Nos anos 1960 e 1970, diversos foram os movimentos literários que tiveram a sua in- fluência no pensamento político dos intelectuais e decisores portugueses. Pretende-se, assim, destacar como os autores do “Boom latino-americano” estiveram presentes no processo de de- mocratização de Portugal assim como no curso das suas relações internacionais.
1.1.1. As bibliotecas: um vínculo da memória de uma época
O livro que retiro do caixote a que o consignei, no breve momento antes de lhe atribuir o seu devido lugar, torna-se, subitamente, um símbolo, uma recordação, uma relíquia, um fragmento de ADN a partir do qual todo um corpo pode ser reconstruído.
Embalando a minha biblioteca de Alberto Manguel
As bibliotecas são pequenos tesouros que nos falam do mundo pessoal dos seus donos ou das suas instituições. Em cada prateleira ou caixa, onde muitas vezes são guardados, podemos ver, como se fosse um espelho, a história duma época. Desempacotar a doação de Rogério Pau- lo(4), é ver ante os nossos olhos os gostos e ideais de leitura do seu dono.
Pelas nossas mãos passaram, como se fosse um catálogo, as décadas dos 60,70 e 80 do século passado, mostrando-nos parte do boom latino-americano e a influência que este mo- vimento teve em alguns escritores portugueses a partir dos anos de 1960. Podem ver-se aqui os modelos políticos que surgiram naqueles anos através das várias revoluções que marcaram a região latino-americana. Entre os seus livros destaca-se, …E as portas foram abertas aos
bandidos! (1981), de que falarei mais adiante. As suas obras são guardiães da memória cultural
portuguesa dessas décadas e também da sua viagem a Cuba, onde ensinou teatro na Universi- dade de Havana em 1970. Este país representou para o autor um sopro de ar novo na política, tal como afirmaria Mário Vargas Llosa em La llamada de la tribu,
“(…) para mi generación, y no sólo en América Latina, lo ocurrido en Cuba fue decisivo, un antes y un después ideológico. Muchos, como yo, vimos en la gesta fidelista no sólo una aventura heroica y generosa, de luchadores idealistas que querían acabar con una dictadura corrupta como la de Batista, sino también un socialismo no sectario, que permitiría a la crítica, la diversidad y la disidencia. Eso creíamos muchos y eso hizo que la Revolución cubana tuviera en sus prim- eros años un respaldo tan grande en el mundo entero”. (2018: 13)
Eram tempos de muita intensidade a nível político. Os anos sessenta foram marcados politicamente pelas revoltas de Paris, Praga e México e 1968 será o ano das grandes mudanças. Portugal, nesse período, vivia a gestação duma revolução que já tinha começado a tocar muito de perto os jovens. Sentia-se o mal-estar causado pela guerra colonial e a saída de quase um milhão de portugueses para o estrangeiro, bem como uma “emigração andorinha”, interna, de camponeses que se instalavam nas periferias urbanas do país. Foram os anos em que “parecia que o mundo se estava a mover em diferentes partes mas na mesma direcção, à procura também de outras literaturas, outra música, outro cinema, outra roupa e inclusivamente outras drogas”. (Ayén, 2013: 76).
É assim que as editoras portuguesas anunciavam as suas mudanças e, nos anos de 1970, já se encontravam editoras de grande dimensão, tais como Edições 70, o Círculo de Leitores,
Asírio & Alvim, Plátano Editora e Rei dos libros em 1972, a Editorial Teorema em 1973 e a Editorial Vega, em 1974. Tiveram uma grande importância para a liberdade de expressão resul-
(4) Em 2015, a Universidade Fernando Pessoa e a Biblioteca Carlos Fuentes receberam a doação de parte do espólio da biblioteca
tante da revolução de 25 de Abril e fizeram com que parte da sociedade saísse do obscurantismo cultural imposto pelo Estado Novo. A partir de 1975 surgem múltiplas editoriais entre as quais se destacam até hoje a Editorial Caminho, Relógio de Água (1983) e Quetzal (1987), entre ou- tras(5). O que mais se destaca nesse espaço editorial é tudo o que se refere a Cuba(6) e a alguns
países latinos, tais como a Argentina, a Colômbia, o Panamá e o Peru.
A partir de 1968, a editorial D. Quixote publica uma colecção de livros chamada “Diálo- gos”, que incluirá a obra América Latina de Miguel Ángel Anturias. No ano seguinte lançou Um
português em Cuba, de Alexandre Cabral. Este conjunto editorial centrar-se-á na publicação de
ensaios. Para Nuno Medeiros,
“São os anos em que se definem os contornos de um movimento que hesita entre o puro ensaio do teor académico e a evocação de textos militantes de extração diversa (revistas, jornais, livros) sobre questões candentes. O livro, dirigido a questões cuja discussão em Portugal é considerada urgente, surge sem convulsões, mas de forma determinada ao longo da última década anali- sada. As coleções que nascem efetivamente traduzem uma transformação que anuncia o apogeu do pós 25 de abril, apesar das edições, pelas contribuições autoral e temática que patenteiam, atravessarem vários ângulos ideológicos, nem sempre coincidentes entre si ou dispostos em filiações de proveniência exclusiva. (...) este novo tipo de coleções introduz no espaço editorial português os ecos possíveis dos movimentos e discussões morais, ideológicas e políticas contemporâneas. (Medeiros, 2007: 264)
Assim, o campo editorial português entre 1960 e 1970(7) focará principalmente os proble-
mas e efeitos da situação cubana e chilena, com o governo de Salvador Allende e, mais tarde, com o golpe de estado de 1973. A situação política destes países será difundida pelo dramaturgo Rogério Paulo ao escrever, em 1972, Um acto em viagem; em 1973, publicou Introdução ao
teatro cubano e em 1981 As portas foram abertas ao bandidos(8). Neste último livro o autor faz
(5) Isabel Araújo Branco realiza um estudo sobre a história das publicações de autores latino-americanos em Portugal, “Edição e
tradução em português de Actores literários hispano-americanos”, capítulo que faz parte de sua tese de doutoramento intitulada
A recepção das literaturas hispano-americanas na literatura contemporânea portuguesa: edição, tradução e criação literária.
Lisboa (2014: 101-162).
(6) Depois da revolução cubana surge uma grande produção literária e Cuba impõe-se, sendo a sua luta a primeira revolução so-
cialista na região latino-americana e a literatura dessa época destaca-se pela sua originalidade e independência em relação às dos restantes países socialistas, cujos padrões estéticos orientadores da política cultural preconizavam métodos e formas de criação determinados, em essência normativos, dos quais Cuba se afastou em busca de uma autenticidade para a expressão de sua identidade cultural (Mesa 2010). Em Portugal, em 25 de Junho de 1975, o dramaturgo Rogério Paulo, juntamente com José Gomes Ferreira, receberão no aeroporto de Lisboa o escritor cubano Nicolás Guillén, que nesse momento, era o presidente da “Associação de escritores de Cuba”. A sua estadia em Portugal teve uma duração de dez dias (Castanheira e Cruz 2011:198-199). Em 1970, a editorial Presença publicará a primeira Antologia poética deste autor e, passados várias décadas (2002), a Campos das Letras editará a segunda antologia.
(7) Encontram-se vários ensaios que fazem referência ao momento político que se estava a viver na América Latina, tais como
Bolívia: um segundo Vietname? (1967), Cuba e o Socialismo (1971) e, sem esquecer os acontecimentos peruanos desses anos,
sai à luz o livro Peru: Exército, Nação, revolução (1974). Enquanto a editorial Presença publica A História me absolverá de Fidel Castro (1970) que será reeditada em 1974 na colecção Questões.
(8) O título do livro foi inspirado em um poema do poeta Pablo Neruda, intitulado “A Guisa de Explicación”, com o qual o ensaio
começa. O poeta exprime em seu escrito: “Malditos sejam, malditos, malditos aqueles que são machado e cobra / vieram para a sua areia terrestre, amaldiçoaram aqueles que esperaram por este dia para abrir a porta da mansão para o mouro e o bandido: / O QUE VOCÊ TEM ALCANÇADO (Paulo, 1981: 11).
uma comparação entre o teatro nacional chileno que actuava nos meios rurais com o teatro por- tuguês ao enunciar que “…a nós os portugueses, todos estes esforços nos lembram um período de exaltação, não isento de erros, mas extraordinariamente fecundo: o ano e meio após o 25 de Abril de 1974, mais concretamente, durante a vigência dos Governos provisórios de Vasco Gonçalves” (Paulo, 1981: 81). Dentro desse ambiente de exaltação do que fala o dramaturgo puderam ouvir-se algumas vozes, entre elas as do próprio Primeiro-Ministro português num congresso de escritores em 11 de Maio de 1975, onde dizia que
“… as revoluções fazem-se com os trabalhadores, fazem-se com aqueles que mais directamente estão ligados à produção, mas fazem-se também com os intelectuais, fazem-se também com os trabalhadores de outro tipo, que devem estar muito ligados ao nosso povo (…) Eu faria daqui uma exortação aos poetas para que levem a sua poesia a esse Povo. Que bebam, quer dizer, que mergul- hem as suas raízes nele e que, depois, lha dêem e lha levem; porque o Povo também tem essa sensibilidade poética”. (Paulo, 1981: 81)
Entretanto, e seguindo esta ordem ideológica, na América Latina vivem-se situações de muita tensão e dureza, que provocaram variadíssimos enfrentamentos ideológicos, sociais e po- líticos e que foram o caldo de cultivo para a publicação, em 1971, da obra Las venas abiertas de
América Latina do escritor uruguaio Eduardo Galeano. Esta obra converteu-se num livro chave
até aos dias de hoje. Contudo, o ensaio foi proibido na Argentina, Brasil e Chile. Lamentavel- mente não se publicou em Portugal nessa altura, mas apenas em 2017, pela editorial Antígona.
Naqueles mesmos anos de finais da década de 1960, Barcelona converteu-se na capital que receberia vários jovens latino-americanos que viriam a desencadear um dos movimentos
que mais impacto causaria no mundo das letras(9). O Boom foi
“…un estallido de buena literatura, un círculo cerrado de profundas amistades, un fenómeno internacional de multiplicación de lectores, una comunidad de intereses e ideales, un fecundo debate político y literario, salpicado de dramas personales y de destellos de alegría y felicidad (…) Fue lo más importante que le sucedió a la literatura española del siglo XX y que transformó nuestra sensi- bilidad”. (Ayén, 2013:11, 12).
Os seus autores fundadores, entre os quais Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa e Carlos Fuentes, entraram no mundo cultural português anos depois. Cem anos de solidão
(1967)(10) daquele escritor colombiano, foi considerada a novela de maior importância internacio-
nal, denominada “obra-cimeira”. Em Portugal só se publicará em 1971, pela editorial Europa- América.
O autor peruano receberá em 1967 o prémio Biblioteca Breve, pela sua obra A cidade e
os cães. Este autor, tal como descreveu Araújo Branco, manterá as suas publicações no mundo
(9) Naqueles tempos de tanto sucesso, Gabriel García Márquez, Mário Vargas Llosa, José Donoso, Jorge Edwards, Alfredo Bryce
Echenique, Rafael Humberto Moreno-Durán, Óscar Collazos, Maurício Wacquez, Cristina Peri Rossi e Ricardo Cano Gaviria viveram em Barcelona. A cidade também foi visitada assiduamente por outros escritores que viviam em diferentes cidades europeias, como Carlos Fuentes, Octávio Paz e Júlio Cortázar.
(10) Em Portugal seriam publicados em 1972, Os funerais da mamã grande e nesse mesmo ano publicariam O enterro do diabo e
Ninguém escreve ao coronel, bem como O vento da madrugada. Em 1974 publicou-se A incrível e triste história da Cândida Eréndira e da sua avó desalmada. O Outono do Patriarca é publicado em 1978.
luso a um ritmo constante, através da Europa-América, D. Quixote e Bertrand. Esta última
publicará, em 1976 e num só volume, Os cachorros e Os chefes(11).
1.1.2. O país luso descrito por Gabriel García Márquez
Portugal, na época do nascimento do boom, estava sob a influência das novas mudanças
políticas que se estavam a gerar no ambiente intelectual, social e político. Após a revo-
lução de Abril de 1974, o próprio García Márquez viajou para Lisboa, em 1 de junho de 1975, e detalhou esse mesmo ambiente cuidadosamente em três reportagens que escreveu para a revista
Alternativa, intituladas “Portugal, território livre da Europa”, “Socialismo ao alcance dos mi-
litares” e “Mas que diabo pensa o povo?” e que mostram o impacto que aquela sua viajem lhe causou.
No primeiro artigo, observa-se uma descrição do ambiente de Lisboa, dos seus cheiros, do viver diário nas ruas e até o detalhe de
“…la moda de la barba, que en otra época fue señal de duelo, la trajeron ahora a la metrópoli las tropas repatriadas de las colonias, como lo hicieron en Cuba los guerreros de la Sierra Maestra. Y también como ellos, los soldados portugueses fraternizan en todas partes con los civiles, se confunden en la vida común sin prejuicios de ningún lado y participan sin armas en los trabajos de la calle que nada tiene que ver con la guerra”.
Mais tarde, compara o país com a Cuba de há quinze anos, “en el ambiente de pachanga contagiosa en un país que no duerme. Una pachanga como todas las del trópico, que tienen tanto de júbilo como de incertidumbre”. Sobre a situação internacional diria que
“Portugal tiene una situación un poco parecida a la de cualquier europeo, inclu- sive España, como se parece demasiado, con todas sus ventajas y peligros, a la de un país de América Latina (…) Todo se ha vuelto político. Desde la Plaza del Rossio, en el corazón de Lisboa, hasta en el rincón más remoto y olvidado de la provincia, no hay un centímetro de pared ni un anuncio de carretera ni el ped- estal de una estatua que no tenga pintado un letrero político, «Unidad sindical» piden a brocha gorda los comunistas, mientras acusan a los socialistas de querer dividir a la clase obrera para dejarla a merced de la socialdemocracia europea”.
Na sua segunda crónica, García Marquéz dará a sua opinião sobre a revolução portu- guesa e como as Forças Armadas organizaram um golpe, sem desejar poder para elas próprias. Mas no seu último artigo “Mas que diabo pensa o povo?” o colombiano faz uma alusão ao que Varga Llosa já tinha retratado na Conversa na Catedral (1969), quando pergunta “em que mo- mento se había jodido Peru?” (Vargas Llosa, 2004: 17). Obviamente o autor afirma que neste revolucionário xadrez político, esta questão é difícil de responder até hoje. Por essa razão, o ambiente literário lusitano está envolvido em ideais que pouco tinham a ver com o boom, mas muito mais com as tendências socialistas e comunistas que afirmavam um ambiente de liberda- de e mudanças sociais.
(11) Em 1972 será publicada pela primeira vez a novela Conversa na Catedral, Panteleão e as visitadoras em 1975 e dois anos depois
1.2. A Revolução de Abril, os partidos políticos e as prioridades da politica