Silverstone, em 1977, comprovou, histologicamente, a remineralização do esmalte in vitro e a existência de zonas histológicas representativas da alteração do curso da patologia (Silverstone 1977); (Silverstone, Hicks et al. 1988a; Siverstone, Hicks et al. 1988b): zona superfi cial da lesão, corpo da lesão, zona escura da lesão e zona translúcida da lesão. A progressão da cárie dentária caracteriza-se pela existência de fenómenos de desminerali- zação e remineralização, com predomínio do primeiro que, numa fase precoce, ocorrem em esmalte não cavitado e que, com a sua progressão, deixam rasto da sua existência. A zona superfi cial do esmalte (Figs. 7 e 8) apresenta-se com uma faixa clara com cerca de 20 μm de espessura, resultante dos fenómenos de remineralização, sendo visível, quando os cortes embebidos em água destilada, são observados com microscópio de luz polariza- da. Com igual embebição é detectável o corpo da lesão (Figs. 5, 6, 7, 8), de aspecto escuro (acastanhado), com contornos irregulares nas faces oclusais e, mais regulares e em forma de cunha, no caso das faces proximais (Bjornal and Thylstrup 1995) (Figs. 7 e 8).
Para se observar a zona escura (faixa acastanhada) imediatamente interna ao corpo da lesão (Figs. 9, 10, 11), representando uma zona remineralizada, e mais profundamente, a zona translúcida (Fig. 9) que se identifi ca por uma faixa clara, difusa e sem contornos bem defi nidos, é necessário a embebição das peças dentárias em quinolina5.
Fig. 5. Lesão de cárie oclusal. Observação com
microscopia de luz polarizada (x25) e água.
Fig. 6. Lesão de cárie oclusal. Observação com
microscopia de luz polarizada (x25) e água.
Fig. 7. Lesão de cárie proximal. Identifi cação da
camada superfi cial. Observação com microsco- pia de luz polarizada (x25) e água.
Fig. 8. Lesão de cárie proximal. Identifi cação da
camada superfi cial. Observação com microsco- pia de luz polarizada (x25) e água.
5 Quinoline – Hidrocarboneto sintetizado a partir da anilina com glicerol e nitrobenzeno na presença de áci- do sulfúrico. C9H7N
Como métodos histológicos complementares foram utilizados: um microscópio Leyca DMLB (Leyca, Microsistems, Suíça) com lente objectiva (x2,5), lente ocular (x10) e fi ltro polarizador ou, lente objectiva (x5) em caso de maior precisão de diagnóstico. A obten- ção de imagens a partir da mesma câmara fotográfi ca utilizada na lupa e analisadas com o mesmo programa informático utilizado na técnica com o mesmo aparelho, permitiu a avaliação de cortes histológicos com 100 μm de espessura aproximadamente, paralelos ao primeiro e, realizados com o mesmo micrómetro de tecidos duros, posteriormente afi - nados numa polideira DAP – 8 (Struers, Dinamarca) com discos de grão 1000 da 3M com recurso a hidratação permanente com água de consumo doméstico.
Como critérios histológicos alternativos para diagnóstico de cáries iniciais foram avaliadas, no presente trabalho, a espessura das quatro zonas descritas com recurso à microscopia óptica com luz polarizada; embora considerando duas alterações sobre a espessura do corpo da lesão. A desmineralização após ultrapassar a JAD atingirá a dentina sem que necessariamente se vislumbre cavitação, conferindo-lhe um aspecto acastanhado. Nesta
Fig. 9. Lesão de cárie proximal. Identifi cação da
DZ, TZ e corpo da lesão. Observação com mi- croscopia de luz polarizada (x25) e quinolina.
Fig. 10. Lesão de cárie oclusal. Identifi cação do
corpo da lesão. Observação com microscopia de luz polarizada (x25) e quinolina.
Fig. 11. Lesão de cárie proximal. Identifi cação
do corpo da lesão. Observação com microsco- pia de luz polarizada (x25) e quinolina.
medida, o conceito de “corpo da lesão” foi utilizado, no actual trabalho, como a “espessu- ra da lesão” quando também envolveu o tecido dentinário (Fig. 12).
Fig. 12. Lesão de cárie proximal. Observação
com microscopia de luz polarizada (x25) e água.
Fig. 13. Lesão de cárie proximal. Defi nição da
CT e do eixo de progressão da lesão em dentina. Observação com microscopia de luz polarizada (x25) e água.
A espessura das diferentes zonas foi determinada em função da intersecção de um eixo com a orientação dos prismas do esmalte (faces oclusais) ou CT, no caso de faces proxi- mais, e a região mais interna da desmineralização (Figs. 13, 14 e 15).
Fig. 14. Lesão de cárie oclusal. Defi nição da CT
e do eixo de progressão da lesão em esmalte. Observação com microscopia de luz polarizada (x25) e água.
Fig. 15. Lesão de cárie proximal. Defi nição da
CT e do eixo de progressão da lesão em esmalte. Observação com microscopia de luz polarizada (x25) e água.
Quando a dentina se viu envolvida, a “espessura da lesão” foi determinada a partir da soma de duas distâncias lineares: a do esmalte da forma descrita anteriormente e a da den- tina, que se obtém a partir da intersecção entre a zona de desmineralização mais profunda (acastanhada) e um eixo de progressão da lesão desde a JAD ao tecto da câmara pulpar,
que nestes casos é de fácil interpretação, pelo facto de subjacente à lesão se observar uma cauda de dentina reactiva de maior translucência quando comparada com a dentina sau- dável (Bjornal and Thylstrup 1995) (Figs. 12 e 13).
A espessura do esmalte dentário e da dentina, diferencia-se em função: do tipo de dente, da idade do mesmo, do tipo de alimentação, da oclusão a que este esteve sujeito e, princi- palmente do local avaliado; sendo que em condições normais, é no colo dentário onde a espessura do tecido adamantino tem menor expressão. Por tal facto, no presente trabalho, relativizou-se a espessura da lesão em função da espessura do esmalte no mesmo local da lesão – “Razão da espessura da lesão” e consequentemente, para efeito de comparabilida- de, gerou-se uma estratifi cação desta medida respeitando a escala aplicada no método de (Ekstrand, Ricketts et al. 1997), segundo a Tabela 6.
Tabela 6. ESTRATIFICAÇÃO DA RAZÃO DE PROFUNDIDADE DA CÁRIE (LUZ POLARIZADA)
Rácio Lesão/Espessura do esmalte Nível de cárie estratifi cado
0 0 - Saudável
0,1 – 0,5 1 – Lesão da ½ externa do esmalte
0,6 – 1,5 2 – Lesão da ½ interna do esmalte e 1/3 externo da dentina 1,6 – 2,5 3 – Lesão do 1/3 intermédio da dentina
+ 2,5 4 – Lesão do 1/3 interno da dentina
Materiais utilizados na técnica histológica com microscopia: Frascos de recolha de material para análise;
Água destilada; Quinolina; Micrótomo; Solução de refrigeração; Polideira; Discos de lixa. Procedimentos:
No mesmo aparelho e com a mesma metodologia, procederam-se a novos cortes paralelos ao primeiro de forma a serem obtidos cortes dentários com espessura o mais próximo pos- sível a 100 μm de espessura e sem que estes se fracturassem. As limitações do micrótomo
desejada na polideira referenciada. Com estes procedimentos obtiveram-se, por norma, três cortes histológicos nos dentes monorradiculares, quatro cortes nos pré-molares e cinco nos molares.
Todos os cortes foram analisados em microscopia de luz polarizada, com os meios já refe- renciados e com duas técnicas histológicas. Em primeiro lugar, foram observados em lâmi- na, mas sem lamela, todos os cortes de cada dente embebidos em água destilada. Selec- cionaram-se os cortes que demonstravam maior profundidade de cárie para cada face em estudo. Gravaram-se as respectivas imagens com o apoio da câmara fotográfi ca e do pro- grama informático citados, para posteriormente ser registado o maior valor dos parâmetros em análise (espessura do esmalte, espessura da camada superfi cial e espessura do corpo da lesão), respeitando o dente e a face em causa. Seguiram-se os mesmos procedimentos na análise histológica com quinolina e por fi m, registados os respectivos parâmetros que esta técnica propiciou: espessura da zona escura e da zona translúcida. A esta última técnica, acrescente-se a necessidade de lavagem das peças em água quente após a observação ao microscópio e antes do seu novo armazenamento em água destilada.