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Aparentemente, são dois os efeitos de sentido produzidos por Simonton com a citação de textos bíblicos durante os sermões que pregou: a) realçar seu caráter como pregador e amigo do povo brasileiro b) fazer críticas à igreja Católica. Este tópico tratará do primeiro propósito.

Simonton faz uso considerável de citações bíblicas219, conforme a tabela a seguir:

219 Não incluí na contagem as alusões a situações e personagens bíblicos. Limitei-me a contar as citações bíblicas

feitas entre aspas, no corpo dos sermões. Há momentos em que Simonton cita as mesmas perícopes, mas em ocasiões diferentes. Por exemplo, a frase de Jesus em João 14:6, “Eu sou o caminho” é citada duas vezes, mas em prédicas distintas (SIMONTON, 2008, p. 17, 189). O famoso texto de João 3:16 (Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu seu Filho[...]) é citado três vezes, em três sermões diferentes (SIMONTON, 2008, p. 40, 171, 226). E como recontextualização implica ressignificação, contei os versos repetidos isoladamente, por causa das nuances de sentido que cada um deles possuía em seu respectivo contexto.

Sermão Parágrafos Citações bíblicas

1. Entrai pela porta estreita 64 12

2. O viver é Cristo 41 05

3. Deus é caridade 37 09

4. Sem efusão de sangue não há redenção

69 37

5. Cristo, nosso substituto 18 06

6. Bartimeu, o cego 37 01220 7. A pessoa de Cristo 31 19 8. A fé e a visão 58 36 9. A caridade 24 03221 10. O Consolador 41 11 11. Os filhos do pacto 27 15 12. O batismo de Jesus 33 09 13. A Ceia do Senhor 23 06

14. Ação de graças a Deus 20 01222

15. Os meios de graça 16 03

16. Tudo está cumprido 100 20

17. O tesouro escondido 39 15

18. Os ímpios não têm paz 28 11

19. A paz: o legado de Cristo 27 12

20. Cristo crucificado 38 19

21. Somos filhos de Deus 39 13

22. A vida eterna: em que consiste

40 18

Tradicionalmente, uma das técnicas “que visa convencer o leitor de que a ideia expressa é baseada sobre o texto sacro e não sobre a visão pessoal do exegeta223 é o uso de citações das santas Escrituras.” (HOFFMAN, 1988, p.72, tradução nossa). Esse recurso foi usado não só por

220 Talvez a desproporção entre o número de parágrafos e citações neste sermão seja explicada porque, nesta prédica,

o relato do cego Bartimeu é espiritualizado, e Simonton passa todo o sermão tratando sobre a ligação entre cegueira física e espiritual (“o temporal é visível figura do que é espiritual.” [SIMONTON, 2008, p.65]).

221

Apesar do tema da caridade ser discutido entre as teologias católica e protestante, Simonton aborda o tema do ponto de vista prático, não polêmico. Por isso, também não precisa mostrar tanto seu caráter como expositor fiel da Bíblia, citando vários textos, como fará em outros momentos. Isso pode explicar, ao menos em parte, a desproporção numérica entre parágrafos e citações bíblicas.

222

Este sermão é, em grande parte, um retrospecto dos vários endereços que o trabalho presbiteriano teve até aquela data. O uso de versos bíblicos como apoio para tal descrição era inteiramente desnecessário.

223 Exegese: do grego, “guiar, interpretar”. “A interpretação de passagens da Escritura”. (ALTER; KERMODE,

Simonton enquanto pregava seus sermões, mas pelos próprios escritores bíblicos, que faziam uso desse recurso pelo menos de duas maneiras: por meio da “citação explícita, que usa uma fórmula de citação [...] antes ou depois da frase citada; e a citação, que é, num sentido, uma citação implícita, que não usa nenhuma fórmula de citação.” (HOFFMAN, 1988, p.72, tradução nossa, grifo do autor). Simonton faz uso desse recurso, tanto ao citar como ao aludir. O efeito disso foi o realce da sua credibilidade como orador fiel à Bíblia, alguém amigável, que deseja ajudar seus leitores224.

Alguns textos usados por Simonton são compostos por longas sentenças, aparentemente com o fim de provar algum ponto. Nos exemplos abaixo, o missionário reforça esse ethos ao afirmar que sua mensagem é confiável não apenas por causa do texto que está sendo tratado no momento, mas também por que ele está considerando a Bíblia em sua inteireza:

• A palavra de Deus vos dará uma resposta satisfatória. (SIMONTON, 2008, p.44); Toda a Bíblia dá testemunho dessa doutrina. (SIMONTON, 2008, p. 46).

• Não avançarei nada que não esteja escrito no livro de Deus. (SIMONTON, 2008, p.93).

• Para que ninguém me acuse de ter inventado esta explicação de rasgar o véu do Templo no instante da morte de Cristo, lerei as provas em que me fundo. Sei muito bem que a minha palavra não merece crédito se ela não combinar exatamente com o testemunho da palavra escrita de Deus. Para esta regra de fé e de doutrina eu apelo de bom grado. (SIMONTON, 2008, p.163).

• Essas e outras muitas promessas de Jesus [...] são o apoio do meu discurso e das doutrinas nele apresentadas. (SIMONTON, 2008, p. 170).

Além dessa abordagem, Simonton expressa seu caráter de um modo ainda mais sutil em seus sermões. Em seu papel de pregador, como aquele que “duplica” (isto é, verbaliza com fidelidade) o texto sagrado, ele destaca ainda mais seu caráter como alguém confiável e preocupado com seu público quando, além de explicar o texto bíblico, também aponta, de modo dramático, para os perigos e as soluções implicados em sua prédica.

Como exemplo, no sermão Entrai pela porta estreita, ele usa alguns marcadores conversacionais com o objetivo de enfatizar a urgência da mensagem bíblica, cujo sentido

224 No livro II, tópico 4 da sua Retórica, Aristóteles define a amizade (philia) como um tipo de amor, em que

desejamos para o ser amado “aquilo que pensamos ser uma coisa boa, por causa desse alguém e não por causa de nós.” (ARISTÓTELES, 2005, p. 170). Para o filósofo, a pessoa que experimentará esse sentimento será aquela que se identifica com as mesmas tristezas e alegrias que nós, e “que têm por boas e más as mesmas coisas, e por amigos e inimigos as mesmas pessoas.” [ARISTÓTELES, 2005, p. 170]). Para Grimaldi, no entanto, neste tópico do livro de Aristóteles, o sentimento de amizade, em vez de amizade, propriamente dita, “é talvez a mais acurada interpretação de philia, já que, como emoção, ela é uma experiência transitória e psico-social, em vez do que está implicado em Inglês [e em português] por amizade, isto é, uma disposição ou estado mais permanente.” (GRIMALDI, 1988, p. 65, tradução nossa). Contudo, o propósito de Simonton não era o de apenas estimular seus leitores por um momento, mas o de criar uma amizade permanente com eles, fomentando também o sentimento oposto (inimizade) contra a Igreja Católica (essa última questão será tratada no tópico seguinte).

coincidia com aquele da sua mensagem225: “Oh! Quanto é importante que a vossa escolha acerte com o bom caminho!” (SIMONTON, 2008, p.16). “Guardai-vos [...]” (p.18), “Lembrai-vos” (p.23, 24), “Será verdade que quereis obedecer? Estais dispostos a entrar na carreira cristã e perseverar até o fim? Belo propósito! Sábia escolha! Escutai a voz do Salvador.” (SIMONTON, 2008, p.25).

Ainda no mesmo sermão, o missionário faz uma oração dramática em favor de si e dos seus leitores, para que sejam todos livres da danação eterna: “Oh! Senhor! que nos descobristes essas verdades tão solenes, faze-nos fugir do caminho da perdição! Dirige os nossos passos pelo caminho da vida!” (SIMONTON, 2008, p.17). Com essa prece, ele se põe em sintonia patética não só com a doutrina bíblica, mas com o possível problema existencial dos seus leitores implicados.

Todos esses apelos sustentam a interação entre o pregador e sua audiência imaginária, criando um evento comunicativo “em que a cooperação está implícita, pois ela é necessária para que o evento se constitua de fato.” (FÁVERO; ANDRADE; AQUINO, 2000, p.48). É revelado, nesse caso, o caráter de Simonton como arauto, conselheiro e amigo interessado no bem-estar do seu público, o que realça sua confiabilidade e simpatia, além de ligá-las às emoções que seus apelos suscitam. Simonton faz isso, no entanto, de modo indireto, sem chamar atenção para si próprio. “O que o orador pretende ser, ele o dá a entender e mostra: não diz que é simples ou honesto, mostra-o por sua maneira de se exprimir.” (EGGS, 2008, p. 31).

Porém, como será visto a seguir, os sentimentos estimulados nas citações bíblicas feitas por Simonton operam não só inspirando amizade, mas também a emoção oposta.