Em janeiro de 1999, Fernando Henrique Cardoso toma posse como presidente da República, após ser reeleito, na primeira eleição em que se permite que um então presidente concorra ao cargo. O país passa por uma boa situação econômica, com a inflação controlada e a moeda, criada por FHC, quando ministro da Fazenda, bem valorizada interna e externamente. É a essas mudanças produzidas em seu primeiro mandato que Fernando Henrique atribui sua reeleição, agradecendo
(FHC 1) aos milhões de brasileiras e brasileiros, aos jovens e aos idosos, aos que moram nas cidades assim como aos que moram nos campos, que, com o voto, sufragaram as ideias que temos defendido e as mudanças que estamos empreendendo.
Nesses agradecimentos, podemos perceber a presença de uma representação democrática atribuída a FHC, uma vez que ele fora eleito por toda parcela da população que possuía direito ao voto, adquirido na Constituição Federal de 1988, como um dos direitos legais e restituído à população após a queda do Regime Militar. Em seu início, o pronunciamento FHC caracteriza o “povo” sem promover uma distinção de gênero, idade, local de moradia – cidade ou campo – mas como sendo aqueles que votaram nele, acreditando nas ideias e mudanças por ele apresentadas; há uma homogeneização do que se entende por “povo”, na medida em que seu sentido baseia-se no apoio que ele obtivera nas urnas. Entretanto, o vocábulo “povo” aparecerá, logo em seguida, no terceiro parágrafo, quando FHC elege os responsáveis por seu credenciamento como presidente da República; em vez de atribuir ao povo, seus eleitores, esse seu credenciamento, o então presidente atribui ao “Congresso primeiro, o povo brasileiro depois” a possibilidade de ter adquirido seu segundo mandato. Assim, o povo não aparece como o responsável imediato por seu efetivo desempenho no governo, mas sim o Congresso, uma vez que foi este quem aprovou a emenda favorável à reeleição no país. Ademais, ao continuar suas promessas como presidente eleito, FHC assevera que se empenhará “para corresponder à expectativa da
“jovens e idosos”, “os que moram nas cidades assim como os que moram nos campos”, o
que nos leva a aventar a possibilidade de uma substituição entre “povo brasileiro”, “Nação brasileira”, “milhões de brasileiros e brasileiras”, “jovens e idosos” e “os que moram nas cidades assim como os que moram nos campos”, produzindo um sentido homogeneizado para “povo” em seu discurso. Entretanto, a “Nação brasileira” é formada por todos os cidadãos que habitam o território brasileiro, ou seja, pelos “milhões de brasileiros e brasileiras”, pelos “jovens e idosos” e pelos “que moram nas cidades assim como os que moram nos campos”; isso nos leva a aceitar que um dos sentidos para “povo” no pronunciamento de FHC é:
POVO 1: cidadãos que habitam o território brasileiro; responsável em segundo plano por seu recredenciamento no poder.
Em uma configuração política nacional em que FHC se colocou como adversário de Lula, conhecido por ser “o candidato do povo”, parece ser natural a baixa recorrência do vocábulo “povo”, uma vez que sua oposição tem de ser marcada em relação a seu adversário. Dessa feita, FHC não pode tomar para si o lugar político instaurado por seu adversário, desde longa data, caracterizado como sendo o pertencente ao povo; além disso, seu pertencimento a um partido tido como marcado fortemente pela presença da elite brasileira promove uma escolha lexical para seu pronunciamento que busque contornar os efeitos de sentido produzidos pela palavra “povo”, de modo que se use de subterfúgios linguísticos, tais como a sinonímia, para deslocar sua posição em relação ao lugar de dizer que é marcado pela oposição. Por conseguinte, quando tal palavra surge no seu discurso, ela produz um efeito de sentido marcado mais pela homogeneidade social, ou seja, a tentativa de se produzir o consenso sobre as diferenças existentes na sociedade, ou melhor, busca-se a homogeneização discursiva da sociedade brasileira, apagando suas diferenças econômicas, sociais e político-ideológicas; é o vestígio, no pronunciamento de FHC, do processo iniciado outrora do movimento que culminará com o fim das ideologias marcando fortemente os discursos políticos.
Se, por um lado, o sentido de “povo” aparece como uma tentativa de homogeneização político-ideológica da sociedade, por outro, em alguns casos, parece representar uma parcela específica da sociedade. Vejamos o recorte a seguir: “Estou pronto
para a nova jornada. Sinto-me renovado pelo apoio generoso do povo brasileiro. (…)”;
novamente, o sentido de “povo” aparece marcado pela identificação dessa parcela àquela que foi a responsável por colocar FHC na presidência da República.
Quando o tema é a economia, o “povo” brasileiro é caracterizado como aquele que não possui condições financeiras que o possibilite realizar as compras necessárias para a manutenção de seu lar; essas características são atribuídas a ele pelo governo, uma vez que foi este o responsável para restaurar-lhes “a confiança para poupar e investir”; assim, o “povo” não é aquela parcela da população que necessita de trabalho, saúde, educação, saneamento, ou seja, das condições básicas para a sobrevivência, mas sim a classe média, os que podem voltar a poupar e investir. São os mesmos que, durante o governo de Fernando Collor, tiveram suas poupanças bloqueadas e perderam todos os seus investimentos, por desmandos cometidos pelo governo, na tentativa de vencer a luta contra “o dragão da inflação”. Assim, economicamente, vemos emergir um outro sentido para povo:
POVO 2: cidadãos pertencentes à classe média, que poderão voltar a fazer suas economias na poupança e seus investimentos em planos de renda.
É importante notarmos que, embora a democracia avance no campo político, em termos econômicos ela ainda está restrita a uma pequena parcela da população, representada como “povo”, mas caracterizada como possuindo poder econômico de poupar e investir. Assim, no pronunciamento de posse de Fernando Henrique, em 1999, a classe média é marcada discursivamente como constituindo o “povo brasileiro”, que o levou à presidência pela segunda vez consecutiva; o que nos leva a considerar a hipótese de que seu plano econômico teve como maior beneficente a classe média brasileira, não contemplando as classes mais pobres. Observe-se que os sentidos POVO 1 e POVO 2 presentes no seu pronunciamento de 1994 não mais estão presentes; uma indicativa que
pode nos conduzir a dois raciocínios, quais sejam: ou seu primeiro governo possibilitou que os trabalhadores e a parcela alijada de seus direitos sociais fossem alçados à categoria de “classe média”, ou que tais categorias não serão privilegiadas em seu segundo mandato.
Um outro sentido para “povo” presente neste pronunciamento de Fernando Henrique Cardoso está marcado nos enunciados abaixo:
(FHC 2): Srs. Congressistas, 83 milhões de eleitores compareceram às urnas nas últimas eleições. O povo brasileiro deu uma demonstração inequívoca, sem precedente por sua dimensão, de crença na democracia.
(FHC 3): (…) A maioria dos representantes eleitos pelo povo pertence aos partidos com os quais formei governo. Eles certamente aprovarão no Congresso as medidas necessárias à implantação das políticas que defendo e que foram aprovadas pelos eleitores.
(FHC 4): (…) Fui escolhido pelo povo para superá-la e para cumprir minhas promessas de campanha.
Nos enunciados acima, coloca-se o “povo” tanto como responsável pela democracia como confiante nela; essa confiança deu-se por sua eleição, de modo que creem na democracia, ou seja, aqui estão presentes tanto o sentido de POVO 1 quanto o de POVO 2. A crença do povo na democracia está presente também por sua participação política não só na eleição do presidente, mas também na daqueles que sustentarão o governo por suas alianças políticas firmadas. Ademais, podemos observar no enunciado 4 acima que uma característica marcante do povo, qual seja, a credibilidade que o povo tem no governo. Assim, temos um outro sentido para povo:
POVO 3: os que acreditaram nas promessas de campanha do governo e por isso o apoiaram.
Dessarte, este pronunciamento de Fernando Henrique Cardoso traz como sentidos marcantes para “povo” sua caracterização como sendo “aqueles que o apoiaram por acreditarem nas promessas de campanha e poderem voltar a almejar lucros econômicos, tais como poupança e investimentos”. Assim, grande parcela da população – aquela que
estava desprovida das necessidades básicas – não está contemplada em seu pronunciamento, uma vez que, por já estar prevista em seu pronunciamento de posse de 1999, e pelas mudanças promovidas por suas políticas durante o primeiro mandato, essa parcela da população alcançara a classe média.
Entretanto, nas eleições de 2002, o candidato da situação, José Serra, ex-ministro da saúde do governo FHC, responsável por manter as políticas econômicas e sociais e dar continuidade a elas, é derrotado no segundo turno em confronto eleitoral com Luiz Inácio Lula da Silva; o ex-torneiro mecânico, ex-sindicalista e líder dos trabalhadores nos grandes comícios das décadas de 1970 e 1980, tido por representante da classe trabalhadora, chega ao poder, culminando com o que alguns poderiam chamar de “êxito total do processo de redemocratização política brasileira”, uma vez que não há consenso sobre o significado da democracia no cenário político brasileiro.