os diferentes locutores e interlocutores envolvidos no Show da fé. Os locutores, nas especificidades dos gêneros engendrados no Show da fé, criaram imagens de si e de seus interlocutores que contribuíram para as reflexões em torno do aparecimento do discurso publicitário ao longo do culto e do tensionamento de vozes que perpassaram os processos bivocais. Assim, três locutores são construídos no culto: o pregador, o fiel-testemunha e o pregador-anunciante. O primeiro e o último possuem objetos de dizer com poucas diferenças e objetivos bastante similares.
O locutor pregador, encarnado na figura de R. R. Soares, oferece como produto a palavra divina, colocando como produto também a própria doutrina como meio de se alcançar benesses. O locutor pregador-anunciante oferece também um produto divino,