15.2 Base classes
15.2.1 BaseGui
A heterogeneidade é mostrada no texto, mas não marcada, quando é possível detectar sua existência por meio de recursos linguísticos que se renovam em cada contexto. Portanto, as marcas que identificam esse tipo de heterogeneidade não são formas cristalizadas, fixas, da língua para indicar outra fonte enunciativa. A heterogeneidade mostrada não marcada revela-se nos textos por meio do discurso indireto livre, da imitação, da ironia, da pressuposição.
a) O discurso indireto livre é resultado de uma combinação de elementos do discurso direto e do discurso indireto, portanto, uma forma híbrida. Nele se misturam as vozes do narrador e das personagens, porém, como não há mecanismos linguísticos que demarquem nitidamente os limites entre essas vozes, não se pode dizer com certeza que palavras pertencem a qual enunciador. Conforme Maingueneau (2011, p. 153) “O DIL é o tipo mais clássico de hibridismo [...] Cabe-lhe combinar os recursos do DD e do DI. [...] em um fragmento do DIL, não se pode dizer exatamente que palavras pertencem ao enunciador citado e que palavras pertencem ao enunciador citante”.
O discurso indireto livre se localiza precisamente nos deslocamentos, nas discordâncias entre a voz do enunciador que relata as alocuções e a do indivíduo cujas alocuções são relatadas. O enunciado não pode ser atribuído nem a um nem ao outro, e não é possível separar no enunciado as partes que dependem univocamente de um ou de outro (Maingueneau, 1997, p. 97)
Portanto, no discurso indireto livre não se percebem duas vozes claramente distintas (como no discurso direto), nem a absorção de uma voz por outra (como no discurso indireto), pois elas se misturam, resultando numa amálgama de elementos desses dois tipos de discurso.
No discurso indireto puro, assim como no direto, as orações que traduzem a fala das personagens dependem dos verbos dicendi, como no exemplo extraído de CEGALLA, 2002, p. 599:
- Omar queixou-se ao pai, dizendo que não era preciso tanta severidade e perguntou-lhe por que não tratava os outros filhos com o mesmo rigor.
- Teríamos, então, no discurso direto: Omar queixou-se ao pai: - “Não é preciso tanta severidade, por que o senhor não trata os outros filhos com o mesmo rigor?”
Segundo o autor, no discurso indireto livre, não se usam verbos de elocução. Assim, em sua sugestão, o exemplo acima, nos moldes de discurso indireto livre ficaria assim:
- Omar queixou-se ao pai. Não era preciso tanta severidade. Por que não tratava os outros filhos com o mesmo rigor?
Assim, conforme Savioli e Fiorin (2001, p. 52), além de não ser introduzido por verbos dicendi, o que não permite dizer, com certeza, quem é o autor das palavras, o discurso indireto livre tem como outras características, o fato de a palavra atribuída à personagem não ser separada da do narrador por conjunções, advérbios ou pronomes interrogativos; conter interjeições, orações interrogativas, imperativas, exclamativas e outros elementos expressivos; e usar pronomes pessoais e tempos verbais da mesma maneira que o discurso indireto.
b) A imitação é uma outra forma de apresentar duas vozes no mesmo texto. Por meio dela o enunciador constrói seu enunciado absorvendo elementos do enunciado de um outro enunciador.
Conforme Maingueneau (1997, p. 102) “a imitação de um gênero de discurso pode assumir dois valores opostos: a captação e a subversão” (grifos do autor). Conforme Savioli e Fiorin (2001, p. 52) quando a imitação tem como objetivo desqualificar um texto ou estilo, negá-lo ou ridicularizá-lo, há a imitação por subversão (ou paródia); quando a intenção não é essa, há uma imitação por captação (ou estilização).
São características importantes: na subversão destacam-se as diferenças entre a obra que imita e a que é imitada, ao passo que na imitação por captação destacam-se as semelhanças.
Nesses tipos de textos convergem diferentes vozes, caracterizando a heterogeneidade mostrada não-marcada, uma vez que para detectar sua existência
exigem-se do leitor-ouvinte conhecimentos a respeito dos textos já produzidos e de diferentes estilos, para que possa perceber o caráter heterogêneo.
c) A ironia pode ser definida como um processo discursivo em que o enunciador afirma no enunciado o que nega na enunciação, gerando uma ambiguidade.
Ao mesmo tempo toda ironia é, também, negação ou rejeição, com a diferença de que “a negação pura e simplesmente rejeita um enunciado utilizando um operador explícito e a ironia possui a propriedade de poder rejeitar, sem passar por um operador desta natureza” (Maingueneau, 2011, p. 98)
O mesmo autor (ibidem, p. 178) traça um paralelo entre a ironia e as aspas: No caso das aspas, o enunciador usa uma expressão e, de algum modo, aponta para ela, indicando, assim, que ele não a assume realmente; já na ironia, o enunciador produz um enunciado que ele invalida ao mesmo tempo em que fala.
Conseguir detectar a ironia presente nos textos significa reconhecer a voz que nega, que invalida. E, para tanto, podem concorrer inúmeros fatores, de diferentes naturezas: traços entonacionais representados na escrita por elementos gráficos como ponto de exclamação, ponto de interrogação, reticências, aspas, itálico, hipérboles, afirmações contraditórias e recursos contextuais em geral, sejam eles do contexto explícito (verbal) ou do implícito (contexto extraverbal em que o enunciado é produzido).
Muitas vezes o reconhecimento da ironia depende quase exclusivamente desse contexto implícito, que exige conhecimento de mundo do leitor-ouvinte, fator que, muitas vezes, limita a percepção do caráter irônico dos textos.
d) Na pressuposição manifestam-se dois enunciados, um posto e outro pressuposto. Nesse sentido, em toda pressuposição confluem as vozes de dois enunciadores, aquele que enuncia uma informação nova que só é possível enunciar com base na enunciação de uma informação anterior. Segundo Charaudeau & Maingueneau
os pressupostos correspondem a realidades supostas já conhecidas do destinatário (evidências partilhadas ou fatos particulares decorrentes de seus saberes prévios), e constituem um tipo de pedestal sobre o qual se formulam os postos (que, ao contrário, presume-se que correspondem a informações novas), garantindo a coesão do discurso, quando os postos se encarregam de sua progressão (Charaudeau & Maingueneau, 2008, p. 404).