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Communication

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2. State of the art - Subsea Technology

2.5 Communication

A política imigratória do Império privilegiou a ocupação de terras de- volutas, principalmente no sul do país, produzindo um modelo de coloniza- ção cuja unidade básica era constituída pela pequena propriedade familiar. As primeiras colônias, estabelecidas na Bahia em 1818 e no Rio de Janeiro em 1819, não produziram os resultados esperados: a sesmaria obtida pelo natu- ralista Freireyss fracassou como colônia de imigrantes, transformando-se em fazenda escravista; e, em Nova Friburgo, boa parte dos quase 2 mil suíços que fundaram a colônia abandonaram suas concessões diante da precariedade das condições de assentamento. Após a independência, o governo imperial fun- dou a primeira colônia, com imigrantes alemães, no Rio Grande do Sul (São Leopoldo, 1824). Até 1830, outras três “colônias alemãs” surgiram em Santa Catarina e no Paraná, encerrando a primeira fase de colonização no Sul, in- terrompida pela falta de recursos e, em 1835, pela guerra civil. O número de imigrantes assentados em diferentes projetos coloniais até 1850 foi pequeno. Na primeira metade do século XIX, entraram no país cerca de 20 mil estran- geiros, a maioria alemães, que integraram a ocupação de linhas coloniais no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Espírito Santo e Rio de Janeiro,2 ou as primeiras experiências de contrato de parceria em São Paulo que, além de alemães, incluíram também suíços, portugueses e belgas.

A promulgação da Lei de Terras (Lei nº 601, de 1850) consolidou o sis- tema de colonização baseado na pequena propriedade, mudando a forma de concessão dos lotes, que passaram a ser recebidos por compra, a prazo. Im-

1 Enfatizando a importância atribuída aos costumes e ao comportamento, e à noção de afinidade

de origem, Max Weber (1992:269-70) desenvolveu a noção de comunidade étnica. Não são cri- térios únicos, porém estabelecem especificidades de hábitos e alimentam sentimentos de honra e pertencimento que distinguem seus membros de outros grupos. Claro que Weber não reduz a noção de comunidade (étnica) a estes aspectos primordialistas, mas são eles que, empiricamente, tornam as diferenças visíveis aos olhos dos outros, e dão consistência aos limites simbólicos que permitem construir a etnicidade — qualidade compartilhada, condição de pertencimento a um grupo étnico, conforme Glazer & Moynihan (1975:1); e Banton (1977:151).

2 As principais colônias estavam situadas no Rio Grande do Sul e Santa Catarina, todas “alemãs”.

Uma das mais importantes, Blumenau, no Vale do Itajaí, surgiu em 1850. Fora da região Sul, imi- grantes alemães participaram da colonização de dois outros núcleos — Petrópolis (colônia fundada em 1845 na região serrana do Rio de Janeiro) e Santa Isabel (fundada em 1847 no Espírito Santo).

pulsionou a colonização do Sul, região que na década de 1870 passou a re- ceber imigrantes italianos, russos, poloneses, além dos alemães (para citar apenas as nacionalidades mais significativas). No mesmo ano, a proibição do tráfico de africanos levou a uma política de substituição do escravo pelo tra- balhador livre imigrante na grande lavoura paulista. Em resumo, o sistema de colonização vigente no Sul tinha entre suas metas promover o povoamento do território; portanto, privilegiou a ocupação de terras públicas ou devolutas — terras florestais, conforme assinalou Waibel (1958) — com imigrantes eu- ropeus que assumiram a condição de pequenos proprietários. Os brasileiros tiveram participação insignificante nessa forma de povoamento, mesmo nas colônias administradas pelo Estado. Nesse processo, algumas regiões foram ocupadas predominantemente por alemães ou por italianos, e as chamadas “colônias mistas” na verdade eram constituídas por imigrantes europeus de diversas nacionalidades. A homogeneidade étnica era maior nas unidades es- paciais básicas do sistema colonial, as chamadas “linhas”, a partir das quais os lotes foram demarcados.3 Esse modelo de ocupação, com assentamento de imigrantes europeus em lotes recebidos por compra, persistiu após 1889, ape- sar das críticas suscitadas por sua composição étnica. Em São Paulo, por ou- tro lado, foram instituídos os contratos de parceria, forma de empregar nas fazendas de café trabalhadores europeus, brancos, considerados mais eficien- tes e racialmente superiores aos negros e mestiços, um sistema que visava a substituir o trabalhador escravo pelo trabalhador livre após o fim do tráfico de africanos e do conseqüente aumento dos preços dos escravos após 1850.4 Assim, as coincidências em 1850 e 1888 são significativas: a Lei de Terras foi promulgada no mesmo ano em que terminou o tráfico de africanos; e a imi- gração tomou impulso após a abolição a partir dos interesses das quatro pro- víncias mais ao sul. A década de 1890 registrou o maior volume de imigran- tes entrados no país (cerca de 1,2 milhão de indivíduos).

Segundo diversas estimativas estatísticas, até a década de 40 chegaram ao Brasil quase 5 milhões de imigrantes.5 São Paulo e os três estados do Sul ficaram com a maior parcela. Nem todos seguiram os desígnios da política imigratória, cujo objetivo era o desenvolvimento da agricultura,6 fixando-se

3 Sobre o processo de colonização européia no Sul, ver, entre outros, Carneiro (1950); Waibel

(1958); Roche (1969); e Seyferth (1974).

4 A primeira experiência de parceria ocorreu na “fazenda modelo” de Ibiacaba, pertencente ao

senador Vergueiro. Ali, em 1857, houve uma revolta dos colonos estrangeiros para denunciar os contratos lesivos aos trabalhadores. A denúncia chegou à Europa através da publicação do relato de Thomas Davatz (1941) em 1859. Sobre o discurso racista dos imigrantistas de São Paulo, especialmente contrário à imigração chinesa, ver Azevedo (1987).

5 Ver Carneiro, 1950; e Diegues Jr., 1964.

6 O investimento na colonização, desde 1824, deixou explicitada a preferência por imigrantes

agricultores e artesãos, inclusive na legislação (ver Seyferth, 1996), sendo a família privilegiada como unidade de concessão do lote colonial.

também nas cidades. No sul, a colonização de terras públicas produziu colô- nias alemãs, italianas, ucranianas, polonesas etc., ou mistas, com imigrantes de diferentes nacionalidades, na década de 30, ainda afastadas do convívio com a sociedade nacional, portanto menos expostas aos processos de assimi- lação. Roche (1969), tratando da colonização alemã, chamou este processo de ocupação de “enxamagem”: frentes pioneiras, incluindo imigrantes e des- cendentes oriundos de colônias mais antigas, avançando progressivamente pelo oeste até o Paraná. Por outro lado, cidades como Porto Alegre, Florianó- polis, Curitiba, São Paulo e Rio de Janeiro (entre outras) possuíam, na dé- cada de 30, contingentes apreciáveis de imigrantes e descendentes, às vezes concentrados em bairros culturalmente identificáveis por etnia — portanto, possuíam visibilidade étnica.

A maioria dos imigrantes entrados no país (cerca de 75% do total) ti- nha a desejada “procedência latina” — italianos, portugueses e espanhóis. Na ordem de significância numérica, o quarto contingente era formado pelos alemães — perto de 250 mil indivíduos7 — e o quinto pelos japoneses (imi- gração que teve início em 1908). Os quadros da imigração divulgados em di- versos números da Revista de Imigração e Colonização (publicação vinculada ao Conselho de Imigração e Colonização, órgão criado em 1938) e os dados numéricos fornecidos por autores como Carneiro (1950) e Diegues Jr. (1964) apontam para uma grande diversidade de nacionalidades dos imi- grantes. Além dos cinco grupos já mencionados, porém, poucos estiveram próximos da cifra de 100 mil indivíduos — caso dos austríacos, russos, po- loneses e sírio-libaneses. Mas as quantificações por nacionalidade não são muito precisas porque envolviam etnias pertencentes a impérios multina- cionais. Por outro lado, as etnias numericamente pouco expressivas no côm- puto geral das estatísticas — caso dos judeus, armênios, lituanos etc. — também tinham visibilidade étnica e alimentaram as especulações sobre as- similação.

De qualquer modo, é possível afirmar que todos os grupos, nas regiões de colonização e nas cidades, formalizaram, em algum grau, suas etnicidades, fundamentadas por identidades articuladas à origem nacional, portanto, de forte inspiração primordialista. As diferenças culturais e sociais produzidas ao longo do processo histórico de imigração ficaram mais evidentes nas colônias do Sul, onde o elemento nacional era pouco representativo, mesmo na dé- cada de 30, situação derivada do processo de ocupação controlado pelo Es- tado que privilegiou o imigrante. Não significa que os sentimentos de etnici- dade fossem mais intensos na situação colonial, mas a baixa freqüência do contato com a sociedade brasileira e a concentração em áreas relativamente restritas como eram as “colônias” no seu sentido mais étnico, davam respaldo

à imagem mais radical de “quistos” não-assimiláveis construída, sobretudo, durante o Estado Novo.

As primeiras manifestações de etnicidade surgiram no grupo alemão, em meados do século XIX, formalizadas por escrito, como ideologia naciona- lista, nos primeiros jornais editorados em língua alemã, no Rio Grande do Sul e Santa Catatina, quando algumas lideranças formalizaram uma identidade étnica teuto-brasileira.8 De modo mais preciso, a cristalização desta identi- dade através de uma ideologia étnica, calcada em princípios de pertenci- mento à nação alemã, ocorreu no contexto interétnico possibilitado pela emancipação política das colônias mais importantes, no decorrer da segunda metade do século XIX, e pelo concomitante crescimento econômico seguido da industrialização de alguns núcleos urbanos a partir de 1880. Os direitos de cidadania passaram a ser reivindicados mais sistematicamente, aí compreen- dida a participação na vida política da “nova pátria”.9 A perspectiva mais con- creta de integração através do exercício pleno da cidadania, portanto, coin- cidiu com o desenvolvimento urbano e econômico de algumas colônias e com as expectativas da elite teuto-brasileira acerca da participação política e as- censão social. Daí o uso de uma identidade com hífen — na tradução portu- guesa para Deutschbrasilianer — que sugeria uma dupla vinculação ampla- mente criticada pelos cânones assimilacionistas brasileiros: à nação alemã, como grupo étnico/nacional portador de uma cultura, uma língua e uma ori- gem racial diversa dos demais brasileiros, e ao Brasil, na condição de cida- dãos que não abdicam da sua etnicidade. Deutschbrasilianer, porém, é uma categoria de identidade usada pela parcela mais instruída da população; a maioria dos colonos, mesmo os nascidos no Brasil, se identificava (como ainda fazem hoje) como alemães (Deutsche). A construção da identidade par- tiu dos elementos constitutivos da vida cotidiana — uma cultura “híbrida”, nos termos de Willems (1946), surgida no Brasil com características germâ- nicas, conforme expressado nos textos ideológicos divulgados nas publicações periódicas,10 remetendo à tradição “de origem”: o uso cotidiano da língua alemã, a organização associativa, as escolas comunitárias e vinculadas às igrejas, a imprensa teuto-brasileira, e tudo o que pode estar contido nos há- bitos, costumes, estilo de vida, ethos associado ao trabalho, lar, comunidade, religiosidade. A colonização serviu como símbolo étnico das virtudes do “tra-

8 Os jornais em questão são o Deutsche Zeitung, de Porto Alegre, editado por Karl von Koseritz a

partir de 1861, e o Kolonie Zeitung, fundado em Joinville em 1860 por Ottokar Doerffel. Sobre a importância da imprensa teuto-brasileira, ver Gehse (1931).

9 Vale lembrar que, no contexto das colônias sem autonomia política e administrativa, os colonos

formavam minoria nacional, e nem o jus soli garantia a cidadania plena.

10 Essas publicações incluíam diversos jornais, almanaques anuais, revistas genéricas ou destina-

das a leitores mais restritos como os professores das escolas alemãs — as mais importantes edi- tadas em São Paulo, Porto Alegre, Curitiba, São Leopoldo, Ijuí, Joinville, Blumenau e Brusque. Muitas surgiram no século XIX e ainda estavam em evidência na década de 30.

balho alemão” e do “espírito pioneiro”, num discurso etnocêntrico ao qual não faltaram referências raciais, em especial no confronto com o “outro” mais próximo do colono, o brasileiro rural, chamado de caboclo, em sentido pejo- rativo, denotando suposições de inferioridade étnica.

A concentração inicial dos alemães em áreas relativamente isoladas, portanto, resultou numa organização comunitária própria, considerada neces- sária diante da omissão do Estado, facilitando o uso cotidiano da língua ma- terna. Tal organização não teve, propriamente, motivações étnicas, mas assu- miu, no contexto do contato, sua germanidade — Deutschtum. A escola co- munitária, criada para compensar a ausência do ensino primário público, por exemplo, transformou-se, depois, na “escola alemã”. As instituições comuni- tárias, assim, serviram de base para a construção social da identidade étnica teuto-brasileira. A idéia de Deutschtum demarca o pertencimento à etnia alemã — a crença na mesma origem ou raça, no poder aglutinador da língua, no habitus (Weber, 1992), na cultura compartilhada, que une todos os imi- grantes e seus descendentes à Urheimat (pátria original, a nação alemã). Deutschtum supõe pertencimento nacional baseado no direito de sangue e, por isso, imigrantes e descendentes são Deutsche (alemães) no Brasil; cida- dãos diferentes de um Estado que, por ser imigrantista, deve assumir caráter plural. A pretensão ao pluralismo étnico suposta nessa ideologia e externali- zada através das publicações periódicas criou problemas no relacionamento com os brasileiros, alimentando as especulações sobre separatismo que res- surgiam a cada crise,11 especialmente nos períodos que antecederam as duas guerras mundiais: primeiro em face da propaganda pangermanista, com seu discurso sobre os Auslanddeutsche (os “alemães no estrangeiro” considerados parte da nação alemã); segundo, diante da investida nazista amplamente de- nunciada ao longo da década de 30. Não houve aceitação generalizada das doutrinas pangermanista e nazista, que produziram uma radicalização racista da noção de Deutschtum; mas ambas tiveram influência nos meios teuto-bra- sileiros. De qualquer modo, a identidade étnica presumia a participação em todas as esferas da vida social na nova pátria, sem abrir mão da condição étnica, como brasileiros de origem alemã.

Este discurso, inconcebível na lógica assimilacionista, foi reforçado pe- las diferenças socioculturais produzidas ao longo do processo histórico de imigração, conformando limites étnicos.12

Se os teuto-brasileiros pareciam excessivamente étnicos na visão na- cionalista que permeou a campanha de nacionalização — em parte devido às

11 Ver Seyferth, 1994.

12 As diferenças de hábitos e costumes, às vezes tomados como esquisitices, a formação urbana

e a arquitetura causaram “perplexidade” durante a campanha de nacionalização, externalizada nas observações de militares que se confessaram “contrafeitos” ou “constrangidos”. Ver Seyferth, 1997.

denúncias sobre a “conspiração nazista” enfatizada em publicações do início da década de 40 que usaram material coletado pelo Departamento de Ordem Política e Social13 —, isto não significa que os demais grupos apresentassem evidências atenuadas ou toleráveis de etnicidade. A significativa expressão numérica das “escolas alemãs” — quase 1.500 no Rio Grande do Sul e Santa Catarina14 — e a importância da imprensa, da literatura, das revistas e alma- naques e seu papel na divulgação da germanidade, porém, deram visibilidade ao grupo “alemão“ e o transformaram em paradigma do enquistamento.

Ao completar 30 anos, em 1938, a imigração japonesa ainda era alvo de críticas que enfatizavam a resistência dos japoneses à assimilação. Trazi- dos inicialmente para trabalhar nas fazendas de café, em São Paulo, os japo- neses também foram assentados como pequenos proprietários, através de companhias de colonização. Sua mobilidade espacial é semelhante ao pro- cesso de enxamagem que caracterizou a ocupação de parte dos territórios do Sul com colonos europeus, constituindo uma frente de expansão15 (que se di- recionou para o oeste paulista e, depois, para o norte do Paraná e Mato Grosso. Mais tarde, muitos japoneses se fixaram em áreas urbanas, mas, nos anos 30, era uma imigração predominantemente voltada para a atividade agrícola e identificada com a olericultura.

Como outros grupos constituídos no curso de um processo imigratório, os japoneses formularam uma identidade étnica, tendo como referencial uma cultura e um comportamento específico, sinais diacríticos de natureza primor- dialista que remetem à idéia de pertencimento a uma nação (língua e origem comuns). Além disso, também criaram suas escolas e associações, chamadas por Vieira (1973) de “agências étnicas formalizadas”. Apesar das divisões in- ternas do grupo, especialmente aquelas que distinguem os imigrantes de Oki- nawa e a dicotomia geracional,16 existe uma noção de grupo étnico japonês construída por oposição aos brasileiros e por uma visão externa, dos próprios brasileiros.

Segundo Maeyama (1973:636-7), a niponicidade, no Brasil, estava simbolizada e dramatizada no culto ao imperador, encarnação do espírito na-

13 Essas publicações põem em evidência a organização partidária e a implantação de associações

nazistas similares às da Alemanha, daí o uso da expressão “conspiração”. Autores como Py (1942) e Ratton e colaboradores (1943) creditam a persistência da identidade teuto-brasileira às ativida- des nazistas.

14 Ver Kreutz, 1994.

15 Ver Vieira, 1973; e Handa, 1987.

16 A principal divisão interna no Brasil é aquela que opõe os oriundos das ilhas Ryukyu — os oki- nawa-jin — aos imigrantes do arquipélago principal, os naiti-jin. Os critérios distintivos são de

natureza fenotípica e cultural (diferenças dialetais, hábitos alimentares). As categorias de distin- ção geracional, na década de 30, eram apenas duas — os isei (1ª geração) e os nissei (2ª gera- ção). Segundo Vieira (1973), essas duas categorias, e mais a que evoca a terceira geração (sansei), remetem, também, a graus de absorção pela sociedade brasileira.

cional, embora a religião, a língua, e outros elementos de identificação grupal fossem importantes. Esse culto teria substituído o ie, culto dos antepassados, como princípio de unidade grupal, com o imperador representado como o pai da nação japonesa. Na década de 30, a “escola japonesa” era o centro do culto ao imperador e de todas as celebrações importantes para a comunidade étnica — dia do império, celebração do ano novo, aniversário do imperador etc. A ri- tualização do culto incluía a adoração do palácio imperial ou adoração do oriente, a veneração do retrato do imperador, leitura da escritura imperial so- bre educação, finalizando com o canto do hino nacional. Isso aponta para va- lores simbólicos do nacionalismo convertidos em etnicidade. Por outro lado, os nissei realizaram um amplo esforço de transmissão dos elementos constitu- tivos da cultura japonesa17 defendendo um modo de vida e um comporta- mento social específico, onde a idéia de “recato” predominava como caracte- rística distintiva.

A “escola japonesa” teve importância na transmissão de valores étni- cos, mas a imprensa étnica desempenhou um papel fundamental. “Com este meio de comunicação de massa é que os imigrantes se conscientizavam da co- munidade nipônica brasileira existente”, afirma Handa (1987:602), além de produzir um noticiário sobre o Japão e externalizar valores nacionalistas e o pioneirismo dos colonos. A imprensa também estimulou a criação de novos núcleos de colonização, propondo a expansão dos japoneses em território brasileiro, algo semelhante ao que ocorreu no final do século XIX no âmbito da imprensa teuto-brasileira visando a atrair mais imigrantes alemães para as colônias do Sul. Em ambos os casos essa atitude foi repudiada por muitos brasileiros como “imperialista”.

Entre os imigrantes italianos, apesar das identidades regionais percebi- das nas colônias do Sul e em São Paulo, consolidou-se o sentimento de ita- lianitá, em parte construída pela Igreja católica (através de um clero italiano) — a religião, ou a fé católica, confundindo-se, em parte, com a “consciência nacional”. Segundo Azevedo (1982:230), nas colônias italianas do Sul, a Igreja ajudou a produzir um micromundo italiano procurando controlar as agências de socialização como a escola, as associações beneficentes e a im- prensa. A mesma coisa ocorreu em São Paulo.18 Houve, portanto, uma vin- culação entre etnicidade e catolicismo, mas os elementos constitutivos da identidade étnica italiana no Brasil incluíam a língua nacional e um ethos do trabalho construído por oposição aos brasileiros, além da ênfase nos hábitos e costumes trazidos da Itália, relacionados ao lazer, alimentação e práticas re- ligiosas.

Enquanto símbolo da etnicidade, o ethos do trabalho afirma a capaci- dade produtiva do italiano em contraste com a suposta preguiça e indolência

17 Ver Handa, 1987. 18 Ver Pereira, 1974.

dos brasileiros (um tipo de elaboração simbólica relacionada à história da co- lonização que existe em quase todos os outros grupos, mesmo em contextos urbanos). Careli (1985) destaca as representações etnocêntricas que os imi- grantes italianos em São Paulo construíram sobre os negros e mestiços — numa ampla desqualificação do brasileiro comum — apesar da existência de casamentos interétnicos. Por outro lado, em São Paulo foi atribuída aos italia- nos uma identidade estereotipada, através da categoria carcamano, que sati- riza a ignorância e a falta de polidez do imigrante.

A luta pela italianidade levou a uma organização comunitária que in- cluía a “escola italiana”, inúmeras associações beneficentes e recreativas, a sociedade da capela, a imprensa em língua italiana, embasando uma formu- lação de identidade grupal associada à “nação italiana”.

De modo similar aos italianos, os poloneses elaboraram seu ideal de polonidade no Brasil associado à fé católica enquanto critério demarcador da

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