3. Coaching
3.5 Coachende leder
Na oportunidade vivida como participante do grupo do Foco nos anos de 2003 e 2004, presenciei ricas discussões e trocas de experiências sobre o uso de recursos mediacionais materializados nos modelos e aparelhos do Kit Astronômico para o ensino de ciências/astronomia. O grupo, formado por três professoras das séries iniciais do ensino básico (3ª e 4ª séries) e outros treze professores do segmento de 5ª a 8ª séries, trazia, no dia-a- dia dos encontros, relatos sobre os caminhos encontrados para o uso de tais recursos, buscando gerar oportunidades de aprendizagem no contexto de trabalho em sua escola e sala de aula.
A partir do trabalho com o grupo de professoras das séries iniciais do ensino fundamental9, comecei a lidar com questões específicas desse nível de ensino. Uma das questões que se colocava no grupo consistia nas relações entre o trabalho com os temas de ciências naturais e astronomia e as questões da alfabetização e do letramento, pois sabia-se que a maior parte das crianças das escolas públicas vem apresentando defasagens e rupturas no seu processo de alfabetização.
Prado, orientador desse grupo de professores/as no Projeto Foco, contribuiu grandemente para a compreensão das possibilidades de utilização dos recursos mediacionais na construção de uma concepção diferenciada do que sejam o ensino e a aprendizagem. A produção dos recursos mediacionais para o ensino de astronomia, tendo como fundamentos a perspectiva da interação e a lógica da construção - processos inerentes e indissociáveis para a
9Três professoras que participaram do Programa Foco no biênio 2003-2004, sendo duas de Escolas Municipais de Belo Horizonte e uma de
mobilização de saberes, sua consolidação e utilização na vida dos sujeitos aprendizes (crianças e professoras) - construiu com o grupo uma perspectiva metodológica de trabalho que leva em consideração o atendimento às diversas linguagens e culturas presentes em sala de aula.
No contexto deste trabalho, apresentou-se questões referentes a propostas pedagógicas que primam pela construção de atividades que seguem a leitura por parte de professora e estudantes das pistas contidas em modelos e aparelhos, ao funcionarem como recursos mediacioanis do processo de aprendizagem. Passava-se a refletir sobre como essa metodologia era incorporada ao fazer das professoras, de modo a se adequar às especificidades do grupo de trabalho de cada uma e às suas condições de trabalho na escola.
Na tensão estabelecida no convívio de diferentes pontos de vista sobre o trabalho pedagógico, encontrei a riqueza da experiência compartilhada. A minha participação no processo de formação continuada do Projeto Foco consolidou um diagnóstico de que as dificuldades das escolas em favorecer experiências significativas para a aprendizagem de temas científicos nos anos iniciais do ensino fundamental estão relacionadas não apenas à precária formação científica das professoras. Para além desta deficiência, nos parece igualmente relevante destacar a falta de compreensão, das idéias dos educandos como modelos coerentes dos fenômenos (DRIVER, GUESNE E TIBERGHIEN, 1985) e o não reconhecimento da importância da intervenção sistemática da escola no uso ou criação dos recursos pedagógicos mais adequados aos diferentes grupos nela presentes. Esses recursos poderiam favorecer uma interação dialógica com as idéias dos estudantes na construção da aprendizagem em contextos particulares de significação
Na tentativa de transmitir o conhecimento a escola limita as possibilidades de imaginação criativa das crianças e toma modelo por realidade (PAULA, 2003; LIMA E AGUIAR, 2002; MORTIMER, 2001). A imaginação que se apresenta como capacidade para elaborar mentalmente alguma coisa possível, as criações inteligentes e inovadoras são descartadas mesmo que sem consciência sobre isso por parte da professora, fazendo com que não apareça o que poderia vir a existir no campo de visão dos aprendizes (AGUIAR, 2001).
Compreendo que, o trabalho desenvolvido com crianças em salas de aula das séries iniciais em atividades de ensino de ciências naturais, de modo geral, deve implicar-se em analisar os instrumentos mediadores da construção do conhecimento e refletir sobre seu uso
durante a realização das atividades. Assim sendo, já construindo a perspectiva da investigação das questões sobre as quais refletia, combinei com o grupo de professoras das séries iniciais que participaram do projeto Foco naquele biênio, a colaboração de uma delas no projeto de pesquisa. Para tanto, a característica principal dessa professora, precisava ser também seu interesse e disposição em envolver-se, além de efetivamente, envolver sua turma de estudantes com o ensino de astronomia durante o ano letivo de 2005. Busquei então, junto à professora escolhida, proporcionar o uso efetivo dos modelos e aparelhos no contexto de sala de aula em situações específicas de interação entre professora e estudantes, estabelecendo como critério para a necessidade da utilização de tais recursos, a avaliação e planejamento contínuos de cada tarefa a ser empreendida. Um desafio estava em adaptar a metodologia e os recursos disponibilizados no programa de formação (Foco ciências/astronomia) para situações de ensino e aprendizagem nas séries iniciais do ensino fundamental em uma escola da Rede Municipal de Ensino de Belo Horizonte. Na construção das mediações, parecia fundamental o resgate dos fenômenos por meio de estratégias de problematização, investigação e reflexão que conferissem legitimidade em seus usos a partir do perfil daquele grupo de crianças.
Na experiência vivida com as crianças em sala de aula, com o desenvolvimento de um porjeto de investigação com o ensino de tópicos de estudo da astronomia, promoveu-se a utilização de recursos mediacionais tendo com um de seus objetivos, trabalhar uma das importantes habilidades que as crianças precisam adquirir: saber associar fenômenos naturais com suas causas e conseqüências; implicando-se em práticas discursivas com a linguagem científica.
Nesse contexto de ensino e aprendizagem, pôde-se trabalhar as capacidades das crianças em expressar e analisar o próprio pensamento; descrever, analisar e resolver problemas relativos aos meios social, cultural e natural de que fazem parte partindo da lógica da criação de um ambiente propício à produção do saber em uma comunidade de prática (LAVE & WENGER, 1991), utopia em que se pode transformar a sala de aula.